Capa da publicação EUA x Venezuela: realismo político como jogo de poder
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Artigo Destaque dos editores

Realismo político e poder no sistema internacional.

Fundamentos teóricos, críticas e aplicações contemporâneas

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09/01/2026 às 14:50

Resumo:


  • O realismo político é uma das principais tradições teóricas da teoria política e das relações internacionais, destacando a centralidade do poder, do interesse nacional e da anarquia internacional como categorias fundamentais.

  • O neorrealismo, ou realismo estrutural, surge como uma reformulação teórica do realismo clássico, deslocando o foco da análise do nível individual para o nível sistêmico, enfatizando a importância da estrutura do sistema internacional na conduta dos Estados.

  • O realismo político, apesar de críticas que questionam seus pressupostos ontológicos e alcance explicativo, mantém relevância contemporânea ao oferecer uma interpretação desidealizada da política internacional, destacando a competição, a incerteza e a busca por segurança como elementos persistentes no sistema internacional.

Resumo criado por JUSTICIA, o assistente de inteligência artificial do Jus.

5. O realismo político e a análise da intervenção americana na Venezuela

A aplicação do realismo político a eventos concretos exige cautela metodológica, sobretudo quando se trata de episódios recentes, marcados por disputas narrativas, controvérsias jurídicas e interpretações políticas concorrentes. Nesse sentido, a atuação dos Estados Unidos em relação à Venezuela pode ser analisada, à luz do realismo político, não como um fato isolado ou plenamente consensual, mas como parte de uma dinâmica mais ampla de competição por poder, influência e segurança no sistema internacional.

Do ponto de vista realista, a política externa americana para a Venezuela deve ser compreendida no contexto da posição hegemônica dos Estados Unidos no hemisfério ocidental e de sua histórica preocupação com a presença de potências rivais em sua área de influência estratégica. A América Latina, desde o século XIX, ocupa lugar central na formulação de interesses de segurança dos EUA, o que se traduz em uma vigilância constante sobre regimes percebidos como hostis ou alinhados a adversários globais.

A crise venezuelana, marcada por instabilidade política, colapso econômico e disputas de legitimidade interna, tornou-se um ponto sensível nesse tabuleiro geopolítico. Sob uma leitura realista, a relevância do país não decorre apenas de fatores ideológicos, mas também de elementos materiais e estratégicos, como suas reservas energéticas, sua posição geográfica e suas alianças internacionais. A aproximação do governo venezuelano com atores como Rússia, China e Irã é interpretada, nessa perspectiva, como um fator de desequilíbrio regional que afeta diretamente os interesses estratégicos americanos.

O realismo político permite analisar as ações dos Estados Unidos não a partir das justificativas normativas oficialmente mobilizadas — como a defesa da democracia, dos direitos humanos ou da ordem constitucional —, mas a partir do cálculo estratégico subjacente. Em um sistema internacional anárquico, Estados tendem a reagir de forma preventiva ou coercitiva quando percebem ameaças à sua posição relativa de poder ou à estabilidade de seu entorno estratégico. Essa lógica não pressupõe consenso moral nem legitimação jurídica universal, mas responde à racionalidade da sobrevivência e da influência.

A reação da comunidade internacional à intervenção evidencia, igualmente, a validade da lente realista. O alinhamento de aliados tradicionais dos Estados Unidos e a oposição de potências rivais refletem padrões clássicos de balanceamento e competição entre grandes potências. O episódio revela que crises regionais frequentemente assumem dimensão sistêmica, tornando-se arenas indiretas de disputa entre centros de poder globais, fenômeno recorrente na história das relações internacionais.

Do ponto de vista realista, a controvérsia em torno da soberania venezuelana e das implicações jurídicas da intervenção ocupa posição secundária na análise explicativa. Isso não significa negar a relevância do direito internacional ou das normas humanitárias, mas reconhecer que, na prática, sua aplicação tende a ser condicionada pela distribuição de poder no sistema internacional. Estados com maior capacidade material dispõem de maior margem para agir unilateralmente, mesmo diante de contestação normativa.

Assim, a análise realista da atuação americana na Venezuela não se confunde com uma legitimação moral ou jurídica da intervenção. Trata-se, antes, de um esforço interpretativo voltado a compreender por que Estados poderosos recorrem a determinados instrumentos de ação em contextos específicos. Ao enfatizar interesses estratégicos, percepções de ameaça e competição por influência, o realismo político oferece um quadro analítico capaz de explicar a racionalidade subjacente a decisões que, em outros registros teóricos, poderiam parecer incoerentes ou arbitrárias.

