O texto aborda a sociedade contemporânea através de suas características sociológicas, antropológicas e principalmente filosóficas. O mal-estar é peculiar de nossa era e está em toda parte.

O estágio de desenvolvimento contemporâneo do capitalismo caracteriza-se pelo fortalecimento sem precedentes da contratendência da expansão de produção de mercadorias, o próprio motor do desenvolvimento capitalista. É o chamado capitalismo tardio[1].

Num primeiro estágio de desenvolvimento capitalista[2], o assalariamento da força de trabalho, primeiramente incipiente, foi se estendendo, mediante a paulatina eliminação das terras comunais (cercamentos) e sua transformação em propriedade. Por essa razão, é denominado estágio extensivo.

Quando o estágio de desenvolvimento extensivo se esgotou, o capitalismo entrou num estágio extensivo. Quando o estágio extensivo se esgotou, o capitalismo adentrou num estágio intensivo.

Que se peculiarizou pelo aumento da produtividade do trabalho, que por sua vez dependeu do progresso das técnicas de produção e da elevação do nível de substância de força de trabalho, que dependeu do progresso das técnicas de produção e da elevação do nível de subsistência da força do trabalho, necessária para permitir a operação de técnicas cada vez mais complexas.

Nesse estágio o antagonismo à base dialética do Estado e ao mercado se desenvolve com força e tendem à generalização da forma-mercadoria e, é sobrepujada pela contratendência de expansão do Estado.

A crise provoca a reação neoliberal[3] que se assenta numa ideologia repleta de neologismos e pseudoconceitos como a globalização privatização, associada paradoxalmente ao fim da história, pregando a perpetuação do status quo (a sociedade burguesa).

Noutra vertente, há o discurso da desqualificação do Estado enquanto provedor de infraestrutura física e institucional ou como representantes variadas formas e sub-formas de sociedade organizada.

Porém, as políticas neoliberais não conseguiram reconstruir o âmbito do mercado e, redundem no desmonte do Estado Social ou do Bem-Estar, de concentração de capital e de renda e do prolongamento insustentável do endividamento para financiar o consumo, enquanto que o centro gravitacional antes calcado no capital e na renda e, no prolongamento insustentável do endividamento para financiar o consumo, desloca-se da indústria apara os serviços dando origem aos fenômenos chamados como desindustrialização e terceirização[4].

As sociedades contemporâneas são marcadas por um contínuo processo de aceleração onde as matérias de expressão logo se tornam obsoletas e, a transformação do mundo para sujeitar-se a uma sequência aleatória de infinita continuidade.

Configura-se uma pluralidade em grande intensidade porém com pouca densidade. O sujeito vive num profundo estado de letargia restando desestabilizado e acaba absorvido e tragado pela lógica capitalista.

Atravessado por princípios burgueses, o sujeito vive num processo de desterritorialização e despertencimento[5]. O capitalismo contemporâneo as empresas interpelam o sujeito situado na sociedade de consumo recheando-lhe de informações suscetíveis de atrapalhar, embaralhar e, perturbar sua opinião e, assim vendem suas mercadorias.

E logo se tornam obsoletas e inúteis forçando-se uma nova configuração. Assim os objetos nunca se esgotam para que servem e se constituem num ciclo de renovação antes de serem totalmente descartados.

Quanto ao neoliberalismo sob as precisas críticas de Perry Anderson bem como outros autores quando demonstram que não se trata de mera aplicação da doutrina surgida na década de 1940 e, sim, produto de necessidades do capital e são estas que exigem a retomada ideológica bem como misturas próprias da realidade concreta produzida pela organização estatal.

As mudanças da estrutura produtiva, articuladas à regulação neoliberal[6], enquanto estratégia de reorganização da dinâmica capitalista acabara por restabelecer a maior dominação do capital na medida em que a fragmentação produtiva provocou a desvalorização da força do trabalho, principalmente em virtude da reconstrução do exército de reserva industrial[7].

