Ao contrário da maioria dos filósofos que discorrem sobre o tema da mentira, suas definições e hipóteses, Nietzsche submerge a um nível mais profundo, negando a própria existência da verdade.

 Em Sobre a Verdade e Mentira, Nietzsche defende que no estado natural, e como forma de autodefesa e preservação contra outros indivíduos, artifício esse próprio daqueles menos desprovidos de força para lutar com “chifres e presas afiadas” (NIETZSCHE, 27), o indivíduo, por meio de seu intelecto, desenvolve, como base para suas principais armas de sobrevivência, a dissimulação[1], que, através do homem, apresenta-se por meio de diversas facetas como “o engano, o adular, mentir e enganar, o falar pelas costas, o representar, o viver em esplendor consentido, o mascaramento, a convenção acobertadora, o fazer drama diante dos outros e de si mesmo”, fatos este que resume como ”constante saracotear em torno da chama única da vaidade”, o qual afirma constituir “a tal ponto a regra e a lei que quase nada é mais incompreensível do que como pôde vir à luz entre os homens um legítimo e puro impulso à verdade” (NIETZSCHE, 27 e 28).

Agora, e querendo encontrar o tal primeiro e puro impulso humano à verdade, imputa à necessidade de um tratado de paz, na trégua na guerra hobbesiana - para que, então, o homem consiga satisfazer sua vontade (e espantar seu tédio) de viver e se autopreservar em sociedade, coexistindo socialmente com outros de sua espécie – o primeiro impulso à verdade. E isso ocorre apesar de, em seu estado natural, usar a mentira como meio de autodefesa e preservação.

Buscam, entre tantos outros desejos - por meio da vivência em sociedade e da consolidação de imposições, aceitas e efetivadas pelo homem, definidoras das coisas - se preservar contra os malefícios trazidos pela mentira e fruir dos benefícios da utilização da verdade, tornando-se indiferentes frente àquelas verdades que são neutras, as quais não efetivam nenhum benefício, ou prêmio por sua utilização, mas que são apenas puras verdades sem impacto algum em suas existências. E em frente às verdades que lhe trazem benefícios, não medem forças em buscá-las e exigir dos outros. O homem busca as consequências boas da verdade, se tornando hostil, frente àquelas verdades que trarão consequências indesejadas e desagradáveis.

Encontrado o impulso, passa a definir a verdade – ou melhor, há uma coletânea de fatos e acontecimentos para que assim sejam encontrados traços característicos que possam dar certa homogeneidade ao que pode ser entendido como verdade - realocando-a ao mesmo grupo das metáforas, metonímias e antropomorfismos, pois as verdades sobre as coisas não são, elas mesmas, originárias de suas origens, não são estrita e fielmente atinentes à coisa em si, como raiz, mas são apenas produtos da percepção sensorial, arbitrária e limitada, dos homens, que, de forma arbitrária e performativa, atribui a algo um signo, uma palavra, um conceito, do qual sempre nos esquecemos desse processo de formação e tomamos como algo superior e definitivo.

Tais conceituações criadas a partir de um conjunto de percepções sensoriais do homem, não é a verdade, mas é apenas fruto de estímulo subjetivo, ao qual, de maneira arbitrária, atribuímos signos. Esses signos, imprecisos e tomados como verdadeiros pelo uso constante na sociedade, não pode ser a primeira verdade, originária e definidora das coisas tal qual conhecemos. Nossa percepção ínfima não capta a essência das coisas, pois, se assim o fosse, “não haveria tantas línguas” (NIETZSCHE, 31). Os signos arbitrados apenas conseguem captar a relação das coisas com o homem, que é transposta numa primeira metáfora, considerada, pelas convenções costumeiras, com a primeira verdade.

A percepção de mundo com o contorno que construímos em nossa mente, baseado nos conceitos[2]que nos são dados, contorno esse que acreditamos ser preciso e apreensível, nada mais é que o resultado de uma percepção falha, tal qual a nossa, criada por algum ser humano tempo suficiente antes de nós, que tomamos como verdade apenas pelo constante uso desses julgamentos e sua transformação em lei social.

Além disso, na explanação nietzschiana, se aceita como verdade aquilo que, devido ao reforçamento através das relações humanas, “poética e retoricamente” (NIETZSCHE, 36), de maneira prolongada, homogênea e contínua no tempo, está consolidado pelas convenções sociais de certo povo, explanação essa acompanhada de veemente crítica e ironia, já que a verdade – aqui se expõe mais uma das características da mentira, de modo que não se pode resumi-la a apenas essa parte - nada mais é do que mera “obrigação de mentir conforme uma convenção consolidada, mentir em rebanho num estilo a todos obrigatório” (NIETZSCHE, 36 e 37).

Em decorrência da força de hábitos seculares, sente-se impelido, por meio de um forte impulso moral e do receio de ser expulso do grupo por agir em desacordo, a sempre dizer a verdade, que nada mais é que utilizar-se estritamente do conjunto de abstrações solidificadas.

