A afirmação de que desacatará uma eventual decisão do STF obrigando-o a entregar o celular para investigações é uma provocação do presidente Jair Bolsonaro, que tenta provocar um confronto de Poderes na esperança de evitar seu afastamento do cargo

Tal qual os zumbis, Jair Bolsonaro já morreu como presidente da República, mas, enquanto espera o rabecão institucional vir removê-lo do Palácio do Planalto, continua querendo comer o coração dos vivos, ao atacá-los com seus movimentos espasmódicos. 

Então, antes de ser sepultado sob uma montanha de crimes de responsabilidades, delitos comuns e cadáveres dos coitadezas cuja morte causou com sua conduta genocida durante a pandemia, ele ainda tenta escolher o tereno para sua última tentativa de continuar mais tempo envergonhando a faixa presidencial.

A oportunidade surgiu quando o ministro Celso de Mello, do Supremo, encaminhou ao procurador-geral da República Augusto Aras um pedido de parlamentares de oposição: eles relataram alguns dos indiscutíveis crimes cometidos por Bolsonaro no caso das pressões ilegais contra a Polícia Federal para tentar livrar a cara dos príncipes herdeiros envolvidos com as gangues de milicianos e requereram a apreensão dos celulares de Jair, Carlos e da deputada Carla Zambelli.

Celso de Mello nada mais fez do que seguir a praxe, pois, quando recebe uma notícia-crime, a primeira providência que um ministro do STF tem de tomar é remetê-la para análise do Ministério Público Federal, a quem cabe decidir se os fatos narrados devem ou não ser investigados. 

Foi o suficiente para Bolsonaro, por meio do seu assessor militar mais identificado com a ditadura de 1964-1985 –o chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno–, antecipar que desobedecerá qualquer decisão do Supremo mandando entregar o celular.

Mas, se o procurador-geral da República tem evidenciado possuir uma sintonia mediúnica com Bolsonaro, norteando sua atuação pelos mais ínfimos desejos presidenciais, por que Bolsonaro desde já ameaçaria virar a mesa, antes mesmo de Augusto Aras emitir seu parecer e Celso de Mello bater o martelo?

Só existem duas hipóteses plausíveis:

1. sabendo que está em marcha desembestada para o abismo, Bolsonaro quer embaralhar os motivos de seu afastamento compulsório de um cargo que nunca foi capaz de desempenhar a contento, do ponto administrativo, político, constitucional, ético, de decoro presidencial y muchas otras cositas más, para se fazer passar por um injustiçado que caiu defendendo supostas prerrogativas presidenciais e não por haver se portado o tempo todo como um estuprador serial da Constituição; 

2. confiante de que Augusto Aras desencavará qualquer filigrana jurídica para evitar a entrega do celular comprometedor, quer travar uma batalha de Itararé, para depois poder trombetear aos quatro ventos que desafiou o Supremo e o botou pra correr.

Resumo da ópera: não passa de mais uma função amalucada e grotesca do Circo do Bozo. O melhor que Celso de Mello tem a fazer é ignorá-la, não servindo de escada para bufão mambembe.

Com a avalanche de provas já existentes para impichar Bolsonaro, que falta fazem as que possam estar contidas nesse nauseabundo celular? 

Um presidente tão desprezível não merece sequer chance para jus sperniandi, tem de ser metodica e serenamente submetido a processo, condenado e expelido com desonra, como já o foi em 1988. 

Isto se não tiver sequer a dignidade de renunciar logo, para que possamos começar a reconstruir o país. 


Autor

  • Celso Lungaretti

    Ingressei na luta contra a ditadura militar ainda secundarista, aos 17 anos. Passei um ano na clandestinidade, como dirigente estadual da VPR e VAR-Palmares. Preso, sofri uma lesão permanente que me prejudicaria tanto no convívio social quanto nos desempenhos profissionais. Mesmo assim, fiz longa carreira jornalística. Hoje sou escritor, articulista e blogueiro, atuando frequentemente na defesa dos direitos humanos.

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