4. A INTERSEÇÃO ENTRE TECNOLOGIA E TRABALHO: DESAFIOS E OPORTUNIDADES PARA A FORÇA DE TRABALHO MODERNA
Como demonstramos nas seções anteriores, os avanços tecnológicos foram responsáveis por revolucionar as formas como os seres humanos se relacionam com o trabalho. No mundo moderno, desde o emprego da automação industrial e da inteligência artificial até o uso de ferramentas de comunicação digital e do trabalho remoto, as tecnologias alteraram profundamente as características do trabalho humano. Nesta parte do trabalho, iremos explorar a interseção entre tecnologia e trabalho no mundo moderno, examinando os impactos tecnologia na força de trabalho e os desafios e oportunidades que surgem dessa fusão.
As inovações tecnológicas aplicadas ao trabalho humano alteraram muitos dos seus aspectos, desde o incremento na produtividade e eficiência até as formas como são regidas as relações entre funcionário e patrão. Com o desenvolvimento da automação, por exemplo, tarefas repetitivas e banais começaram a ser executadas por máquinas. Isso causou, em um curto período de tempo, uma grande transferência dos postos de trabalho da indústria para áreas do comércio e serviços. Consequentemente, esses trabalhadores, para se manterem relevantes no mercado de trabalho, foram obrigados a investir em carreiras mais complexas e criativas, que exigem habilidades como resolução de problemas, pensamento crítico e criatividade. Nesse contexto:
[...] Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OECD) estima que 1.1 bilhão de postos de trabalho estão sujeitos a serem radicalmente transformados pela evolução tecnológica na próxima década. O Fórum Econômico Mundial prevê em princípio um equilíbrio entre o crescimento de oportunidades e a redução de atividades então superadas. Entretanto, se a tendência atual prosseguir, programas de treinamento e aperfeiçoamento ultrapassados tenderão a manter processos de formação incompatíveis com as novas necessidades do mercado no futuro.
Apenas 0.5% do PIB global é investido em educação continuada para adultos (conceito conhecido como lifelong learning). E isso em um momento em que pesquisas realizadas pelo Fórum Econômico Mundial em colaboração com a consultoria PwC aponta que o investimento em larga escala em requalificação e aperfeiçoamento profissional tem o potencial de elevar o PIB global em 6.5 trilhões de dólares em 2030. [...] (VEJA, 2022)49.
Outra grande repercussão da tecnologia no mundo do trabalho moderno foi causada pelo surgimento da inteligência artificial (IA). Como vimos, a IA é capaz de automatizar tarefas, analisar dados e fornecer insights com maior precisão e rapidez que os seres humanos, sendo capaz de transformar uma ampla gama de setores. Isso resultou no desaparecimento de muitos postos de trabalho, mas também gerou o surgimento de novas funções e a demanda por profissionais capacitados em áreas como análise de dados, machine learning e programação, entre outras. Nesse sentido:
[...] Um estudo realizado pela consultoria americana Gartner mostra que, em 2020, o uso de máquinas que reproduzem o raciocínio humano extinguiu 1,8 milhão de empregos e algumas profissões se começam a se tornar completamente ultrapassadas devido ao avanço da tecnologia, incluindo carreiras técnicas e com remuneração mais elevada em áreas de produção e administrativas. No Brasil, por exemplo, entre 2009 e 2019, não foi registrado um único ano sequer de crescimento do emprego formal com mais de dois salários mínimos, segmento típico das ocupações médias nos escritórios e fábricas. [...] (QUINTINO, 2022).50
Ademais, o rápido desenvolvimento das tecnologias digitais da informação e comunicação, viabilizou o surgimento do trabalho remoto em grande escala. As inovações nessas áreas tornaram possível a colaboração entre trabalhadores situados em diferentes partes do planeta e o acesso a uma ampla gama de ferramentas e recursos que facilitam o trabalho, como videoconferência, mensagens instantâneas e softwares de colaboração. No entanto, isso também gerou preocupações sobre o deslocamento de empregos e a erosão das relações de trabalho tradicionais.
Ou seja, embora a fusão da tecnologia e trabalho tenha gerado muitas oportunidades, ela também criou desafios para trabalhadores e empresas. Um dos principais problemas refere-se ao deslocamento e extinção de postos de trabalho causadas pela implementação de novas tecnologias. Isto é, à medida que tecnologias como a automação e a inteligência artificial se tornem mais prevalentes, muitos empregos se tornarão redundantes, levando à extinção de empregos e ao desemprego de uma parcelada da população. Por conseguinte, surge a necessidade de treinar e requalificar milhares de trabalhadores para se manterem relevantes no mercado de trabalho moderno. Nesse contexto:
[...] Até 2025, o Brasil precisará qualificar 9,6 milhões de pessoas em ocupações industriais, sendo 2 milhões em formação inicial – para repor inativos e preencher novas vagas – e 7,6 milhões em formação continuada, para trabalhadores que precisam se atualizar.
