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A vergonha é o narcisismo esquálido. Isso tem explicação na dificuldade que o denunciante tem de viver respeitando os princípios morais enquanto o cinismo alheio está a prol de denunciados ou do fato omitido.

Há obras que ficam escamoteadas no passado longínquo, não por serem simulacros de obras, nem por perderem importância, senão por escaparem ao cerne da existência humana com suas vaidades — nas camadas mais íntimas de sua personalidade —, de modo que não é a obra enquanto ela o é, mas enquanto é tida por sê-la, dependendo do domínio preponderante na psique humana. Retirando o verniz do que se propõe nestas linhas exordiais, cabe constatar que a trivialidade do mal é tema recorrente e, dada a enfermidade da sociedade contemporânea, o fato de que algo está dentro da lei, à guisa de experiência longeva socrática, não o torna justo.

A partir do cabedal descortinado por Sócrates (470 ou 469 a 399 a.C.), na Filosofia, como componente intrínseco ao ser humano e à metodologia do pensar, pode-se compreender por que corromper é mais fácil do que persuadir.[1] O raciocínio é coerente e Aristóteles placita isso em Ética a Nicômaco: como um saber prático, ética é algo que pode ser aprendido e ensinado, induvidoso que não nasce pronto em nós; ela é, num protagonismo cativo, um atributo a ser desenvolvido, tal como a potencialização do vício.[2]

Figura simbólica da qual muitos fizeram escola, arvorando-se nos mais elevados saberes filosóficos, é de se distinguir a singularidade de ideias e de verdades pelas quais Sócrates morreu, ganhando o título de paladino da filosofia, contrapondo os sofistas, mercadeiros da verdade. Nos páramos inescondíveis do mundo, é a moralidade socrática que prima pela filosofia dos conceitos estáveis, elegendo o amor ao saber, mas respondendo pela tangente que descabem as ambiguidades e argumentações animadas de floreios.[3]

Há outro aprendizado que se nutre na morte de Sócrates — Platão lhe é contemporâneo, consignando o pensamento socrático em Diálogos de Platão, subsequentemente, Aristóteles, como discípulo e renomado aluno, ambos mestres da retórica, mas vendilhões de argumentos —,[4] fiando-se no cariz firmado pelos arautos da lei, em que se preconiza o dever do agente público de não se omitir em sua função, qual seja de denunciar, quando ciente de fato que deva noticiar. Sucede que a via da denunciação vai ao encontro da distinção feita por Sócrates entre a ignorância e a “ignorância reprovável”, de um lado; e, de outro, a noção curial na motivação da denúncia.[5] A “reprovável ignorância”, cá pondo panos quentes, não será alçada à condição de análise, por enquanto.

Sobrepairando ao alvedrio de seus julgadores, Sócrates tinha contra si as acusações de atacar acintosamente os deuses de sua cidade (Atenas), influenciar de forma negativa a juventude e introduzir outros cultos através de inovações nas crenças. Assim é que, a fim de compreender as nuances do tema em tela, mister é relembrar os destinos oferecidos a Sócrates pelos juízes, intentando tirar-lhe a filosofia: 1) permanecer na cidade, sendo-lhe retirada a possibilidade de ensinar; 2) ser expatriado voluntariamente ou 3) pena capital por envenenamento. Sócrates, então, opta por ingerir cicuta.[6]

Com o envenenamento, banalizou-se a vida do pensador ateniense e se coisificou sua existência, estigma então contemporâneo àquele que discorria com e pela verdade, por haver denunciando detentores do poder em Atenas — Platão prosseguiu nas denúncias emulando um homem que foi vítima de sua cidade, mas por ser temido pelos que a governavam. Estes “governantes” somente registraram na História que a liberdade de expressão estava albergada no ranço que minava o interesse privado de alguns, o que levou à morte do filósofo. Nisso, porém, não se anula sua vida, nem no entendimento assentado de avanços civilizatórios até hoje colhidos.[7]

Empós o curvar da História e extremando as diferenças, o que se viu no processo de Sócrates foi um comportamento pusilânime (frouxidão de caráter) por parte dos acusadores. Platão registra isso e o pensamento socrático da seguinte forma:

Porque, suponho, não estariam dispostos a confessar a verdade: terem dado prova de que fingem saber, mas nada sabem. Como são ciosos de honrarias, tenazes, e numerosos, persuasivos no que dizem de mim por se confirmarem uns aos outros, não é de hoje que eles têm enchido vossos ouvidos de calúnias assanhadas. Daí a razão de me atacarem Meleto, Ânito e Licão - tomando Meleto as dores dos poetas; Ânito, as dos artesãos e políticos - e Licão, as dos oradores. Destarte, como dizia ao começar, eu ficaria surpreso se lograsse, em tão curto prazo, delir em vós os efeitos dessa calúnia assim avolumada. Aí tendes, Atenienses, a verdade; em meu discurso não vos oculto nada que tenha alguma importância, nada vos dissimulo. Sem embargo, sei que me estou tornando odioso por mais ou menos os mesmos motivos, o que comprova a verdade do que digo, que é mesmo essa a calúnia contra mim e são mesmo essas as suas causas. É o que haveis de descobrir, se investigardes agora ou mais tarde.[8]

