O presente artigo tem por escopo apresentar o sétimo capítulo da obra Além do bem e do mal, intitulado de As nossas virtudes, de Friedrich Nietzsche.

As Nossas Virtudes – análise do sétimo capítulo da obra Além do bem e do mal de Friedrich Nietzsche

Resumo

SOUZA, Rubin A.S. As Nossas Virtudes – análise do sétimo capítulo da obra Além do bem e do mal de Friedrich Nietzsche. 2010. Programa de Pós-graduação em Direito/Mestrado. Universidade Federal de Santa Catarina.

O presente artigo tem por escopo apresentar o sétimo capítulo da obra Além do bem e do mal, intitulado de As nossas virtudes, de Friedrich Nietzsche. Busca-se esclarecer os pontos suscitados pelo autor, desde a crítica à moralidade tradicional aos modelos utilitaristas, democráticos-igualitaristas. Procura-se também afirmar a sua posição quanto a argumentação em favor de novos valores necessário, quais sejam, a veracidade, a honestidade e a responsabilidade, sustentando-se, aí, o não niilismo moral da proposta filosófica do autor.
Palavras-chaves: Moral. Honestidade. Veracidade. Responsabilidade. Utilitarismo.

Introdução

A filosofia de Nietzsche é comumente referida como uma severa crítica à moralidade tanto antiga quanto moderna. O autor não faz menos pela sua fama. O estilo incisivo, grandiloquente e carregado de dramaticidade traz consigo essa aparência a sua teoria. Consequentemente, Nietzsche é muitas vezes aludido como um autor que não oferece nenhuma contribuição para a moralidade, um cético niilista, amoral, e até imoral - considerado apenas um ‘destruidor’ da tradição.
No capítulo que se propõe analisar este trabalho, o capítulo sétimo da obra Além do bem e do mal, Nietzsche demonstra que essa acusação é um preconceito, uma ‘imbecilidade’. O capítulo referido trata das ‘Nossas virtudes’, as virtudes que, segundo o autor, restaram após a sua crítica.
Primeiramente este trabalho procura apontar aqueles valores considerados pelo filósofo como negadores da vida, ou os valores dos ‘escravos’. Nos primeiros aforismos do texto supracitado, contrapõe-se a uma série de modelos de moralidade. Tais são expressos como os valores da moral religiosa, a compaixão e o utilitarismo inglês, isto é, as concepções consideradas como niilistas, mecanicistas, superficiais, igualitaristas, democráticas. Desta forma, o autor opõe-se enfaticamente às concepções populares, por ele chamadas de atitudes de espíritos tacanhos que procuram a igualdade de todos para, desta forma, domar os nobres e os fortes. Dentre esta crítica destaca-se também o rechaço que faz à política feminista, tida como uma ação contra a própria mulher, que procura a igualdade de direito e deveres.
Em um segundo momento, este trabalho trata, então, de expor quais são os valores remanescentes das marteladas. Tais valores são referidos no capítulo em tela e são considerados aqueles necessários para sustentar uma liberdade de crítica não leviana: a veracidade, a honestidade e a responsabilidade.

