Resumo: O presente ensaio analisa o realismo político como uma das principais tradições teóricas da teoria política e das relações internacionais, destacando sua permanência e relevância na compreensão da dinâmica do sistema internacional. Partindo de suas raízes históricas em Tucídides, Maquiavel e Hobbes, o trabalho examina a sistematização do realismo clássico realizada por Hans Morgenthau e a reformulação estrutural promovida por Kenneth Waltz, evidenciando a centralidade do poder, do interesse nacional e da anarquia internacional como categorias analíticas fundamentais. O estudo aborda, ainda, as principais contribuições do neorrealismo, incluindo a distinção entre realismo defensivo e ofensivo, bem como as críticas formuladas por correntes liberais, construtivistas e normativas, que questionam o reducionismo material e a separação entre política e moralidade. Sem ignorar essas objeções, o ensaio sustenta que o realismo permanece uma lente interpretativa indispensável para a análise das relações internacionais contemporâneas. A partir de uma leitura realista da atuação dos Estados Unidos em relação à Venezuela, o trabalho demonstra como interesses estratégicos, percepções de ameaça e disputas por influência continuam a orientar a ação estatal em um sistema internacional marcado pela competição e pela ausência de autoridade central. Conclui-se que, apesar das transformações do cenário global e do fortalecimento de instituições e normas internacionais, o realismo político conserva relevância explicativa ao evidenciar os limites estruturais da cooperação e os condicionamentos do poder na política mundial.
Palavras-chave: Realismo político; Relações internacionais; Poder; Interesse nacional; Anarquia internacional.
Introdução
O realismo político ocupa posição central na teoria política e nas relações internacionais por oferecer uma interpretação desidealizada da ação dos Estados em um sistema internacional marcado pela ausência de autoridade superior. Ao partir da premissa de que a política internacional é estruturada pela competição, pela incerteza e pela busca permanente por segurança, o realismo propõe uma leitura que privilegia o poder e o interesse nacional como categorias analíticas fundamentais para a compreensão da dinâmica global.
Enquanto outras abordagens enfatizam o papel das normas, das instituições e da cooperação, o realismo chama atenção para os limites estruturais que condicionam essas iniciativas. Em um ambiente internacional anárquico, os Estados permanecem como os principais atores e tendem a agir de forma estratégica para preservar sua sobrevivência e sua posição relativa de poder. Essa perspectiva não nega a existência de valores morais ou de compromissos jurídicos, mas sustenta que tais elementos são frequentemente subordinados às exigências da segurança e da estabilidade estatal.
A tradição realista possui raízes profundas na história do pensamento político. Desde as análises de Tucídides sobre a Guerra do Peloponeso, passando pelo pragmatismo de Maquiavel e pela antropologia política de Hobbes, até a sistematização teórica realizada por Hans Morgenthau no século XX, o realismo construiu um arcabouço conceitual voltado à compreensão do conflito como elemento recorrente da vida política. Posteriormente, com a contribuição de Kenneth Waltz, essa tradição foi reformulada em bases estruturais, deslocando o foco da natureza humana para as condições sistêmicas que moldam o comportamento dos Estados.
O objetivo deste trabalho é examinar o realismo político em sua dimensão histórica, teórica e analítica, destacando seus principais pressupostos, suas reformulações internas e as críticas que lhe são dirigidas. Busca-se, ainda, avaliar sua relevância contemporânea a partir da análise de episódios recentes da política internacional, tomando a atuação dos Estados Unidos em relação à Venezuela como um estudo de caso interpretativo, sem pretensão de legitimação normativa, mas como instrumento de compreensão da racionalidade estratégica estatal.
Ao articular teoria e análise empírica, o ensaio pretende demonstrar que, apesar das transformações do sistema internacional e do fortalecimento de discursos normativos e institucionais, o realismo político permanece uma ferramenta indispensável para compreender os condicionamentos estruturais da política mundial. Sua utilidade reside justamente na capacidade de oferecer análises prudentes sobre o comportamento dos Estados, evidenciando os limites da cooperação internacional e os desafios persistentes à construção de uma ordem global estável.
1. As raízes históricas do realismo político
O realismo político constitui uma das tradições intelectuais mais antigas e persistentes da teoria política e das relações internacionais. Mais do que uma escola teórica circunscrita ao século XX, o realismo deve ser compreendido como uma linhagem de pensamento que atravessa diferentes contextos históricos, sempre marcada pela preocupação com o poder, a segurança e a sobrevivência das comunidades políticas em ambientes de conflito.
Na Antiguidade clássica, Tucídides oferece aquela que é frequentemente considerada a primeira formulação realista da política internacional. Em sua História da Guerra do Peloponeso, ao narrar o conflito entre Atenas e Esparta, o autor rompe com explicações mitológicas ou morais e enfatiza que os Estados agem movidos por interesses concretos, sobretudo pelo medo, pela honra e pela vantagem estratégica. O célebre diálogo entre atenienses e melianos revela um princípio que se tornaria central ao realismo: em contextos de assimetria de poder, considerações morais tendem a ceder lugar à lógica da força e da necessidade.