Isso significa que 79% da necessidade de formação nos próximos quatro anos será em aperfeiçoamento. No mundo, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OECD) estima que 1.1 bilhão de postos de trabalho estão sujeitos a serem radicalmente transformados pela evolução tecnológica na próxima década.
Tal cenário coloca em xeque o conceito de “conclusão dos estudos” e inaugura o modelo de aprendizado ao longo da vida (lifelong learning, em inglês). Assim como tem acontecido em diversos outros países, é urgente e fundamental o Brasil invista mais em capital humano por meio da educação, especialmente de forma continuada. [...] (ANDRADE, 2022)51
Com relação aos benefícios da integração entre tecnologia e trabalho, podemos sustentar que as novas tecnologias, como a IA e automação, possibilitam grandes incrementos na eficiência e competitividade, levando a criação de novos empregos e ao crescimento econômico. Ainda, o trabalho remoto pode proporcionar aos trabalhadores maior flexibilidade e permitir que as empresas tenham acesso a um conjunto mais amplo de talentos. Além disso, a necessidade de requalificação da força de trabalho cria muitas oportunidades para educadores e centros de ensino.
Em conclusão, para garantir que os benefícios da utilização da tecnologia no mundo do trabalho moderno sejam compartilhados de forma justa, os formuladores de políticas públicas, trabalhadores, empregadores e demais interessados, devem se unir para discutir e enfrentar essa questão. Isso inclui, por exemplo, a criação de leis que protejam os trabalhadores inseridos nas novas formas de trabalho, tendo em vista a sua hipossuficiência, e garantam que eles tenham direito a proteções trabalhistas básicas, como salário mínimo, pagamento de horas extras, seguro desemprego etc. Também engloba investir em programas de educação e treinamento, como já apontamos, visando qualificar a força de trabalho para as ocupações do futuro e apoiar o desenvolvimento de novas indústrias e tecnologias.
4.1. ECONOMIA COMPARTILHADA E GIG ECONOMY: EXEMPLOS DE COMO A TECNOLOGIA ESTÁ TRANSFORMANDO O MUNDO DO TRABALHO
A economia compartilhada52 (sharing economy), ou economia colaborativa, causou grandes impactos na forma como as pessoas consomem bens e serviços, e, posteriormente, abriu caminho para o surgimento da gig economy e de novas modalidades de trabalho na era digital.53
A economia compartilhada é um modelo econômico baseado no conceito de compartilhamento e acesso de recursos, geralmente por curtos períodos de tempo, ao invés de propriedade.54 Inúmeros bens e serviços são englobados por esse modelo como aluguel de veículos, imóveis, ferramentas, conhecimentos etc. Além disso, esse sistema é viabilizado por plataformas online, como sites ou aplicativos de smartphone, que conectam pessoas e facilitam o compartilhamento de recursos com maior conveniência e a um baixo custo.
A gig economy, por outro lado, refere-se a um mercado de trabalho caracterizado pela prevalência de contratos de curto prazo e trabalho autônomo. Envolve o uso de plataformas digitais para conectar indivíduos que prestam serviços específicos a clientes ou empresas. Esse modelo deu origem a uma nova classe de trabalhadores, conhecida como gig workers, que fornecem serviços sob demanda por meio de plataformas como Uber, Ifood e Airbnb. Em outros termos:
Trata-se de uma forma de trabalho baseada em pessoas que possuem ocupações temporárias ou que realizam atividades freelancer sob demanda e pagas separadamente. Isto tudo em um cenário de flexibilização do mercado de trabalho que ganha relevância no contexto de concorrência e celeridade da era digital. Prestações de trabalho individualizadas, temporárias e autônomas se destacam frente a esse “novo” contexto a exemplo dos serviços como Uber e Airbnb que surgem a partir do desenvolvimento das plataformas digitais. (OLIVEIRA; ASSIS; COSTA, 2019, p. 248).55
A gig economy tornou-se muito popular nos últimos anos, com milhares de pessoas recorrendo a esta forma de trabalho para complementar os seus rendimentos ou como a sua principal fonte de renda. No entanto, esse modelo também foi duramente criticado pela sua precarização das condições de trabalho. Os gig workers são frequentemente classificados pelas plataformas de trabalho como trabalhadores independentes, o que significa que eles não gozam dos mesmos direitos que empregados tradicionais, como salário mínimo, férias remuneradas e jornada máxima de trabalho.