1. Crítica às virtudes

A obra de Friedrich Nietzsche marca a chamada passagem da modernidade para a pós-modernidade. (Vide Dicionário Herder, verbete ‘Nietzsche’ in RIU, 1996) Como tal, sustenta-se a contestação aos valores da época das ‘luzes’: a objeção ao racionalismo e à metafísica moderna, especialmente kantiana e hegeliana. O fim da metafísica para o autor ocorre, nesta medida, pela superação dos valores legados por essa tradição – a liberdade subjetiva, a autonomia ética e a razão científica. Tal superação é compreendida como vontade de poder e criação de novos valores, para além da moral, do bem e do mal perseguidos pera razão especulativa e prática dos modernos, para uma compreensão da condição através da tragédia. Dá-se, assim, uma renúncia à racionalidade, ao conceito de razão metafísica articulada com a crítica da moral, a qual é tida como uma máscara que esconde as condições e circunstâncias em que se põe no palco da vida. Consequentemente tais objeções também são estendidas à formação do Estado e do Direito moderno.
Neste sentido, Nietzsche, nos primeiros aforismos da obra Além do bem e do mal, expressa sua crítica ao dogmatismo platônico (considerado a fonte da tradição moral ocidental) e a sua luta contra a postura eclesiástica. Além – contrapõe-se ao atomismo materialista, aos juízos sintéticos a priori de Kant, à sistematicidade da filosofia, às noções idealistas, metafísicas e morais do sujeito (a noção de eu, sujeito e alma) de Hegel e as concepções democráticas e socialistas emergentes da época e, essencialmente, o moralismo utilitarista/positivista de Bentham.
Vencidas essas críticas, a partir do sétimo capítulo da obra, objeto específico deste trabalho, Nietzsche expõe aquilo que chama dos valores dos filósofos do futuro. Para tanto, o autor insere algumas considerações acerca dos valores tradicionais ditos por ele superados. Tais valores estão descritos não sistematicamente, mas são expressos como os valores da moral tradicional, tais como a moral religiosa, isto é, o cristianismo, a compaixão, o utilitarismo inglês e, principalmente, o igualitarismo, expressos como democracia e política feminista.
Segundo Clademir Araldi, Nietzsche mesmo reconhece que a obra Além do bem e do mal é uma crítica a moral. Nas palavras do professor (ARALDI, 2008, p. 38)
Como ele próprio reconhece, Além do bem e do mal é uma crítica abarcante da modernidade. Seguindo a mesma estrutura formal de Humano, demasiado humano, o filósofo solitário vincula a crítica da metafísica à crítica da moral, que adquire uma maior amplitude, ao propor o ‘único’ questionamento radical da moral até então. A crítica da moral é a instância central para o ‘ataque’ a todas as esferas normativas da modernidade, no direito, na sociedade, na religião e na cultura como um todo.
Contudo, essa crítica à moral moderna não vem desacompanhada, mas surge através dela os valores para uma filosofia do futuro.