A fração de denúncia, livre e ousada, no discurso em desfavor do poder injusto, entre outras, ganhou alcunha de parrhesia, pelos atenienses, mas nem essa defesa salvou o vanguardista denunciante da impiedade e da então póstera morte.[9]

Aqui se vai além de textos ideais tecidos em linhas de ética abstrata e, de pronto, olha-se para um dos institutos mais fundamentais à sociedade, também por se perceber a relação intrínseca do sentimento de vergonha com o narcisismo. A vergonha é o narcisismo esquálido. Entretanto, isso tem explicação na dificuldade que o denunciante tem de viver respeitando os princípios morais enquanto o cinismo alheio está a prol de denunciados ou do fato omitido. Ademais, essa vergonha que sente o denunciante está casada com o desejo de que a organização da qual faz parte seja proba, e é justamente esse senso virtuoso que lhe motiva a denúncia, adequado ao ser ético que deve prosperar. Portanto, isso ajuda a explicar o quanto um denunciante tende a sobrepor a sua própria lealdade à deslealdade do denunciado. Não o fazendo, restaria a paisagem cotidiana da nefasta tortura moral a contrariar sua própria virtude.[10]

Há vozes que levam a outros caminhos, sendo a discussão de Hannah Arendt, em seus escritos, investigativa de um viés de moralidade que não se constrói de modo imperativo, e isso é rico em consequências, com redobradas razões, ante o espelho de conduta moral que se volta a Sócrates. Isso justifica a lógica aventada no preceito de uma fonte moral que nada teria a ver com a submissão à determinada lei, não se comprazendo sequer com a lei dos homens o com a de Deus.[11]

Arendt se esmera no cisma paradoxal proposto por Sócrates: “É melhor sofrer o mal do que o cometer”.[12] Entre entusiasmos e preconceitos, Arendt evoca acepção diversa na seguinte fala socrática: “seria melhor para mim que a minha lira ou um coro que eu dirigisse fossem desafinados ou estridentes, com dissonâncias, e que multidões de homens discordassem de mim, do que eu, sendo um só, estivesse em desarmonia comigo mesmo e me contradissesse”.[13]

Nesse meandro, se penetra a combinação de proposições dalguma messe do que exprime um traço singular que conflita com o próprio interlocutor:

[M]esmo que eu seja um só, não sou simplesmente um só, tenho um eu e estou relacionado com esse eu como o meu próprio eu. Esse eu não é de modo algum uma ilusão; faz-se ouvir falando para mim — falo comigo mesmo, não estou apenas ciente de mim mesmo — e, nesse sentido, embora eu seja um só, sou dois-em-um, e pode haver harmonia ou desarmonia com o eu.[14]

Por certo, está-se em terreno não muito seguro. É imperial, pois, entender que a lealdade está umbilicalmente ligada com a fidelidade, e este é o ponto forte no ego do denunciante, levando pari passu, sem que ele o note, a exigir de si e a demonstrar princípios éticos que nele estão enraizados.[15] Não há de se hospedar qualquer vestígio de que o denunciante age a esmo, ele tende a exercer, com raro virtuosismo, o complexo instrumental do sofrimento injusto alheio como impulso. Se o avesso fosse, longe da aura mais pura de lealdade, o denunciante estaria debitando a si uma moral corrompida por efeito de associação com esta.[16]

Do quanto se disse, não se desdenhe, em absoluto, que é virtuosamente preferível denunciar a ser omisso. Não agindo assim, há duplicidade de conduta (conivência seguida de omissão) contrária à lealdade do denunciante com seus princípios éticos. Em harmonia com o raciocínio explanado, viceja no ímpeto do denunciante, antes de todo o mais supinamente realçado, a virtude como supedâneo na motivação da denunciação. Sócrates fê-lo em sua obra final de vida, em que pese triunfasse a reticência daqueles que, pondo em dúctil contradição, denunciara.'


[1] REIFSCHNEIDER, Marina. Tempo, tempo, tempo. Associação Livre - Jornal da Sociedade de Psicanálise de Brasília, Londrina, ano 7, vol. 9, p. 14-16, dez. 2018.

[2] CORTELLA. Mario Sergio; COEN, Monja. Nem anjos nem demônios: a humana escolha entre virtudes e vícios. São Paulo: Papirus 7 Mares, 2019, p. 11. E-book.

