Resumo: Trata-se, aqui, de um olhar sobre a cidade como a suprema instância pedagógica de qualquer processo educacional cuja essência deve ser que Auschwitz não mais se repita. Que ela não pode ser concebida ou administrada governamentalmente apenas como centro irradiador do comércio, obra de mercadores, mas, antes, lugar de convívio humano, Cosmo e não Caos; de promoção da vida, da felicidade, da justiça, da liberdade, da solidariedade para o maior número de cidadãos possível. Circulação de riqueza poética mais do que de riqueza material. De formação e não deformação do Homem, de humanidade e não de desumanidade. É o que, com a aplicação do conceito de PAIDÈIA, queremos pensar.

Palavras-chave: política, cidade, educação, pedagogia.

Criar uma nova cultura não significa apenas fazer individualmente descobertas "originais". Significa também e especialmente difundir criticamente verdades já descobertas, "socializá-las", por assim dizer, e fazer com que se tornem bases de ações vitais, elemento de coordenação e de ordem intelectual e moral. [01]

ANTÔNIO GRAMSCI


"O QUE TEM QUE SER TEM MUITA FORÇA", escreveu Clarice Lispector em "A maçã no Escuro". Esse aforismo que saltou das páginas de Clarice Lispector ocorreu-me quando a questão "Por onde começar?" assediava cruelmente meu espírito a partir do momento em que o Pe João Batista Gomes de Lima, Reitor do Centro Universitário São Camilo, convidando-me a colaborar com os Cadernos Camilliani, colocou-me o desafio da realização de uma reflexão sobre a Cidade cujo tema seria A Cidade que sonhamos; a Cidade que vivemos. Tarefa difícil! Na ocasião, observei que a história de uma comunidade, como a história de uma pessoa, tem suas raízes em determinadas tradições e formas de vida imaginárias, e é por elas moldadas até a frustração, e que, por isso, talvez fosse interessante partirmos de uma reflexão monológica inesgotável segundo a qual nossas raízes (como Ocidentais) estão enterradas na Grécia. Captaríamos, assim, dizia eu, de um só fôlego, tanto a cidade imaginária quanto à cidade que vivemos, que moram (atualmente) em nossos desejos tanto quanto em nossas insatisfações políticas pelos estados de coisas estruturais e pelos acontecimentos conjunturais que constituem, os primeiros, nossos mais controvertidos e implacáveis padrões e, os segundos, nossos mais diligentes e questionados (porque renitentes) dilemas. E o título que eu sugeri foi PAIDÉIA. Com ele, expliquei, teríamos, como a própria cultura Ocidental, nossa raiz fincada na Grécia, e, por mais distante que estejamos dos tempos antigos, não adianta espanar a poeira, dar a volta por cima (o céu não é uma saída), ainda somos bárbaros. O que quer dizer que ainda estamos conquistando a Grécia, ou seja, assumindo seus valores, sua cultura, sua arte etc. psicogeneticamente. É o nosso indefectível ponto de partida e sugere que o que não pode ser tem tanta força quanto o que tem de ser. Sugestão de polichinelo! Alguns momentos de perplexidade, alguns debates, dúvidas sanadas, relutâncias vencidas e o título foi aceito. Mesmo porque, orienta-nos Mattei,

todo documento de cultura, Benjamin o disse na sua Tese VII sobre a filosofia da história, é ao mesmo tempo "um documento de barbárie", de modo constitutivo e não acidental, pois a barbárie segue os passos da humanidade como a sombra acompanha o homem que caminha na direção do sol. [02]

