9. INTERSETORIALIDADE: Serviço Social no Projeto Multidisciplinar
Segundo Junqueira(2004,p.27) “cada política social encaminha a seu modo uma solução, sem considerar o cidadão na sua totalidade e nem a ação das outras políticas sociais[...]”.
Segundo Junqueira;
As estruturas setorializadas tendem a tratar o cidadão e seus problemas de forma fragmentada, com serviços executados solitariamente, embora as ações se dirijam à mesma criança, à mesma família, ao mesmo trabalhador e ocorram no mesmo espaço territorial e meio ambiente. (JUNQUEIRA, 1997, p 22).
Para Junqueira esse sistema não funciona, ou seja, é ineficaz, pois o que deveria ser tratado num todo, acaba sendo tratado isoladamente. O regime intersetorializado ou multidisciplinar acaba sendo uma opção inteligente e interativa, pois envolve o conjunto de ações, lidando as dificuldades do indivíduo como um todo.
[…] A professora vê que seu trabalho perde efetividade se a criança que está sob seus cuidados além de não ter nutrição adequada, mora em condições adversas, não tem acesso a serviços de saúde, atividades de cultura, esportes e lazer, não é protegida de riscos e violências. O médico e a enfermeira também se afligem ao perceber que os agravos e riscos à saúde de determinado grupo não são superados porque sua moradia não tem saneamento, porque há depósito de lixo nas proximidades etc. Só que nem a professora nem o médico têm, nas organizações tradicionais setorializadas, condições de encaminhar efetivamente esses problemas, de canalizar essas necessidades e demandas, que são de áreas distintas da administração pública (Ibidem, p. 22)
Entende-se que o indivíduo é na sua totalidade um ser com vários fragmentos, não podendo ser tratado de forma isolada nas suas demandas. Portanto, para obter um resultado mais eficaz, ao falar em políticas sociais deve-se ter em mente a integralidade, intersetorialidade, o multidisciplinar, buscando enfrentamentos de questões sociais que envolvem o cidadão por completo.
Percebe-se que mudanças estão acontecendo, e que a gestão das políticas públicas estão voltadas para o enfrentamento das questões Sociais, buscando a resolutividade das demandas apresentadas.
Dessa forma podemos ler:
A interdisciplinaridade e a intersetorialidade são, também, características importantes dos programas de apoio sócio-familiar, que devem articular diferentes políticas sociais básicas – em especial a saúde, a assistência social e a educação – e manter estreita parceria com o SGD, sem prejuízo do envolvimento de políticas como habitação, trabalho, esporte, lazer e cultura, dentre outras (BRASIL, 2006, p. 130)
Para alcançar objetivos mais eficazes e amplos, um projeto integrado deve ser montado e pactuado, tornando a intersetoriaidade uma ferramenta determinante para formulação de estratégias e ações. Essa ação deve ser pautada no profundo conhecimento dos serviços oferecidos pela rede de atendimento local, onde está inserido o usuário. (BURLANDY, 2004 p 11).
Para implementação desse caráter multidisciplinar nos atendimentos, é imprescindível que seja executada uma estratégia que deve ser construída em longo prazo, pois em se falando se intersetorialidade nada é automatizado espontaneamente, ou seja, essa construção é lenta e continua, o que requer muito esforço por parte do gestor e envolvimento de todos os elementos.
Uma vez perfazendo a ação intersetorial, as redes de base local e/ou regional, reclamam por valorização e qualificação na interconexão de agentes, serviços, organizações governamentais e não governamentais, movimentos sociais e comunidades. Intervir em rede, na atualidade, requer que se estabeleçam, entre as diversas instituições de defesa de direitos e prestadoras de serviços, vínculos horizontais de interdependência e de complementaridade (COMERLATT, 2007, p. 269).
Como entendemos o trabalho multidisciplinar e interdisciplinar se diferem na sua efetividade, sendo que uma equipe multidisciplinar atende usuários em diversas áreas, e o interdisciplinar além dessa característica em comum tem um diferencial que é de extrema importância, que é a troca de informações entre a equipe. Podemos dizer que interdisciplinar é um conceito mais efetivo de intervir, pois as dúvidas, pareceres, sugestões de intervenção são tratadas por toda equipe com mais agilidade, o que resulta em benefício para o usuário.
[...] A interdisciplinaridade representa uma tentativa de interpretação global da existência humana; apresenta-se como remédio para a fragmentação das disciplinas deixadas pelas especialidades, porém com uma atitude que impede o estabelecimento da supremacia de certa ciência em detrimento de outras. No dia a dia ela se manifesta na integração e reciprocidade dos conhecimentos das diversas áreas e no esforço em reconstruir a unidade do paciente que nos apresenta fragilizado no seu corpo, nas suas relações pessoais e sociais, na sua emoção [...] ( FOSP, P. 23, 1997)
Dentro de uma equipe multidisciplinar ou interdisciplinar, o assistente social serve também como elo entre a equipe técnica e os usuários e sua família, trazendo seu olhar amplo com relação às questões sociais envolvidas em cada demanda.
