A admissão da denominada denúncia alternativa constitui tema de grande e relevante discussão, notadamente confrontado com o princípio da ampla defesa e do contraditório. A denúncia alternativa pode ser definida como a peça inicial acusatória que materializa o exercício efetivo do direito de ação, além de ostentar a particularidade de descrever uma dada circunstância de fato, cuja qualificação legal mostra-se variada e não determinada.

Ada Pellegrini Grinover, Antônio Scarance Fernandes e antônio magalhães gomes filho1 sustentam a inadmissibilidade da denúncia alternativa, sob o fundamento de que tal instrumento inviabiliza o exercício da ampla defesa. Em sentido contrário, posicionam-se josé frederico marques2 e Afrânio Silva Jardim, os quais argumentam que a situação concreta pode perfeitamente apresentar-se equívoca, de modo a permitir que o acusador atribua ao réu um ou outro fato, até porque tanto os limites da acusação quanto da res judicata nesse residem, sendo irrelevante o estado de dúvida acerca das conseqüências jurídicas que possam eventualmente advir.

Nesse sentido, o Superior Tribunal de Justiça, no julgamento do REsp n. 399.858-SP (data de julgamento: 25.2.2003), reconheceu a possibilidade de oferecimento de denúncia alternativa, adotando como fundamento a compatibilidade lógica dos fatos imputados. Em seu voto, o Ministro José Arnaldo da Fonseca ressaltou, fazendo alusão ao parecer do Ministério Público Federal, que a eventual dúvida sobre qual a conduta ilícita praticada pelo agente é suprível satisfatoriamente pela descrição circunstanciada do evento, com uma só acusação deduzida de maneira alternativa. Acrescentou que o acusado defende-se de fatos certos que lhe são atribuídos, "ainda que suscetíveis de comportarem definições jurídicas diversas no momento da prestação jurisdicional " (grifo nosso).

Entendo que esta última afirmação seja a mais correta, na medida em que o réu, no processo penal, defende-se de fatos, os quais, inclusive na denúncia alternativa, devem não somente ostentar a relevância penal necessária, mas também precisam estar descritos de forma circunstanciada e logicamente concatenada, tal qual dispõe o art. 41 do Código de Processo Penal.


Notas

1 As nulidades no processo penal. 7.a ed. São Paulo: RT, 2001.

2 Elementos de Direito Processual Penal. Campinas: Bookseller, 1997. vol. 2, p. 153-154. O autor, citando o pensamento de Luigi Sansó, o qual "admite a imputazione alternativa, uma vez que se traduza em acusação explícita", diz, por isso, que é perfeitamente "concebível a imputação alternativa do fato delituoso".


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Como citar este texto (NBR 6023:2002 ABNT)

BECHARA, Fábio Ramazzini. Denúncia alternativa. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 8, n. 175, 28 dez. 2003. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/4646>. Acesso em: 10 dez. 2018.

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