Sou de um tempo em que não se brincava muito com a educação; de um tempo em que a educação pública já não era grande coisa, mas ainda havia uma esperança no fim do túnel do descaso do Poder Público.

Parte de minha educação foi na escola pública, nas séries iniciais; depois, quando a coisa avacalhou um pouco mais, meus pais em bom juízo me levaram para a educação privada. Não era a melhor escola da cidade, mas era compatível com o salário de professora na rede pública – onde minha mãe se aposentou – e com as retiradas de um pequeno comerciante: meu pai tinha uma pequena loja de aparelhos de som para carros, na Rua Coronel Galdino. Íamos sempre para lá, meu irmão e eu, e enfrentávamos uma Coca-Cola com pastel, no bar da frente. O artigo não é de nostalgia, apenas um grito pelo direito à educação de qualidade.

            Enfim, estudávamos de manhã e à tarde sempre tínhamos lição de casa; ao final todos saiam para a rua, brincar, na Avenida Santo Antônio (imagine atualmente) ou, então, praticar algum esporte em clubes ou escolas esportivas. Foi neste clima que, aos 16 anos fomos apresentados ao Manifesto do Partido Comunista pelo velho pai que, entre uma pescaria e outra, debatia política e ideologia (hoje diria que era filosofia política) com filhos e sobrinhos. O mais interessante é que ele nos falava de Leonel Brizola, Luís Carlos Prestes e Graciliano Ramos com intensa familiaridade. Recentemente, um primo descobriu que há uma ficha sua no antigo DOPS.

Saturnino Martinez, meu pai, estudou até a antiga quarta série do primário, mas em hipótese alguma e o leitor já sacou isso, nem em sonho horripilante ou em brincadeira infame, diria que a Popozuda do Funk é uma referência da mais antiga e nobre das ciências humanas. Meu pai nunca leu Marilena Chauí, por exemplo, esta sim a maior das filósofas brasileiras – eu mesmo só fui conhecer um pouco de seus textos na faculdade. Aprendi o que era a modernidade clássica somente quando li o breve ensaio Política cultural (Porto Alegre : Mercado Aberto, 1984): “No século XIX, em Paris [...] Urbanizar significava construir grandes e largas avenidas, largos espaços abertos por onde os carros militares podiam trafegar rapidamente e sobretudo tornavam impossível construir barricadas [...] Uma das características da sociedade contemporânea [...] é a privatização de nossas vidas, isto é, o isolamento dos indivíduos [...], a impessoalidade dos lugares [...] Toda uma arquitetura se colocou a serviço dessa privatização e desse isolamento entre as pessoas” (p. 12-13).

É óbvio que a professora da USP não se equipara a outras filósofas, como Hannah Arendt. No entanto, é das mulheres mais brilhantes que o país já produziu, ao lado de Maria Victoria Benevides (na Ciência Política – e também da USP). Não sei onde este professor se formou – nem quero saber, para não alimentar um preconceito maior –, contudo, seja onde for, deverá ter sido apresentado às especulações da filosofia clássica. Também deverá conhecer, mesmo que minimamente, a música popular brasileira. Portanto, não é desculpável que um professor – ainda mais do ensino público – venha a citar qualquer construção mental desta “pensadora do Funk”, para ensinar filosofia. Porque não falou de Adoniran Barbosa ou Vinícius de Moraes? Se o tal professor prefere outro gênero, poderia trabalhar com Chico Buarque (a novela Fazenda Modelo é extremamente válida para os dias atuais de Estado de Exceção Permanente e Global) ou Ariano Suassuna e os mitos mantidos vivos pelo cordel brasileiro. O país é recheado de bons artistas; não precisava apelar.

            Resolvi escrever sobre o tema, mesmo já sendo passado o assunto, porque alguém puxou a conversa e aventou o drama de que esta prosa com Popozuda agora ocupa as discussões em faculdades e universidades. Quer dizer que temos outros professores levando o assunto ainda mais a sério. Bem, eu mesmo levei a sério, pois, se me dou ao trabalho de gastar meu tempo com esta tolice, é porque fiquei incomodado. Fiquei realmente incomodado, mas não com a Popozuda – que nem saberá o que é filosofia política clássica –; mais chateado fiquei com o professor de filosofia que não conhece filósofos de verdade.

            Este artigo, certamente, não será indicado para o prêmio de politicamente correto – inclusive porque nunca embarquei nesse papo furado de que devemos reconhecer os erros de português, a falta de concordância (da lógica, portanto), a confusão entre adjetivo e substantivo, e tanto quanto se queira. Esta é a pior mentira que poderiam ter-nos contado. Aliás, uma mentira travestida de bondade ideológica que só faz agravar a clivagem de classe e de acesso ao mundo da vida e da cultura. As crianças e os jovens afortunados aprendem um português quase castiço – com perfeita articulação lógica entre sujeito e objeto – e é isto que lhes abrirá o sucesso na vida pessoal e profissional. Não se enganem: os erros serão destacados na primeira entrevista que o jovem pobre e mal alfabetizado fizer. O pior inimigo ideológico das classes subalternas brasileiras não é a filosofia elitista representada por Chauí, mas sim este engano de cultura popular que tem uma bunda polpuda (popozuda) por referência intelectual.



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