“a interdisciplinaridade, favorecendo o alargamento e a flexibilização no âmbito do conhecimento, pode significar uma instigante disposição para os horizontes do saber. (...) Penso a interdisciplinaridade, inicialmente, como postura profissional que permite se pôr a transitar o “espaço da diferença” com sentido de busca, de desenvolvimento da pluralidade de ângulos que um determinado objeto investigado é capaz de proporcionar, que uma determinada realidade é capaz de gerar, que diferentes formas de abordar o real podem trazer”. (Rodrigues; 1998: 156)
Um ponto a elucidar é que a equipe interdisciplinar deve ter consciência que não é um profissional isolado, e sim uma parte de um todo. A comunicação, a troca, o diálogo, os vários olhares e percepções fazem o diferencial quando falamos em trabalho interdisciplinar. Também é fundamental o respeito entre as áreas técnicas, uma vez que pode haver discordância em alguns diagnósticos e prognósticos.
Vamos conhecer um projeto multidisciplinar e interdisciplinar que está em pleno desenvolvimento, totalmente estruturado e em funcionamento, em Camaquã/RS.
No meu estágio supervisionado pude reconhecer essa articulação entre setores como escolas, instituições de saúde, CRAS, CREAS, CAPS, Assistência Social e entre os responsáveis e cuidadores através do trabalho realizado pela equipe multidisciplinar e principalmente da Assistente Social do CAICA - Centro de Atendimento Integral a Criança e Adolescente do Município de Camaquã/RS.
O CAICA é um centro de atendimento que foi criado em 2009 com o objetivo de “disponibilizar às crianças e adolescentes de Camaquã/RS atenção integral às suas necessidades biopsicossociais e de tratamento especializado nas áreas de saúde mental, educação e promoção humana”.(PROJETO MULTIDISCIPLINAR, Camaquã/RS, 2009) Sendo também responsável por qualificar a rede pública e otimizar os recursos existentes, estabelecendo novos paradigmas pela intersetorialidade e interdisciplinaridade.
A equipe multidisciplinar é formada por Assistente Social, Neurologista, Psiquiatra, Enfermagem, Fonoaudiólogo, Psicólogo, Psicopedagogo, Terapeuta Ocupacional e Pedagogo.
Especificamente os objetivos do CAICA são;
Acompanhar e orientar professores e cuidadores, quando houver indicação;
Integrar crianças e adolescentes em seu âmbito escolar;
Auxiliar as escolas no processo de inclusão, contribuindo com momentos de formação e reflexão aos professores;;
Buscar a inserção dos adolescentes em grupos sociais;
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Realizar avaliação psicodiagnóstico e/ou social, quando indicado;
Prestar atendimento terapêutico: psicoterápico, neurológico, fonoauliológico e psicopedagógico a crianças e adolescentes;
Oportunizar aos cuidadores, quando necessário, o acesso a grupos de orientação ou psicotetrápicos.(PROJETO MULTIDISCIPLINAR, Camaquã/RS, 2009).
Nessas características funciona atualmente o CAICA, onde são adotados procedimentos adequados conforme a realidade e necessidade de cada demanda, buscando potencializar as capacidades e minimizando assim as dificuldades através de uma prática inclusiva buscando resgatar o gosto pela vida e pelos estudos, dentro de um processo colaborativo de promoção e valorização da vida.
O centro é estruturado por equipe multidisciplinar que funcionam interligados e se assessoram e se complementam mutuamente.
A demanda recebida se dá através de encaminhamentos das escolas do município, por médicos e também por busca espontânea por parte da criança/adolescente ou responsáveis.
O trabalho do Assistente Social no CAICA é acolher as demandas, escutar, encaminhar, orientar, avaliar, fazer pareceres, realizar estudos sociais, e tem como objetivos promover universalização dos direitos sociais dos usuários, através da identificação dos recursos que possibilitem a defesa de tais direitos.