Fui, então, instado pela tarefa e assediado pela questão: Por onde começar? Questão que problematiza todo autor, todo tema, toda trama, todo enredo, toda história... Do mais particular ao mais universal. Foi então que, de repente e inoportunamente, ocorreu-me à memória um aforismo de Nietzsche, que li em "Miscelânea de opiniões e sentenças". A saber: "Aquele que viu o ideal de alguém é para este um juiz implacável; e de alguma forma sua má-consciência" Foi uma lástima! Assim me via diante da perspectiva de ter um texto em análise e julgamento por toda uma Cidade, e, o que é pior, pelos intelectuais dessa Cidade e por todos que nela (tantos, que) encontram motivos para não gostar de mim (o que me amargura), sem falar de todos os que posso encontrar (que não me conhecem) de outras Cidades, o que me fez vacilar. Quem sou eu? Que dirão, de verdade, de mim? E que acolhida encontrarei no Cadernos Camilliani? Juizes implacáveis; más-consciências? Sim, talvez! Mas também, e principalmente, Amigos. Que alívio! É o nosso "círculo aconchegante", na expressão de Göran Rosemberg, que sempre se aproxima e não nos deixa sozinho. É para ele que queremos falar, e que geralmente falamos. Impõe-se, portanto, que seja um texto competente, honesto, amoroso, poético, utópico... É o mínimo que devemos. E é isso que sustenta e preserva as Amizades. Consolida-as. Eterniza-as. Torna possível que a Filosofia se desenvolva para a ação. Por essa razão, observou alguém: "Ninguém quer ser amado por falta de inteligência". É justamente no convívio de "Amigos da sabedoria" que teoria e prática se enroscam como anéis de DNA; biografia, história e cultura se determinam assimetricamente... Portanto, como opina e sentencia Nietzsche: "Se até agora acreditaram no valor superior da vida e se, no presente, estão decepcionados, devem, pois, se livrar da vida a preço totalmente irrisório?" Não, é óbvio que não! Respondo com veemência e certeza inabalável. Espero que não! E digo mais: nem a vida, nem a própria morte. Encontro assim todas as razões para ouvir meu coração cantar no deserto, (onde Cristo orou), uma nova canção: "Trícia, Trícia, Trícia...". E que promete incertamente deixar marcas no futuro. Meu coração também é uma fonte. E é com ela, Trícia (apenas um querer), e por ela (mas também com), Penélope (minha filha), que florescem as idéias de POR QUE PAIDÈIA? Educadores que somos pensamos as bases de um Direito à Cidade! Mas também, quantas vezes tais idéias deixam-nos horas, dias, meses, anos frente a uma página vazia sem nenhuma inspiração. São esses os nossos momentos crianças, quando em nosso espírito todas as idéias brincam de "chicotinho queimado" ou de "pique esconde-esconde", com a nossa consciência e necessidade. Dizem que isso libera a afetividade das influências deletérias. Creio que sim! Que isso libera um texto ou uma obra das influências da "objetividade" idiota. Seria perfeito! Que isso, por outro lado, atrai todas as perplexidades. Creio que sim! Mas que também a angústia (doce angústia) pode nos paralisar. Não duvido! Neste sentido, já observou com agudeza Pascal, em um de seus fragmentos, o19, que "a última coisa que se encontra ao escrever uma obra é o que colocar em primeiro lugar". Mas, "já que é preciso um começo", como diria Antônio Cândido, ocorreu-me, visto que se trata de uma revista pedagógica para embasar as reflexões críticas dos leitores, denominar