Gestão financeira muitas vezes parece um fantasma na vida dos advogados, que só perceberão a sua importância após graves falhas de investimentos acontecerem no escritório.

No início do ano, o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) e a Confederação Nacional de Dirigentes (CNDL) realizaram uma pesquisa por meio da qual constataram que 06 em cada 10 brasileiros dedicam algum tempo ao controle da vida financeira. Esse dado abrange mais da metade dos entrevistados.

Ter esse tipo de planejamento é uma questão que deveria ser tratada desde os anos iniciais da faculdade, porém isso não acontece. Dessa forma, a pesquisa reflete a dificuldade que a maioria dos brasileiros possui em organizar a gestão das suas economias. Esse cenário não é diferente para os advogados.


A realidade do planejamento financeiro dos advogados

Grande parte dos escritórios de advocacia só pensará em como gerir suas receitas e despesas após alguns anos de atuação. O mercado é voraz e na ânsia de fazer o escritório crescer, normalmente o que os advogados fazem é encontrar sócios para dividir as despesas de aluguel, luz, internet, entre outros.

Quando a necessidade de entender sobre as despesas e receitas do escritório surge, boa parte já misturou as economias pessoais com as profissionais.

Essa matemática é simples quando são no máximo 02 sócios. Todavia, ela complica quando contam com 03 sócios ou mais. Normalmente, os advogados repassam essas obrigações para a secretária, quando deveriam dar uma atenção maior as suas finanças.

Lara Salem e Rodrigo Bertozzi no livro “A Nova Reinvenção da Advocacia – A Bíblia da Gestão Legal no Brasil”, referem que todo o escritório de advocacia deve definir a sua política de contratação de honorários, assim como todas as propostas de pagamento devem ser aprovadas pelos sócios.

O que acontece nesse caso é que os sócios deverão dominar as políticas de endividamento e o quanto a forma de pagamento dos honorários afetará a receita do escritório. Por isso, é imprescindível que com o aumento da receita do escritório, o setor financeiro tenha um desenvolvimento proporcional.

Muitos advogados saem ganhando quando percebem a importância de dedicarem uma pessoa especializada ao seu setor financeiro. Entretanto, ainda existe uma descrença na importância de manter essas pessoas desde o início das atividades do escritório.

Na realidade, a maioria possui um receio de delegar as tarefas para terceiros, por isso a responsabilidade sobre o controle das contas é ainda mais limitada aos sócios e secretária. Por outro lado, os advogados não percebem que, mesmo com um setor bem estruturado, os sócios ainda manterão a ciência sobre as questões financeiras.

Enquanto essas temáticas vão sendo exploradas, existem algumas atitudes que podem ser adotadas e que facilitarão a compreensão da gestão financeira. São conceitos básicos que são tratados nas faculdades de administração e que são essenciais para qualquer escritório de advocacia.


Definir o faturamento do escritório

Para quem desconhece totalmente esses conceitos, faturamento é a soma das vendas de uma empresa em um determinado período. Esse período será determinado pelos sócios, mas normalmente é medido de forma mensal e anual.

Trazendo esses termos para a realidade da advocacia, o faturamento seria todos os contratos ativos do escritório, levando em consideração o valor pago pelos serviços jurídicos.

Especialistas referem que é importante que haja segmentação das receitas que estão endo faturadas. Por exemplo: é importante saber o quanto é recebido por cliente, pela área do direito que o escritório atua, bem como uma versão global do escritório.

Por sua vez, alguns pontos precisam estar claro para os advogados

  • Diferenciação entre custo e despesa: nos dois casos haverá saída de dinheiro do caixa. No primeiro caso, esses gastos estão ligados à produção dos serviços prestados, como papel, livros, pagamento de honorários aos correspondentes jurídicos. No segundo caso, são os gastos do próprio escritório, como aluguel, energia, água, etc.

    É viável analisar os dois, pois muitas saídas devem ser arcadas pelos clientes e não pelos advogados, como no caso dos custos de cada processo. Esses já podem estar destacados no momento da assinatura do contrato de honorários, a fim de que o advogado consiga resguardar o seu financeiro.