Contudo, é inegável que, graças ao ecossistema desenvolvido pela economia compartilhada e as formas de trabalho da gig economy, bens e serviços que antes eram caros para a maioria das pessoas, como transporte e hospedagem, tonaram-se muito mais acessíveis.
Como veremos com mais detalhes a seguir, as origens da economia compartilhada, segundo Schor56, na era digital remontam aos anos 1990, com o surgimento de sites como Craigslist (1995) e eBay (1995).57 No entanto, podemos afirmar que foram os lançamentos do Airbnb (2007) e do Uber (2009) que impulsionaram a colaboração e confiança nesse sistema58, contribuindo, portanto, para fortalecer a noção de economia compartilhada e abrindo caminho, posteriormente, para o surgimento da gig economy e de todo o seu ecossistema. Como veremos, essas plataformas revolucionaram setores tradicionais, como hotelaria e transporte de passageiros, e criaram novas oportunidades para empreendedores e trabalhadores temporários.
Desse modo, pode-se afirmar que a economia compartilhada constituiu um catalisador para a emergência da gig economy, dado que esta provocou modificações significativas no comportamento humano, especialmente no tocante ao trabalho, ao empreendedorismo e à colaboração. Nesse sentido, a economia compartilhada impulsionou muitos indivíduos a se tornarem empreendedores, com uma considerável quantidade de pessoas utilizando plataformas virtuais para iniciar seus próprios negócios e auferir rendimentos adicionais em seus próprios termos.
Essa mudança em direção ao empreendedorismo facilitou a transição dos indivíduos para formas de trabalho temporário na gig economy, sendo, inclusive, muitas das habilidades e atitudes valorizadas na economia compartilhada, como flexibilidade e habilidades básicas em tecnologia, também estimuladas na força de trabalho inserida na gig economy.
Em síntese, a economia compartilhada foi precursora da gig economy e das novas formas de trabalho, sendo um excelente exemplo de fusão entre tecnologia e trabalho na era digital. Embora esses modelos de negócios apresentem desafios para a sociedade, como a precarização do trabalho, elas também criaram muitas oportunidades para as pessoas ganharem dinheiro e tornou inúmeros bens e serviços mais acessíveis para os consumidores.
Conforme a tecnologia continua a progredir, novas formas de trabalho surgem e torna-se inevitável que determinadas indústrias e serviços passem por transformações radicais ou, até mesmo, desapareçam, gerando um impacto significativo nas economias e sociedades. Nesse sentido, torna-se imprescindível que governos, empregadores e empresas se unam para discutir essa temática, visando estabelecer um futuro que promova um ambiente de trabalho inclusivo, flexível e sustentável para todos os envolvidos.
4.1.1. As origens e o desenvolvimento da economia compartilhada
A economia compartilhada transformou a forma como as pessoas e consomem e adquirem bens e serviços na sociedade contemporânea. Como demonstramos, à medida que esse sistema se desenvolveu e se enraizou na sociedade, ela contribuiu para o surgimento de novas formas de trabalho, como a gig economy, que utiliza plataformas digitais para unir trabalhadores a tarefas ou projetos, geralmente de curto prazo. Por isso, considerando a relevância da economia compartilhada para a gig economy, um dos temas centrais desta monografia, nesta parte do trabalho iremos explorar as suas origens, impactos e a evolução, destacando a sua importância como catalisador das relações de trabalho na era digital.
É um conhecimento comum que os seres humanos necessitam viver em sociedade e desenvolver bons relacionamentos para garantir a sua sobrevivência, bem estar e prosperidade. Como um ser social, podemos afirmar que as pessoas são inclinadas a compartilhar e cooperar uns com os outros. Com a evolução da tecnologia da informação e devido a mudanças sociais e econômicas no cenário global, a colaboração foi fortalecida e agora o compartilhamento de bens e serviços não se restringem mais a um pequeno círculo de comunicação, mas em uma escala muito maior. Nesse sentido, PALACIOS et al.:
O ato de trocar e compartilhar é ancestral (SCHOR, 2014) e ocorre principalmente entre pessoas próximas e indivíduos da mesma família. Porém, foi somente a partir da crise de 2008 que compartilhamento, no contexto da economia compartilhada (EC), encontrou espaço para se difundir e popularizar (LAZZARI; PETRINI, 2019).59
Com o avanço da tecnologia, diariamente surgem novas formas de compartilhar e desfrutar as comodidades da vida em sociedade. Chamamos esse fenômeno de economia compartilhada ou colaborativa, um termo usado para descrever a transferência de bens e serviços entre indivíduos, geralmente através de plataformas digitais em smartphones e computadores.