o presente e pequeno texto com uma interrogação: POR QUE PAIDÉIA? Dois coelhos, uma só cacetada. Ao mesmo tempo um título e uma idéia a ser desenvolvida. Mesmo porque, depois de superados os momentos crianças (o que só é possível pela infelicidade), quando a dor (que magoa e inspira) e o tempo (que oferece experiências e saberes) os deixam para traz, por consolo do destino diante do que está por vir, diante da força do que tem que ser, é preciso (como Heitor que sabia que ia morrer pela mão de Aquiles, como narra Homero) saber morrer na luta, com glória, com a certeza de ter realizado "algum feito relevante, cujo relato chegue aos homens por vir". A Grécia, portanto, pode ser um bom ponto de partida, - algo mais que um pasto e uma fonte d’água. O heleno, diz Nietzsche, "não é nem otimista nem pessimista. Ele é essencialmente viril, vê as coisas terríveis como elas são e não as dissimula a si". Mas quer a grandeza, a glória, o heroísmo, a amizade, a força, o poder, não ser esquecido. Tudo isso vale mais que a felicidade pessoal, quando ela não deixa marca para o futuro. Deixar marcas para o futuro, coisa rara. Digna apenas de heróis e deuses. Amantes verdadeiros! Amar intensamente, sem deixar que o acaso se apodere da mais ínfima partícula de seu ser, logo, desse Amor, é a Fidelidade. É ser um mar. E como disse Nietszche em Assim falava Zaratustra: "O homem é um rio turvo. É preciso ser um mar para, sem se toldar, receber o rio turvo" [03]. Esse, talvez, seja o sentido mais radical, mais viril de paidéia, e que é essencialmente homérico. Por essa razão, colocando-me diante da questão POR QUE PAIDÉIA? vejo-me obrigado (por ter sugerido um título e proposto uma tarefa ) a oferecer uma resposta. E, diante dessa obrigação, é grande a tentação de limitar-me a dizer pouco ou mais do que simplesmente que a paidéia, hoje, são nuvens; as nuvens ético-políticas e pedagógicas do pensamento grego que perpassam o céu Ocidental em mil e uma figuras. Tenho na memória, ipsis verbis, as palavras de Lyotard: "A periferia de uma nuvem não é mensurável com exatidão, é uma linha fractal de Mandelbrot". [04] E concluo: a periferia somos nós. A conclusão, -- contra certa endocolonização --, nasceu da leitura desconfiada (e por isso crítica) de "Gregos, bárbaros, estrangeiros: a cidade e seus outros", de Barbara Cassin, Nicole Loraux e Catherine Peschanski. Se podemos dizer que "POR QUE PAIDÉIA?" é uma questão historial de nossa existência Ocidental-européia, então, se a mudarmos para "POR QUE PAIDÉIA, hoje?, não implicaria fazer da resposta dada ser mais poderosa que a própria pergunta? Ou, então, fazê-la transportar uma transcendentalidade que não possui?... O que é mais importante, portanto, não é a questão "POR QUE PAIDÉIA?", mas tudo o que nela convoca o pensar e o dizer: se o passado, se o presente, se o futuro. Pode-se dizer, ainda, se a essência ou a existência, se a potência ou ao ato, se a filosofia ou a política, se a palavra ou a coisa... Se, se, se... quer dizer, tudo acontece. Principalmente se não passar pelo sentido. Inequivocamente, porém a ausência na cidade de lugares públicos adequados para a voz e o ouvido humanos, para a mão que afaga, para o olho que identifica o belo, para o corpo cansado e para a mente embaralhada apascentar-se, convoca-nos para uma reflexão sobre a cidade como a grande estância pedagógica... Por tudo isso POR QUE PAIDÉIA?.


