A prisão de Fabrício Queiroz indica que os poderosos já chegaram a um consenso quanto à necessidade de afastar-se Jair Bolsonaro para propiciar a pacificação dos espíritos e a união dos brasileiros em torno de algo como um governo de pacificação nacional

Fabrício Queiroz, operador do esquema de rachadinhas do então deputado Flávio Bolsonaro e envolvido em sabe-se de quantos outros negócios escusos do clã miliciano em passado não muito distante, foi preso na manhã desta 5ª feira (18) em Atibaia, interior paulista, em ação conjunta dos ministérios públicos do Rio de Janeiro e de São Paulo. 

Para surpresa de ninguém que tenha um mínimo de perspicácia, Queiroz estava escondido num imóvel de Frederick Wassef, advogado de Flávio e do patriarca Jair, não tendo resistido à prisão. 

Se for verdade, como Queiroz afirmou, que o Ministério Público "tem um cometa para enfiar na gente", é bem possível que ele prefira cantar como um passarinho do que ser encometado. E ele é o homem-bomba capaz de mandar o clã inteiro pelos ares, caso decida revelar tudo que sabe. Veremos.

No entanto, a sucessão de coincidências recentes (e, ao contrário daquela advertência que vinha nos filmes, de que qualquer semelhança com acontecimentos e personagens da vida real seria mera coincidência, na política as coincidências desse tipo costumam ser mera intencionalidade) vem ao encontro das minhas análises de um bom tempo para cá:

1. se houve alguma chance de os planos golpistas de Jair Bolsonaro  e sua extrema-direita tosca e burra resultarem, foi nos primeiros meses do governo miliciano. Mas, como ele não é um vilão da estatura de um Hitler, Mussolini, nem sequer de um Plínio Salgado, não soube o que e como fazer;

2. quando as reformas priorizadas pelo poder econômico se tornaram realidade, Bolsonaro se tornou um estorvo, já que seus delírios e lambanças atrapalhavam os negócios das altas esferas do capitalismo (quem o apoiou sempre foram os vira-latas do sistema, como os destruidores da Amazônia, a indústria e comércio de armas, os vigaristas da fé mercantilizada e outros predadores que qualitativamente não diferem muito das milícias do RJ, tradicionais parceiras do clã);

3. a iminência da pior depressão econômica do Brasil em todos os tempos necessariamente faria soar todos os alarmes nas cabeças pensantes do que seria, digamos, a elite do capitalismo (em contraposição à ralé acima citada) pois nosso empobrecido país precisará contar com toda a boa vontade do mundo para minorar os efeitos terríveis da penúria que se avizinha e é exatamente o que não terá enquanto Bolsonaro usar e abusar da faixa presidencial para rodar a baiana e encenar palhaçadas mórbidas;

4. vai daí que, da noite para o dia, personagens aparentemente acovardados ou cooptados pela gangue palaciana encheram-se de brios e passaram a cumprir as obrigações de seus respectivos cargos com insuspeitado destemor, o que, claro, colocou em pânico esse presidente que é estuprador serial da Constituição (parafraseando Camões, salta aos olhos um poder mais alto se alevantou, garantindo-lhes que não correriam riscos ao colaborarem para a remoção do bode da sala, abrindo caminho para um mínimo de racionalidade administrativa e política, já que o momento exige pacificação dos espíritos e algo na linha de um governo de salvação nacional);

5. as coincidências continuam brotando como cogumelos e atirando no colo do STF e do TSE mais e mais provas  para darem um fim ao pesadelo bolsonarista, desta vez com elementos muito mais robustos do que as pedaladas fiscais da Dilma;

6. Fabrício Queiroz poderá fornecer a bala de prata para alvejar o lobisomem ou a estaca a ser cravada no coração do vampiro. Potencial para isto ele tem. E, quando sentiu-se abandonado, ele andou espalhando que não cairia sozinho, tudo agora levando a crer que, com isto, obteve a proteção almejada.

Aguardem os próximos e previsíveis capítulos. (por Celso Lungaretti) 


Autor

  • Celso Lungaretti

    Ingressei na luta contra a ditadura militar ainda secundarista, aos 17 anos. Passei um ano na clandestinidade, como dirigente estadual da VPR e VAR-Palmares. Preso, sofri uma lesão permanente que me prejudicaria tanto no convívio social quanto nos desempenhos profissionais. Mesmo assim, fiz longa carreira jornalística. Hoje sou escritor, articulista e blogueiro, atuando frequentemente na defesa dos direitos humanos.

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Desde a raivosa aparição de Jair Bolsonaro na manifestação antidemocrática domingueira de 15/03/2020 em Brasília, desafiando ostensivamente as recomendações sanitárias, percebe-se que as coincidências vem sendo todas desfavoráveis ao seu propósito de permanecer no poder e até tentar a reeleição. Agora, com a prisão de Fabrício Queiroz, é o caso de indagarmos: serão mesmo coincidências?

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