Essa tendência tornou-se cada vez mais popular nos últimos anos, à medida que as pessoas buscaram maneiras mais econômicas de interagir umas com as outras e acessar recursos que, de outra forma, poderiam não estar disponíveis ou serem muito caros. Em síntese, podemos afirmar que esse modelo é como uma extensão do sistema de troca tradicional, mas com tecnologia moderna e plataformas digitais em seu núcleo.
É comumente admitido que esse conceito foi popularizado por Botsman e Rogers60, no livro “O que é meu é seu: como o consumo colaborativo vai mudar o nosso mundo” (2011)61, exploram o termo "economia compartilhada" e suas implicações para o futuro dos negócios e da política. Os autores afirmam que esse fenômeno é uma nova forma de viver e fazer negócios que incentiva o consumo colaborativo e o compartilhamento de recursos, sendo baseada na ideia de confiança mútua, troca ponto a ponto e o uso de plataformas digitais para facilitar essas trocas.
Eles também discutem como essa noção de consumo compartilhado foi possibilitada por uma combinação de tecnologia, redes sociais e mudanças de atitudes em relação à propriedade e ao consumo. Além disso, eles analisam as possíveis implicações da economia compartilhada, incluindo uma mudança na forma como bens e serviços são produzidos e consumidos, bem como novas oportunidades para modelos de negócios e políticas públicas.
A ideia por trás da economia colaborativa é muito simples: em vez de comprar algo novo, os usuários podem alugá-lo de outra pessoa. Isso pode incluir qualquer coisa, desde carros e casas até ferramentas e equipamentos. A vantagem desse modelo é que, em muitos casos, é mais conveniente e barato para o consumidor pagar pelo acesso temporário a um produto do que adquiri-lo, proporcionando maior comodidade ao consumidor – não só ele tem acesso ao que precisa sem ter que gastar muito dinheiro, como também os bens estão prontamente disponíveis para o seu consumo.
Em 1995, o eBay62 fez história como a primeira empresa a desenvolver um modelo de negócios baseado na economia compartilhada de forma online. 63 Graças ao site desenvolvido por essa empresa, pessoas de todo o mundo tiveram a oportunidade de comprar e vender itens em seu site, eliminando a necessidade de adquirir produtos de um varejista tradicional. Por isso, podemos afirmar que o eBay colaborou para surgimento de empresas de economia compartilhada mais modernas, como o Airbnb e, posteriormente, o Uber, que também viabilizam a prestação de serviços diretamente de indivíduos para outros indivíduos, sem a necessidade de intermediários.
Desde então, em um curto período de tempo, o sistema de economia colaborativa floresceu em inúmeros setores. O compartilhamento de residências, por exemplo, se tornou um dos ramos mais populares da economia compartilhada, oferecendo concorrência ao monopólio de longa data dos hotéis na indústria de hospedagem.
Os pioneiros em viabilizar esse modelo de negócios neste setor foram os fundadores do Airbnb, um serviço de aluguel de quartos e residências, Brian Chesky e Joe Gebbia. Em 2008, com dificuldades para pagar o aluguel, eles tiveram a ideia de alugar colchões de ar em seu apartamento em São Francisco, Estados Unidos, dai surgiu a ideia de criar um site voltado para esse serviço.64
Esse tipo de compartilhamento, de imóveis e quartos a curto prazo, rapidamente se tornou um negócio em expansão, principalmente devido à ampla variedade de locais e opções de preços que os hóspedes podem escolher ao consultar as listas. Em pouquíssimo tempo, em 2011, a empresa já arrecadava US$ 122 milhões em investimentos, além de outros aportes.65
Graças a plataformas que permitem aos seus usuários a locação de quartos e imóveis a curto prazo, como o Airbnb, proprietários conseguem arrecadar uma fonte adicional de renda e usuários tem acesso a uma alternativa mais econômica, em comparação a opções de acomodação tradicionais, como hotéis e pousadas.
Conforme a tecnologia se desenvolveu e mais pessoas se sentiram confortáveis com a ideia de compartilhar bens e serviços, esse modelo de negócios se expandiu em um ritmo cada vez mais rápido e em inúmeros setores.