A deletéria praxe foi estruturada a partir de uma enorme desregulamentação dos direitos do trabalho, a grande precarização e terceirização da força de trabalho num cenário de desigualdades salariais e destruição dos sindicatos e associações classistas.

Enfim, as transformações contemporâneas nas relações dentro e fora dos Estados têm suscitados diversos entendimentos e dimensões sobre o papel do Estado.

Para os diversos matizes ideológicos, o Leviatã[8] teria ou estaria por sucumbir-se diante da ordem capitalista. Que teria restringido ou eliminado a soberania dos Estados-nações[9], extinguindo desta forma sua principal prerrogativa histórica.

As visões do apocalipse do Estado não restavam restritas ao campo dos liberais e se espraiaram as diferentes perspectivas desde as modernas heterodoxas até as mais à esquerda.

Alguns sustentam que a internacionalização do capital libertou das correntes o Leviatã[10] e que uma “mão invisível” iria conduzir a uma convergência internacional.

Outros advogam a tese de que as prerrogativas dos Estados-nações teriam sido transferidas para a esfera supranacional bem representada pela ONU, OMC, BM, FMI quer seja para os mercados financeiros privados (Governo Mundial).

Mas o Leviatã de Hobbes continua vivo e robusto só que mais restrito aos espaços, o que acarretou um exercício de soberania nacional mais frágil.

Por outro lado, alguns teóricos protestam contra o domínio do capital, mas também embarcam nessa “onda” de nova ordem mundial, eivada de negação do Estado-nação, é o caso da obra “Império” de Hardt e Negri[11].

Enfim estaríamos numa espécie de “Império” pós-moderno do não lugar onde a soberania estaria circunscrita ao patamar supranacional. A luta política que se consubstanciava no âmbito Estado-Nação deslocado para o locus digital onde ocorreria o conflito político entre a multidão e o Império, tendo em vista novas configurações produtivas.

Desta forma, a comunicação e a informação passariam a ser os novos elementos centrais do modo de produção e fomentado a vitória das empresas transnacionais sobre os Estados-nações.

O poder na nova arquitetura supranacional se estrutura de forma piramidal, a saber: a) no topo: os organismos internacionais e os organismos nacionais dos EUA; b) no meio: as redes de empresas transnacionais e organismos nacionais principalmente as ONGs[12] que representariam os interesses populares.

É verdade que não existiria uma hierarquia propriamente dita, e nem um equilíbrio funcional de poder, posto que exista uma hibridização entre os poderes, o que possibilita as modificações estruturais através de utas políticas contra o império.

Segundo Hardt e Negri o avanço do trabalho imaterial teria modificado a estrutura de poder conformando uma sociedade biopolítica que se aproxima mais da ideia focaultiana de poder[13]. Desta forma, tal perspectiva teria eliminado as classes e, consequentemente a contradição entre capital versus trabalho.

Cérebros e corpos precisam de outros para produzir valor, mas os outros de que eles necessitam não são fornecidos obrigatoriamente pelo capital e por sua capacidade de orquestrar a produção. ·.

A produtividade, a riqueza e a criação de superávits sociais hoje em dia tomam a forma de interatividade cooperativa mediante linguísticas, de comunicação e afetivas.

A revolução de produção da comunicação e da informação transformou as práticas laborais a tal ponto que todas estas tendem ao modelo das tecnologias de informação e comunicação.

Assim, as máquinas interativas e cibernéticas tornaram-se as novas próteses integradas aos nossos corpos e mentes, sendo uma lente pela qual redefinimos nossos corpos e mentes (Hardt e Negri[14]), as mudanças tecnológicas estriam modificando o ser biológico alçando novos padrões socioeconômicos.

Apesar das transformações no padrão de acumulação de riquezas verificadas nas três últimas décadas, não podemos afirmar que o capital e os mercados financeiros se tornam independentes do poder político.

Lembremos que a mundialização do capital não apagar a existência dos Estados nacionais e nem a relação de dominação e de dependência entre eles. Ao revés, acentuam, ainda mais os fatores de hierarquização de países.

As dimensões do novo imperialismo após os atentados de 11 de setembro de 2001 marcaram a passagem de uma política norte-americana de consenso a uma política externa de coerção.