Essa concepção pragmática da política ressurgiria de forma sistemática no Renascimento, com Nicolau Maquiavel. Em O Príncipe, Maquiavel rompe deliberadamente com a tradição medieval que subordinava a política à moral cristã e à filosofia escolástica. Para o pensador florentino, a ação política deve ser avaliada a partir de seus efeitos concretos na preservação do Estado, e não pela conformidade com virtudes abstratas. A noção de virtù, associada à capacidade de agir estrategicamente diante da fortuna, antecipa um dos núcleos do realismo moderno: a separação entre ética privada e racionalidade política.
No século XVII, Thomas Hobbes aprofunda essa visão ao formular uma antropologia política fundada na insegurança e na competição. Ao descrever o estado de natureza como uma condição de guerra de todos contra todos, Hobbes estabelece uma analogia duradoura entre a ausência de autoridade no plano doméstico e a anarquia no plano internacional. Embora o Leviatã seja capaz de impor ordem no interior do Estado, não existe, no sistema internacional, um soberano capaz de garantir segurança coletiva. Essa intuição hobbesiana seria posteriormente incorporada de modo explícito pela teoria realista das relações internacionais.
Já no século XX, o realismo político assume forma teórica sistematizada, especialmente com Hans Morgenthau. Em Politics Among Nations, Morgenthau consolida o realismo como uma abordagem analítica estruturada, fundada na ideia de que a política internacional é governada por leis objetivas derivadas da natureza humana. O interesse nacional, definido em termos de poder, torna-se o critério central para compreender o comportamento dos Estados, substituindo explicações baseadas em ideais morais, jurídicos ou teleológicos.
É importante ressaltar que, embora Morgenthau dialogue com autores clássicos, seu realismo não se limita a uma simples retomada histórica. Ele transforma uma tradição dispersa em um paradigma analítico, capaz de explicar padrões recorrentes de conflito, aliança e competição no sistema internacional moderno. Essa sistematização marca a passagem do realismo enquanto intuição filosófica para o realismo enquanto teoria das relações internacionais.
Assim, o realismo político não emerge como uma doutrina isolada ou circunstancial, mas como uma tradição intelectual contínua, adaptável a diferentes épocas e contextos históricos. Sua permanência não decorre da negação das transformações do sistema internacional, mas da constatação de que, apesar dessas mudanças, a lógica do poder, da segurança e da sobrevivência estatal permanece estruturalmente relevante.
Essa herança histórica explica por que o realismo continua a ocupar posição central no debate teórico contemporâneo. Mesmo diante de críticas normativas e de abordagens alternativas, sua capacidade de oferecer interpretações coerentes sobre o comportamento dos Estados assegura sua longevidade como uma das matrizes fundamentais do pensamento político internacional.
2. Os princípios fundamentais do realismo político
O realismo político consolida-se, no século XX, como uma doutrina teórica estruturada sobretudo a partir da obra de Hans Morgenthau, que buscou conferir sistematicidade analítica a uma tradição intelectual até então dispersa. Ao formular seus conhecidos seis princípios do realismo político, Morgenthau não pretendeu estabelecer um manual normativo de conduta estatal, mas sim oferecer um instrumental teórico capaz de explicar padrões recorrentes do comportamento dos Estados no sistema internacional.
O primeiro princípio afirma que a política, assim como a sociedade em geral, é regida por leis objetivas que têm raízes na natureza humana. Para o realismo clássico, essa natureza não é idealizada: ela é marcada pela busca de poder, pela autopreservação e pela desconfiança. Essa premissa afasta explicações excessivamente moralistas ou voluntaristas, sustentando que líderes e Estados, independentemente de suas intenções declaradas, tendem a agir de modo a maximizar sua posição relativa em um ambiente competitivo.
O segundo princípio estabelece que o conceito de interesse nacional deve ser definido em termos de poder. Isso não significa reduzir toda a política internacional ao uso da força militar, mas reconhecer que a capacidade de influenciar o comportamento de outros atores — seja por meios militares, econômicos ou diplomáticos — constitui o núcleo da ação estatal. A centralidade do interesse nacional funciona, assim, como um critério analítico que permite distinguir políticas eficazes de meras declarações retóricas.
O terceiro princípio introduz um elemento de flexibilidade ao realismo ao reconhecer que o poder não é um conceito fixo ou imutável. Sua forma e expressão variam de acordo com o contexto histórico, cultural e tecnológico. Ao admitir essa variação, o realismo evita o determinismo rígido e se mantém aberto à análise das transformações do sistema internacional, sem abandonar sua ênfase estrutural.