Alguns exemplos de empresas que aproveitaram esse sistema para oferecer produtos e serviços a clientes de todas as classes a um custo menor, são a Rentbrella, empresa que aluga guarda-chuvas por hora; a SkillShare, que se oferece aos seus clientes milhares de vídeos educativos e uma plataforma onde qualquer pessoa pode assistir e dar aulas online; a TaskRabbit e a GetNinjas, um mercado que conecta trabalhadores com aqueles que precisam de assistência para uma variedade de tarefas diárias, como mudança, limpeza, entregas e trabalhos manuais, entre inúmeras outras empresas.
Como é possível notar, em pouco tempo o conceito de economia compartilhada se tornou habitual na vida urbana, sendo a base de inúmeros negócios. Um dos exemplos mais comuns de economia compartilhada atualmente, são os aplicativos de compartilhamento de viagens, como Uber, 99 e Lyft. Graças a esses aplicativos, não é mais necessário ser proprietário de um veículo ou contratar um serviço de táxi. Basta usar o aplicativo para se deslocar do ponto “A” ao ponto “B”, por uma fração do custo66.
Vale ressaltar, ainda, que a noção de consumo compartilhado se consolidou em todos os segmentos, inclusive nos de elite, com o compartilhamento de bens e serviços de luxo. Os consumidores mais abastados perceberam que era muito mais dispendioso adquirir aviões, carros esportivos e residências de alto padrão do que simplesmente compartilhá-los com outras pessoas. Foi a partir dessa constatação, por exemplo, que surgiu a JetSmarter67, fundada pelo russo Sergey Petrossov, que permite alugar jatos particulares. Os investidores iniciais foram o rapper JayZ e a família real da Arábia Saudita, que no total investiram cerca de US$ 105 milhões na empresa.68
Em suma, a economia compartilhada oferece muitos benefícios tanto para quem procura bens e serviços (fornecendo-lhes acesso a preços mais baixos), mas também para aqueles que os fornecem (por meio de renda extra). Com a sua facilidade de uso combinada com o seu fator de acessibilidade, não é de admirar que tantas pessoas estejam se voltando para esse tipo de modelo econômico, seja devido a preferências pessoais ou por necessidades financeiras.
4.1.2. Da colaboração ao lucro: uma breve análise dos impactos sociais e econômicos da economia compartilhada
A economia compartilhada revolucionou a maneira como as pessoas fazem negócios em todo o mundo. Como demonstramos, essa ideia criou um ecossistema de negócios que enfatizam a colaboração e o compartilhamento de recursos, de maneira rápida, conveniente e econômica, em vez da propriedade exclusiva de um bem.
Esse sistema proporcionou as pessoas novas oportunidades de ganhar dinheiro e permitiu que as empresas se tornassem mais eficientes e lucrativas, ao simplificar processos e reduzir custos indiretos, por exemplo. Estima-se que até 2025 o tamanho global desse modelo de economia chegará a US$ 335 bilhões.69 Em suma, essa nova forma de fazer negócios teve e ainda terá grandes impactos na economia global, tornando-se uma maneira cada vez mais popular de ganhar dinheiro.
Como apontamos, a economia colaborativa é um modelo econômico no qual indivíduos de todas as classes e empresas compartilham entre si o acesso a bens, serviços, dados e conhecimento. No entanto, embora a economia compartilhada tenha se expandido e gerado muitas oportunidades nos últimos anos, ela também recebeu importantes críticas. Assim sendo, expomos dois dos principais impactos socioeconômicos agravados por esse modelo de negócios.
1. Desigualdade: A economia compartilhada tem sido criticada por aumentar a desigualdade em todo o mundo. Pois, enquanto algumas pessoas se beneficiaram da conveniência e economia de custos desse sistema, muitas outras viram os seus salários e segurança no emprego diminuir à medida que as empresas migraram para formas de trabalhos baseados em contratos de curto prazo. Como resultado, o contraste entre os que têm e os que não têm aumentou. Nesse sentido, é o entendimento de PALACIOS et al.:
Os atores da economia compartilhada adotam um discurso que engloba inovação, tecnologia e progresso, mas “esta caracterização atrai tanto a miopia de classe e raça, como o que os historiadores chamam de ‘presenteísmo’, ou cegueira ao passado” (FRENKEN; SCHOR, p. 122, 2017). Há pouca clareza sobre como as plataformas estão afetando as condições de trabalho (SCHOR, 2014). A falta de uma intervenção estatal ou regulamentações nas plataformas de compartilhamento leva, por exemplo, à precarização das relações de trabalho (MOROZOV, 2013). Além disso, os ganhos da economia compartilhada são desigualmente distribuídos e podem até aumentar a desigualdade de diferentes formas, uma vez que aqueles com os bens mais valiosos podem obter os maiores aluguéis ao compartilhá-los (SCHOR; FITZMAURICE, 2015).70
Em outros termos, à medida que a economia colaborativa cresceu, também aumentou o poder econômico e a concentração de riqueza nas mãos de um pequeno número de indivíduos e empresas. As organizações conseguiram alavancar a sua presença no mercado para extrair maiores lucros, deixando cada vez menos recursos financeiros e direitos para os trabalhadores.