Realmente existe contemporaneamente a organização imperialista, em grande medida, articulada por meio de instituições globais tais como FMI, Banco Mundial e OMC (Organização Mundial do Comércio) que são dominadas efetivamente tanto administrativamente como politicamente pelos EUA e pelas potências mundiais.

A pós-modernidade parida pelo capitalismo contemporâneo é dominada pelo princípio do desempenho, do rendimento e de performance do trabalhador em seu labor.

Seu precursor é Antístenes[15], um dos discípulos que frequentava o círculo socrático junto a Platão. Onde se encontra a noção moderna de que, na moral, o bem é por natureza de difícil acesso e, que até mesmo o esforço já consiste em vitória sobre si, sendo um critério do bem moral.

Desta forma, concluiu Antístenes que: “O sofrimento é um bem”. E, onde se delineou a primeira figura do trabalhador, que o discípulo mesmo encarnou posto que acrescentara a valorização moral do sofrimento a exaltação do trabalhador como desafiador de limites.

Daí, a sua referência a Hércules[16] considerado como “operário fabuloso” e a realização de seus trabalhos sobrehumanos. (Conforme Carlyle, um dos profetas da religião do trabalho: “Tu deves, tal como Hércules[17], te preencher com ocupações e penar bastante”).

Antístenes era um moralista satisfeito e não tinha senso de cultos religiosos o que, aliás, menosprezava com argumentos, iluministas do tipo racionalista. Também era fechado as Musas e, a poesia só lhe interessava caso venha expor ensinamentos morais.

Assim como Clemente de Alexandria[18] ao responder a Eros, ele poderia dizer: “O amor é um vício da natureza, Afrodite, eu a cravaria de flechas se eu a pegasse”.

Quanto à imortalidade esta não passa de uma palavra vazia. A única coisa que conta é uma vida honesta e correta, vivendo na piedade reverencial e na justiça. Todos esses traços reunidos formam a notável figura do trabalhador.

Já o ideal contemporâneo é aquele apto a realizar metas e, para tanto deve estar vinte e quatro horas por dia trabalhando, o que já totalmente viável pelas novas tecnologias que vai dos celulares (smartsphones – telefones inteligentes) com acesso à internet até aos tablets, a cibernética de vestir (tais como google glass, smartwatch e, etc).

No capitalismo contemporâneo domina “o cada um por si”, onde a obsessão de eliminar o concorrente na busca frenética pelo lucro se duplica na vontade, que aguerrida de eliminá-lo na conquista crescente de postos.

A cultura do ódio promove a eliminação em lugar da cooperação e a solidariedade das classes se desmancha em proveito da ferocidade supostamente favorecedora de melhores resultados.

Construímos um ambiente de trabalho monitorado por uma administração que dá conselhos, porém são conselhos despidos de experiência e sem conexão coma história do trabalhador.

Efusivamente refuta-se a temporalidade da experiência, do conhecimento e da felicidade. Afinal, a temporalidade é a dinâmica organizada, consolidando-se como atributo mais eminente da dominação, posto que corresponda a um encolhimento do espaço da experiência na vida social e de liberdade.

A temporalidade vinculada à aceleração do presente ou ao presenteísmo apodera-se de todos os espaços democráticos, a principiar pela educação que deixa de ser a educação para a liberdade[19] para ser a dos direitos e deveres correspondentes, tornando-se a educação para adaptação constante diante a proliferação de direitos.

Seus efeitos na educação se constituem no desaparecimento da noção de “cultura geral” pela “cultura comum”, cujo fim essencial é preparar jovens para entrar no mundo atual tal como ele é.

Essa total adesão ao tempo presente, caso permita algum sonho, apenas se sonho com o status quo onde nada de novo venha abrir o tempo histórico ou futuro.

O tempo da contemporaneidade é fatalizado pelas urgências que significa uma oscilação na razão instrumental, no culto dos meios e o esquecimento dos fins. Assim é o tempo do reino das renovações tecnológicas do progresso humano.