1.1 As virtudes modernas

No primeiro aforismo do sétimo capítulo, Nietzsche prescreve como se devem buscar as novas virtudes. Segundo o autor, se devemos possuir alguma virtude, tem-se que buscar aquelas que melhor acordam com nossas inclinações e necessidades. Contudo, alerta o autor, não se deve proceder em tal busca como os antigos, como na tradição de se ter uma ‘boa consciência’, pois tal seria já uma forma de manutenção dos valores. (NIETZSCHE, 2005, p. 110) O autor descreve, como parte dessa postura contraditória, como parte dessa ‘consciência’ da modernidade, uma espécie de pluralismo resultante do homem moderno, uma forma de relativismo, onde não se possui apenas uma moral, mas há a formulação de ações multicolores, determinados pelas diversas formas de interpretação moral. (NIETZSCHE, 2005, pp. 110 e 111)
Após estas primeiras considerações, no aforismo 216, o autor analisa a moral puritana. Nietzsche faz uma referência à máxima evangélica do amor ao inimigo.  Segundo o autor, tal máxima acarreta em um desprezo – o amor leva ao desprezo inconscientemente. Chega-se a desprezar quando amamos. Para Nietzsche, assim como para os modernos, desgosta-se dos valores da religião (tal como a hostilidade e amargura de Voltaire frente à religião), e também a moral moderna vai contra o gosto das novas virtudes expressas pelo autor, constituindo, este mau gosto, em um progresso da sua filosofia, resultantes precisamente da máxima evangélica de amor aos inimigos. (NIETZSCHE, 2005, p. 111)
Dentre estas concepções antigas de virtudes oriundos desse desprezo, Nietzsche acerca-se dos valores legados à modernidade - da vingança predileta dos espíritos tacanhos, o julgamento moral dos menos tacanhos, do louvor do desinteressado, do altruísmo, da piedade e dos disfarces, do uso deliberado da história por parte do plebeu como espécie de guarda-roupa, disfarce moral. Tudo são estratégias de controle psicológico e social oriundos desse mal estar moderno da moral puritana.
No aforismo 219, o autor trata da espiritualização da maldade dos chamados espíritos tacanhos. Para o autor, a vingança predileta destes são os julgamentos morais para os que são menos tacanhos. Isto seria uma fórmula deles mesmos se tornarem menos avaros, de obterem espírito e tornarem-se finos. Para este, agrada-lhe a ideia de padrões morais, os quais ponham em igualdade os bem dotados e privilegiados. Eles lutam pela igualdade de direitos e igualdade perante deus. São os maiores adversários do ateísmo. (NIETZSCHE, 2005, p. 212)
Quanto à moral do desinteressado, o autor sustenta uma hipocrisia e dissimulação da mesma. Os homens vulgares fingem desinteresse justamente para não serem descobertos na sua vulgaridade e mediocridade da vontade. Para Nietzsche, nesse ponto trata-se de investigar qual, ou quais, são os interesses destes, e quais são os problemas que o homem vulgar se preocupa. Com isso, verificar-se-ia que o que menos interessa à vulgaridade é aquilo que mais interessa aos homens de espírito superior. Também aquilo que é tido como mais alto valor pelos homens superiores não é considerado como valoroso pelo homem médio.
Por fim, o autor trata do altruísmo e do seu problema sucedâneo, a compaixão. Esta, segundo Nietzsche a última religião, sempre exige algo em troca, nem que se busque posteriormente o seu prêmio, disfarçadamente. A compaixão, ainda, é afirmada como autodesprezo dos pregadores do altruísmo e da piedade – o homem das ideias modernas, descontentes consigo mesmo. Para o autor, aí está a fonte da obscuridade da Europa. (NIETZSCHE, 2005, p. 114) Nota-se, aqui, a implícita referência que Nietzsche faz a Schopenhauer, especificamente à terapia filosófica da ascese pela compaixão.
Para Antônio Edmílson Paschoal, a moral da compaixão em Nietzsche é um tipo que se põe em oposição à vida, à natureza e ao mundo. Pode-se defini-la como inimiga da vida. Tal age por uma inversão dos valores, geradores de um cansaço da vida, de um niilismo. (PASCHOAL, 2009, p.105)
 A partir daí, desse puritanismo evangélico da compaixão, do desinteresse e da dissimulação, é que o homem moderno utilizou-se da história para mascarar sua origem não nobre: procurou adaptar tudo, constituindo uma espécie de disfarce moral. Para Nietzsche (2005, p. 115), a Europa foi precipitada pela mistura democrática de classes. Isso acarretou na justaposição e todas as formas de viver, todas as civilizações do passado desembocaram na modernidade. Por isso, os instintos refluem em todas as direções e assim tem-se um acesso incompleto a todas as épocas, o que demonstra também um instinto não aristocrático e uma submissa curiosidade plebeia à história: sem qualquer profundidade intelectual, a história foi encilhada pela vontade de se justificar. Ocorre que, em decorrência da superficialidade daí resultante, a modernidade é marcada por sua concepção mecanicista de Estado, Direito e sociedade.

