Capa da publicação TST: publicação do acórdão marca eficácia da tese
Capa: OpenAI

O termo inicial da eficácia das teses fixadas pelo TST em Recursos de Revista Repetitivos.

A publicação do acórdão paradigma (art. 896-C, § 11, da CLT)

Exibindo página 1 de 3
17/10/2026 às 23:32
Leia nesta página:

Teses repetitivas do TST vinculam antes da publicação do acórdão? O art. 896-C da CLT fixa esse marco para os processos suspensos e recomenda cautela diante de embargos de declaração.

Resumo: O artigo examina o termo inicial dos efeitos que o art. 896-C da CLT atribui às teses fixadas pelo Tribunal Superior do Trabalho em recursos de revista repetitivos. Desde a Emenda Regimental 7/2024, a afetação e, nos casos de reafirmação de jurisprudência, o próprio mérito são deliberados em sessão virtual, e a tese passa a constar de certidões de julgamento e da tabela de precedentes vinculantes antes da publicação do acórdão. O Supremo Tribunal Federal admite a aplicação de suas teses de repercussão geral independentemente da publicação ou do trânsito em julgado do paradigma. A pesquisa combina análise normativa, revisão da doutrina processual civil e trabalhista publicada entre 2019 e 2026 e exame das tabelas de precedentes vinculantes e de temas afetados do TST atualizadas em 15 de outubro de 2026. Sustenta-se que o § 11 do art. 896-C da CLT e o art. 1.040. do CPC elegem a publicação do acórdão paradigma como termo inicial da negativa de seguimento, do juízo de retratação e da retomada dos processos suspensos, e que a aplicação da tese depende dos fatos e dos fundamentos determinantes contidos no acórdão. Os dados registram temas com tese proclamada e acórdão pendente por semanas ou meses, modulação que adota como marco a publicação do próprio acórdão e tese complementada em embargos de declaração quinze meses após o julgamento. Conclui-se que, antes da publicação, a tese tem eficácia persuasiva, e que a pendência de embargos recomenda cautela no juízo de retratação e na formulação de pedidos.

Palavras-chave: Recursos repetitivos; Tribunal Superior do Trabalho; Tese jurídica; Ratio decidendi; Acórdão paradigma.

Sumário: 1 Introdução. 2. Método e delimitação. 3. O termo inicial no art. 896-C da CLT e no art. 1.040. do CPC. 4. A aplicação imediata no Supremo Tribunal Federal e a posição do Superior Tribunal de Justiça. 5. Tese jurídica e ratio decidendi. 6. O intervalo entre a proclamação da tese e a publicação do acórdão no TST. 7. Embargos de declaração e trânsito em julgado. 8. Consequências para os órgãos jurisdicionais e para as partes. 9. Conclusão. Referências.


1. INTRODUÇÃO

Desde a Emenda Regimental 7/2024, a proposta de afetação de incidente de recursos repetitivos no Tribunal Superior do Trabalho é incluída necessariamente em pauta de sessão virtual, e, quando se trata de mera reafirmação de jurisprudência dominante, o julgamento de mérito ocorre na mesma sessão que decide a afetação (Brasil, 2026a, art. 132-A, caput e § 5º). Em agosto de 2025, o Pleno abriu uma única sessão virtual para reafirmar jurisprudência em 68 temas (Tribunal Regional do Trabalho da 11ª Região, 2025)2. A tese passa a constar da certidão de julgamento, das notícias institucionais e da tabela de precedentes vinculantes antes da publicação do acórdão.

O intervalo suscita a questão do termo inicial da eficácia da tese, isto é, se juízes, Tribunais Regionais e partes podem aplicá-la desde a proclamação do resultado ou somente após a publicação do acórdão. O Supremo Tribunal Federal tem decisões que admitem a aplicação imediata de suas teses de repercussão geral, independentemente da publicação e do trânsito em julgado do paradigma (Brasil, 2018a). A hipótese do trabalho é a de que essa orientação não se transpõe aos temas do TST, porque o art. 896-C, § 11, da CLT e o art. 1.040. do CPC vinculam à publicação do acórdão os efeitos do julgamento repetitivo sobre os processos sobrestados, e porque a aplicação da tese depende de elementos que só o acórdão contém, como os fatos do caso-piloto e os fundamentos determinantes.