Portanto, a pós-modernidade nasce sob o signo da mudança constante e incessante, seu protótipo foi o Iluminismo filosófico e científico e seu grande apetite por clarividência.

Com a metáfora da luz tão peculiar do Iluminismo do século XVIII inaugura a crença no progresso científico, político, moral, social e econômico contra as trevas do obscurantismo.

O Iluminismo filosófico na política funda a noção de espaço público como aquele que comum a todos e não de propriedade de uns poucos e, acessível a todos e, não privilégios de alguns.

Desta forma, a igualdade, a liberdade e fraternidade constituíram até há pouco tempo, o ideário mais nobre da humanidade. Foi nesse ideário que se concebeu o homem-cidadão cuja dignidade deve ser exaltada e resguardada pelo Direito e pela lei.

Mesmo que esses ideais tenham se concretizado somente para uma classe social emergente, como a burguesia tão pretendente ao poder, tais valores permaneceram como reguladores de vigência para todos.

Pois, conforme elucidou Kant, se nem todos os homens são felizes[20], pelo menos todos têm direito a sê-lo.

A partir da revolução francesa, com o estabelecimento das funções públicas se procurou a garantir a continuidade das políticas sociais, independente da alternância de governantes no poder, de suas vontades particulares e da prática do favor, tão característico Ancien Regime[21].

A sociedade republicana e emancipada da miséria e dos dogmas religiosos encontra-se em estado de maioridade, diante qualquer tutela, pois todos sejam ricos ou pobres (sejam nobres ou plebeus) são igualmente protegidos pela lei.

A pós-modernidade veio então significar o direito a ser atendido prontamente, e com respeito assim, procurou-se abrigar idosos e portadores de necessidades especiais que deixaram de estar excluídos dos espaços sociais;

Na contemporaneidade os direitos sociais que constituíram os elementos críticos do capitalismo financeiro e, de onde derivaram as sucessivas flexibilizações.

Portanto, a lógica do mercado e da rentabilidade a curto prazo passa a abranger todas as dimensões do tempo[22]. E as privatizações correspondem, desse modo, a transferência do público ao privado, da garantia do futuro de seus cidadãos.

O Estado cede, afinal, sua capacidade de garantir o futuro para o mercado. Pois se identificam claramente duas lógicas temporais antagônicas: por um lado, a dos Estados como garantidores da lentidão e do durável; de outro, a lógica dos mercados ávidos de velocidade e rendimento a curto prazo.

A organização institucional do tempo é a figura mais eminente da alienação e da dominação do homem pelo mercado mundializado, pois cada um perde o sentido e o mestrado do tempo e de sua vida.

Há a tendência de dissolução dos Estados nacionais pelo capital internacional ou transnacional privatizante cujos critérios de autoridade correspondem aos interesses dos conglomerados no poder e a determinação de todas as esferas da vida pelas leis do mercado que dissolvem a separação entre o público e o privado e transformam o espaço pública em imagem pública e o cidadão em consumidor[23] como se observa no marketing político.

O advento de práticas persuasivas ligadas a peoplelização (proletarização) segundo a imprensa tabloide inglesa das “celebridades” e de colunismo social[24].

Na adoção do show business, com os políticos imitando a vida de stars, sob a hegemonia das mídias de massa, da publicidade massiva do talk show, sempre atendendo à lógica comercial e recreativa.

Recentemente já se diferenciava a propaganda da publicidade. No século XVIII europeu, a propaganda de ideias correspondeu à constituição de um espaço público nascido nos salões literários, sendo a leitura um nobre meio de propagação de valores de aprimoramento de convivência, de confiança, da solidariedade e da philia social.

A propaganda moderna já fazia parte do ideário iluminista de combate a todos tipos de preconceitos e de obscurantismos, na política, na moral, nas ciências e também nas artes.

O espaço público foi a contrapartida da vida na Corte, com seu culto a aparência e da contemplação da imagem pública do valor de alguém.

