A discussão acerca da importância dos clássicos na formação da teoria sociológica envolve uma disputa argumentativa que põe em questão a proposta de novos paradigmas em contraponto a releitura dos clássicos.

A discussão acerca da importância dos clássicos na formação da teoria sociológica envolve uma disputa argumentativa que põe em questão a proposta de novos paradigmas em contraponto a releitura e desenvolvimento tendo como base em cânones e obras clássicas eventualmente incorporados às interpretações contemporâneas. Antes faz-se importante a distinção da filosofia social e o advento da teoria sociológica.

Em sua obra “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens”, Rousseau (1988) se utiliza da filosofia social buscando reconhecer a realidade percebida socialmente, abordando conceitos como “estado de natureza”, tratado também por outros contratualistas como John Locke (1632-1704) e a “degeneração social” provocada pelo distanciamento entre o homem social e o homem natural. A desigualdade, tema central da obra, seria fruto justamente do convívio social, uma vez que o autor supõe que o indivíduo, isoladamente, seria bom por natureza. Ela existiria, a princípio, em duas formas: a natural ou física e a moral ou política. Tal prática filosófica propõe reflexões que posteriormente autores da chamada teoria social tratariam de diversas formas. Rousseau, ao teorizar sobre a boa natureza do homem se utiliza de recursos teóricos ficcionais e convicções para discutir e definir uma sociedade considerada idealmente justa. A teoria social, por sua vez, se vê detida no círculo hermenêutico e na observação, se distanciando de presunções pertinentes à filosofia. Ao teorizar a respeito da sociedade através da análise, a teoria social deve buscar a observação científica com vias na explicação das questões contemporâneas a que se propõe responder.

A questão que pensadores formadores da teoria social colocam com relação aos clássicos é a de que em que medida a contemporaneidade e as perguntas atinentes a esta podem ser respondidas recorrendo-se àqueles, ou se há a necessidade iminente de um novo paradigma que compreenda de maneira mais pertinente a realidade social do momento presente.

Autores como Merton (1968) acreditam que, à exemplo das ciências naturais, a ciência social em dado momento deve se desvencilhar dos clássicos já que, além de enfrentar desafios diferentes daqueles encarados por autores já consagrados, o pesquisador contemporâneo, através da informação empírica acumulada ao longo da formação do pensamento sociológico, teria mais ferramentas para responder às problemáticas de última hora. Sua tese chama a atenção dos sociólogos aos problemas de cunho epistemológico e propõe que o conhecimento sociológico é cumulativo, ressaltando a diferenciação do que seria uma “teoria sociológica utilizável” e um estudo da História da sociologia. Para o autor apenas o empirismo é capaz de acumular conhecimentos sólidos, dispensando cânones clássicos ou os relegando para a análise/ histórica com distinção clara entre esta e a História. Ao contrário da sistemática caberia à História tratar os textos como documentos históricos e não como fontes de informação não-recolhida, sendo função do historiador estudar o ambiente das ideias e não as ideias em si, o diferindo do cientista social. Essa saída encontrada por Merton, repelindo a fusão entre ciência e história, se baseia na exigência tanto de uma sociologia científica, quanto de uma história científica. Segundo ele os sociólogos apresentariam a tendência de fundir a história com a sistemática da teoria. A frequente recorrência aos autores considerados clássicos seria um sinal de imaturidade, com uma ciência ainda em formação. O autor não considera as ciências sociais limitadas por um paradigma, no sentido de Kuhn e, em razão de ter como base o problema em detrimento do paradigma, as ciências sociais se organizam pela especialidade empírica e não por uma escola ou tradição. Merton sustenta que o teste mais rigoroso do conhecimento cumulativo é que os pensadores de hoje podem resolver problemas que os clássicos sequer conseguiriam propor e “(...) o louvor dos grandes colaboradores do passado cabe principalmente à história da disciplina. ” (Merton apud Alexander). Defende, portanto, uma teoria social embasada como as ciências naturais o fazem, empenhada em compreender a realidade por leis sociológicas.

Merton apresenta o importante conceito das teorias de médio alcance, fruto das dificuldades e peculiaridades do saber sociológico, já que este estaria entre a filosofia e as ciências da natureza. De acordo com o autor, a busca por um sistema de teoria sociológica fracassaria já que, entre a física e a sociologia, por exemplo, haveria uma distância considerável de “horas-homem” em termos de pesquisa e que seria uma questão de tempo e trabalho cumulativo para que a sociologia atinja o estágio de outras ciências.

Em contraponto a tal visão sobre os clássicos Alexander (1987) em “A importância dos Clássicos” sustenta que em uma área de conhecimento tão complexa como a ciência social marcos que norteiem pesquisadores do tema, desenvolvidos e consolidados no conhecimento científico através da literatura considerada clássica, podem ser úteis inclusive no desenvolvimento de conhecimento em uma temporalidade contemporânea, sobretudo porque tais teorias já foram expostas à verificação e possível refutação ou validação dos conhecimentos acumulados ao longo do tempo. O autor, citando Thomas Kuhn disserta que, ao contrário das ciências naturais, fundamentadas em modelos, as ciências sociais se baseiam em clássicos, impossibilitando-as de realizar emulação na resolução de problemas empíricos, uma vez que a ciência social, através dos clássicos, não pode considerar apenas a racionalidade mas, também, a criatividade do pesquisador. Alexander cita também Habermas quando trata da tendência dos naturalistas quanto aos objetivos gerais que moldariam sua técnica, os permitindo a utilização de soluções empíricas na resolução de problemas específico. Defende a contribuição fundamental das obras clássicas na medida em que referenciam um conhecimento consensual, trazendo algumas vantagens funcionais. A simplificação da discussão da teoria, com um selecionado literário mais ou menos reduzido em comparação com a produção crescente e talvez menos importante em comparação com as obras clássicas. A possibilidade de consenso e compromissos gerais assumidos na construção de discussões e teses contemporâneas e a compreensão de conhecimentos mais ou menos pacificados no debate científico seriam ferramentas importantes para a sociologia. Alexander ressalta que “ (...) o reconhecimento consensual de um clássico implica um ponto de referência comum. O clássico reduz a complexidade (Luhmann apud Alexander). É um símbolo que condensa uma série de compromissos diferentes”. Também assume que outras obras não deveriam ser mais tidas como referentes em determinada discussão, já que o conhecimento e a construção da teoria sociológica não podem ser estáticos. Instrumentalmente torna-se relevante que o cientista social se legitime à luz dos clássicos ou, ainda os tendo como base, desafie-os realizando uma releitura crítica dos fundamentos sustentados pelos mesmos.