2. Falta de regulamentação e evasão fiscal: devido à dificuldade dos legisladores em regular esse tipo de trabalho, a maioria das empresas que operam nesse sistema ainda não se enquadram perfeitamente nas leis trabalhistas existentes. Consequentemente, os trabalhadores não têm os mesmos direitos e proteções que os empregados tradicionais. Isso pode levar à exploração, pois os trabalhadores geralmente precisam trabalhar mais horas do que o permitido por lei, já que são mal pagos.71
Ademais, o modelo de economia compartilhada tem sido acusado de ajudar as empresas a evitar o pagamento de impostos, já que seria possível as organizações tirar proveito de brechas no sistema tributário, tendo em vista a falta de regulamentações específicas para esse modelo de negócios.72
Em conclusão, a economia compartilhada causou impactos significativos na economia, sociedade e no mundo do trabalho. Embora esse sistema tenha trazido benefícios para os consumidores, como apontamos, ele também gerou uma série de consequências não intencionais e prejudiciais. Por isso, à medida que esse modelo continue a se desenvolver, governos e empresas devem criar mecanismos para garantir que os benefícios da economia colaborativa sejam compartilhados de forma justa e que os seus impactos sejam minimizados.
4.1.3. O poder da conectividade: a importância das plataformas digitais para a economia compartilhada
Como demonstramos, a economia compartilhada é um termo usado para descrever um novo tipo de sistema econômico que enfatiza o compartilhamento de recursos, geralmente por meio de plataformas digitais. Esse modelo econômico existe há séculos73, mas recentemente foi revolucionada pelo advento de aplicativos para smartphones e outras plataformas online que permitiram o compartilhamento em uma escala sem precedentes.
Consequentemente, é fundamental ressaltar a importância dos aplicativos para smartphones como um dos principais impulsionadores do crescimento da economia compartilhada no mundo. Esses aplicativos permitem que as pessoas acessem facilmente serviços como compartilhamento de viagens, residências e carros, além de criarem novas oportunidades para as pessoas ganharem dinheiro prestando serviços a outras pessoas.
Os aplicativos também facilitam o pagamento pelos serviços que os usuários recebem. As empresas que fazem parte da economia compartilhada utilizam sistemas de pagamento digital74, que permitem pagamentos rápidos e seguros. Isso facilita o acesso dos usuários aos serviços de que precisam sem se preocupar com o incômodo dos métodos de pagamento tradicionais, além de aumentar a confiabilidade da economia compartilhada.
Ainda, como analisamos anteriormente, as plataformas digitais tornaram mais fácil para os usuários avaliar os serviços que recebem. Isso permite que clientes tomem decisões com base nessas avaliações e ajudam a manter o padrão de trabalho em níveis mais elevados.
Em conclusão, aplicativos e outras plataformas digitais têm sido fundamentais para o sucesso da economia compartilhada. Eles permitiram o compartilhamento de recursos em grande escala, tornando mais fácil para os usuários encontrar e acessar serviços de que necessitam, pagar por eles com rapidez e segurança e avaliá-los para garantir a qualidade. Enfim, à medida que a economia compartilhada continua a se expandir, certamente os aplicativos terão um papel central em sua evolução.
4.1.4. Inovações tecnológicas e o futuro da economia compartilhada
À medida que a tecnologia continua a evoluir a uma taxa exponencial, o mesmo acontece com o potencial da economia compartilhada. Nesse sentido, algumas organizações já estão desenvolvendo usos para a tecnologia blockchain75, por exemplo, para criar sistemas mais eficientes e seguros para a troca de recursos entre as partes.