.1.

Paidéia: a formação do homem grego é o título do livro de Werner Jaeger, [05] de onde nos veio a idéia de denominar POR QUE PAIDÉIA? ao presente trabalho. Insinua-se uma oposição a Jaeger? Sim, talvez! A coisa ainda está por vir e deve ser dita em "mil e uma noites", e cada resposta apenas no dia seguinte. "Viver é perigoso", alerta-nos Guimarães Rosa. Alguma dúvida? Basta olhar para a Cidade. Um dia muito especial e para mim triste olhei para minha cidade, Vitória, quando passava pela Terceira Ponte (bela paisagem), sentido Vila Velha-Vitória, pensava no Amor que eu perdia, que deixava para trás, e que muito doía. Disse para mim mesmo: "Eu sempre amei minha mulher porque acreditava em nós dois. Mas não havia como nessa Cidade ela saber disso". Que desconsolo! E agora que inevitavelmente tudo acabou só me resta, para a saúde de minha dor, cantar como Jota Quest, celebrando minha consciência:

Eu sempre acreditei muito em nós dois

Primeiro em você, depois em mim...

Éramos nós.

Agora não somos mais nós. Agora somos apenas você e eu; um pra lá, outro pra cá... Agora que a tempestade passou, com a oportunidade que os Cadernos Camilliani me propiciou, tento entender esse divórcio entre "eu" e "ela" pelo divórcio entre mim e minha Cidade. Sei que o inferno foi os outros, e ainda são os outros. Que dizer contra tal canibalismo? Que fazer? Viver numa Cidade não deveria dizer justamente isso: "Não desejar a mulher do próximo"? Não é isso, entre muitas outras coisas, que entendemos por religião? Pelo que sei fazem isso não só quando o marido fracassa; fazem-no fracassar. Por quê? Não é difícil imaginar os "bons" conselhos e presentes recebidos e a conveniência da recepção... Tudo se troca muito facilmente e tudo se vende muito barato! Que perversidade é essa? Angustia-me, portanto, saber, como colocou o falecido Cornelius Castoriadis e como nos lembra o vivo Zygmunt Bauman, que o problema com a nossa cidade (Bauman fala "com a nossa civilização") é que ela parou de se questionar. Apesar de Auschewitz, que loucura! Como então esperar encontrar respostas para os dilemas que a aflige, que nos aflige? Como encontrar respostas? – certamente não antes que seja tarde demais e quando as respostas, ainda que corretas, já se tornaram irrelevantes. Irrelevantes já se tornaram, por exemplo, o Amor, a Fidelidade, a Honra (grandes conceitos civilizatórios atualmente vazios); e, se a ausência de sentido nas relações humanas assusta, enlouquece e mata, como entender a excitação prazerosa que dá em toda essa gente que se tornou juiz ou má-consciência? Com efeito, com POR QUE PAIDÈIA? o que pretendemos é recolocar as questões fundamentais para a cidade, a nossa Cidade, e para que nossos amores não sejam líquidos e assim caibam em qualquer vasilhame ou frasco, pois que adquirem a forma de qualquer recipiente financeiro pragmático e jurídico ou de perversões e taras sexuais que convierem aos proxenetas de plantão. Contra tudo isso, resta-nos apenas as idéias que temos de uma Cidade. Evidentemente a idéia não nos veio gratuitamente, e, de certa forma nela, residem invisíveis muitos elementos biográficos que não cabe aqui narrar. Afinal, vivemos na cidade desde criança e seus fantasmas sempre nos perseguirão. São nossos fantasmas, e nem sempre são camaradas. E se nos pega a questão por que "um termo grego para exprimir uma coisa grega" como título e tarefa? As épocas, as coisas, os homens, as medidas, os lugares não são totalmente diferentes? De imediato, que dizer? Digamos simplesmente em resposta, por ironia. Quer dizer, o título POR QUE PAIDÉIA? confere-nos algo assim como que uma espécie de reconhecimento (renascimento, restauração, reconstrução) de todos os "presentes de grego" que recebemos da história da Humanidade. E o que isso significa? Parafraseando Henri Lefebvre, [06] podemos dizer que isso significa que a ironia, (método educativo de Sócrates),

"aparece nos períodos agitados, perturbados, incertos, quando as pessoas consagram-se a importantes negócios, quando o futuro depende de grandes decisões, quando grandes interesses estão em jogo e os homens de ação empenham-se sem reservas na luta".

