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Da vigilância política à inteligência constitucional.

Os novos fundamentos democráticos da inteligência de Estado

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Resumo:


  • A Inteligência Constitucional propõe uma reconstrução democrática da atividade de Inteligência de Estado no Brasil, dissociando-a do ideário autoritário e voltando-se para a proteção da ordem constitucional.

  • É uma função estatal que envolve a produção, proteção, análise e disseminação de conhecimento estratégico, exercida sob limites jurídicos, controles institucionais e respeito aos direitos fundamentais.

  • A legitimidade da Inteligência Constitucional depende de controles internos e externos, harmonização do sigilo com a transparência, cultura institucional democrática e formação dos profissionais orientada pelos princípios constitucionais.

Resumo criado por JUSTICIA, o assistente de inteligência artificial do Jus.

5. Conclusão

A atividade de Inteligência, no Estado Democrático de Direito, não pode ser compreendida apenas como técnica estatal de obtenção e processamento de informações sensíveis. Sua legitimidade depende do modo como se vincula à Constituição, aos direitos fundamentais, aos mecanismos de controle e à cultura institucional que orienta seu exercício. A proposta conceitual de Inteligência Constitucional busca precisamente demarcar esse deslocamento: trata-se da atividade estatal de produção, análise, proteção e difusão de conhecimento estratégico orientada à preservação da ordem constitucional, exercida sob limites jurídicos, controles institucionais e responsabilidade democrática.

Essa formulação permite diferenciar a Inteligência Constitucional das práticas autoritárias de vigilância política que marcaram parte da experiência brasileira. A distinção não repousa apenas na existência formal de leis ou órgãos administrativos, mas na finalidade constitucional da atividade, na submissão a controles efetivos e na incorporação de uma cultura profissional compatível com o pluralismo democrático. Inteligência constitucionalmente orientada não atua para neutralizar dissensos, monitorar adversários ou proteger governos contra críticas legítimas; atua para qualificar a capacidade decisória do Estado diante de ameaças reais à ordem constitucional, à soberania, às instituições democráticas e aos direitos fundamentais.

A análise desenvolvida demonstrou que, em sociedades complexas, hiperconectadas e atravessadas por riscos difusos, a Inteligência desempenha função relevante de redução de complexidade. A partir da teoria dos sistemas, foi possível compreendê-la como mecanismo estatal de seleção, filtragem e qualificação de informações provenientes do ambiente, capaz de transformar ruídos dispersos em conhecimento institucionalmente útil à tomada de decisão pública. Essa função não substitui a política, nem determina a decisão governamental; antes, oferece condições cognitivas para que o Estado decida com maior racionalidade, previsibilidade e responsabilidade em contextos de incerteza.

A centralidade contemporânea da Inteligência, contudo, amplia proporcionalmente a exigência de sua legitimação. Quanto maior sua capacidade de acessar informações sensíveis, antecipar cenários, identificar ameaças e influenciar decisões públicas, mais robustos devem ser os mecanismos jurídicos e institucionais que disciplinam sua atuação. A legitimidade da Inteligência Constitucional, nesse sentido, não decorre apenas de sua previsão legal. Ela exige fundamento normativo claro, justificabilidade pública, controle parlamentar, administrativo, judicial, financeiro e social, além de mecanismos internos de integridade, formação e cultura democrática.

O controle da atividade de Inteligência Constitucional deve ser compreendido como condição constitutiva de sua legitimidade, e não como obstáculo externo à sua eficiência. A proteção do sigilo, indispensável à preservação de fontes, métodos, capacidades e operações sensíveis, somente se harmoniza com a democracia quando inserida em uma arquitetura institucional de responsabilidade. O segredo democrático é aquele submetido a finalidades públicas, regras, competências, procedimentos, instâncias de verificação e formas de prestação de contas compatíveis com a proteção de informações sensíveis. A opacidade absoluta, ao contrário, fragiliza a confiança pública e reaproxima a Inteligência de práticas incompatíveis com o Estado de Direito.

No caso brasileiro, a disciplina normativa ainda apresenta baixa densidade e o controle parlamentar especializado enfrenta dificuldades práticas relevantes. A CCAI possui competências formais amplas, mas sua efetividade depende de recursos institucionais, acesso adequado à informação, especialização parlamentar, regularidade de atuação e maior centralidade política do tema. A existência de estruturas formais de fiscalização, por si só, não assegura controle substantivo. A Inteligência Constitucional exige uma arquitetura de accountability em camadas, na qual controles internos e externos operem de forma coordenada, reduzindo assimetrias informacionais e prevenindo a captura da atividade por interesses governamentais, partidários ou corporativos.