O quarto princípio aborda a relação entre política e moralidade. Morgenthau sustenta que a moralidade não pode ser aplicada de maneira absoluta à política internacional, pois o governante não age apenas como indivíduo moral, mas como responsável pela sobrevivência de uma coletividade. Essa distinção não implica rejeição total da ética, mas sim a recusa de uma moral universal abstrata que ignore as consequências concretas das decisões políticas.
O quinto princípio complementa essa ideia ao afirmar que não se deve identificar as aspirações morais de uma nação com leis universais da política internacional. Estados frequentemente apresentam suas ações como moralmente justificadas, mas o realismo alerta para o caráter particular e interessado dessas narrativas. A análise realista busca, portanto, desvelar o cálculo estratégico subjacente às justificativas normativas.
Por fim, o sexto princípio estabelece a autonomia da esfera política em relação a outras dimensões da vida social, como a economia, a religião ou a cultura. Embora esses fatores exerçam influência, o realismo sustenta que a política internacional possui uma lógica própria, centrada na distribuição de poder e na busca por segurança em um sistema anárquico.
Em conjunto, esses princípios fundamentam a visão realista de que o sistema internacional carece de uma autoridade central capaz de impor regras universais. Nesse ambiente, os Estados competem, formam alianças contingentes e buscam equilibrar forças como forma de evitar vulnerabilidades estratégicas. A cooperação internacional, quando ocorre, é interpretada como resultado de convergências temporárias de interesse, e não como expressão de solidariedade duradoura.
O realismo político, ao articular esses princípios, oferece uma estrutura analítica que privilegia a observação empírica e a prudência teórica. Sua força reside menos na promessa de transformação normativa da ordem internacional e mais na capacidade de explicar por que o poder, a segurança e a competição continuam a moldar o comportamento dos Estados, mesmo em contextos de institucionalização e interdependência crescentes.
3. O neorrealismo e suas contribuições
O neorrealismo, também denominado realismo estrutural, emerge a partir da década de 1970 como uma reformulação teórica do realismo clássico, buscando responder a críticas relativas à sua excessiva dependência de explicações ancoradas na natureza humana. Seu principal formulador, Kenneth Waltz, propõe uma mudança metodológica significativa ao deslocar o foco da análise do nível individual para o nível sistêmico, argumentando que o comportamento dos Estados é condicionado, sobretudo, pela estrutura do sistema internacional.
Para Waltz, o elemento definidor dessa estrutura é a anarquia internacional, entendida não como caos, mas como a ausência de uma autoridade central capaz de monopolizar o uso legítimo da força. Nesse contexto, os Estados, independentemente de suas características internas, são compelidos a agir de maneira funcionalmente semelhante, priorizando a autopreservação e a segurança. Assim, o neorrealismo sustenta que não é a ambição intrínseca dos líderes que explica a busca por poder, mas as pressões estruturais impostas pelo sistema internacional.
Uma das principais contribuições do neorrealismo é a distinção entre unidades e estrutura. Os Estados são considerados unidades funcionalmente semelhantes, diferenciando-se principalmente por suas capacidades relativas de poder. A estrutura do sistema internacional, por sua vez, é definida pela distribuição dessas capacidades entre os Estados. Essa abordagem permite explicar padrões recorrentes de competição e cooperação sem recorrer a fatores culturais, ideológicos ou psicológicos, reforçando o caráter parcimonioso da teoria.
O conceito de equilíbrio de poder adquire, no neorrealismo, um estatuto central. Diferentemente do realismo clássico, que frequentemente associava o equilíbrio a decisões conscientes de estadistas, Waltz argumenta que o equilíbrio emerge de forma quase automática, como resultado das interações entre Estados que buscam evitar situações de vulnerabilidade extrema. O balanceamento pode ocorrer tanto internamente, por meio do fortalecimento militar e econômico, quanto externamente, por meio da formação de alianças.
A partir dessa matriz teórica, desenvolvem-se interpretações distintas acerca da intensidade da busca por poder. O realismo defensivo, associado a Waltz, sustenta que a acumulação excessiva de poder pode ser contraproducente, pois tende a provocar reações de contenção por parte de outros Estados. Já o realismo ofensivo, formulado por John Mearsheimer, parte do mesmo diagnóstico estrutural, mas conclui que, em um sistema anárquico, os Estados racionais tendem a maximizar seu poder sempre que possível, uma vez que a hegemonia regional seria a forma mais segura de garantir a sobrevivência a longo prazo.
Essa divergência interna não enfraquece o neorrealismo, mas revela sua capacidade de acomodar diferentes interpretações a partir de pressupostos comuns. Ambas as vertentes compartilham a ideia de que a incerteza quanto às intenções dos outros Estados e a impossibilidade de segurança absoluta geram um ambiente de competição permanente, no qual a desconfiança desempenha papel estruturante.