De fato, ser escolhido pelo Rei Sol, na França de Luís XIV significava o apogeu da vida pública, a partir do momento em que suas formas alternativas, ligadas à cidade e ao civismo, desapareceram com a derrota dos nobres que se recusaram abandonar Paris e se confinar na Corte.

Vencida a Fronda, a capital francesa se transferiu de Paris para Versalhes. A vida pública se reduz à vida em público com sua subsequente teatralização.

Aliás, a Corte, como é sabido, é o lugar da vaidade e da dissimulação porque é preciso conservar a todo custo o crédito, o favor ou gentileza recebida, a fortuna, razão pela qual os moralistas passaram a ser analistas das paixões humanas.

Na esfera pública viria se propagar o ideal político democratizante, fundado no debate público, na presença de protagonistas ou por escrito, o que supunha o fortalecimento do âmbito de argumentação e de informação.

Já a publicidade busca tornar visíveis as propriedades reais ou imaginárias de um produto segundo a lógica da compra e da venda para fins de reposição, acúmulo, e acréscimo de um capital investido e, no caso, o êxito eleitoral.

A política people associa-se a propaganda à publicidade, advindo o chamado marketing político dirigido ao conjunto dos consumidores de mídias, isto é, o corpo de eleitores.

A revolução conservadora uma vez que se assiste ao retorno do privado, da intimidade pessoal e da personalização do poder. De onde o tratamento cada vez mais agressivo nas campanhas eleitorais. A misen-em-scêne, promocional da intimidade tem por corolário a imprensa sensacionalista e vedetizante, que expõe publicamente a intimidade e, vive de escândalos, conforme denúncias de várias ordens e a curiosidade com respeito a preferências sexuais ou alimentares das celebridades.

Os acontecimentos tomam a fórmula de faits-divers: não estranhos à feição pós-moderna da política com traços populistas, pautados tanto no fetiche das pesquisas de opinião como responsáveis pela fabricação de uma imagem[25] pública destinada a tornar objeto de ódio ou de amor.

A personalização da política contradiz a concepção parlamentar das instituições republicanas. Por essa razão, o debate nas eleições se guia pela lógica da conquista a qualquer preço dos cargos eletivos, apelando para um sistema de preconceitos, suscitando o exercício sem escrúpulos de ressentimentos, fruto de uma rivalidade mimética.

O cidadão convertido em espectador e, melhor, de telespectador e comentarista político confirma as carências e insuficiências do jogo político tradicional.

Também a sucessão de escândalos e boatos só pode ser mantida pelos procedimentos próprios à média, capaz de reunir em um “todo” coerente um conjunto de elementos desordenados de modo a impedir a reflexão.

Pois não há como distinguir o que é significativo e, o que é insignificante nos noticiários. Constrói-se um universo povoado de heróis e anti-heróis, de vítimas e de seus salvadores.

Enfim, o marketing político se desenvolve no campo ideológico da autenticidade e da glorificação do homem comum. Ehrenberg[26] indica os efeitos pois a autenticidade se transforma em transparência. Walter Benjamin elucidou: “O homem pode, se for o caso, colocar ostensivamente sua vida privada em contradição com as máximas que defende implacavelmente na vida privada e considera, secretamente, se a menor dor de consciência, sua própria conduta como a prova mais constrangedora da autoridade dos princípios que ele exibe”.

O recurso à injúria, por exemplo, é legado do jacobinismo, com finalidade angariar votos e tem por base suposta superioridade moral de seus enunciadores com respeito aos seus opositores que eram os “corruptos” perseguidos por Robespierre e Saint Just; os renegados de Lênin ou os degenerados de Hitler (judeus, ciganos e os povos inferiores). A compreensão da política na oposição amigo – inimigo adota a prática consensual de eliminação do concorrente.

A partir da concorrência pode ser que melhorarem as mercadorias, mas certamente, se pioram os homens. Assim uma cidade feliz será aquela que assegura o máximo a sobrevivência, segurança, justiça, liberdade e amizade para o conjunto de cidadãos. E o espaço público se define por ser aquele que é comum e acessível a todos.