  • Diferenciação entre fixos e variáveis: os sócios precisam estar ciente dos gastos recorrentes, que são aqueles que estão presentes dentro das projeções de faturamento. Esses gastos podem ser fixos ou variáveis. Os variáveis são aqueles esporádicos, que não acontecem sempre. Por outro lado, os gastos fixos são os periódicos, que toda semana, quinzena ou mês estarão ali.


Identificar a produtividade dos escritórios

Essa é uma questão muito relevante. Poucos escritórios entendem a necessidade de saber os limites das suas equipes. O que acontece é que muitos advogados possuem colaboradores com um grande talento, mas que não são bem aproveitados.

Assim, embora ainda não pareça ter ligação, é de suma importância que os advogados saibam aproveitar o conhecimento técnico da sua equipe. Aliado a esse fator, saber em que momentos a equipe é mais produtiva é um facilitador, pois permite intensificar a produção nos momentos corretos e reduzi-la quando eles somente desgastarão o intelecto dos advogados.

Para que essa produtividade esteja alinhada ao setor financeiro, é bom saber analisar a produtividade por advogado, área de atuação e cliente. Desse jeito, é possível identificar qual o cliente que demanda mais tempo para atendimento, quanto o advogado demora em cada peça, entre outras questões facilitadores de gestão de equipe.

Todo esse estudo permitirá que os advogados sejam aproveitados nos momentos corretos e dispensados quando não consigam entregar toda a sua capacidade.


Definir metas a curto, médio e longo prazo

Para equilibrar os contratos de honorários, os gastos com o escritório e a produtividade da equipe, o ideal é que os sócios analisem os seus negócios e estipulem metas a serem atingidas.

As metas a curto prazo podem corresponder ao mês ou semestre. Já as metas relacionados a médio prazo são aquelas que são esperadas para os próximos 02 anos. Por fim, as metas de longo prazo são aquelas a partir de 05 anos.

Em uma primeira visão pode parecer estranho, mas qualquer negócio precisa ser estruturado em bases sólidas, a fim de que saiba para onde se voltar quando estiver com despesas exageradas.

Nesse sentido, a definição de metas alinha o crescimento do escritório às expectativas dos sócios, o que facilita na visualização da evolução do caixa e eventuais mudanças de estratégias financeiras.


CONCLUSÃO

Gestão financeira muitas vezes parece um fantasma na vida dos advogados, que só perceberão a sua importância após graves falhas de investimentos acontecerem no orçamento dos escritórios.

Embora muitas faculdades de direito não abordem o tema, é imprescindível que desde a inauguração do escritório os advogados estejam cientes das despesas e receitas das suas atividades. Da mesma forma, ainda que sejam jovens advogados, desde cedo precisam estabelecer metas para definir os objetivos que pretendem alcançar com o escritório.

São detalhes que na prática não são analisados, mas que fazem toda a diferença. Pode parecer complicado e demandar estudo extra sobre um conteúdo que não faz parte da vida dos advogados. Entretanto, os profissionais que pretendem construir uma carreira jurídica sólida e de bases fortes, precisam ir muito além do que é fornecido nas faculdades.

Ter um escritório de advocacia significa administrar um negócio. Elaborar petições, ir em audiências ou criar teses jurídicas são atitudes de qualquer bom advogado. Todavia, para ser excelente, é preciso dominar várias ciências e ter noção que a alavancagem do escritório só acontecerá pelo esforço dos sócios e da equipe.


Autor

  • Daniela Friedrich da Rosa

    diretora da empresa Publicações Online. Formada em Direito pela Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI) em 1999, possui MBA em Administração e Negócios desde 2008, pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Atualmente cursa MBA em Aministração e Negócios pelo Instituto Universitário de Lisboa. Mais informações, acesse: blog.publicacoesonline.com.br

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Como citar este texto (NBR 6023:2002 ABNT)

ROSA, Daniela Friedrich da. Questões práticas sobre gestão financeira na advocacia. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 24, n. 5701, 9 fev. 2019. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/70804>. Acesso em: 22 mar. 2019.

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