O Trabalho do Assistente Social no CAICA consiste em:
Acolhimento (entrevista inicial) dos cuidadores de crianças e adolescentes encaminhados para atendimento nesta instituição;
Encaminhamento de providências e prestação de orientação social aos pacientes e seus familiares, bem como a população, quanto aos serviços e direitos sociais (em âmbito interdisciplinar e intersetorial) que garantam a melhoria dos aspectos psicossociais destes;
Prestar serviços de âmbito social a indivíduos e grupos, identificando e analisando seus problemas e necessidades materiais e psíquicas e de outra ordem e aplicando métodos e processos básicos do serviço social para prevenir ou eliminar desajustes de natureza biopsicossocial e promover a integração ou reintegração dessas pessoas à sociedade;
Assistir as famílias nas suas necessidades básicas, orientando-as e encaminhando para rede de atendimento para que recebam suporte material, educacional, médico e de outra natureza, para melhorar sua situação e possibilitar uma convivência harmônica entre os membros;
Realização de estudos socioeconômicos com os usuários para fins de benefícios e serviços sociais a que tenham direito;
Encaminhamento de benefícios sociais: Beneficio de Prestação Continuada e Auxílio Transporte;
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Participação de atividades multidisciplinares: visita domiciliar, grupos e estudo de casos(PROJETO MULTIDISCIPLINAR, Cartilha Serviço Social, 2009).
Pode – se notar que o serviço prestado pelo CAICA as crianças e adolescentes de Camaquã/RS é imprescindível para promoção da saúde e educação e também é notável a responsabilidade do atendimento do Assistente Social dentro desse contexto.
E um dos desafios desse Assistente Social é desenvolver sua capacidade de captar por pequenos detalhes ou pistas a realidade muitas vezes escondida e pouco exposta dessas crianças, famílias ou escolas atendidas. Normalmente o que é exposto num momento de escuta é o mínimo do que realmente está acontecendo no contexto escolar ou familiar. E assim o Assistente Social deixa de ser um mero executor de leis e torna-se um promotor de educação e saúde.
Nesse sentido podemos ver a realidade concreta das políticas públicas sendo postas em prática de forma democrática e intersetorial.
As escolas do município de Camaquã encontram no serviço oferecido pelo CACIA total apoio e resolubilidade das demandas encontradas dentro do ambiente escolar, ou seja, conseguem compartilhar de forma integral as preocupações e conflitos diariamente vivenciados no âmbito escolar.
Além do atendimento oferecido de forma individual a crianças e adolescentes, a equipe do CAICA oferece também orientação a professores, pais e cuidadores.
Através de diálogo, reflexões, dinâmicas grupais e palestras são abordados temas como sexualidade, orientação sexual, saúde mental, fortalecimento de vínculos interpessoais, manejo adequado no que se refere a drogadição, entre outros, o que é uma estratégia valiosa na busca do manejo adequado no que se refere a comportamento e técnicas de aprendizagem.
Todos os setores que fazem parte do CAICA são interligados e se promovem entre si, através de reuniões semanais para estudo de caso, planejamento e avaliação dos serviços e programas oferecidos.
Conforme vemos, a intersetorialidade é embasada no diálogo, participação, envolvimento e articulação em rede. E uma rede de atendimento pra ter total resolutividade deve ser desenvolvida através de mapeamento da região, conhecimento da realidade social através de diagnóstico social. Através dessa forma de articulação os envolvidos se aproximam e se tornam participantes atuantes, dentro da mesma forma de intervir.
Um modo de efetivar essa atuação interdisciplinar é ter reuniões periódicas para estudo de casos e troca de informações. Uma equipe que atua em diferentes dias e turnos não pode ter como base apenas o que é escrito nos prontuários, devendo esse encontro ser priorizado pela coordenação das unidades de atendimento.
Outra questão não menos importante são os prontuários dos pacientes, toda e qualquer intervenção deve ser anotada, carimbada e assinada pelo profissional que atendeu. Os apontamentos nos prontuários se tornam uma ferramenta de grande importância uma vez que os profissionais que atuam podem ser trocados por outros, mas os pacientes continuam os mesmos, e é com base nesses relatos que o próximo técnico vai intervir.
A efetivação desse modelo de intervenção não se molda da noite para o dia, é um fazer contínuo, que requer motivação diária. E para isso é imprescindível uma equipe saudável, com fazeres pautados na motivação geral e satisfação pessoal. Esse papel de incentivar e tornar o trabalho mais leve e tranquilo é papel da coordenação dos centros ou unidades de saúde, unindo e promovendo a equidade e homogeneidade entre a equipe.
Para a efetivação desta estratégia de ação, é pertinente obter conhecimentos e informações quanto à rede de serviços disponíveis (podendo ser serviços públicos, não governamentais, oriundos de associações, movimentos sociais, e até mesmo o mercado). O conhecimento da rede é apontado como um dos primeiros princípios para se efetivar a intersetorialidade, pois por meio de um diagnóstico é possível delimitar quem são os envolvidos na busca de soluções integradas.
Podemos considerar a intersetorialidade como um modelo de gestão de políticas públicas que se baseia basicamente na contratualização de relações entre diferentes setores, onde responsabilidades, metas e recursos são compartilhados, compatibilizando uma relação de respeito à autonomia de cada setor, mas também de interdependência (SANTOS, 2011, p. 26).