O artigo traz uma abordagem da degradação ambiental que o homem está promovendo na Terra e violência gerada contra aqueles que a defendem.

                   

 Comemora-se hoje, dia 22 de abril, o Dia da Terra. Esse dia foi criado pelo senador americano Gaylord Nelson, um dos principais precursores da luta pela preservação do meio ambiente nos Estados Unidos. Ele foi um dos organizadores da  manifestação sobre o tema que aconteceu em  22 de abril de 1970 e entrou para a história dos movimentos ecológicos ao reunir duas mil universidades, dez mil escolas primárias e secundárias e centenas de comunidades no evento. Assim, Gaylord Nelson  criou condições para pressionar  o governo americano, que acabou criando a Environmental Protection Agency  (Agência de Proteção Ambiental ), além de aprovar diversos projetos para a proteção do meio ambiente.
              A comemoração do Dia da Terra acontece sem grandes alardes, apenas através da divulgação de dados de algumas ONgs, uma vez que o que se constata não é correto nem bonito.
             O que o homem não entende é que ele não é dono da Terra. É inquilino que está aqui de passagem. E por isso depende da disponibilidade de terra, água e ar de nosso planeta pra sua sobrevivência. Mas até agora quase ninguém se preocupou com esses “detalhes”. O que vimos foi uma agressão constante, cujo “start” foi dado há mais de duzentos anos pela Revolução Industrial que trouxe, é bem verdade, crescimento econômico, diminuição da mortalidade e aumento do ciclo de vida das pessoas. Hoje, vivemos melhor e por mais tempo. Mas pagamos um alto preço por isso: o do empobrecimento do planeta. Só entre 1800 e 2010 a população cresceu de 1 bilhão para 7 bilhões de indivíduos. A economia, por sua vez, aumentou 50 vezes, à custa da pauperização do planeta.
           Para que possamos entender isso e medirmos o impacto que teve sobre a Terra existe um método, chamado “pegada ecológica”. Através dele medimos as quantidades de água e terra (gha) necessários ao sustento da população. São levados em consideração seis vertentes: campos para cultivos, campos para pastagem, florestas, áreas para pesca, demanda de carbono e terreno para a construção de prédios. Segundo o dr. José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia da Escola Nacional de Ciências Estatísticas, Ence/IBGE, “hoje uma terra só não é mais suficiente. Por conta do atual ritmo de consumo, a demanda por recursos naturais excede em 50% a capacidade de reposição da Terra. Se a escalada dessa demanda continuar no ritmo atual, em 2030, com uma população planetária estimada em 8,3 bilhões de pessoas, serão necessárias duas Terras para satisfazê-la.” Ou seja: o futuro que enxergamos é negro...Caminhamos para um ecocídio. Está mais que claro que a Terra não pode continuar crescendo nos padrões de consumo e produção atuais. E só há uma maneira de mudar isso. Mas requer esforço e boa vontade. Devemos, para que a humanidade possa sobreviver e permitir a sobrevivência das demais espécies, promover uma revolução na matriz energética, incentivar a eficiência do uso de energia, reciclar e reaproveitar o lixo, reduzir os desperdícios em todas as suas formas e introduzir inovações tecnológicas nos prédios e casas para melhorar o aproveitamento da energia e a reciclagem de materiais, reforçar e melhorar o transporte coletivo, criar empregos verdes; ampliar as áreas de floresta e mata e a preservação ambiental.

 Devemos ainda proteger a biodiversidade; desestimular o elevado consumismo dos animais de estimação; avançar com a aquacultura. Incentivar o vegetarianismo é um modo de diminuir o consumo de carnes e os impactos da agropecuária. Na lista de redução estão ainda o consumo de outras substâncias tóxicas, os gastos militares, o consumo conspícuo e aquele que provoca maiores danos ambientais.
              Em outras palavras, devemos discutir urgentemente uma alternativa de “decrescimento sustentável”, especialmente a redução das atividades mais poluidoras, com a mudança no padrão de consumo e o avanço da sociedade no conhecimento e na produção de bens imateriais e intangíveis.
 No entanto, aqui no Brasil isso tudo se torna muito difícil. Temos uma farta legislação ambiental que remonta a 1605, com o Regimento do Pau Brasil que defendia e protegia as florestas e evoluímos até a Resolução Bacen 4327 de 25 de abril de 2014, que dispõe sobre as diretrizes que devem ser observadas no estabelecimento e na implementação da Política de Responsabilidade Socioambiental pelas instituições financeiras e demais instituições autorizadas a funcionar pelo Banco Central do Brasil.
             Mas o que vemos é que pessoas que lutam por um meio ambiente sustentável e preservado, são assassinadas por interessados nas áreas que protegem. O relatório "How Many More?" da organização britânica Global Witness publicado na última segunda-feira afirma que o Brasil é o país com maior número de ativistas do meio ambiente assassinados, com 29 homicídios registrados em 2014.
            É, infelizmente, uma feia cicatriz da América Latina que lidera o ranking de periculosidade para a atuação de ambientalistas, com 87 homicídios. Além do Brasil, a Colômbia ocupa o segundo lugar, com 25 mortos, e Honduras o quarto, com 12 assassinatos. Em terceiro lugar estão as Filipinas, com 15 mortes.
           Em 2014, 116 pessoas morreram no mundo, lutando contra projetos que ameaçavam a preservação da terra. Isso significa um aumento de 20% (!) nas mortes, em comparação a 2013.
          Os assassinatos de ativistas na África, Oriente Médio,  Ásia central e China é incompleto devido ao limitado acesso que as ONGs têm aos meios de comunicação dessas regiões.
           Segundo informa a Global Witness, Honduras é o pior país para se defender a natureza, levando-se em conta o número de crimes per capita. Mas não há divulgação de números oficiais.
           No Brasil, das 47 vítimas fatais dos últimos anos, 40% foram indígenas cujos homicídios estão relacionados com projetos de mineração, agrícolas e hidroelétricos e a defesa de seus territórios.
           Isso os leva à conclusão de que no Dia da Terra, pouco temos a comemorar. Estamos acabando com o planeta que nos mantém vivos e nos dá subsistência. A exploração cada vez mais desenfreada de minérios, o desmatamento para abrir pastagens, estrair madeira e carvão e a poluição das águas estão nos levando a um fundo buraco negro, do qual será difícil de sairmos. E quando estivermos bem lá no fundo, aquela luzinha que todo mundo diz existir no fim do túnel talvez seja difícil de ser alcançada, pois não brilhará mais, devido ao esgotamento energético e nossa inércia na procura de novas fontes. Segundo Rodney Vecchia,autor do livro “Energias Renováveis “a adoção de energias renováveis é primordial no mundo de hoje. No entanto aqui no Brasil ela caminha lentamente, tornando-nos dependentes das hidrelétricas que, sem rios correndo e água girando suas turbinas são construções monstruosas sem nehuma serventia”. Temos que concordar com ele. Enfrentamos uma crise hídrica sem igual. E já temos presenciado, em várias regiões do país, a falta de energia elétrica decorrente da falta de água.
           E aí, no Dia da Terra, só nos resta dar à população mundial, em especial à brasileira, os pêsames, por tudo que têm feito com o meio ambiente. Hoje não é um dia para se comemorar. É um dia para se prantear e repensar nosso futuro.



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