Confirmada a hipótese, a tese ainda sem acórdão publicado tem eficácia persuasiva. Pode ser invocada como indicativo do entendimento do Tribunal, mas não autoriza a negativa de seguimento de recurso de revista, o juízo de retratação, a retomada dos processos suspensos nem a improcedência liminar do pedido. A questão alcança também a formulação de pedidos, pois a petição inicial apoiada em tese sem acórdão, ou com embargos de declaração pendentes, sujeita-se a ajustes de redação e de modulação do enunciado, risco que o processo do trabalho agrava com os honorários de sucumbência do art. 791-A da CLT.


2. MÉTODO E DELIMITAÇÃO

A base normativa abrange o art. 896-C da CLT, os arts. 1.035. a 1.041 do CPC, a Instrução Normativa 39/2016 do TST e o Regimento Interno do TST no texto compilado até a Emenda Regimental 11, de 20 de maio de 2026. No plano doutrinário, foram examinadas obras publicadas entre 2019 e 2026 que tratam da relação entre tese jurídica, ratio decidendi e acórdão paradigma, selecionadas pela pertinência direta ao problema e pela atualidade, com prioridade para trabalhos posteriores à Lei 13.256/2016 e às reformas regimentais recentes. A seleção não pretende representar toda a doutrina processual, razão pela qual as referências a autores são feitas nominalmente. Incluíram-se obras de processo do trabalho que comentam o art. 896-C e estudo publicado em 2026 que examina decisões do TST sob a perspectiva do conflito entre tese e ratio decidendi (Duarte Neto; Oliveira; Moura, 2026)3.

Para a parte empírica, foram lidas integralmente as tabelas "Precedentes Vinculantes – Recursos de Revista Repetitivos" e "Temas Afetados – Recursos de Revista Repetitivos", ambas com informações atualizadas pelo TST em 15 de outubro de 2026 (Tribunal Superior do Trabalho, 2026a, 2026b). Para cada tema com mérito julgado, registraram-se as datas de julgamento informadas e a data de publicação do acórdão. As tabelas usam a expressão "certidão de julgamento" tanto para a decisão de afetação quanto para a de mérito. A distinção foi feita pelo rótulo ("publicada em", nas certidões de afetação; "julgado em" ou "julgamento em", nas de mérito) e pelo conteúdo da coluna de teses. Quando a tabela não informa a data do julgamento de mérito, recorreu-se a notícias publicadas por tribunais. A pesquisa incluiu ainda acórdãos de embargos de declaração em incidentes do TST disponíveis no repositório de incidentes do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região, escolhidos por tratarem de alteração da tese ou de modulação.

Não se fez levantamento sistemático de decisões de Turmas, da Vice-Presidência do TST ou de Tribunais Regionais que tenham aplicado ou recusado teses antes da publicação do acórdão, de modo que o trabalho não afirma a frequência dessa prática. Os dados empíricos retratam a situação em 15 de outubro de 2026 e servem para ilustrar o intervalo entre tese e acórdão e a possibilidade de alteração posterior, sem pretensão estatística.


3. O TERMO INICIAL NO ART. 896-C DA CLT E NO ART. 1.040. DO CPC

O art. 896-C da CLT determina a suspensão dos recursos de revista que versem sobre a questão afetada até o "pronunciamento definitivo" do TST (§§ 3º e 4º) e disciplina o destino dos recursos sobrestados nos seguintes termos:

§ 11. Publicado o acórdão do Tribunal Superior do Trabalho, os recursos de revista sobrestados na origem: I - terão seguimento denegado na hipótese de o acórdão recorrido coincidir com a orientação a respeito da matéria no Tribunal Superior do Trabalho; ou II - serão novamente examinados pelo Tribunal de origem na hipótese de o acórdão recorrido divergir da orientação do Tribunal Superior do Trabalho a respeito da matéria (Brasil, 1943, art. 896-C, § 11).