Também se demonstrou que a legitimidade da Inteligência Constitucional depende de dimensões internas à própria atividade. Cultura institucional e formação profissional não são elementos acessórios, mas condições de validade democrática do exercício da Inteligência. Agentes formados sob parâmetros constitucionais são mais aptos a distinguir ameaças reais à ordem democrática de manifestações legítimas do pluralismo político, da crítica social e da liberdade de expressão. A formação em direitos fundamentais, ética pública, legalidade, responsabilidade institucional e controle democrático deve integrar a própria racionalidade da atividade, pois a eficiência informacional somente possui valor constitucional quando orientada por finalidades públicas legítimas.

A Inteligência Constitucional, portanto, está na confluência da eficácia estatal com a limitação jurídica do poder. De um lado, fortalece a capacidade do Estado de compreender ambientes complexos, antecipar riscos e proteger bens constitucionais relevantes. De outro, somente se legitima quando aceita que sua atuação deve permanecer subordinada à Constituição, aos direitos fundamentais, ao controle institucional e à possibilidade de justificação pública. Essa tensão não é uma deficiência do modelo democrático; é precisamente o que impede que a atividade de Inteligência se converta em instrumento de arbítrio.

Conclui-se, assim, que a Inteligência Constitucional constitui categoria necessária para repensar a atividade de Inteligência no Brasil contemporâneo. Ela permite superar tanto a desconfiança histórica produzida por experiências autoritárias quanto a visão meramente instrumental da Inteligência como técnica de segurança. Sua função é mais ampla: proteger a ordem constitucional em contextos de alta complexidade informacional, sem comprometer os valores que justificam sua existência. Fortalecer a Inteligência Constitucional significa, portanto, fortalecer simultaneamente a capacidade decisória do Estado, a proteção das instituições democráticas e a submissão do poder informacional ao Direito.


Notas

1 MENDES, Gilmar Ferreira; COELHO, Inocêncio Mártires; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de Direito Constitucional. 7. ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2010. p. 118. O Preâmbulo "se torna de préstimo singular para a descoberta do conteúdo dos direitos inscritos na Carta", orientando os afazeres hermenêuticos do constitucionalista.

2 FICO, Carlos. Como eles agiam: os subterrâneos da ditadura militar — espionagem e polícia política. Rio de Janeiro: Record, 2001. p. 104. O autor reconhece que "órgãos de recolhimento e análise de informações, que visam a assessorar o poder público, são essenciais e compatíveis com a democracia", mas demonstra que no regime militar brasileiro esses órgãos "não se limitaram ao recolhimento de informações estratégicas, mas integraram o sistema repressivo da Ditadura Militar, fornecendo dados desvirtuados sobre os brasileiros, julgando subjetivamente cidadãos sem direito de defesa, participando de operações que culminaram em prisões arbitrárias, tortura e assassinato político". Sobre a estrutura do SNI e do SISNI, ver p. 80-82 e p. 100.

3 Gonet Branco define soberania como “a capacidade de autodeterminação dentro do círculo de competências traçado pelo poder soberano” Cf. MENDES, MÁRTIRES COELHO, GONET BRANCO, 2010. p. 930, nota de rodapé nº 2.

4 Na introdução do livro Introduction to Systems Theory, Peter Gilgen resume de forma primorosa o conceito de “autopoiese” trabalhada por Luhmann, a partir do conceito criado por Maturana e Varella. Ipsis litteris: “Whether a system is actually capable of steering and directing itself depends, however, on its ability to produce and maintain its own boundary. In their essay “Autopoiesis”, the biologists Humberto Maturana and Francisco Varela conclude that only a system's “unity in some space” allows for a consistent distinction between system and background. In other words, the unit of the system and the distinction between system and environment coincide. Therefore, the origin of an autopoietic system “is cocircumstantial” with the establishment of the operation of distinction of which its autopoiesis consists. One important consequence of this conclusion is that there are no intermediate systems: “either a system is an autopoietic system, or it is not”. From the viewpoint of the general theory, the concept of autopoiesis thus provides a coherent and sufficiently rigorous system definition. This was recognized by Luhmann. The criterion of autopoiesis allows him not only to cut through the conclusive debates about the definition of a social system, but also to explain the differentiation of modern society into distinct “value spheres” (to use Max Weber's term), that can be conceived as operationally closed social systems”. Cf. LUHMANN, Niklas. Introduction to Systems Theory. Tradução de Peter Gilgen. Cambridge: Polity Press. 2013. p. xi e xii.