Então, o grande ironista aparece "para sustentar um papel, usar uma máscara, dizer o falso (e que ele sabe falso) para chegar ao verdadeiro". Com ele, diz Lefebvre, aprendemos que "o caminho da verdade passa ainda pela dissimulação e, pior ainda, pela derrota". -- E não é verdade que em toda "boa causa" derrotada descobrimos as falsas crenças, os amores iludidos e os erros que também as fundamentavam? Mas, digamos, "o descobrimento das falsas crenças, dos Amores iludidos, dos erros", concordando com Lefebvre, "segue estes desvios: simulação, ficção, paciência, espera, reserva lúcida, fracassos da verdade e da vontade do verdadeiro". É preciso então (diante de um inevitável niilismo) Amor, Fidelidade e Honra para seguir em frente. Por essa razão todo ironista, tal qual comoSocrates, tem a confessar que "nunca a fome o rebaixou a ser lisonjeador". Por isso sempre há ou haverá um problema; em uma amizade que seja. Em um amor, nem é bom pensar! Como observou Bernard Shaw: "Existe duas tragédias na vida, uma delas e não conseguir o que o seu coração deseja; e a outra é conseguir". Mesmo porque, como se diz, todo mundo é virtuoso sozinho, para pecar são necessários no mínimo dois. No mais, todo final é arbitrário e geralmente se fixa a preços totalmente irrisórios. E não foi porque Sócrates se tornara amigo de Alcebíades que lhe instauraram, em 399 a.C., o processo de assedia, alegando que corrompia a mocidade e introduzia novos deuses? Teria podido fugir do cárcere, é verdade, mas não o fez, porque a sua voz interior, o seu demônio, lhe proibia ser infiel à tarefa que lhe foi confiada pelo deus délfico, de se provar a si mesmo e aos seus cidadãos. [07] Fica claro que para o grande ironista todos os problemas e todas as condenações apontam para outros limites, outras possibilidades, outras perspectivas. A tragédia não assusta, e a morte, fim de todos os limites, tranqüiliza. Sim, Sócrates ironizava o poder da cidade ao aceitar passivamente beber a taça de cicuta, e o faz tranqüila e placidamente, dizendo depois de ter ingerido a última gota do mortal líquido: "Devo um galo a Esculápio", quer dizer, aceitava a morte como uma espécie de cura e não de castigo. Mas antes de ingerir a primeira gota disse em sua defesa:

"Como, tu, meu estimadíssimo cidadão da cidade maior e mais notável pela cultura do espírito, não te envergonhas de trabalhar, para encheres o mais possível a tua bolsa de dinheiro e de adquirir glória e honras, e não te importas com os princípios morais, com a verdade e a elevação da tua alma, não empregando nisso o mínimo cuidado".

E não é justamente contra toda injustiça ou condenação moral que Plutarco [08] se insurge ao lembrar-nos a resposta de Diógenes à questão: "Como me defenderei contra meu inimigo?" Resposta: "Tornando-te tu próprio virtuoso". E é sempre assim, nos períodos de maiores dificuldades o ironista recolhe-se em si mesmo, por certo tempo, habita solitariamente as grandes altitudes e as grandes depressões. Exige princípios morais, exige o amor, a verdade, a elevação da alma; e só encontra solidão. Onde está o Amor? A mais negra solidão. Qual o valor do Amor? Talvez chore. Talvez sofra. Talvez gema de dor. Talvez grite. Quem saberá? Talvez somente o eco que brota de seus vales e labirintos interiores compartilhe de seu solitário sofrimento. Como saber? Sim, em sua dor e em seu sofrimento o ironista, depois do primeiro impacto, jamais incomoda ninguém. São seus momentos mais particulares, e mais desertos. É neste tempo, porém que ele se recupera e afirma-se. A dor o orienta e o guia, pacientemente. Ou seja, ouve o conselho de Plutarco:

"Sonda o âmago de tua alma, examina tuas falhas, para não te expores a ouvir dizer baixinho, por algum vício oculto não se sabe onde em ti mesmo, este verso do poeta trágico: Queres curar outrem, quando regurgitas de úlceras.".

Com efeito, conclui Plutarco:

"Nada seria mais vergonhoso nem mais mortificante que ver recair sobre si a censura que se teria feito a outrem; mas os olhos fracos parecem feridos mais vivamente pela reverberação da luz, e os acusadores pelas acusações que a verdade faz recair sobre eles".

