3. LINGUAGEM ARTÍSTICA DA DANÇA NO CONTEXTO DA INTERDISCIPLINARIDADE DA DISCIPLINA DE HISTORIA E ARTE.
No começo dos anos 70 foi assinada a Lei de Diretrizes e Bases da Educação nº. 5692/71 que incluiu a arte no currículo escolar do ensino primário e secundário sendo denominada “Educação Artística”. Essa lei decretou obrigatório o ensino da educação artística nas escolas primárias e secundárias, todavia, não possuía o caráter de disciplina e não exigia dos professores uma especialização nas linguagens artísticas, sendo somente uma atividade educativa.
Afirmam Ferraz e Fusari, (1993):
Na história do ensino da arte no Brasil, podemos perceber a pouca participação da dança como conteúdo específico no âmbito da educação escolar. A dança nunca esteve incluída no currículo escolar como prática obrigatória. Sua presença esteve relacionada principalmente às festividades escolares e/ou se deu na forma de atividades recreativas e lúdicas, não com o intuito de promover o seu ensino, mas como um instrumento para atingir os conteúdos de outras áreas. (FERRAZ; FUSARI, 1993, p. 78).
Em 23 de dezembro de 1996, duas décadas depois, o Presidente da República Fernando Henrique Cardoso sancionou a Lei nº. 9.394/96 que trata da regulamentação das bases da educação no Brasil. Esta substituiu a nomenclatura Educação Artística por ensino da Arte.
A LDB 99.394/96 aponta a obrigatoriedade do ensino de Arte, entretanto não há especificidade quanto ao ensino obrigatório da Dança nas escolas. O artigo 26, § 2º da desta lei afirma que “O ensino da arte constituirá componente curricular obrigatório, nos diversos níveis da Educação Básica, de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos”. Esta nova versão da lei coloca o ensino de Arte como disciplina do núcleo comum da educação básica, juntamente com Língua Portuguesa, Matemática, Ciências, Geografia, História e Educação Física. A Dança é uma área de conhecimento e isto significa que ela se assimila às outras disciplinas do currículo como: matemática, português, ciência, etc.
Sendo assim ela possui aspectos próprios que constituem a construção dessa área de conhecimento e neste momento a mesma faz parte do currículo de forma interdisciplinar com a disciplina de Historia onde segue o norte da dança na citação como manifestação da mesma no currículo de Arte.
Desta forma, a Dança aparece como uma das quatro linguagens que compõem a disciplina Arte, tendo como elementos básicos expostos nas Diretrizes Curriculares da Disciplina de Artes (2005, p. 41):
- Movimento e não movimento;
- Corpo: articulações, superfícies, cabeça, tronco, membros;
- Espaço: espaço pessoal, níveis, planos, tensões, projeções, progressões;
- Ações: saltar, deslocar, encolher, expandir, girar, inclinar, cair, gesticular;
- Dinâmicas/ritmo: peso, espaço, tempo, fluência; e
- Relacionamentos: relações de proximidade, afastamento, superposição.
Ao selecionar os conteúdos de Dança que pretende desenvolver com seus alunos, é muito importante que o professor faça escolhas que sejam significativas. Precisa considerar o contexto social e cultural, ou seja, o repertório de dança dos alunos, seus conhecimentos e suas escolhas de ritmos e estilos. A articulação do contexto sociocultural dos alunos com os saberes específicos da linguagem da dança abre o caminho para o fazer-pensar dança, de maneira que se resinifiquem esses conhecimentos.
Nesse contexto o professor é um articulador, um propositor e um interlocutor que deve considerar o contexto sociocultural e político dos alunos, além de, segundo Marques (2005, p. 32): “escolher e intermediar a dança dos alunos (seus repertórios pessoais e culturais, como o rap, o funk, a dança de rua ou ainda suas escolhas pessoais de movimento), a dança dos artistas (o mestre de capoeira, a passista, um coreógrafo contemporâneo) e o conhecimento em sala de aula”.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante da realidade escolar brasileira e de sua dinâmica, é inevitável perceber as nuances de racismo e preconceito vigente na sociedade brasileira nas formas como a escola lida com os conceitos discriminatórios, sendo possível afirmar que as políticas públicas existentes ainda não se fazem presentes de forma significativa no âmbito escolar.
Dessa forma, acredita-se, através dos estudos realizados nesse trabalho, que a história e cultura afro-brasileira e africana podem ser trabalhadas de maneira eficaz na disciplina de História através da linguagem artística da dança, uma vez que torna o conhecimento significativo para o aluno, conferindo-lhe sentido às aprendizagens, por articularem elementos básicos, isto é, por pensarem a arte da Dança como sujeitos criadores e transformadores da cultura afro e de sua própria existência.
Segundo Marques (2005):
a investigação do contexto no qual a manifestação da dança foi e é produzido compreende aspectos, muitas vezes, não aparentes, tais como: sociais, culturais e históricos, ou seja, o “meio” de criação desses repertórios. O contexto revela elementos que permitem compreender essas manifestações e aproximam os contextos estudados das realidades do aluno (Marques, 2005, p. 23).
Dentro dessa perspectiva, ao ministrar os conteúdos da cultura Afro-Brasileira e Africana na disciplina de História concretiza uma proposta de igualdade de condições de aprendizagem e livre manifestação das raízes africana rica em muitos subsídios para nortear o currículo escolar não sendo somente as danças que são inerentes a esses contextos, porém no referido estudo a mesma foi utilizada visto que essa pratica é decorrente das ações interdisciplinares do cotidiano da escola supracitada.
Assim, os docentes ao inserir os conteúdos no currículo e contemplando-o de maneira significativa as praticas e cultura - afro perpassa as fronteiras de um ensinar para a diversidade e ainda permitir a reflexão das atitudes de preconceito que distancia um ser humano do outro e ainda soma se a de valores existenciais.
Desta forma, conclui-se que ao propiciar um ensino voltado a um currículo diversificado caracteriza-se uma visão holística e contemporânea de uma educação para todos sem distinção de raça, credo ou religião, tornando-se uma só nação escolar com atendimento igualitário para todos.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. Brasília: MEC, 2004.
BRASIL. Programa Nacional de fortalecimento dos conselhos escolares. Brasília: MEC, 2004.
CAVALLEIRO, E. Do silêncio do lar ao silêncio escolar: racismo, preconceito e discriminação na educação infantil. São Paulo: Contexto, 2000.
COSTA, H.; SILVA, P. V. B. Notas de História e cultura afro-brasileiras. Ponta Grossa: UEPG, 2007.
FERRAZ, M.; FUSARI, M. R. Metodologia do Ensino de arte. São Paulo: Cortez, 1993.
GOMÉZ, A. I. P. A cultura escolar na sociedade neoliberal. São Paulo: Artmed, 2001.
GONÇALVES; SILVA, P. B. Prática de racismo e formação de professores. Belo Horizonte: UFMG, 1996.
MARQUES, I. Dançando na escola. São Paulo: Cortez, 2005.
PAIXÃO, L. C. R. Política educacional e a Lei 10.639/03: uma reflexão sobre a necessidade de superação de mecanismos ideológica legitimadores do quadro de desigualdades raciais e sociais na sociedade brasileira. Ponta Grossa: UEPG, 2007.
RIBEIRO, R. I. Até quando educaremos exclusivamente para a branquitude? Rio Grande do Sul: Panorama, 2002.
ZANON, M.A. História da África e Cultura Afro - Brasileira. Curitiba: FAPI, 2009.