O autor sugere que a abordagem  positivista que contrapõe a consideração dos clássicos como alternativa fundamental no desenvolvimento da teoria sociológica se utiliza de quatro premissas básicas para validar tal visão: “(...) uma ruptura radical e epistemológica entre as observações empíricas, ditas especificas e concretas, e as afirmações empíricas, ditas gerais e abstratas.”; O segundo postulado, reconhecendo-se tal ruptura seria o de que “(...) preocupações mais gerais e abstratas - filosóficas ou metafisicas - carecem de significado fundamental para a pratica de uma disciplina empiricamente orientada.”; ainda:

 (...) questões de natureza geral, abstrata e teórica só podem ser aquilatadas com relação a observações empíricas. Isso sugere que, quando possível, a teoria deva ser estabelecida em forma proposicional e, mais ainda, que os conflitos gerais sejam dirimidos graças a testes empíricos e experimentos rigorosos. (p.31)

E, finalmente, “uma vez que esses três primeiros postulados não fornecem base para a discordância cientifica estruturada, o quarto postulado sustenta que o desenvolvimento cientifico e "progressivo", isto e, linear e cumulativo.”. Alexander disserta que, embora tais postulados sejam refletidos pelo senso comum dos cientistas sociais, sobretudo norte-americanos, os mesmos foram fortemente confrontados pela nova onda da filosofia, história e da ciência social pós-positivista: “Se os postulados da tendência positivista efetivamente reduzem a teoria ao fato, os da postura pós-positivista reabilitam a teoria.” . O autor afirma que o fato de qualquer disciplina reconhecer clássicos não dependeria de seu empirismo, mas do consenso quanto à coisas não-empíricas. Insistindo na utilidade dos clássicos Alexander considera que a utilização de obras perenes simplificaria a discussão teórica, permitindo que um pequeno volume literário padronize a comunicação e desenvolvimento do saber sociológico com os receptores reconhecendo certas premissas: “(...) Entendo por razões intelectuais certas obras sejam consideradas clássicas por darem uma contribuição singular e permanente à ciência da sociedade”. Questionando a comparação de Merton com as ciências naturais, Alexander afirma que os clássicos não estão presentes nestas objetivamente porque as ciências naturais dispõem do que Kuhn chamou de “modelos exemplares”, com a diferença de que as ciências sociais absorveriam tanto clássicos quanto modelos.

A aparente dicotomia presente no debate sobre a importância dos clássicos no desenvolvimento das ciências sociais parece apresentar muitos mais pontos de contato do que a princípio se supõe. Mesmo os defensores de novos paradigmas parecem utilizar de conhecimento perenizado por autores clássicos para questionar em que medida são fundamentais na proposta de respostas às questões contemporâneas. Quando não se exclui completamente da teoria sociológica símbolos e presunções de autores clássicos, mas busca-se revisitá-los, inclusive para que se possa refutar parcialmente hipóteses, nos parece clara a relevância das obras antigas para o progresso do conhecimento no campo da sociologia. O próprio Merton reconhece certo utilitarismo na leitura dos clássicos como fontes de informação a serem empregadas em novos pontos de partida. Do mesmo modo, autores como Alexander também reconhecem que há que se analisar criticamente saberes constituídos no passado, uma vez que a sociologia não permite, em sua formação, anacronismos, já que busca compreender justamente a mutabilidade e o avanço dos modos em que indivíduos e grupos se relacionam, convivem e se comunicam. Também há que se reconhecer que, como posto por Merton, a sociologia não possui a carga “horas-homem” de que as ciências naturais, por exemplo, dispõem. O que nos parece é que a própria discussão sobre a problemática da importância (ou não) dos clássicos contribui para o desenvolvimento científico da teoria sociológica e é, portanto, fundamental para o avanço da mesma como ciência.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Rousseau, Jean Jacques. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. São Paulo: Nova Cultural, 1988.

Merton, Robert K. Teoría y estructura sociales. Introducción- Unificación de la teoría y de las investigaciones. México: Fondo de Cultura Económica, 1968 Págs. 9-28.

Alexander, Jeffrey. A importância dos clássicos. Em: Teoria social hoje. Giddens, Anthony (Ed.). São Paulo: Unesp, 1987.


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Como citar este texto (NBR 6023:2018 ABNT)

TORRES, André Port Artur de Paiva. Os clássicos sociológicos e o saber cumulativo - Uma contradição?. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 26, n. 6599, 26 jul. 2021. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/91941. Acesso em: 18 jan. 2022.

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