Nesse sentido, o caso venezuelano ilustra a permanência dos pressupostos centrais do realismo político no cenário contemporâneo. Em um ambiente internacional marcado por rivalidades entre grandes potências, fragilidade institucional e disputas por recursos e zonas de influência, a lógica do poder continua a orientar a ação estatal, confirmando a utilidade do realismo como ferramenta analítica para compreender a política internacional do presente.


Conclusão

O realismo político consolidou-se, ao longo de sua trajetória histórica, como uma das tradições mais consistentes e duradouras da teoria política e das relações internacionais. Desde suas formulações iniciais na Antiguidade, passando pelas contribuições de Maquiavel e Hobbes, até sua sistematização no século XX por Hans Morgenthau e sua reformulação estrutural por Kenneth Waltz, o realismo construiu um arcabouço teórico voltado à compreensão da política internacional a partir da centralidade do poder, da segurança e da sobrevivência dos Estados em um sistema marcado pela ausência de autoridade central.

Ao longo do ensaio, buscou-se demonstrar que o realismo não constitui uma doutrina monolítica ou estática, mas uma tradição intelectualmente plural, capaz de incorporar revisões, críticas internas e desenvolvimentos teóricos relevantes, como aqueles introduzidos pelo neorrealismo e pelas distinções entre vertentes defensivas e ofensivas. Essa capacidade de adaptação contribuiu para a permanência do realismo como referência analítica fundamental, mesmo diante do surgimento de abordagens concorrentes.

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As críticas formuladas por correntes liberais, construtivistas e normativas evidenciam limites importantes da perspectiva realista, especialmente no que se refere à subestimação do papel das instituições, das ideias e das normas jurídicas. No entanto, essas críticas não invalidam o núcleo explicativo do realismo, mas antes reforçam a necessidade de um diálogo teórico mais amplo, no qual diferentes abordagens possam iluminar dimensões complementares da política internacional.

A análise da atuação americana em relação à Venezuela ilustrou a utilidade do realismo como instrumento interpretativo, sem confundi-lo com uma justificativa moral ou jurídica das ações estatais. Ao deslocar o foco das narrativas normativas para os interesses estratégicos, as percepções de ameaça e a competição por influência, o realismo permite compreender a racionalidade subjacente a decisões que se inscrevem em contextos de rivalidade sistêmica e desequilíbrio de poder. Essa abordagem evidencia como crises regionais frequentemente se articulam a disputas mais amplas entre grandes potências, reforçando padrões recorrentes do sistema internacional.

Em última análise, a relevância contemporânea do realismo político reside em sua capacidade de oferecer análises prudentes e desidealizadas da política internacional, sem ignorar a complexidade dos fenômenos globais. Em um mundo marcado por tensões geopolíticas, instabilidade institucional e incertezas quanto à governança global, o realismo permanece como uma ferramenta indispensável para compreender os limites da cooperação, os condicionamentos estruturais da ação estatal e os desafios inerentes à ordem internacional.


Referências

HOBBES, Thomas. Leviatã ou matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil. Tradução de João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

KEOHANE, Robert O. After hegemony: cooperation and discord in the world political economy. Princeton: Princeton University Press, 1984.

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MEARSHEIMER, John J. The tragedy of great power politics. New York: W. W. Norton & Company, 2001.

MORGENTHAU, Hans Joachim. Politics among nations: the struggle for power and peace. 6. ed. New York: Alfred A. Knopf, 1985.

NYE JR., Joseph S. Soft power: the means to success in world politics. New York: PublicAffairs, 2004.

SCHMITT, Carl. O conceito do político. Tradução de George Agostinho da Silva. Belo Horizonte: Del Rey, 1992.

TUCÍDIDES. História da Guerra do Peloponeso. Tradução de Mário da Gama Kury. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001.

WALTZ, Kenneth N. Theory of international politics. Reading, MA: Addison-Wesley, 1979.

WENDT, Alexander. Social theory of international politics. Cambridge: Cambridge University Press, 1999.

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Sobre o autor
Mauro Vasni Paroski

Juiz titular de Vara do Trabalho do Tribunal Regional do Trabalho da 9ª Região. Mestre em Direito Negocial (área de concentração em Direito Processual Civil), pela Universidade Estadual de Londrina (UEL-PR).︎ Doutorando em Direitos Sociais na Universidad de Castilla-La Mancha - ESPANHA.

Como citar este texto (NBR 6023:2018 ABNT)

PAROSKI, Mauro Vasni. Realismo político e poder no sistema internacional.: Fundamentos teóricos, críticas e aplicações contemporâneas . Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 31, n. 8227, 9 jan. 2026. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/116633. Acesso em: 11 jan. 2026.

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