1.2 As virtudes do igualitarismo utilitarista e da política feminista

Conforme Paschoal (2002, p. 63) a modernidade, em decorrência da concepção mecanicista de mundo, tornou-se, no utilitarismo, a forma mais elevada de mundo. Assim, na modernidade, face ao automatismo de tudo, inclusive das normas morais, houve a domesticação do homem. Nas palavras do autor (PASCHOAL, 2002, p. 63):
Na modernidade, em decorrência da concepção mecanicista de mundo, que tem nas leis da natureza uma espécie de determinismo, a lei moral foi colocada para o homem como algo dado, anterior a ele, em relação à qual seu campo de possibilidade estaria reduzido a agir de acordo ou em desacordo com ela. Trata-se da moral do “sujeito livre”, que tem por pressuposto o “querer livre” e a responsabilidade associada às intenções, da moral do “melhoramento do homem” (da sua domesticação), que se associa a conceitos como “culpa”, “castigo”, “pecado”.
Um tipo de moral que coloca, numa oposição necessária à disposição/prazer, por um lado e o dever, por outro, e que produz um tipo de existência monótona, preenchida pela “atividade maquinal”, pelo “cumprimento maquinal do dever”, muito próprio ao “último homem”, que é apresentado por ela como a forma mais elevada de vida.
Nesse sentido, a partir do aforismo 225 (2005, p. 117), Nietzsche trata das maneiras de pensar que medem o valor das coisas pelo prazer e pelo sofrimento que elas proporcionam, isto é, da ideia mecanicista do modelo proposto pelo utilitarismo. Diz o autor que tais formas de pensar são superficiais e enfadonhas e oriundas exatamente da concepção mesquinha do puritanismo descrito nos aforismos anteriores.
Trata-se da filosofia de Bentham e dos utilitaristas ingleses. Estes seriam um exemplo de filosofia enfadonha: nada de pensamento novo, nenhuma variante, nenhum desenvolvimento de um pensamento antigo, nem sequer uma verdadeira história do que se pensou no passado. Segundo Nietzsche, o que os moralistas ingleses querem não é a universalidade da moral, mas que se de razão à moralidade inglesa, isto é, a história como instrumento de justificação. A felicidade, assim, não seria a da maioria, mas a felicidade da Inglaterra, isto é, não querem conhecer um bem-geral, mas apenas provar seus valores. Nietzsche afirma, ainda, que estes são os tipos mais modestos de homem, os mais medíocres e enfadonhos. (NIETZSCHE, 2005, p. 228)
Dentre essa concepção utilitarista encontra-se a tentativa dos filósofos de, através da simplicidade, assemelhar o antigo ao novo. Simplificar o complexo e desprezar o contraditório, o que irrompe para a ignorância. Uma espécie de estado de defesa. Uma aprovação da estupidez. Tem-se aqui uma prontidão em iludir outros espíritos e mascarar-se perante eles. Para Nietzsche, todo o pensador corajoso combate essa máscara, a capa da superficialidade. Ele quer conceber as coisas profundas, múltiplas e essenciais, isto é, uma espécie de crueldade  de consciência e do gosto intelectual que preza pela disciplina rigorosa e por palavras rigorosas. E esta postura se dá por uma resistência desse novo filósofo em aceitar conclusões prontas, respostas a perguntas escolhidas e pré-formuladas, convicções que conduzem a uma estupidez. (NIETZSCHE, 2005, pp. 123 e 124)
