Para repensar o modo de consumo de moda e o tipo de produção econômica de uma grande produtora brasileira.

No Rio Grande do Norte, empresas fecharam diversos postos de trabalho desde 2013. Eram postos de trabalho que estavam presentes garantias trabalhistas, tais como jornada de trabalho condizente com a legislação, normativas de segurança e medicina do trabalho, além de férias, décimo terceiro, horas extras e etc... Mas, as empresas ainda precisavam de mão de obras para suas operações. Desta forma, transferiram estes posto de trabalho, contratando com o Paraguai (China da América do Sul) e com “facções têxteis"(interessante o nome dado as empresas terceirizadas do seguimento têxtil). Aliás, a forma econômica de contratação dos trabalhadores é idêntica as práticas dos piores períodos da Revolução Industrial.

Não foram gerados empregos, foi gerado miséria. Aproveitou-se a vulnerabilidade dos mais pobres para se gerar mais pobreza.

O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED) do Ministério do Trabalho demonstra que não houve criação de novos empregos, pois em dezembro de 2013 (ano de criação do Programa Pró Sertão) a Guararapes contratava 10.034 empregados, e em abril de 2017, o seu quadro de pessoal era de 7.539 empregados. (...) não gerou novos empregos no RN, mas transferiu empregos diretos da sua fábrica para as facções, transferindo para essas microempresas todo o risco da atividade econômica.

Empresas vem contratando as terceirizadas ao preço de R$ 0,35 o minuto, expondo os trabalhadores a uma jornada de trabalho extenuante. Os trabalhadores, por exemplo, necessitam colocar 500 elásticos em calças a cada hora, para conseguirem uma remuneração mensal de R$ 550,00, com jornadas acima de 12 horas.

Não é por acaso, portanto, que algumas delas multiplicam seu lucro por 10, em plena crise econômica.

A Guararapes Confecções, controladora da varejista de moda Riachuelo, registrou um lucro líquido consolidado de R$ 110,6 milhões no primeiro trimestre, ante R$ 11,1 milhões em igual período de 2016.

Qualquer pessoa com um pouco de sensibilidade entende que o lucro está vindo da exploração desmedida da miséria. Aliás, quando se explora a miséria, a única consequência é a geração de mais miséria. A vida dos trabalhadores do sertão nordestino estão sendo consumidas. A miséria advinda do esquecimento estatal, da corrupção e da seca é o combustível para a exploração predatória. Todavia, não sejamos tolos. Se se explora a miséria do sertão, aumenta-se miséria nos grandes centros urbanos. E o mecanismo se retroalimenta. E por sua vez, retroalimenta o sistema de favelização, tráfico de drogas e violência urbana desenfreada. Neste sentido, dizer-se favorável ao combate a violência e ao mesmo tempo a favor deste modelo de" emprego "é ser apenas demasiadamente ingênuo, ou, mal intencionado.

Com lucro multiplicado por 10, A Guararapes Confecções diz-se defensora dos “empregos”. Enquanto, aniquila os melhores empregos, coloca os trabalhadores em situação de extrema vulnerabilidade para seu melhor proveito. Nesta mesma esteira, muitas outras empresas do ramo têxtil vem usando as mesmas táticas.

Para “concorrer” com a China, diversas empresas do ramo têxtil vem escravizando os brasileiros esquecidos dos sertões e imigrantes nos grandes centros urbanos.

Pense bem antes de comprar suas roupas, nossas escolhas de consumo podem estar alimentando a ganância e a miséria ao mesmo tempo. Novas formas de consumo veem sendo fomentadas por grupos de sustentabilidade. Para além de apenas sustentabilidade ambiental, a sustentabilidade econômica do trabalho e emprego de forma justa.

Repense suas escolhas de consumo no mercado da moda. Você também é responsável por esta história. Veja aqui alternativas - Fashion Revolution Brasil .

Para pensar melhor sobre o assunto:

Documentário 'The true cost" (ative as legendas no ícone CC do vídeo).


Autor

  • Eunice de Araújo Gomes

    Graduada em Direito pela PUC/RS no ano de 2011. Trabalhou como advogada autônoma em escritórios de advocacia de Porto Alegre. Atualmente, advogada autônoma. Em andamento: Especialização de Direito de Família e Sucessões - PUCRS. Graduada em Enfermagem pela PUC/RS no ano de 2002. Foi residente do programa de Residência Multidisciplinar da Escola de Saúde Pública na área temática de Saúde Coletiva. Trabalhou, como Enfermeira, em hospitais de Porto Alegre e Região Metropolitana nas áreas de UTI e Pós Operatório.

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Informações sobre o texto

Motivo da publicação foi as recentes manifestações da Guararapes Confecções a respeito da Ação Indenizatória movida pelo MPT. Modelo de produção predatório que não gera empregos, gera miséria.

Este texto foi publicado diretamente pela autora. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi.

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