3. AÇÃO CULTURAL DE PERIFERIA COMO AGENTE DE TRANSFORMAÇÃO QUE O SINDICALISMO PRECISA ENXERGAR

Nos últimos cinco anos, houve uma série de mobilizações sociais com discursos diversos. As mobilizações de junho de 2013 pelo passe livre, inicialmente, a ação dos black-blocs e, logo depois, a agregação feita pelos movimentos “Vem pra Rua”, “Revoltados on- line” e Movimento Brasil Livre, tiveram como arena para a organização de seus protestos as redes sociais. Pelas redes, esses grupos arregimentam pessoas para as suas ações e defesa de posições sobre questões da política nacional. Da mesma forma, movimentos culturais de favela e periferia usam dessas redes sociais como forma de expressão artística, trazendo em sua produção o cotidiano e a realidade de suas comunidades como forma de protesto, afirmação, por exemplo.

As mobilizações que sucederam o junho de 2013 caracterizaram-se por uma agenda anti-petista e anti-Dilma Rousseff. Empreenderam um forte embate contra o então governo, catapultados por um sentimento de indignação em virtude das denúncias de corrupção da Lava- jato e o uso oportunista da mídia hegemônica nacional. Por outro lado, pouco se viu da ação dos sindicatos como interlocutores capazes de construir um debate dentro dessas plataformas de mídia da internet que pudesse contrapor opiniões. Em verdade, a ação sindical, quando desse momento de mobilização social do país, manteve a estratégia de gestão de cúpula, fazendo manifestações não com o povo, mas direcionada ao Parlamento na tentativa de impedir a implementação de políticas contra os trabalhadores como o projeto de terceirização (CARDOSO, 2015).

Enquanto se vê uma polarização de discursos, a ação cultural de comunidades continua sendo enxergada como parte acessória da sociedade. Como um segmento social que abriga características próprias, seja racial, seja econômica, seja política, mais uma vez a sua visibilidade quanto ao que tem a dizer é colocada de forma marginal.

Não à toa, a ação sindical tem se mantido pouco atenta ao discurso elaborado nos espaços de favela e periferia, pois continua abordando a questão de diálogo com a sociedade pela forma burocrática que se estruturou, ilustrada pela deliberação de poucos.

De fato, as condições presentes na maioria das comunidades pobres do Brasil, sobretudo dos principais centros urbanos onde se reúnem as maiores favelas, revelam indicadores de baixa renda, de situações de desemprego e sub-emprego, o que, em tese, sugeriria a impossibilidade sindical nestes espaços. A realidade vivida pelas comunidades é produto de um processo que sofreu poucas transformações positivas: aqueles direitos trabalhistas previstos na Constituição de 1988 tiveram pouco alcance ao longo desses anos sobre essa população vulnerável. Neste sentido, o sindicalismo não conseguiu entender, de maneira propositiva e executiva, como construir pontes de diálogo que permitissem contribuir para que aquela população conseguisse melhorar suas condições de vida e cidadania.

Certamente, as pessoas que vivem na condição de favela ou periferia enfrentam cotidianamente esse problema. Entretanto, a situação imposta nesses locais não pode ser mais observada como apenas um local de pobreza e sofrimento. A periferia passa significar um marcador da presença ativa de populações vistas não pela marca da fragilidade, e sim da potencialidade (D’ANDREA, 2013). Isto porque, ao longo desses anos, a favela se transformou e conseguiu ressignificar o estigma de fragilidade, tendo na produção cultural um dos seus principais elementos de fortalecimento de autoestima.

As comunidades são berço de uma diversificada produção cultural como literatura, teatro, grupos de samba e saraus. Bem como a cena hip-hop, que tem no rap a expressão de sua musicalidade. Com efeito, esta manifestação artística trouxe um novo sentido de comunidade, sobretudo, por retratar a realidade vivida pela comunidade a partir de uma posição ético-normativa, cujo sentido se expressa em opiniões, conselhos e imperativos de qual a melhor forma de agir, como na obra dos Racionais MCs (D’ANDREA, 2013).

A cena rap transcende à cena de entretenimento. As músicas produzidas por estes artistas e os seus bailes procuram construir um espaço onde se possam desenvolver atitudes marcadas por solidariedade, a partir de letras que façam com que os seus membros se comprometam politicamente com as suas visões de mundo. A produção cultural rap buscar reforçar opiniões acerca das mazelas sociais a que estão submetidos a população de favela e periferia, mormente, os pretos e os pobres (FELIX, 2000)[9].