Graças a essa inovação tecnológica, empresas estão explorando as aplicações dos contratos inteligentes76, como a transferência de fundos com segurança de uma parte para outra, sem depender de intermediários – um processo conhecido como “finanças descentralizadas” (DeFi)77. Isso tem o potencial de revolucionar a forma como as pessoas acessam os serviços financeiros, eliminando as taxas abusivas associadas aos serviços bancários e credores tradicionais.
Além disso, a inteligência artificial (IA) está sendo utilizada em vários aspectos da economia compartilhada78 – desde “bots”79 automatizados de atendimento ao cliente, que fornecem suporte a aplicativos de compartilhamento de viagens, até algoritmos de visão computacional que ajudam os usuários a encontrar itens em sites de comércio eletrônico mais rapidamente. Ou seja, a IA continuará a desempenhar um papel cada vez mais importante para tornar as transações mais rápidas e fluidas, ao mesmo tempo em que permite as empresas personalizem as experiências dos usuários com base em dados fornecidos por eles e coletados por meio de suas plataformas.
Ainda, a realidade virtual (RV) também está começando a entrar no espaço da economia compartilhada. Já existem serviços de aluguel de RV80 surgindo, em que usuários e empresas alugam os seus equipamentos para outras pessoas que desejam uma experiência imersiva temporária. Além disso, estão surgindo startups de turismo de realidade virtual81 que permitem que viajantes de todo o mundo visitem virtualmente diferentes lugares antes de decidir se realmente gostariam de visitá-los fisicamente mais tarde. Esses tipos de experiências inovadoras possibilitadas pela RV podem ajudar a impulsionar o crescimento em setores relacionados à indústria hoteleira, indústria de viagens, varejo, etc.
Em última análise, podemos prever que essas e outras tendências apontam para um futuro brilhante para a economia compartilhada, com aplicações potenciais em inúmeros setores e países em todo o mundo. À medida que as tecnologias continuam evoluindo e se tornando mais acessíveis, esperamos ver uma adoção e integração da tecnologia ainda maiores nesse modelo econômico, criando mais oportunidades para consumidores e empresas.
4.2. O FUTURO DO TRABALHO: TECNOLOGIA E GIG ECONOMY
O mundo do trabalho moderno está em constante transformação, devido ao surgimento de novas formas de trabalho possibilitadas pela evolução tecnológica. Graças a tecnologia, atualmente as pessoas podem trabalhar de qualquer lugar e a qualquer hora, em colaboração com profissionais espalhados pelo mundo. Consequentemente, os modelos de emprego tradicionais tiveram que se adaptar para formas de trabalho mais ágeis, em consonância com o mundo do trabalho moderno, versátil, descentralizado e altamente competitivo.
O modelo tradicional de trabalho, em que os funcionários trabalham para um único empregador em uma função permanente e em tempo integral, está sendo desafiado pelo surgimento de novas formas de trabalho, tais como freelancer, trabalho remoto e gig work. Essas tendências são impulsionadas por uma combinação de fatores sociais e econômicos, como o desejo pessoal por mais equilíbrio entre vida profissional e pessoal, aumento da concorrência e crescente demanda por mão de obra flexível.82 A seguir, discorremos sobre as novas formas de trabalho impulsionadas pela tecnologia e, em especial, a gig economy e o seu ecossistema.
O trabalho freelance, também conhecido como trabalho temporário ou autônomo, pode ser definido como um tipo de emprego de curto prazo em que o trabalhador oferece os seus serviços de forma independente.83 Esse tipo de trabalho geralmente é realizado remotamente, oferece maior flexibilidade e permite ao trabalhador maior controle sobre os seus horários e finanças.
Esse tipo de relação de emprego é popular atualmente em diversos segmentos e espera-se que essa tendência continue a crescer no futuro.84 No Brasil, estima-se que 32% da força de trabalho já esteja inserida no mercado de trabalho autônomo, estimulados principalmente devido à falta de ofertas de trabalho formal.85
Esse fenômeno se deve, também, graças a plataformas online, como a Upwork, 99Freelas e Fiverr, que conectam trabalhadores freelancers com clientes. No entanto, os freelancers costumam enfrentar desafios como renda inconsistente e insegurança no emprego, o que pode dificultar a manutenção de uma carreira estável.
As inovações tecnológicas também permitiram a difusão em grande escala do trabalho remoto, possibilitando que profissionais de várias áreas trabalhem de qualquer lugar e com maior flexibilidade. Isso foi possível graças ao desenvolvimento das tecnologias de comunicação, como videoconferência, mensagens instantâneas e softwares de colaboração e compartilhamento.86 Essas tecnologias permitem que os profissionais trabalhem de forma colaborativa, independentemente de sua localização, simplificando e tornando viável para as equipes de trabalho permanecerem conectadas e trabalharem de forma coordenada.