Afora isso, politizar todas as dimensões da vida, incluindo até mesmo a intimidade é a expressão da despolitização total posto que sejam mobilizados aspectos protofascistas e autoritários de cada um, bem o que revelaram as análises de Hannah Arendt sobre o totalitarismo.

Na agenda midiática e despolitizadora surgem as cotas compensatórias que substituem o enfretamento da exclusão econômica e social e cultural da maioria, quando deveriam ser apenas transitórias.

As indenizações para as vítimas do terrorismo do Estado e o silêncio sobre as suas causas com a consequente manutenção da prática de tortura no país.

Afinal, o mercado não reconhece “direitos” apenas porque vale a “lei do mais forte”. Semelhante ao descrito por Marx, nas “Formações econômicas pré-capitalistas” quando as massas inteiras de servos de gleba foram arrancadas do seu modo de vida, crenças, tradições e violentamente lançados na selva de cidades, vindo a constituir, na Inglaterra, o proletariado moderno, o Estado mínimo para garantir direitos.

O tempo de trabalho oferece a medida exata da geografia das riquezas e das pobrezas. A pós-modernidade capitalista, da indústria até a microeletrônica supõe a plena luz. Abolidos os lampiões a gás pela iluminação elétrica nos fins do século XIX, enfim a Via Láctea foi secularizada. O que se refere não apenas ao desencantamento psíquico e da cultura mas também ao significado socioeconômico dessa realização: uma atividade sem fim, a produção capitalista se tornou desmedida, não se tolerando a passividade, repouso ou contemplação.

E a partir da nanotecnologia e da microeletrônica, a economia em sua feição contemporânea de acumulação, exige a extensão e a intensificação de atividade indo até aos limites físicos e biológicos dos indivíduos. Indo adiante e em direção ao infinito!

Com a eletrificação, o dia vastamente iluminado passa a ter vinte e quatro horas. A organização institucional do tempo é a mais eminente figura da alienação e da dominação do homem pelo mercado mundializado, pois cada um perde o sentido do tempo e da vida.

Nos muros de maio de 1968 um francês eternizou a inscrição: “Não mude de emprego, mude o emprego de sua vida”. É preciso lembrar que viver é mais que apenas sobreviver, do contrário se desfazem as máximas morais. Tudo pode ser trocado e precificado e aquelas que não podem ser comparadas, não podem ser trocadas possuem dignidade.

O mercado ao contrário, só reconhece os custos e, nos deixa na perplexidade diante de indagações do tipo: quanto custa um idoso? E uma criança ou ainda um doente? A redução do ser humano ao quanto custa só acarreta o empobrecimento espiritual e existencial das democracias, cujo vazio é preenchido por uma hierarquia competitiva da burocracia empresarial, de maneira que o dirigente passa a ser reconhecido como um ganhador ou vencedor e cujo maior temor é de ser etiquetado como perdedor.

Não se tem nenhuma lealdade com aqueles com quem trabalha. É competitivo como o mercado e, como este, exclui automaticamente o que não gera lucro a qualquer preço.

No século XVI, La Boétie escreveu: “Não pode haver amizade onde há deslealdade, desconfiança, injustiça[27]. Entre os maus, quando se reúnem, é um complô, não é companhia; eles não se entretêm, se entretemem, não são amigos mas cúmplices”.

A ética capitalista protestante fora abandonada em nome do espírito concorrencial conforme apontou Walter Benjamin. E, segundo a fórmula de Benjamin Franklin que enunciou: “tempo é dinheiro”. E, este não é a busca de sentido e subjetividade, mas a quantidade e heteronomia impostas pela temporalidade típica do capitalismo tardio que só acentua a crise do sentido da atividade.

A desagregação do sentido da vida em comum arrisca subsumir o homem nessa alienação particular que Hannah Arendt nomeava de acosmismo que é sentir-se estranho no mundo, é o despertencimento e o ser supérfluo.