O art. 1.040. do CPC, aplicável ao processo do trabalho no que não contrariar a disciplina própria, adota o mesmo marco ao abrir seus incisos com a expressão "Publicado o acórdão paradigma" (Brasil, 2015, art. 1.040). Manoel Antonio Teixeira Filho e Manuel Antonio Teixeira Neto (2025, p. 121, grifo do original), que antes identificavam o "pronunciamento definitivo" do § 3º com o trânsito em julgado, reviram essa leitura para concluir que ele ocorre, "para os estritos efeitos de cessação da suspensão dos recursos sobrestados", com "a publicação do correspondente acórdão, haja vista o disposto no § 11 do art. 896-C, da CLT". Os autores extraem do mesmo dispositivo que o juízo de admissibilidade dos recursos suspensos "somente poderá ser realizado após a publicação do acórdão do TST" (Teixeira Filho; Teixeira Neto, 2025, p. 123-124) e, se o acórdão paradigma não examinar a totalidade dos fundamentos da tese, admitem embargos de declaração por omissão (Teixeira Filho; Teixeira Neto, 2025, p. 133)4. Júlio César Bebber (2026, p. 432, grifo do original), na edição de 2026 de sua obra sobre recursos trabalhistas, afirma no mesmo sentido que "a expressão pronunciamento definitivo não corresponde ao trânsito em julgado, mas à publicação do acórdão, uma vez que a partir desse momento a decisão nele retratada passará a produzir efeitos", e descreve todos os efeitos sobre os processos sobrestados, no TST, nos Tribunais Regionais e nas Varas, a partir da fórmula "publicado o acórdão do TST" (Bebber, 2026, p. 433-435)5. Mauro Schiavi (2026, p. 1196-1197) e Gustavo Filipe Barbosa Garcia (2026, p. 523-524), ao comentar o § 11, também descrevem as consequências para os recursos sobrestados a partir da publicação do acórdão no incidente6. Em sentido diverso, Sergio Pinto Martins (2026, p. 139) afirma que o pronunciamento definitivo "não parece ser decisão com trânsito em julgado", mas, ao comentar o § 11, sustenta que "não será com a publicação do acórdão do TST que terão seguimento os processos, mas com o trânsito em julgado da decisão dos recursos repetitivos" (Martins, 2026, p. 141)7. A posição acrescenta ao § 11 requisito que o texto não prevê e, em qualquer das duas leituras do autor, não ampara a aplicação da tese a partir da certidão de julgamento. O Regimento Interno do TST segue o mesmo critério. A negativa de seguimento na origem, o reexame pelo órgão prolator e a retomada dos processos suspensos pressupõem o acórdão, e a manutenção de entendimento divergente só se admite com a demonstração de hipótese fática distinta ou de questão jurídica não examinada (Brasil, 2026a, arts. 293. e 294)8.

A legislação processual prevê uma hipótese de equiparação da ata ao acórdão no art. 1.035, § 11, do CPC, segundo o qual "a súmula da decisão sobre a repercussão geral constará de ata, que será publicada no Diário Oficial e valerá como acórdão" (Brasil, 2015, art. 1.035, § 11). O dispositivo disciplina a decisão sobre a existência de repercussão geral, que é juízo de admissibilidade, sem alcançar a tese de mérito. A previsão expressa, restrita a essa hipótese, autoriza o argumento a contrario de que, nas demais, a lei exige o acórdão. No processo do trabalho, a IN 39/2016 segue o mesmo caminho ao admitir a improcedência liminar fundada em "acórdão proferido" pelo STF ou pelo TST em julgamento de recursos repetitivos (Brasil, 2016, art. 7º, II).

A interpretação proposta não condiciona a eficácia da tese ao trânsito em julgado, pois o termo legal é a publicação. A certidão de julgamento, a notícia institucional e a tabela de precedentes não equivalem a esse ato, e a antecipação, por critério jurisprudencial, de efeitos que a lei associa à publicação carece de base normativa.


4. A APLICAÇÃO IMEDIATA NO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL E A POSIÇÃO DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

Há decisões do STF no sentido de que a existência de decisão de mérito em repercussão geral autoriza o julgamento imediato das causas que versem sobre o mesmo tema, independentemente da publicação ou do trânsito em julgado do paradigma, e de que a pendência de embargos de declaração não impede essa aplicação (Brasil, 2018a). A orientação formou-se no regime da repercussão geral, em que a lei atribui à ata valor de acórdão na decisão de admissibilidade, e não examina o texto do art. 1.040. do CPC nem o do § 11 do art. 896-C da CLT.

O Superior Tribunal de Justiça mantém a publicação como marco e discute, a partir dela, a relevância do trânsito em julgado. Daniel Amorim Assumpção Neves (2026, p. 2000) registra precedentes de Turmas do STJ segundo os quais os efeitos do julgamento repetitivo sobre os processos sobrestados não dependem do trânsito em julgado, mesmo com embargos de declaração opostos, e concorda com essa orientação porque os embargos não têm efeito suspensivo (art. 1.026. do CPC), ressalvada a possibilidade de o relator atribuí-lo9. Em 2025, a Corte Especial do STJ, embora sem exigir o trânsito para a aplicação de tese de repercussão geral, considerou prudente aguardar a consolidação do entendimento antes do juízo de retratação, porque os embargos podem modificar ou modular a tese, sobretudo quando o julgamento se dá por maioria (Brasil, 2025a)10.