Assim é que se recupera e afirma-se o ironista. Mesmo porque, em sua dor e em seu sofrimento, o ironista não trai o seu amor porque sabe como observou muito bem Adorno: "Quem amou e traiu o amor faz mal não só à imagem do passado, mas ao próprio passado". [09] E quem assim o fez não deixa para traz nenhum feito relevante como exemplo ou lição. Está convicto o ironista de que não ama quem só está acostumado a tomar por modelo de relações humanas a troca de 12,80 reais por um bife de 750 gramas. É por essa razão que, depois de ter sido depurado por sua dor e sofrimento, o ironista volta-se para fora e para o público mais que pronto para o interrogatório, para enfrentar todas as acusações, para sofrer ou corrigir as injustiças, e, assim, com um riso irônico nos lábios, [riso que, afirmam os sábios – de Demócrito a Elias Canetti –, lembra-nos Roberto Romano, "demonstra a superior maestria contra aqueles que (muitos) desprovidos de sentido para o humor, sempre se mostraram desconfiados perante a vida e o pensamento" e o julgaram com leviandade, pressa e vilania, e, principalmente, para aqueles que, além disso, o aconselharam a partir, a evadir-se, a fugir], ele diz "dê-me o cálice de cicuta", mas, primeiro, observa com satisfação Lefebvre, "ele interroga os atores para saber se eles sabem exatamente por que arriscam suas vidas, a felicidade ou a falta de felicidade, sem contar a vida, a felicidade ou a infelicidade dos outros". Se eles sabem bem o que representam e qual o jogo de que participam. Se eles já se deram ao trabalho de terem contados os custos implícitos em certas escolhas. Se eles pensam em alcançar ou julgam que já alcançaram a felicidade com aburguesamento e acanalhamento da vida. Se eles sabem que assim morrem duas vezes: a primeira quando deixam de viver, a segunda, quando a lembrança de suas existências depois de alguns dias de luto familiar se reduzem a uma cruz cravada na sepultura e a uma data nelas talhadas, significando que o valor que eles atribuíram ao seu Eu para trair o amor era ilusório e vão. E mesmo assim, não por merecimento, mas por misericórdia. E implicitamente, para o ironista, ali estará a inscrição: "Aqui jaz fulano de tal... e sua importância". E a sepultura será para estes, como a própria vida foi até então, um bom lugar privado. Como muito bem disse os versos de Marwell A sua amada recatada (To his Coy Mistress"):

A sepultura é um bom lugar privado

Mas nela, creio, ninguém é amado.

De que vale viver assim para ser esquecido? E morrer assim, tão miseravelmente? Para os que se contentam com a vida burguesa, a felicidade é negada (mesmo quando, como agora, já não há mais felicidade). E porque no aburguesamento da vida não há mais felicidade? A felicidade é, disse Freud, "a gratificação ulterior de um desejo pré-histórico", ou seja, um desejo infantil. Eis a razão pela qual, ele acrescentou, "a riqueza proporciona tão pouca felicidade: o dinheiro não é um desejo infantil". Nem um desejo original. Mesmo porque, gosto de citar Bachellard, "Só podemos compreender e amar aquilo com que sonhamos um dia". Por essa razão, no mundo atual mais que nunca antes, a (in)felicidade é deixada aos que, nessa vida, já são sombras, e para os quais vale a expressão de Píndaro: "seres efêmeros". Vale, para uma perfeita ilustração do que estamos dizendo, a observação de Marcel Conche:

Sabe-se o duplo destino que se oferecia a Aquiles: "Se fico combatendo aqui em torno da cidade de Tróia, perdido está o meu retorno; em compensação, uma glória imperial me aguarda. Se, ao contrário, volto à terra da minha pátria, perdida está minha nobre glória; uma longa vida, em compensação está me reservada" – uma longa vida feliz. Aquiles conhece a tentação do retorno. Ele se lembra que pensou muitas vezes em levar, na sua Ftia natal, uma vida tranqüila: "Meu coração com freqüência me incitou a lá tomar como legítima esposa e companheira a que conviesse à minha posição, a fim de desfrutar depois, tranqüilo, os tesouros do velho Peleu". Nesse momento de nostalgia, ele diz que "nada se compara à vida", que a vida de um homem não se volta a encontrar. Como o herói está plenamente consciente do que está "perdendo", de todas as alegrias que não terá, sua escolha é ainda mais rica de sentido. De um lado, a felicidade, do outro, a grandeza, o fecundo sacrifício de si mesmo. Porque o herói não é feliz: Aquiles tem medo, geme, chora, "e a idéia de sua vida demasiada breve" não o abandona. Mas a vida das pessoas felizes, que encontra seu fim em si, não deixa marcas para o futuro. "Felizes"? Pois bem! Mas elas logo serão como nunca haviam sido. O poeta (Homero, em a "Ilíada") canta a cólera de Aquiles ante as muralhas de Tróia; não canta a paz de uma aldeia em férias. Entre a insignificância e o sentido, é preciso escolher?