Cabe, no entanto, diferenciar o capitalismo de produção de capitalismo de consumo. No primeiro, o homem só se sentia em casa quando fora do trabalho e quando no trabalho estava fora de si. A sociedade de consumo quando o homem está fora do trabalho tampouco se encontra junto a si o que resulta na lógica do desengajamento em relação a um mundo compartilhado e com respeito também a si mesmo, com a dificuldade de criação e laços duradouros, com a obsolescência, responsabilidade e fidelidade.

O eu procura eliminar todos os laços e sentimentos, reduzidos, agora, ao valor de troca, e o mercado conduz ao consumo permanente, induzindo-se a pressa, constrangendo à rapidez, acentuando a superficialidade nos vínculos.

E, na medida em que os sentimentos exigem a duração temporal para se desenvolverem, a frenética aceleração do tempo produz a grande pobreza interior.

No século XIX o aumento tanto absoluto como o relativo do tempo de trabalho era ainda experimentado como espécie de tortura. Por um longo período, as pessoas tentaram uma resistência desesperada contra o trabalho noturno ligado à industrialização. De sorte que trabalhar antes do alvorecer ou depois do pôr-do-sol era considerado imoral.

Mas para o mercado financeiro, o homem não deve dormir nunca e, assim, institui-se o stress como o modus vivendi, tanto para os trabalhadores como para a massa crescente de trabalhadores precários e desempregados. Há a sensação de um tempo sem tempo. O capitalismo ultraliberal confisca o espaço da experiência e as expectativas, o que nos propõe um cansativo presente eterno. É um mundo no qual só vale a lei do valor, não é o mundo humano.

Mas é o mundo do capital, da sociedade sem espaço para a fraternidade e para a amizade e também sem compaixão. Trata-se da tristeza mimética onde desejamos o fim do sofrimento desse outro “nós-mesmos”.

A contemporaneidade transforma a capacidade de duvidar em mera falta de convicção O não engajar significa não emprenhar na criação de valores espirituais. A pulsão antigenealógica não reconhece nenhuma dívida simbólica com o passado, acredita=se que tudo é e, existe, deve-se a si mesmo, enaltecendo o auto-engajamento.

Na ausência de laços afetivos estáveis se produz um sensível déficit simbólico no indivíduo e na sociedade, uma vez que os valores dependem de um espaço comum de experiências compartilhadas. Os indivíduos estão condenados às leis do mercado e submetidos a insegurança e ao medo.

Os quadros funcionais de uma empresa fornecem a ideia de que não pode controlar seu ambiente do trabalho e de seu futuro. A ameaça constante consiste em não saber quais os critérios em que se baseiam as sanções e as recompensas.

O êxito ou o fracasso não são mais objetiváveis, a partir de elementos concretos, enfim, a incerteza domina o medo de ser executado, censurado e de ser visado. O que resulta numa pressão contínua e um sentimento de jamais fazer o suficiente, uma angústia de não estar à altura do que a empresa exige.

Afora, isso o trabalhador está sempre sob o controle das empresas, nas quais o trabalhador passa a ser encarado como custando mais caro. A perda de identidade profissional e da autoestima constitui uma situação traumática uma vez que não se perde apenas um posto de trabalho, mas a vida que pode ser desfeita.

Daí, os sentimentos de desvalorização de si, a ruptura de redes de solidariedade, perda de elementos constitutivos da identidade profissional, culpabilidade, vergonha, introversão, dilaceramento da comunidade de trabalho que sustentava a existência.

A perda de confiança no futuro produz uma profunda ansiedade que respondem a angústia e o medo do abandono. A modernização significa a passagem de um mundo de regras conhecidas para um mundo incerto, instável e líquido.

A temporalidade contemporânea produz não o tédio, mas a monotonia. Se o tédio como magistralmente o tematizou Baudelaire em poesia e prosa, é a temporalidade do passado que se repete continuamente no presente como a moda, mas isso não significa a perda do futuro.

Para Baudelaire que escreveu “Spleen e Ideal” o spleen[28] era como ideal a se contrapor à lógica da produção de mercadorias que representa a multiplicação e da repetição em princípio ilimitada do mesmo objeto.