O neorrealismo também exerceu influência decisiva na análise de processos históricos concretos, como a dinâmica da Guerra Fria, a persistência das alianças militares e a lógica das corridas armamentistas. Ao enfatizar a estabilidade relativa dos sistemas bipolares e a propensão à instabilidade em contextos multipolares, a teoria ofereceu ferramentas explicativas para compreender tanto períodos de contenção quanto de escalada de conflitos.
Ao privilegiar a estrutura do sistema internacional como variável explicativa central, o neorrealismo ampliou o alcance analítico do realismo político e contribuiu para seu fortalecimento metodológico. Ainda que tenha sido alvo de críticas por seu elevado grau de abstração e por minimizar o papel de fatores ideacionais, o realismo estrutural permanece como uma das abordagens mais influentes e debatidas no campo das relações internacionais, fornecendo um quadro teórico robusto para a análise das dinâmicas de poder no mundo contemporâneo.
4. Críticas e relevância contemporânea do realismo político
Apesar de sua posição central na teoria das relações internacionais, o realismo político tem sido objeto de críticas consistentes que questionam tanto seus pressupostos ontológicos quanto seu alcance explicativo. Essas críticas não apenas revelam limites da abordagem realista, mas também contribuíram para o desenvolvimento de correntes teóricas alternativas, ampliando o debate sobre a complexidade da política internacional contemporânea.
Uma das principais críticas provém do liberalismo institucional, que argumenta que o realismo subestima o papel das instituições internacionais e da cooperação duradoura entre os Estados. Para os liberais, a interdependência econômica, os regimes internacionais e organizações multilaterais criam incentivos à cooperação que não podem ser reduzidos a cálculos imediatos de poder. Instituições como a Organização das Nações Unidas, a Organização Mundial do Comércio ou a União Europeia são frequentemente citadas como evidência de que a anarquia internacional não impede a construção de regras compartilhadas e mecanismos de resolução de conflitos. Nessa perspectiva, o realismo seria excessivamente pessimista ao assumir que a competição é sempre predominante.
Outra crítica relevante é formulada pelo construtivismo, que questiona o materialismo e o estruturalismo do realismo. Autores construtivistas sustentam que interesses e identidades estatais não são dados objetivos, mas socialmente construídos por meio de normas, discursos e práticas históricas. Dessa forma, a anarquia não teria um significado fixo, pois seu impacto sobre o comportamento dos Estados dependeria das interpretações compartilhadas acerca de ameaças, amizade ou rivalidade. Para essa corrente, o realismo negligencia o papel das ideias e reduz a política internacional a uma lógica mecânica de poder.
Há também críticas de natureza ética e normativa. O realismo é frequentemente acusado de legitimar práticas autoritárias, intervenções militares e o uso da força em nome da sobrevivência estatal. Ao separar política e moralidade, a doutrina realista pode ser interpretada como uma racionalização teórica de ações que violam princípios jurídicos ou humanitários. Essa crítica ganha força em um contexto internacional marcado pela expansão do direito internacional dos direitos humanos e pelo crescente escrutínio da opinião pública global sobre as decisões de política externa.
Do ponto de vista metodológico, alguns críticos apontam que o realismo tende a privilegiar a estabilidade e a repetição em detrimento da mudança e da transformação histórica. A ênfase em estruturas relativamente constantes poderia dificultar a explicação de rupturas significativas, como processos de integração regional, colapsos de sistemas internacionais ou mudanças profundas na natureza da guerra.
Apesar dessas objeções, o realismo político mantém relevância analítica no cenário contemporâneo. A persistência de conflitos armados, a reemergência da competição entre grandes potências e o fortalecimento de alianças militares indicam que o poder e a segurança continuam a desempenhar papel central na política internacional. Disputas estratégicas envolvendo recursos naturais, rotas comerciais e zonas de influência reforçam a utilidade das categorias realistas para interpretar o comportamento estatal.
Além disso, o realismo oferece uma advertência teórica contra leituras excessivamente normativas da ordem internacional. Ao enfatizar limites estruturais à cooperação e à governança global, a abordagem realista contribui para análises mais prudentes das possibilidades de transformação do sistema internacional. Essa prudência não implica rejeição do direito ou das instituições, mas reconhecimento de que sua eficácia depende, em grande medida, da convergência de interesses entre os Estados mais poderosos.
Assim, mesmo reconhecendo suas limitações, o realismo político permanece como uma lente indispensável para a análise das relações internacionais. Sua relevância contemporânea não reside na pretensão de explicar todos os fenômenos globais, mas na capacidade de iluminar dimensões fundamentais da política internacional que continuam a moldar o comportamento dos Estados em um ambiente marcado pela incerteza, pela competição e pela ausência de autoridade central.