Nesta estupidez e superficialidade esconde-se a ideia de democracia e a ideia de igualitarismo, principalmente a questão da igualdade dos sexos e do feminismo, especialmente o feminismo moderno do utilitarismo. Para o autor, o fato de a mulher querer emancipar-se constitui um dos piores progressos no sentido do embrutecimento da Europa, assim como uma das causas do ‘rebaixamento’ da mulher e o abandono da sua ‘natureza’ para igualarem-se aos homens. (NIETZSCHE, 2005, p. 225)
Assim, nos últimos aforismos, Nietzsche trata da posição da mulher quanto a sua independência e quanto à política do feminismo. Os aforismos são de cunho extremamente depreciativos. Para o autor, a mulher não é apenas diferente do homem, não guarda apenas divergências culturais ou instintivas, mas é, isso sim, inferior ao homem. Segundo Nietzsche, a mulher não tem aquelas virtudes necessárias, as últimas virtudes, isto é, a honestidade, a veracidade - o buscar a verdade até as últimas consequências, a verdade de maneira estoica, não se importando se a mesma será contra o próprio filósofo. Para o autor, a mulher busca antes embelezar-se à verdade.
Os aforismos 234 ao 237 dispensam maiores comentários. Com tais parágrafos o autor apenas argumenta pela superficialidade da mulher. A mulher tem apenas um fim para o qual foi criada (sua primeira e última ocupação) – gerar filhos robustos. A mulher, para Nietzsche, não busca a verdade, pois a ela nada importa a verdade, sustenta o autor. (NIETZSCHE, 2005, pp. 127 e 128)
No aforismo 238 há a menção a ideia de igualdade entre homens e mulheres. Para o autor, o pensador que defende tal igualdade demonstra superficialidade, e um pensador que se mostra superficial neste ponto, superficial no instinto, será inepto para as questões fundamentais da vida. Ainda, igualdade, segundo o autor, acabaria com a identidade feminina. Acarretaria no desencantamento feminino, ‘a principal arma da mulher contra o homem’. Tal ideia está em consonância com o espírito democrático, que procura igualdade em tudo. Para Nietzsche, com isso a mulher se encontra em regressão, isto é, está em um progressivo enfraquecimento e embotamento dos instintos mais femininos. Nesse sentido, a mulher está contra a própria mulher. (NIETZSCHE, 2005, pp. 130 e 131)
Segundo Paschoal (2009, p. 106) é esta filosofia igualitarista, absolutista, que procura postulados universais e generalizações que representa um perigo para a vontade de poder, mais do que qualquer consideração anacrónica de misoginia. A forma como se dirige a todos, procurando afirma que o que é justo para um também deve ser para todos. Nas palavras do autor (PASCHOAL, 2009, p. 106):
Por meio dessa generalização, que é apenas uma estratégia empregada para assumir e desempenhar um papel de dominante, ela produz um esquecimento de sua realidade perspectiva e do fato de que ela é apenas “uma espécie de moral humana” (ABM, 202) (...) Na verdade, trata-se de uma estratégia que se explica por seu esforço no sentido da generalização, como um esforço por domínio de expansão, como é próprio à vontade de poder.
Enfim, vê-se que a crítica de Nietzsche, no capítulo em tela, obsta os ideais democráticos de igualdade, da mesma forma que repulsa as mudanças igualitárias dos gêneros. Verifica-se, assim, que todos os valores democráticos, utilitarista são refutados para a consecução de novas virtudes defendidos sob a égide de uma suposta superficialidade dos mesmos. O filósofo deverá estar atento, portanto, para que as novas virtudes, ‘as nossas virtudes’, não se percam por esses conceitos da moral moderna puritana, igualitarista, utilitarista e democrática.