O dândi notabilizado por seu hábito de “mudar de rosto” e pela capacidade de a cada dia surpreender com vestimentas excêntricas, é um ser dotado de singularidade em meio à multidão anônima e anódina. O olhar do dândi é capaz de reconhecer no novo o antigo e, no antigo o novo conferindo ao repetitivo o ar de raridade de objeto único. O pó de arroz cosmético é como a mica de mármore que confere à mulher moderna a aura de estátua grega. Já a monotonia se traduz em tempo estagnado onde a eternidade do céu se plasmasse na Terra.

A temporalidade atual exprime a ansiedade de “matar o tempo”. O tempo patológico tem o seu stress com ideal porque a monotonia não passa o homem está alienada na perda do sentido das ações. Estas prometem a felicidade pelo consumo de bens materiais, mas permanentemente frustra essa esperança, pois não é possível em regime de acúmulo, nem reposição e acréscimo do capital, tampouco democratizar o excedente e o supérfluo.

O tempo se comprime no espaço do desejo de consumo ilimitado, por um lado, determina a exaustão, de outro. Se no cansaço ainda é possível pensar e imaginar; na exaustão não há a possibilidade de exercício do pensamento, apenas a hiperatividade vazia e também destrutiva.

A abulimia e a sofreguidão constituem dois aspectos do tempo presente embora aparentemente diversos: as duas atitudes possuem um traça em comum: reificação de si. A apreensão de si como objeto sem valor e nem sentido. As pessoas se cansam até o limite, vive-se numa inflação de possibilidades de significados em reconhece-los, seja em nosso mundo interno quanto no externo.

O imaginário da sociedade contemporânea está condicionado por uma extrema saturação, caracteriza-se por uma abundância potencial que se apresenta, no entanto, inacessível. É precisamente a tensão entre a intuição da presença da satisfação ao alcance da mãe e a realidade de seu afastamento e inacessibilidade, o que determina a situação da consciência contemporânea.

Olgária Matos exemplifica primorosamente como pode ser encontrado na sociedade polonesa, que vivencia a dicotomia entre a sociedade da penúria material e uma sociedade de consumo que ocorreu há quinze anos e transformou totalmente o seu imaginário social.

A mudança da valorização e, principalmente da saturação do campo simbólico foi muito mais acelerada que a melhora a qualidade de vida. Nos anos sessenta, depois da destanilização, quando praticamente a totalidade de poloneses vivia em extrema penúria, sob o pálio de um imaginário relativamente saturado e, estruturado pelo vetor do progresso, a vivência da falta era fraca e cada aquisição material tornava-se valorizado positivamente.

Já nos anos noventa a transformação econômica melhorou muito a situação material da maioria da população mas, ao mesmo tempo, forçou a integração do campo simbólico dos poloneses no espaço global. O sentimento de falta e de frustração tornou-se generalizado em todas as camadas da sociedade.

Eis aí o mal estar contemporâneo que se expressa em um sentimento de monotonia ou o “tédio crônico”, monotonia que conduz a desinvestimentos em valores.

Há uma temporalidade monótona e específica de uma sociedade organizada, também de maneira peculiar mas dotada de uma desorganizada consciência social pelo sentimento de desvalorização de si e de humilhação.  Na vida política contemporânea, ser é “ser percebido”, fórmula narcisista, regressiva e onipotente da ocupação do espaço público.

Enfim, na medida em que uma sociedade perde o sentido da fraternidade acaba por se restringir em ser um projeto pragmático de adaptação ao status quo de consumo pelo consumo, do crescimento econômico pelo enriquecimento, do progresso pelo progresso.

Referências

MATOS, Olgária. O mal-estar na contemporaneidade. Perfomance e tempo. Revista do Serviço Público. Brasília: Out./Dez. 2008.


Autor

  • Gisele Leite

    Professora universitária por mais de duas décadas. Mestre em Direito, mestre em Filosofia. Doutora em Direito. Pesquisadora-Chefe do Instituto Nacional de Pesquisas Jurídicas. Articulista das revistas e sites jurídicos renomados. Consultora do IPAE.<br>

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