Na mesma linha, o Centro de Estudos Avançados de Processo (2014) aprovou, ainda durante a tramitação do projeto do CPC, enunciado segundo o qual a aplicação da tese aos recursos sobrestados não depende do trânsito em julgado do acórdão paradigma, mas apenas da conclusão do julgamento, "o que incluiria eventuais embargos de declaração opostos"11. O enunciado adota como referência a conclusão do julgamento, que compreende os embargos, em vez da proclamação do resultado.

Assine a nossa newsletter! Seja o primeiro a receber nossas novidades exclusivas e recentes diretamente em sua caixa de entrada.
Publique seus artigos

A transposição da orientação do STF aos temas do TST importaria adotar, no processo do trabalho, critério que não se identificou na jurisprudência do STJ examinada e que contraria o § 11 do art. 896-C da CLT. Não há, ademais, regra equivalente ao art. 1.035, § 11, do CPC para as teses de mérito do TST.


5. TESE JURÍDICA E RATIO DECIDENDI

A exigência do acórdão tem também fundamento material, ligado à distinção entre tese e precedente. Luiz Guilherme Marinoni (2026, p. 16) afirma que "tese não se confunde com precedente" e que essa distinção, reconhecida pelo STF, tende a se firmar no STJ com a relevância da questão federal. Para o autor, enunciados abstratos, "exatamente porque ignoram os fatos do caso, não oportunizam o distinguishing" (Marinoni, 2026, p. 49)12, e o problema se agrava quando tribunais aplicam teses que nascem de casos que deram origem a verdadeiros precedentes:

Quando isso ocorre, o Tribunal não apenas comete um erro metodológico, como esquece que os fatos do caso que originaram o precedente, quando comparados com os do caso sob julgamento, podem determinar resultado que não está contemplado na tese, exigindo raciocínio específico para a aplicação ou o afastamento do precedente – mediante a consideração da sua integralidade (Marinoni, 2026, p. 51).

Fábio Victor da Fonte Monnerat (2024, p. 503-504) descreve a tese como "um quinto 'elemento textual' da decisão", ao lado de ementa, relatório, fundamentação e dispositivo, e observa que "o relatório e a fundamentação servem de base para ambas as decisões – sobre o caso e sobre o tema – sendo desse conjunto extraída a ratio decidendi do precedente"13. Daí o postulado de que "a tese deve ser interpretada à luz dos outros elementos do acórdão que lhe deram origem, em especial, a fundamentação, mas também à luz do relatório e do dispositivo que solucionou o caso-piloto" (Monnerat, 2024, p. 509). O autor lembra que o art. 927, III, do CPC fala em "acórdãos" e que a ratio decidendi "está contida no acórdão ou, mais precisamente, dele pode ser extraída" (Monnerat, 2024, p. 537). Para aplicar a tese a outro caso, conclui, "torna-se imprescindível a análise do relatório do precedente que se pretende aplicar, uma vez que nele estão a descrição dos fatos levados em consideração pelo julgador" (Monnerat, 2024, p. 543)14.

Para Teresa Arruda Alvim (2026, p. 638, 654-655), a tese é instrumento de operacionalização do sistema e basta para resolver por dedução os casos idênticos, típicos da litigância repetitiva. O que vincula, porém, é a ratio decidendi, e a aplicação a casos que não sejam idênticos exige o exame dela, em decisão de mérito, com a fundamentação analítica do art. 489, § 1º, V e VI, do CPC. Humberto Theodoro Júnior e Érico Andrade (2025, p. 135) propõem que súmulas e teses sejam lidas "sempre a partir dos precedentes que a geraram" e afirmam que, quando o enunciado não consegue comprimir toda a ratio, "sua aplicação terá de ser precedida de uma investigação sobre o acórdão que gerou o precedente, para descobrir quais foram as circunstâncias fáticas e jurídicas em que se baseou a ratio decidendi e que não chegaram a ser reveladas pela súmula (ou tese) vinculante" (Theodoro Júnior; Andrade, 2025, p. 152). Ravi Peixoto (2026, p. 51), ao tratar das ementas, observa que a aplicação do precedente exige o inteiro teor, com a norma, os fatos de origem e a divergência entre os votos.