A gig economy e o gig work são dois termos frequentemente usados de forma intercambiável, mas na verdade se referem a conceitos diferentes. Compreender as diferenças entre esses dois termos pode ajudar a esclarecer os aspectos exclusivos de cada um e o seu impacto na força de trabalho moderna.
A gig economy, como já apontamos, é um ecossistema que surge da fusão entre tecnologia e trabalho, impulsionado pelos avanços tecnológicos na área de informação e comunicação (TICs)87. Isso levou à adoção do trabalho remoto e de empregos freelancers em diversas áreas, desde motoristas e entregadores de aplicativos até o aluguel de imóveis e venda de produtos online. Nesse sentido, de acordo com Góes et al.:
O conceito de Gig economy abarca as diversas formas de trabalho alternativo, englobando desde a prestação por serviços por aplicativos até o trabalho de freelancers, podendo ser pensado como um arranjo alternativo de emprego. Basicamente, podemos supor que a Gig economy possui estas características: i) ausência de vínculo formal na relação de trabalho (como a carteira de trabalho assinada); ii) possibilidade de prestação de serviços para vários demandantes; e iii) jornada esporádica de trabalho. (GÓES et al., p. 2, 2021)88
A título de exemplo, com o avanço das TICs e a crescente demanda por serviços de transporte mais ágeis, plataformas online de transporte, como o Uber, 99App e Lyft, tem ganhado cada vez mais destaque no mundo do trabalho moderno, além de criarem mais opções de mobilidade urbana. Essas empresas, por meio de aplicativos de smartphone, conectam usuários a motoristas, que oferecem serviços de transporte de forma autônoma, sem terem que cumprir horários fixos ou metas estipuladas. Nesse sentido:
A necessidade de alcançar melhorias na mobilidade urbana se alia com aos avanços tecnológicos que estão surgindo. Os smartphones tornaram-se progressivamente uma ferramenta essencial para ajudar as pessoas a produzir ou alcançar mobilidade, fornecendo informações contextuais e servindo como um recurso ideal para permitir novos serviços de mobilidade. Usando dados cada vez mais robustos e facilmente interpretáveis sobre várias opções de transporte, os usuários de smartphones podem escolher entre um número amplo e crescente de serviços de transporte para planejar suas viagens e facilitar o seu processo de mobilidade. De modo geral, as TICs foram responsáveis pelo surgimento de novas oportunidades para a criação de novas opções de transporte que inclui serviços como compartilhamento de carros. (NETO et al., p. 897, 2019)89
Em síntese, a gig economy significa um mercado de trabalho caracterizado pela prevalência de contratos de curto prazo, ou autônomos, e realizado por meio de plataformas digitais, que conectam trabalhadores a clientes. Por isso, esse sistema também é chamado de "economia sob demanda", pois os trabalhadores são contratados para projetos ou tarefas específicas, conforme a necessidade do cliente.
O gig work90, por outro lado, refere-se aos projetos ou trabalhos individuais, sendo um componente da gig economy. O gig work pode incluir qualquer coisa, desde dirigir para uma empresa de compartilhamento de viagens, como o Uber, até trabalhos de redação ou serviços de design gráfico. O aspecto principal do gig work é que ele geralmente é de curto prazo, realizados por meio de plataformas online e sem vínculo duradouro com o cliente. Em síntese, refere-se a um trabalho sob demanda e muito específico. Por isso, esse modelo apresenta alguns desafios, como renda inconsistente e insegurança. No entanto, apesar dos desafios, espera-se que essa forma de trabalho continue a se expandir no futuro.91
Em conclusão, o surgimento da gig economy impactou de forma global o trabalho de milhões de pessoas inseridas no mercado de trabalho moderno. Como uma economia emergente, o Brasil testemunhou o desenvolvimento e as consequências da gig economy, criando novas formas de emprego e renda para muitas famílias, assim como acarretando insegurança e precarização da qualidade do emprego em seu território.
À luz dessas razões, é imperativo que voltemos a nossa atenção, a seguir, para os impactos da gig economy no mundo do trabalho brasileiro, expondo os seus efeitos seus efeitos na força de trabalho e na economia do país. Ao fazer isso, tencionamos compreender melhor os desafios lançados pela gig economy e projetar um futuro mais igualitário para a força de trabalho brasileira.