2 A veracidade, a honestidade e a responsabilidade como novas virtudes

Concomitantemente, no mesmo sétimo capítulo da obra, Nietzsche postula valores dos quais o filósofo do futuro não deverá se furtar – a honestidade, a veracidade e a responsabilidade, isto é, o buscar da verdade de maneira estoica, mesmo se tal se voltar contra ele mesmo. Nesta busca, deve-se afirmar a honestidade e a responsabilidade perante ele próprio, o que, de tal forma, evitaria o niilismo da superficialidade moralista. Prova-se, assim, que o autor não está apenas refutando todos os valores modernos, mas reformulando as ideias de honestidade, veracidade e de responsabilidade como os valores sobreviventes à crítica da modernidade. Não se trata, portanto, de um imoralismo, ou um amoralismo, mas da sustentação de valores essenciais para essa nova postura de transvaloração de todos os valores.
Conforme Paschoal (2009, p. 53), com essas passagens do Além do bem e do mal, Nietzsche afirma uma superação do imoralismo. Para o comentador, a crítica de Nietzsche, assim, não pode ser confundida com uma ação inconsequente de exclusiva destruição niilista. Isso se torna claro quanto às características básicas de toda moral, em oposição ao laisser aller; “quando declara que a moral está entre as coisas que mais compensam serem levadas a sério; e também quando se refere à severa disciplina, necessária para levar a cabo se trabalho crítico.” (PASCHOAL, 2002, p. 55)
Ainda nas palavras do autor (PASCHOAL, 2009, pp. 55 e 56):
Mais importante, no entanto, do que alguns elogios à moral, perdidos em um mar de severas críticas, é a afirmação de que seu empreendimento de imoralista se dá por uma exigência da moral, porque também nele fala um “tu deves” por estar “envolto numa severa malha de deveres”, da qual não pode sair. Ele se encontra preso “por um duro destino” ao caminho aberto pela moral, e entende que esse caminho, que leva a um passivo niilismo, pode levar também ao desejo mais íntimo da moral de ser conduzida às suas últimas consequências, à sua auto-supressão.
A dureza que Nietzsche se impõe para levar adiante esse empreendimento, não é, da mesma forma, própria de alguém sem moral, mas de alguém que age por probidade, acatando o “imperativo moral da natureza” que diz: “dever obedecer seja a que for, por muito tempo...”
Por fim, o empreendimento crítico de Nietzsche se dá por responsabilidade. Não se trata, é certo, da reponsabilidade que se associa à falta, pecado e punição, e que corroboraria com a idéia da “moral das intenções” e do “sujeito livre”, que deve responder diante da lei por seus atos. Agir por responsabilidade significa, para Nietzsche, enfrentar o grande perigo que seria não se alcançar jamais “o supremo brilho e potência do tipo homem”. Portanto, é por entender o homem como “o animal ainda não consolidado” e porque seu crescimento não se dá apenas por um esforço da natureza, mas pressupõe a ação do homem sobre si mesmo, que Nietzsche se propõe agir neste campo. De outra forma, sua liberdade para a crítica de demolir, dificilmente se distinguiria de uma atitude leviana, de empurrar a moral para uma espécie de relativismo.
Portanto, segundo Paschoal (2009, p. 117), o primeiro passo na indicação de uma moral por Nietzsche pode ser dado pela análise das virtudes que requisita para seu trabalho crítico. Para o filósofo, o ceticismo e desconfiança dos valores morais exige uma outra moral, que se associa a algumas virtudes básicas: a veracidade, a probidade (honradez) e a responsabilidade.
Para Nietzsche, no parágrafo 226, trata-se de imbecilidade e das aparências acusá-lo de imoralidade. A afirmação de que os filósofos do futuro serão homens sem dever são preconceitos contra os mesmos. O novo filósofo, conforme Nietzsche, está tão envolto a valores que tal afirmação não passa de leviandade. Nas próprias palavras do autor (NIETZSCHE, 2005, p. 118):
Nós, imoralista! – Esse mundo que nos concerne a nós, no qual nós temos que temer e amar, esse mundo quase invisível e inaudível, de comandos e obediências sutis, um mundo de “quase” em todo sentido, espinhoso, insidioso, cortante, delicado: sim, confiante! Estamos envoltos numa severa malha de deveres, e dela não podemos sair – nisso precisamente somo, também nós, “homens do dever”! Ocasionalmente, é verdade, dançamos com nossas “cadeias” e entre nossas “espadas”; com mais frequência, não é menos verdade, gememos debaixo delas e somos impacientes como toda a secreta dureza do nosso destino.
Assim, a veracidade encontra-se como um dever moral do filósofo do futuro. Paschoal (2009, p. 117) esclarece que esta veracidade diferencia-se dos demais filósofos por não se deixar prender nas malhas da crença na verdade, mas a veracidade se coloca como uma exigência moral e, nesse sentido, não fundada pela dialética, pelo pragmatismo ou aprioristicamente. Não restaria outra opção ao mesmo, caso agisse de maneira diversa, se não ir ao próprio caminho do niilismo.
Nietzsche insere, após, seu próximo aforismo, 227, o qual afirma ser a honestidade um dos valores aos quais os ‘espíritos livres’ não podem escapar. A preocupação do filósofo dá-se, assim, para com uma virtude da qual não se pode libertar. Nietzsche pretende, então, trabalhar sobre ela. E deve-se permanecer nela, permanecer firme, assim como os estoicos, de forma que até mesmo as verdades inconvenientes não sejam maquiadas para uso próprio, da mesma forma como os espíritos democráticos a utilizam. Este espírito livre não poderá utilizar-se da história, da verdade para justificar suas concepções uteis. Terá, mesmo que de maneira cruel, afirmar o valor da honestidade. (NIETZSCHE, 2005, p. 119)
Para Paschoal (2009, p. 118), a honestidade (probidade) possibilita Nietzsche falar de um niilismo sem implicar em uma amoralidade. Alerta o autor que este imperativo da natureza não deve ser confundido com o imperativo categórico kantiano, mas condicionado às próprias possibilidades do homem de ir além de si mesmo.
Ainda Paschoal (2009, p. 118) enumera uma terceira virtude inserta no texto de Nietzsche: a responsabilidade: segundo o autor, esta afasta definitivamente a ideia de que a crítica constituiria uma espécie de relativismo. Esta responsabilidade está associada ao engrandecimento do tipo homem, como sinônimo de engajamento, ação e enrijecimento.
Enfim, afirma Paschoal (2009, p. 119) que sem estes valores Nietzsche não teria condições, liberdade, de criticar e demolir a moral tradicional. Sem estes, a sua objeção dificilmente seria distinta de uma atitude leviana. É nesse sentido que se torna essencial a compreensão do sétimo capítulo, estudado por nós nesse artigo – a filosofia de Nietzsche, por mais enfática e dramática que aparenta, não se restringe a um perspectivismo relativista infinito ou a qualquer tipo de niilismo moral.