O ironista escolhe o sentido. Ele conhece bem o perigo e o tempo que dura às ameaças; ele possui "a antena do caracol"; escolhe, portanto, o sentido, deixa a insignificância para quem se compraz com ela. Escolhe o sentido porque, como diria o nosso poeta antropofágico Oswaldo de Andrade, "a alegria é a prova dos nove". Quer alegria maior que a realização de um grande feito? De uma grande obra? Ter seu nome inscrito na posteridade? De viver a fidelidade a um Amor apesar de? Agora, quanto à tão sonhada e decantada felicidade, como insistia Hegel em suas aulas sobre a filosofia da história universal, "a história não é o palco da felicidade; nela, os períodos de felicidade são páginas em branco". Esta é a razão para as grandes causas da história da insensatez e dos desatinos em nome da felicidade. Daí o desprezo de Aquiles para com a vida feliz, mas sem glória. Queria escrever seu nome na história da humanidade; a vida feliz era o único perigo real. O caracol, portanto, é o grande signo do presente texto. E isso nos leva a uma rápida digressão e responde a uma provocação risonha "por que um caracol como símbolo de POR QUE PAIDÉIA?, é preciso que se diga isso?". Pois bem, foi em "notas e esboços" da "Dialética do Esclarecimento", de Adorno / Horkheimer que encontrei algo "Sobre a gênese da burrice" que propunha o caracol, "a antena do caracol", como símbolo da inteligência. E essa é a nossa razão. Então, se pensarmos como Deleuze, que "aprender é, de início, considerar uma matéria, um objeto, um ser, como se emitissem signos a serem decifrados, interpretados", a conclusão inevitável é que "não existe aprendiz que não seja "egiptólogo" de alguma coisa". Conseqüentemente, duas questões insistem em se desprender. Com naturalidade. A primeira diz respeito à preocupação de: "por que um termo grego, de uma coisa grega" para designar um texto a ser publicado em uma revista pedagógica que sirva de base para reflexões sobre a cidade e dirigido a alunos e a profissionais de Direito, de Pedagogia, de Psicologia, de Administração etc.? E ao mais fundamental, ao Povo em geral. Em outras palavras, POR QUE PAIDÉIA? se depois dos gregos o jogo mudou, e a cena e a regra do jogo? A segunda atende à provocação do por que o caracol como símbolo e ilustração? Com efeito, para atender essa dupla solicitação de esclarecimento, volta-se então para fora o ironista e, pela paradoxal linguagem da graça, como Abraão recebeu de volta a vida do filho Isaac, ele recebe a sua e conquista tudo aquilo que prometera ao deus-délfico.-- Platão tinha razão, somente "aquele que o amor não toca, caminha na escuridão".


Autor

  • Walter Aguiar Valadão

    Professor universitário. Bacharel em História (UFES). Pós-Graduado "lato sensu" em Direito Público (UFES). Mestre em Direito Internacional pela UDE (Montevidéu, Uruguai). Editor dos Cadernos de Direito Processual do PPGD/UFES.

    Textos publicados pela autora


Informações sobre o texto

Como citar este texto (NBR 6023:2018 ABNT)

VALADÃO, Walter Aguiar. Por que Paidéia? Por um direito à cidade. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 16, n. 2937, 17 jul. 2011. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/19572. Acesso em: 23 jul. 2019.

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