Este processo, que data mais de vinte e cinco anos, representa um novo momento das comunidades que, dado ao vácuo na ação dos movimentos sociais, produziu novo sentido à sua imagem. Isto significa que a produção cultural das comunidades, ilustradas pela música dos grupos de rap, de funk e também de samba compreende uma ação coletiva que expressa opiniões e que aglutina pessoas ao seu redor pela identidade de discursos.

A ação cultural dessas comunidades retrata a realidade pela qual as pessoas vivem. Este discurso possui várias caras. Se artistas que seguem a pegada dos Racionais constroem um conteúdo que dialoga com a condição de violência policial, de pobreza e de racismo, ditando sentidos que visam à consciência e a superação, outros artistas vão surfar na onda da melhora econômica vinda pelo crescimento econômico surgido nos anos áureos da gestão do PT. Igualmente, discursos de empoderamento da mulher conviverão com obras machistas e hedonistas de linguajar vulgar não politicamente corretos.

Talvez o conteúdo menos crítico seja o de maior alcance pela mídia e redes sociais, o que revela certa manipulação, cujo propósito é ilustrar a realidade produtiva das comunidades apenas de temas de apelo fácil e comercialmente interessante para a indústria cultural. Esta situação implica perceber que o conteúdo propositivo para uma sociedade mais justa, como muitas manifestações apresentam, precisa ser mais enxergada, bem como se aproximar de movimentos que entendem que o projeto sociopolítico excludente que se impõe sobre a sociedade não ajudará para uma realidade em que a justiça social faça parte da cultura do país. Este conteúdo também está lá nas redes sociais!!

Vale lembrar que a produção cultural originária da periferia, que trata da consciência das desigualdades ilustradas pela violência policial e pelo racismo, por exemplo, é uma expressão que se conjuga com vários movimentos sociais. Isto quer dizer que espaço como da ação sindical precisa ser ocupado por esta cena dinâmica, como forma de reconstrução da essência de um modelo sindical.

A aproximação desses dois elementos sociais ainda está longe. Como sujeitos que lidam diretamente com o subemprego e ou ausência dele, a população de periferia e favelada encara uma realidade muito dura, mas que não a impede de criar formas de expressar as suas conquistas, anseios, bem como retratar a realidade desfavorável em que vivem, quando direitos básicos como segurança, educação, saneamento básico, mobilidade urbana, entre outros não fazem parte dos serviços à sua disposição.

A cena cultural, como o funk e o hip-hop, revela um grupo social que cria formas de expressão criativas, diversas e plural. Com as redes sociais, esta produção ultrapassou os limites das comunidades, alcançando públicos diversos, cuja reação e posicionamento também se colocaram plurais. A produção cultural desse espaço pode trazer novas formas de entendimento acerca dos problemas sociais e a busca por soluções pautadas em perspectivas mais sustentáveis e não apenas na transferência de renda.

Ao longo desses anos, a produção cultural correspondeu a uma estratégia de sobrevivência e de empoderamento em suas diversas formas de manifestação ((TEIXEIRA e GOMES, 2015). Como artífices de um processo de transformação, é preciso uma melhora na articulação desse conteúdo com os sujeitos institucionalizados que, em tese, defendem a mesma causa, de modo que se supere situações registradas nessas obras, a exemplo da violência policial, que aumentou, apesar de indicadores sociais ilustrarem mudança na vida das pessoas dessas comunidades.

Ao mesmo tempo em que houve melhoras, a violência policial, o crescimento das facções criminosas e o seu dito poder paralelo cresceram de modo significativo nas comunidades. Igualmente, a melhora da estrutura educacional foi dada de maneira pontual ou alicerçada em formas que não se atentaram as necessidades das comunidades, o que significa uma política pública não sintonizada com os discursos ecoados pelos becos.

A razão para isto parece estar na falta de pontes concretas entre um projeto político de transformação e essa agenda, explicitamente colocada à mesa por segmentos que conseguem colocar a sua voz, mas que ainda são pouco ouvidos ou silenciados pelo sistema que não consegue ou não quer entender que a periferia e a favela sabem expressar o que quer.

A dicotomia entre o discurso que sai das comunidades e ação política de grupos vinculados ao sindicalismo conspira para o prejuízo do projeto político pretendido por progressistas e que teve na ascensão do Partido dos Trabalhadores o seu momento mais importante na história do Brasil. A política que foi desenvolvida trouxe ganhos, fortalecimento dos segmentos populares, melhora, sobretudo, no enfoque econômico, mas não conseguiu superar a questão da violência, ilustrada pelo  número ascende de homicídios, como melhorar de maneira mais ampla e sustentável a vida do povo de favela e periferia.