Há posições que relativizam essa exigência nos casos repetitivos. Theodoro Júnior e Andrade registram a afirmação de Teresa Arruda Alvim e Bruno Dantas de que, nesses casos, a tese "praticamente dispensa a leitura do acórdão, porque não há a necessidade de se encontrar a ratio" (Arruda Alvim; Dantas, 2023, p. 333. apud Theodoro Júnior; Andrade, 2025, p. 137), em contraste com a posição de Daniel Mitidiero, para quem "é preciso sempre [...] ler a tese à luz da ratio" (Mitidiero, 2023, p. 84. apud Theodoro Júnior; Andrade, 2025, p. 137). Os mesmos autores, contudo, ressalvam que, nos casos complexos, "a leitura do acórdão é absolutamente imprescindível porque o que vincula é a ratio, e a ratio dificilmente é absorvida pela tese" (Arruda Alvim; Dantas, 2023, p. 333-334 apud Theodoro Júnior; Andrade, 2025, p. 152). Monnerat (2024, p. 505-506), por sua vez, defende teses que enunciem a solução da questão, o que permitiria aplicá-las objetivamente aos processos suspensos desde a afetação. Várias teses do TST, porém, contêm múltiplos itens, exceções e regras de modulação, como se verá na seção 6, sem se reduzir a resposta binária. O próprio Monnerat condiciona a aplicação acelerada à certeza de que se trata da mesma situação, pois não se pode reduzir garantias processuais "com base na suposição de uma solução previamente debatida sobre a questão jurídica, em situações nas quais não se sabe (rectius não se tem certeza) se está-se, de fato, diante da mesma situação" (Monnerat, 2024, p. 539-540).

Geovany Cardoso Jeveaux (2025, p. 104), ao confrontar o texto da Súmula Vinculante 10 com os precedentes que lhe deram origem, conclui que a fidelidade "é total quanto ao resultado, ou seja, quanto à síntese adotada, mas parcialmente infiel quanto às demais leituras dadas ao art. 97", e registra que uma dessas leituras foi mencionada nos debates de aprovação sem constar do texto15. No próprio TST, no IRR 146, a tese afirma que o depósito recursal do devedor principal aproveita ao responsável subsidiário "desde que não tenha requerido a sua exclusão da lide". No IRR 267, a tese afirma que as custas aproveitam às demais partes "ainda que a parte responsável pelo recolhimento tenha requerido sua exclusão da lide". A leitura isolada dos enunciados sugere antinomia, afastada pela fundamentação do acórdão do IRR 267, que distingue a natureza tributária das custas, cujo pagamento extingue o crédito (art. 156. do CTN), da função de garantia do depósito recursal, e afirma expressamente que a questão "não se confunde tampouco conflita com a tese fixada por este Tribunal Superior no IRR nº 146" (Brasil, 2025b apud Koury, 2026, p. 95)16. O acórdão identifica o paradigma anterior pela data de publicação.

No processo do trabalho, a Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados (2025, p. 967) orienta, no Enunciado 19, que a decisão que aplica tese de casos repetitivos atende ao art. 489, § 1º, V, do CPC quando demonstra a correlação fática e jurídica entre o caso concreto e o apreciado no incidente, o que pressupõe conhecer o caso apreciado. O art. 294. do RITST, ao admitir a manutenção do entendimento divergente apenas com a demonstração de hipótese fática distinta ou de questão jurídica não examinada, pressupõe o conhecimento do que o Pleno examinou. A certidão de julgamento não informa os fatos do caso-piloto nem os fundamentos que formaram a maioria. Nas sessões virtuais, em que o regimento admite votos convergentes com ressalva de fundamentação (Brasil, 2026a, art. 134, § 3º), essa informação é necessária para verificar se houve maioria quanto aos fundamentos determinantes, hipótese em que, segundo Monnerat (2024, p. 506), pode haver "tese consagrada sem ratio decidendi"17.

Assuntos relacionados
Sobre o autor
Elthon José Gusmão da Costa

Advogado. Sócio de Costa & Vieira Sociedade de Advogados. Mestrando em Direito pela Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FDRP/USP). LL.M. em Direito Desportivo Internacional pelo ISDE (Madri). Agraciado com a Ordem do Mérito Judiciário do Trabalho do TST.︎

Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi

Leia seus artigos favoritos sem distrações, em qualquer lugar e como quiser

Assine o JusPlus e tenha recursos exclusivos

  • Baixe arquivos PDF: imprima ou leia depois
  • Navegue sem anúncios: concentre-se mais
  • Esteja na frente: descubra novas ferramentas
Economize 17%
Logo JusPlus
JusPlus
de R$
29,50
por

R$ 2,95

No primeiro mês

Cobrança mensal, cancele quando quiser
Já é assinante?
Publique seus artigos Compartilhe conhecimento e ganhe reconhecimento. É fácil e rápido!
Colabore
Publique seus artigos
Fique sempre informado! Seja o primeiro a receber nossas novidades exclusivas e recentes diretamente em sua caixa de entrada.
Publique seus artigos