5. O realismo político e a análise da intervenção americana na Venezuela
A aplicação do realismo político a eventos concretos exige cautela metodológica, sobretudo quando se trata de episódios recentes, marcados por disputas narrativas, controvérsias jurídicas e interpretações políticas concorrentes. Nesse sentido, a atuação dos Estados Unidos em relação à Venezuela pode ser analisada, à luz do realismo político, não como um fato isolado ou plenamente consensual, mas como parte de uma dinâmica mais ampla de competição por poder, influência e segurança no sistema internacional.
Do ponto de vista realista, a política externa americana para a Venezuela deve ser compreendida no contexto da posição hegemônica dos Estados Unidos no hemisfério ocidental e de sua histórica preocupação com a presença de potências rivais em sua área de influência estratégica. A América Latina, desde o século XIX, ocupa lugar central na formulação de interesses de segurança dos EUA, o que se traduz em uma vigilância constante sobre regimes percebidos como hostis ou alinhados a adversários globais.
A crise venezuelana, marcada por instabilidade política, colapso econômico e disputas de legitimidade interna, tornou-se um ponto sensível nesse tabuleiro geopolítico. Sob uma leitura realista, a relevância do país não decorre apenas de fatores ideológicos, mas também de elementos materiais e estratégicos, como suas reservas energéticas, sua posição geográfica e suas alianças internacionais. A aproximação do governo venezuelano com atores como Rússia, China e Irã é interpretada, nessa perspectiva, como um fator de desequilíbrio regional que afeta diretamente os interesses estratégicos americanos.
O realismo político permite analisar as ações dos Estados Unidos não a partir das justificativas normativas oficialmente mobilizadas — como a defesa da democracia, dos direitos humanos ou da ordem constitucional —, mas a partir do cálculo estratégico subjacente. Em um sistema internacional anárquico, Estados tendem a reagir de forma preventiva ou coercitiva quando percebem ameaças à sua posição relativa de poder ou à estabilidade de seu entorno estratégico. Essa lógica não pressupõe consenso moral nem legitimação jurídica universal, mas responde à racionalidade da sobrevivência e da influência.
A reação da comunidade internacional à intervenção evidencia, igualmente, a validade da lente realista. O alinhamento de aliados tradicionais dos Estados Unidos e a oposição de potências rivais refletem padrões clássicos de balanceamento e competição entre grandes potências. O episódio revela que crises regionais frequentemente assumem dimensão sistêmica, tornando-se arenas indiretas de disputa entre centros de poder globais, fenômeno recorrente na história das relações internacionais.
Do ponto de vista realista, a controvérsia em torno da soberania venezuelana e das implicações jurídicas da intervenção ocupa posição secundária na análise explicativa. Isso não significa negar a relevância do direito internacional ou das normas humanitárias, mas reconhecer que, na prática, sua aplicação tende a ser condicionada pela distribuição de poder no sistema internacional. Estados com maior capacidade material dispõem de maior margem para agir unilateralmente, mesmo diante de contestação normativa.
Assim, a análise realista da atuação americana na Venezuela não se confunde com uma legitimação moral ou jurídica da intervenção. Trata-se, antes, de um esforço interpretativo voltado a compreender por que Estados poderosos recorrem a determinados instrumentos de ação em contextos específicos. Ao enfatizar interesses estratégicos, percepções de ameaça e competição por influência, o realismo político oferece um quadro analítico capaz de explicar a racionalidade subjacente a decisões que, em outros registros teóricos, poderiam parecer incoerentes ou arbitrárias.
Nesse sentido, o caso venezuelano ilustra a permanência dos pressupostos centrais do realismo político no cenário contemporâneo. Em um ambiente internacional marcado por rivalidades entre grandes potências, fragilidade institucional e disputas por recursos e zonas de influência, a lógica do poder continua a orientar a ação estatal, confirmando a utilidade do realismo como ferramenta analítica para compreender a política internacional do presente.
Conclusão
O realismo político consolidou-se, ao longo de sua trajetória histórica, como uma das tradições mais consistentes e duradouras da teoria política e das relações internacionais. Desde suas formulações iniciais na Antiguidade, passando pelas contribuições de Maquiavel e Hobbes, até sua sistematização no século XX por Hans Morgenthau e sua reformulação estrutural por Kenneth Waltz, o realismo construiu um arcabouço teórico voltado à compreensão da política internacional a partir da centralidade do poder, da segurança e da sobrevivência dos Estados em um sistema marcado pela ausência de autoridade central.
Ao longo do ensaio, buscou-se demonstrar que o realismo não constitui uma doutrina monolítica ou estática, mas uma tradição intelectualmente plural, capaz de incorporar revisões, críticas internas e desenvolvimentos teóricos relevantes, como aqueles introduzidos pelo neorrealismo e pelas distinções entre vertentes defensivas e ofensivas. Essa capacidade de adaptação contribuiu para a permanência do realismo como referência analítica fundamental, mesmo diante do surgimento de abordagens concorrentes.
As críticas formuladas por correntes liberais, construtivistas e normativas evidenciam limites importantes da perspectiva realista, especialmente no que se refere à subestimação do papel das instituições, das ideias e das normas jurídicas. No entanto, essas críticas não invalidam o núcleo explicativo do realismo, mas antes reforçam a necessidade de um diálogo teórico mais amplo, no qual diferentes abordagens possam iluminar dimensões complementares da política internacional.
A análise da atuação americana em relação à Venezuela ilustrou a utilidade do realismo como instrumento interpretativo, sem confundi-lo com uma justificativa moral ou jurídica das ações estatais. Ao deslocar o foco das narrativas normativas para os interesses estratégicos, as percepções de ameaça e a competição por influência, o realismo permite compreender a racionalidade subjacente a decisões que se inscrevem em contextos de rivalidade sistêmica e desequilíbrio de poder. Essa abordagem evidencia como crises regionais frequentemente se articulam a disputas mais amplas entre grandes potências, reforçando padrões recorrentes do sistema internacional.
Em última análise, a relevância contemporânea do realismo político reside em sua capacidade de oferecer análises prudentes e desidealizadas da política internacional, sem ignorar a complexidade dos fenômenos globais. Em um mundo marcado por tensões geopolíticas, instabilidade institucional e incertezas quanto à governança global, o realismo permanece como uma ferramenta indispensável para compreender os limites da cooperação, os condicionamentos estruturais da ação estatal e os desafios inerentes à ordem internacional.
Referências
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