Esta contradição parece ser produto de uma mentalidade política que manteve uma ação elitista, distante das bases tradicionalmente vinculadas aos empregos e hoje que sobrevivem em novas formas de exploração do trabalho. Estas que surgiram com o fenômeno da globalização e cujos representantes muitos, senão todos, habitam as comunidades de onde saem novas ideias e sentimentos.

Por essa razão é que atores sociais, como o sindicalismo, precisam se reinventar e construir pontes concretas de diálogo e participação de um grupo que ainda é politicamente marginalizado, como se viu nesses últimos anos, quando a voz da periferia foi pouco ouvida, quando aqueles que influenciam jovens a caminharem na linha do correto são colocados à margem ou silenciados. A crise pela qual se vive atualmente deve ter a sua solução construída passando pelos becos e vielas de um mundo que ainda é posto à parte, mas tem resistido e produzido sentidos a muitos sobreviventes de seus espaços, sobretudo aos jovens.

Não é possível mais que os grupos progressistas que colocam o discurso de justiça social e igualdade continuem crendo que suas posturas continuem sendo as corretas diante da situação em que a sociedade brasileira vive. Repetindo antigas fórmulas e insistindo em não enxergar o que pode somar de maneira horizontal ao processo de propostas para a solução de problemas, o movimento sindical sucumbirá a onda de destruição dos direitos de bem estar tão precários em nosso país. Mais ainda, o sonho vislumbrado de justiça social a partir da redução das desigualdades e a potencialização do acesso aos recurso como educação, saúde, moradia digna, entre outros tornar-se-á cada vez mais distante da forma como as coisas caminham.


4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O sindicalismo no Brasil encara um momento de questionamentos para descobrir que rumo seguir. Se foi incapaz, em momento menos turbulento, de construir formas de fortalecimento a partir da constatação de que mudanças na estrutura produtiva impuseram a necessidade de novas ações, talvez em um momento difícil, quando sua existência é posta em xeque, possa agir em direção a opções mais sustentáveis e coerentes com o propósito de sua história: fortalecer os direitos dos trabalhadores e lutar pela cidadania.

Para isto, o sindicalismo terá que romper com as amarras que atrofiaram a sua capacidade de visão e perceber que o seu maior aliado continua sendo o (a) trabalhador, em todas as suas formas de atividade. Somente com a força coletiva será capaz de frear a onda de precarização dos direitos dos trabalhadores em seu sentido estrito e amplo.

Assim, o sindicalismo tem que fazer valer a forma de superar o modelo de financiamento e criar meios de aproximar trabalhadores formais e informais, como meio de fortalecimento de uma agenda que permita dar opções e condições para um modelo representativo que seja apoiado popularmente. Outrossim, construir mecanismos que tenham como elementos subjacentes a ampla participação e o senso de comunidade.

O atendimento desse desiderato começa pela ruptura de um modelo sindical de cúpula, que se viciou na condução sindical feita por poucos. O processo mais participativo e transparente pode permitir a construção de novas formas de produção, e, talvez, consiga ir de encontro à tendência neo liberal em que cada vez mais o (a) trabalhador (a) tem o seu tempo dedicado ao trabalho, mas sem a devido contraprestação financeira. Um ciclo vicioso que impede as pessoas de pensarem em outra coisa a não ser a sua sobrevivência.

Daí a necessidade do diálogo com a juventude, sobretudo, a juventude de favela e periferia! A produção cultural de jovens revela muitos interesses, desejos e percepções sobre a vida. Atentar para os discursos mais engajados e que ajudam no dia a dia de jovens trabalhadores a fazer elos de contato e aprendizagem pode ser um novo caminho.

Mas é preciso que esta caminhada não tenha o propósito de o sindicato ditar como deve ser. Em verdade, são esses jovens que devem dizer como pode ser feito, construindo, assim, discurso e prática que possam por em xeque um modelo opressor, que não enxerga as necessidades das pessoas, mormente as mais desamparadas, pois Elas não querem só aumento de renda e emprego; elas querem dignidade!!!


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Informações sobre o texto

Como citar este texto (NBR 6023:2018 ABNT)

COSTA, Cleber Lázaro Julião. O sindicalismo e a necessidade de se reinventar. O papel dos movimentos culturais de favela para a reconstrução de um novo modelo sindical. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 23, n. 5384, 29 mar. 2018. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/63770. Acesso em: 25 jan. 2022.

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    CLAUDIO RAFAEL DOERR VIEGAS

    O dia que os SINDICATOS começarem a defender os seus sindicalizados, ao invés de atuarem como FANTOCHES de ideologias e partidos esquerdistas... terão respeito... e as pessoas contribuirão por livre e espontânea vontade.