Conclusão

Como visto, Nietzsche formula uma rigorosa crítica ao ideal democrático de sociedade. Para o autor, tal aspiração superficial mascara, ilude as verdadeiras intenções dos afirmadores do igualitarismo, qual seja, a dominar, e dominar principalmente ‘os mais fortes’, não se submetendo a uma hierarquia de valores. Dentre estes estão os chamados de ‘espíritos tacanhos’, típicos de uma sociedade democrática: um povo ‘muito feio’ que se utiliza discricionariamente da história para embelezar e mascarar sua condição plebeia. São tidos como medianos, superficiais. A moral da compaixão e do utilitarismo inglês seria uma expressão dessa ‘mesquinhez’, este que procura apenas a felicidade do próprio povo, mas, hipocritamente, prega a generalização dos seus valores para todos os outros povos.
Da mesma forma, observou-se a posição de Nietzsche quanto ao ideal político de igualdade entre homens e mulheres. Neste ponto, o autor mostrou-se absolutamente contrário aos direitos e garantias iguais. Para ele nada demostraria maior superficialidade nos instintos do que negar as enormes divergências entre homens e mulheres.
Por fim, conclui-se que a filosofia de Nietzsche não é apenas uma negação da moralidade, uma doutrina sem moral. A teoria do autor também postula valores para além da moral moderna puritana, considerados essenciais para a formulação da crítica à moralidade. São eles a veracidade, que evitaria o niilismo, a honestidade, isto é, o agir de forma estoica mesmo quando a verdade denuncia o próprio filósofo e a responsabilidade, considerada não como a responsabilidade no sentido kantiano, mas como uma fuga do relativismo separado do engajamento do homem consigo mesmo.

Referências

ARALDI, C. L. Nietzsche como crítico da moral. Dissertatio. Pelotas, nº 27 e 28, 2008.
AZEVEDO, V. D. Nietzsche e a dissolução da moral. 2. Ed. São Paulo: Discurso Editorial; Ijuí: Editora UNIJUÍ, 2003.
NIETZSCHE, F. Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
____________. Humano, demasiado humano. Tradução de Paulo C. de Souza. São Paulo, Companhia das Letras, 2000.
PASCHOAL, A. E. Nietzsche e a auto-superação da moral. Ijuí: Ed. Unijuí, 2009.
____________. Nossas virtudes. Indicações para uma moral do futuro. Cadernos Nietzsche. Nº 12. São Paulo, 2002.
RIBEIRO, C. E. O Para além de bem e mal de Nietzsche: a estratégia experimental da verdade-mulher. Cadernos de Ética e Filosofia Política – USP. Texto retirado do site: < http://www.fflch.usp.br/df/cefp/Cefp14/ribeiro.html>. Acesso em 20/07/2010.
RIU, A. M; MORATÓ, M. C. Dicionário de filosofia Herder. Multimídia Vilecer verso 2.00. Barcelona: Editorial Herde 1996.


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