O mentiroso, por sua vez, é aquele que, a despeito da existência dessa convenção determinante do que deve ser tido por verdade em dada sociedade, utiliza seu imaginário, através de signos válidos, para designar os fatos. O mentiroso “abusa das convenções consolidadas por meio de trocas arbitrárias ou inversões de nomes, inclusive. Se faz isso de uma maneira nociva, então a sociedade não confiará mais nele e, como isso, tratará de excluí-lo.” (NIETZSCHE, 29 e 30)

Daí surge a contraposição daquele que mente, que subverte o entendimento alheio com suas afirmações contrárias às imposições performáticas, manipuladas de maneira ardil, o qual perde sua confiabilidade perante o grupo ao qual pertence, àquele que, sendo movido pelo impulso da emoção social de não querer ser expulso de seu grupo, utiliza-se da verdade, enquanto ação “venerável, confiável e útil” (NIETZSCHE, 37). Dessa maneira, satisfaz seu desejo humano de convivência em sociedade.

A verdade, entretanto, para ser considerada como um imperativo numa dada sociedade não pode ter sido fruto apenas da percepção subjetiva individual, muito pelo contrário, deve ter sido enquadrada num patamar acima, onde pairam os usos corriqueiros e harmônicos de dados signos em correspondência a determinados acontecimentos, tendo sido, essas correspondências, construídas por métodos lógicos – pelo homem, ”formidável gênio da construção” (NIETZSCHE, 39) - que Nietzsche compara, porquanto duros e frios, à Matemática.

Em relação à percepção limitada que o homem tem do mundo e à imprecisão de seus antropomorfismos, diversas passagens interessantes são encontradas no pensamento nietzschiano. Em diversos momentos em sua obra, Nietzsche reafirma a dureza e frieza do processo de construção das metáforas, utilizando-se de metáforas para tanto. Para reforçar o já exposto até aqui, e para exemplificar, é de muita valia transcrever o seguinte trecho do livro analisado:

À semelhança do astrólogo que observa as estrelas a serviço dos homens e em conformidade com sua felicidade e sofrimento, assim também um tal pesquisador observa o mundo inteiro como conectado ao homem, como o ressoar infinitamente fragmentado de um som primordial, do homem, como a cópia reduplicada de uma imagem primordial, do homem. Eis seu procedimento: ter o homem por medida de todas as coisas, algo que ele faz, porém, partindo do erro de acreditar que teria tais coisas como objetos puros diante de si. Ele se esquece, pois das metáforas intuitivas originais tais como são, metáforas, e as toma pelas próprias coisas.

Nietzsche continua sua análise afirmando que o homem apenas consegue viver relativamente tranquilo e seguro em virtude de ter se esquecido do “mundo metafórico primitivo” (NIETZSCHE, 40), conjugado ao fato de crer veementemente que as coisas ao seu redor são verdades nelas mesmas. Esquece-se, o homem, de que não passam de meras figuras de linguagem, ao contrário disso, acredita que tudo ao seu redor é verdadeiro, crê nas metáforas, conferindo a elas um valor indevido, muito além do valor que a elas é realmente inerente.  

O homem é a própria medida de todas as coisas. O homem esquece-se de que tudo é fruto de seu antropomorfismo, de sua visão limitada e, assim, ingenuamente, tem os conceitos como puros, sem lembrar-se que estão manchados com suas intenções e sentimentos. Nenhuma significação é pura nela mesma, todas elas estão manchadas pela percepção humana.

É muito interessante a sua doutrina em relação a esse tema, repleta de ceticismo, pois ao contrário da maioria dos filósofos que discorrem sobre o tema da mentira, sobre suas definições e hipóteses, Nietzsche submerge-se a um nível mais profundo, negando a própria existência da verdade. Ora, não existindo a verdade, não pode haver, por consequência, a existência da mentira. Por isso, por negar primeiramente a existência da verdade, seu exame se esgota aí, sem que haja uma análise, como há na maioria dos outros filósofos que discorrem sobre o tema, sobre a conceituação da mentira, ou sobre as hipóteses em que é amenizado o crime de mentir, ou em quais circunstâncias a mentira é inofensiva, etc.


Referência Bibliográfica

NIETZSCHE. F. Sobre a Verdade e Mentira no Sentido Extra Moral. In: O Livro do Filósofo. São Paulo: Ed. Moraes, 1988


Notas

[1]“Como um meio para a conservação do indivíduo, o intelecto desenrola suas principais forças na dissimulação; pois esta constitui o meio pelo qual os indivíduos mais fracos, menos vigorosos, conservam-se, como aqueles aos quais é denegado empreender uma luta pela existência como chifres e presas afiadas.” (NIETZSCHE, 27)

[2]Sobre a formação dos conceitos, Nietzsche nos traz o seguinte: “Ponderemos ainda, em especial, sobre a formação dos conceitos: toda palavra torna-se de imediato um conceito à medida que não deve servir a título de recordação, para a vivência primordial completamente singular e individualizada à qual deve seu surgimento, senão que, ao mesmo tempo, deve coadunar-se a inumeráveis casos, mais ou menos semelhantes, isto é, nunca iguais quando tomados à risca, a casos nitidamente desiguais, portanto. Todo concito surge pela igualação do não-igual”. (NIETZSCHE, 35)



Informações sobre o texto

Como citar este texto (NBR 6023:2002 ABNT)

TOMAO, Luma Garcia. O ceticismo de Nietzsche: análise da obra Sobre a Verdade e a Mentira. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 20, n. 4336, 16 maio 2015. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/33085>. Acesso em: 21 fev. 2018.

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