O texto analisa, sucintamente, o pensamento de Norberto Bobbio acerca da condição humana frente aos desafios da convivência.

Norberto Bobbio, teórico do Direito, da Política e da Cultura, é um dos mais importantes pensadores do século XX e ativo interlocutor dos direitos humanos, da democracia e da paz na contemporaneidade.

Testemunha da “Era dos Extremos”, presenciou a violência fascista e a posterior redemocratização de uma Itália fulminada pela guerra. Inspirado em Rosselli, Cattaneo, Paretto e Eunadi, foi hábil mediador entre comunistas e liberais, nos anos cinquenta, e, como costumava dizer, quem quer agradar a dois litigantes, acaba desagradando a ambos. Porém, era o preço que pagara por “estar no meio”, aplicação prática da virtude aristotélica no incansável papel de intelectual público.

Devoto fiel do método racional, analítico e crítico, tinha por mote a tolerância, a confiança da solução pacífica dos conflitos e o diálogo: “a violência deixou de ser a parteira da História e vem se tornando cada vez mais sua coveira”, sentenciou o mestre. Da vida, extraíra uma lição: “aprendera a respeitar as ideias alheias, a deter-se diante do segredo de cada consciência, a compreender antes de discutir, a discutir antes de condenar”. Confessou, ademais, que detestava os fanáticos, pois eram os responsáveis pela “fúria dos extremos”.

Nesta linha de raciocínio, o filósofo de Turim explica a condição humana e o contexto em que a civilização se encontra, tendo por pano de fundo a questão das relações internacionais e o problema da guerra, a partir de três metáforas: a mosca na garrafa, o peixe na rede e o labirinto.

A primeira significa que a humanidade, assim como a mosca, está presa na garrafa e busca desesperadamente dela sair, de modo que apenas o filósofo, igual a um onipotente demiurgo, com suas construções teóricas e metafísicas, seria o único capaz de abrir a tampa da garrafa e libertar a mosca, no caso, a humanidade, de todos os males e flagelos que a acometem, tal qual a fome, a miséria, as doenças e a guerra. Trata-se, por assim dizer, de uma visão otimista, que coloca na mão de um salvador da pátria a chave para abrir as portas de um novo mundo, mais humano, fraterno, justo e igualitário.

A do peixe na rede, inversamente, não nos reserva alternativas de salvação. À semelhança do peixe que, inutilmente, se debate para fugir do pescador, o destino de todos é, de forma inevitável, a morte e o extermínio mútuo, sendo a guerra inerente à própria natureza humana. Há aqui um diagnóstico cético e pessimista para o futuro de nossa espécie, levando-se principalmente em conta o arsenal bélico de algumas potências nucleares, o sentimento de terror e niilismo que tal realidade implica.

Por fim, elabora a metáfora do labirinto, segundo a qual a saída existe e é possível, mas a tarefa de encontrá-la é difícil, demorada e extenuante, exigindo enorme esforço da sociedade na resolução dos conflitos e dos problemas advindos da convivência humana. Bobbio, no entanto, indica a razão, o diálogo e o consenso como instrumentos necessários à realização dessa tarefa. No labirinto, a humanidade, não raro, se depara com becos sem saída (via bloccata). Isso requer constantes movimentos de retorno e de recomeço, de modo que sempre se devam seguir os ditames da boa razão. Esta análise induz uma posição realista frente aos desafios humanos, pois não cai na armadilha do otimismo e no conformismo pessimista das teses anteriores.

As grandes dicotomias, aliás, eram temas recorrentes nas elucubrações de Norberto Bobbio. Definiam-no e se definia como “socialista-liberal”, “iluminista-pessimista” e “realista-insatisfeito”, o que reflete a formação intelectual complexa do italiano. E o que pode parecer, a princípio, uma contradição irresoluta, na verdade, é o grande mérito de Bobbio na contribuição filosófica do século passado.

Homem da academia e do debate público, legou a todos nós obra vastíssima, além de deixar uma legião de incontáveis seguidores. O pensamento bobbiano ainda influi, vigorosamente, o Direito e a Política na Europa, América Latina e Brasil.

Talvez a releitura dos textos de Norberto Bobbio seja o fio condutor que nos levará ao melhor caminho dentro do labirinto da História da humanidade num período tão crucial como esse que estamos vivendo.


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