5 Luhmann sustenta que a redução da complexidade não é uma limitação acidental do sistema, mas condição de sua própria capacidade operativa. Em suas palavras: “The reduction of complexity, the exclusion of a mass of events in the environment from the possibility of affecting the system, is the condition for the system's ability to do something with as few irritations as such reduction permits. Or, to put the matter in the most abstract terms, the reduction of complexity is the condition of the increase in complexity. Two examples can be adduced here. The first one concerns the way in which the brain is structurally coupled with the external environment via eye and ear. It thus possesses a very narrow bandwidth of sensibilities that reduces what can be seen, limits the spectrum of colors, and equally reduces what can be heard. It is only because things are this way that the system is not overburdened with external influences, and only because things are this way that learning can take place and complex structures can be built inside the brain. We thus observe a narrow bandwidth of external contacts in connection with an enormous development of structural capacities in the brain and an enormous capacity to exploit the few irritations that the system receives. And, once again, we see that this is compatible with an autopoietic structure or operational closure. Everything depends on the system not establishing direct contact with the environment and instead being stimulated merely photo-mechanically or acoustically by means of light or sound waves and subsequently producing information from this input by means of the system's own apparatus. This information does not exist in the environment but has its environmental correlates that, however, only an observer can see”. Cf. Ibid., p. 86.

6 Born e Leigh afirmam que os poderes excepcionais dos serviços de segurança “must be grounded in a legal framework and in a system of legal controls”, ressaltando que a legalidade, a proporcionalidade e os controles contra o uso indevido de poderes especiais são condições para sua atuação legítima. Cf. BORN e LEIGH, Ian. 2005, p. 17-18, 20 e 42. Acesso em: 25 abr. 2026.

7 Ao tratar da delimitação do mandato dos serviços de inteligência em democracias, Born e Leigh destacam a necessidade de medidas voltadas a “guarantee its political neutrality” e mencionam salvaguardas institucionais e legais para impedir o uso dos serviços por autoridades governamentais contra opositores políticos. Cf. BORN e LEIGH. 2005, p. 32. Acesso em: 25 abr. 2026.

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8 Born e Leigh afirmam que códigos profissionais de ética e cursos de formação são instrumentos úteis para estabelecer, comunicar e manter práticas compartilhadas entre agentes de inteligência, mencionando expressamente a capacitação em conceitos de supervisão da inteligência. Cf. BORN e LEIGH, Ian. 2005. Acesso em: 25 abr. 2026.


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Abstract: This article proposes and develops the concept of Constitutional Intelligence as a semantic and institutional redesignation of State Intelligence activity in Brazil, with the aim of definitively dissociating it from the authoritarian imaginary of political surveillance, repression of dissent, and control of opponents that has historically marked intelligence services in the country. Constitutional Intelligence is understood as a state activity involving the production, protection, analysis, and dissemination of strategic knowledge aimed at preserving the constitutional order, carried out under legal limits, institutional oversight, and respect for fundamental rights. Drawing on constitutional theory, Niklas Luhmann’s theory of social systems, and the literature on democratic oversight of intelligence activities, the article examines how State Intelligence, within the constitutional framework inaugurated in 1988, should be understood as a legitimate public function, indispensable to reducing decisional uncertainty, anticipating complex risks, and strengthening the State’s capacity to protect democratic institutions. It argues that the usefulness of the category of Constitutional Intelligence lies precisely in fixing, at the level of language and institutional culture, the new democratic reality of Intelligence: an activity necessary to the contemporary State, but whose legitimacy depends on the combination of informational effectiveness, submission to the Rule of Law, robust accountability mechanisms, institutional transparency compatible with necessary secrecy, a democratic professional culture, and training grounded in fundamental rights.

Key words: Constitutional Intelligence; State Intelligence; Democratic Rule of Law; Systems Theory; Democratic Oversight; Accountability.

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Sobre os autores
Franco Perazzoni

Doutor em Sustentabilidade Social e Desenvolvimento (UAb/Portugal), concluiu pós-doutorados em Políticas Públicas (ENAP) e Direitos Humanos, Saúde e Justiça (IGC & POSCOHR, Coimbra/Portugal). Com formação interdisciplinar, desenvolve estudos na interface entre Direito, Tecnologia, Ambiente e Governança. Professor e pesquisador voluntário na UnB.

Adriana Abrão

Advogada, sócia do escritório Rocha Abrão. Atua em Direito Público, especialmente nas áreas de Direito Administrativo, Direito Legislativo e controle externo. É doutoranda pelo Centro Universitário de Brasília (CEUB) e pela Aix-Marseille Université (AmU), na França.

Como citar este texto (NBR 6023:2018 ABNT)

PERAZZONI, Franco ; ABRÃO, Adriana. Da vigilância política à inteligência constitucional.: Os novos fundamentos democráticos da inteligência de Estado. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 31, n. 8477, 16 set. 2026. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/120055. Acesso em: 16 set. 2026.

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