[3] MASCARO, Alysson Leandro. Filosofia do Direito. 8. ed. rev. atual. São Paulo: Atlas, 2020, p. 35. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788597026740/. Acesso em: 12 abr. 2021

[4] MASCARO, Alysson Leandro. Filosofia do Direito. 8. ed. rev. atual. São Paulo: Atlas, 2020, p. 35. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788597026740/. Acesso em: 12 abr. 2021

[5] HARTER, Nathan. Socrates’ mission against reproachable ignorance: leaders who refuse to acknowledge their ignorance and instead suppress criticism. In: LEMMERGAARD, Jeanette; MUHR, Sara Louise. Critical Perspectives on Leadership: Emotion, Toxicity, and Dysfunction. Cheltenham, Reino Unido: Edward Elgar Pub, 2013, p. 154-169.

[6] PLATÃO. Apologia de Sócrates. Tradução: Sueli Maria de Regino. São Paulo: Martin Claret, 2009, p. 20.

[7] GODOY, Arnaldo Moraes. O Julgamento de Sócrates. Revista Sequência, Florianópolis, v. 24, n. 46, p. 11-27, jul. 2003, p. 23. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/sequencia/article/view/15289/13892. Acesso em: 12 mar. 2021.

[8] BACICH, Alexandre Zanca. Ajuda Textual. História antiga – Grécia e Roma. São Paulo: Clube de Autores, 2016, p. 92 e ss.

[9] MUELLER, Tom. Crisis of Conscience: Whistleblowing in an age of fraud. New York: Riverhead Books, 2019, p. 16.

[10] ALFORD, C. Fred. Implications of Whistleblower Ethics for Ethical Theory. In: Whistleblowers: Broken Lives and Organizational Power. New York: Cornell University Press, 2002, p. 83-96.

[11] ARENDT, Hannah. Responsibility and judgment. Edited and with an introduction by Jerome Kohn. New York: Schocken Books, 2003, p. 68-77.

[12] ARENDT, Hannah. Responsabilidade e julgamento. Edição de Jerome Kohn. Tradução de Rosaura Eichenberg São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 146.

[13] ARENDT, Hannah. Responsabilidade e julgamento. Edição de Jerome Kohn. Tradução de Rosaura Eichenberg São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 154.

[14] ARENDT, Hannah. Responsabilidade e julgamento. Edição de Jerome Kohn. Tradução de Rosaura Eichenberg São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 154.

[15] ALFORD, C. Fred. Implications of Whistleblower Ethics for Ethical Theory. In: Whistleblowers: Broken Lives and Organizational Power. New York: Cornell University Press, 2002, p. 87.

[16] ALFORD, C. Fred. Implications of Whistleblower Ethics for Ethical Theory. In: Whistleblowers: Broken Lives and Organizational Power. New York: Cornell University Press, 2002, p. 89.


Autor

  • Elton Rockenbach Baron

    Bacharelando em Direito, Empregado Público Estadual e aspirante a Promotor de Justiça.

    Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos. J. C.

    A vida tem sentido quando a investimos na vida dos outros, ou quando encarnamos a luta dos outros como se ela fosse nossa, a luta do coletivo. Eis meu escopo: despender esforços pela construção contínua da justiça social, a transformação, com justiça, da realidade social, máxime quando os beneficiados são idosos, deficientes, crianças e adolescentes. O desafio vem sendo o esmero na renhida luta em busca do bem comum, não dando tréguas àqueles que se desviam dos ditames constitucionais e legais, com os olhos voltados à concretização da Justiça, sobretudo contra crimes hediondos, crimes políticos e o abandono e maus tratos a animais. Contate-me sobre os supracitados temas: [email protected]

    “Não é o crítico que importa nem aquele que mostra como o homem forte tropeça, ou onde o realizador das proezas poderia ter feito melhor. O crédito pertence ao homem que se encontra na arena, com o rosto manchado de poeira, suor e sangue; que luta com valentia; que erra e tenta de novo e de novo; […] que conhece os grandes entusiasmos e as grandes devoções; que se sacrifica por uma causa nobre; que ao menos conhece, no final, o triunfo de uma grande realização; e que, na pior das hipóteses, se fracassar, pelo menos fracassou ousando grandes coisas; e por isso o seu lugar não pode ser junto àquelas almas tímidas e frias que não conhecem nem vitórias nem derrotas.” (Theodore Roosevelt)

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Como citar este texto (NBR 6023:2018 ABNT)

BARON, Elton Rockenbach. O pensamento socrático na inteligência da denunciação. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 26, n. 6498, 16 abr. 2021. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/89831. Acesso em: 26 jul. 2021.

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