Como trilhar com os dedos a tessitura do véu que encobre a face do mistério indevassável? Como engendrar-se pelas sombras do corpo que não se revela e tatua o seu perfil por passagens recônditas, inaugurando a ontologia pelo cheiro de seu perfume? Que chamem Hermes com os seus pés alados e que o seu vôo seja revelatório dos disfarces costurados pelo silêncio. Que o deus grego vele pela hermenêutica possível.

Dois homens, uma mulher e pactos inumeráveis. Verbais? Escritos? Melhor dizê-los: por vezes conscientes, sempre inconscientes. Interpretá-los é mergulhar no vácuo da alma humana, nos meandros das vontades hipotéticas. Cabe a Hermes a investigação da vontade real (voluntas spectanda) e os seus efeitos no mundo fenomênico. Hermes voa onde não habita o ar? Talvez a resposta do oráculo de Delfos seja a de que não há morada onde não entrem os deuses... Deixemo-lo entrar na sala de visitas de nosso querido personagem, Dom Casmurro, o Bentinho, em sua casa da Rua de Matacavalos, ali onde ele gozou a sua infância e a sua mocidade, casa da qual foi feita uma réplica em outro sítio, no Engenho Novo, tal e qual, e onde o Casmurro ancorou seus navios na madurez. Ali onde ele, criançola, conheceu Capitolina e, rapazote, apaixonou-se por ela. Capitolina, a Capitu, a moça de olhos de ressaca, aquela cujas intenções pareciam estar mergulhadas em estado de permanente embriaguez sem perda da consciência. Capitu altiva, ativa, determinada, forte, articulada, questionadora, insubjugável. Com olhos claros, intenções nebulosas, "olhos de cigana oblíqua e dissimulada". Estariam viciados, por natureza, os pactos por ela celebrados? Teriam esses, por destino, desembocar no erro essencial quanto à pessoa? Mas, estaria Bentinho não ciente, desde o início, do que seria o seu engano imaginado? Não teria sido, o erro a viciar o seu pacto com Capitolina, o fundamento de sua atração, de seu desejo inafastável? O que queria Capitu ao travar, desde a infância, com Bentinho, uma avença, essa que é sempre uma aventura a qual chamamos de amor? A esta indagação nem Freud responderia, pois o mestre de Viena saiu da vida sem conseguir explicar o que queriam as mulheres. Interpretação subjetiva dos pactos idílicos.

Bentinho e Capitolina se amaram desde os mais tenros anos, a paixão veio junto com os hormônios, ele havia completado quinze anos e ela quatorze. E desde os tenros anos foi Bentinho amigo inseparável de Escobar. Confiança e lealdade. A boa-fé como princípio fundante das relações de amor e da amizade. A boa-fé objetiva como norteadora da interpretação das intenções comuns do tríduo. Disse Aristóteles que o homem diferencia-se dos demais animais pelo uso da palavra. Esta possibilita-os construir a pólis, logo não seria forçoso deduzir que o homem diferencia-se dos demais animais por contratarem entre si através da palavra, mas não apenas através da palavra dita, muito, através das não ditas. Os contratos nascem do silêncio e podem chegar a ser expressos verbalmente, ou pelos signos da escrita, o que lhes facilita a interpretação objetiva. No entanto, há os que permanecem silentes, mas não menos vigentes, e os seus efeitos na tez humana podem ser avassaladores, bem mais difícil, no entanto, a sua tradução. E é esse exercício hermenêutico de contratos no silêncio, que nos propõe o Bruxo do Cosme Velho, Machado de Assis, o autor da obra Dom Casmurro.

Mas voltemos ao nosso terceto, quiçá, quarteto, às partes e às portas dos pactos. Como o que aqui se propõe é uma tentativa de hermenêutica de pactos silenciosos, lancemos mão de invadir as almas de nossos personagens, as suas psiquês, e embrenhemo-nos pelas penumbras de uma tentativa analítica desses contratos imanentes. Bento ficou, desde muito pequeno, aos dois anos de idade, órfão de pai, tendo sido o filho único criado por sua jovem e bela mãe, D. Glória, que havia feito promessa para que o menino, quando crescesse, passasse o resto de seus dias sob a batina da madre Igreja Católica. Viúva, D.Glória tinha horror de afastar-se do filho e, não poucas vezes, Bento pegava-a olhando-o fixamente e ardorosamente. Veja-se que o menino ao carecer da figura paterna e, portanto, masculina, encontra-se subjugado a duas figuras femininas: à mãe e à Igreja. Uma o possui integralmente no presente, a outra, fá-lo-á no futuro e perpetuamente. Assim, D. Glória manter-se-á como a única mulher de carne e ancas na vida de seu filho. Este domínio feminino enfraquece a segurança de Bentinho em relação à sua própria masculinidade, semeia a crença interna de que nunca será suficientemente homem para assumir uma mulher. Capitolina é sua amiga de infância. Capitu reflexiva, destemida, Capitu insubalternizável preenche-lhe o caráter tíbio, claudicante. Não poucas vezes, Bentinho repete para si mesmo "-Sou homem!", em uma necessidade de (re)afirmação constante da masculinidade que em si se esboça, mas para ele, não se completa.

As referências masculinas de Bentinho são: o seu tio Cosme, um viúvo crepuscular que vivia com eles, e o agregado José Dias, um charlatão, que por sê-lo parecia intuir quem também o era.

Bentinho, menino, já se prepara para internar-se no Seminário e brinca com Capitu de celebrar missas. No entanto, na explosão vesuviana da puberdade, completados quinze anos de idade, Bentinho, inelutavelmente, apaixona-se por Capitu que havia completado quatorze, eis a confissão amorosa de ambos: "Em verdade, não falamos nada (...). Não nos movemos, as mãos é que se estenderam pouco a pouco, (...), pegando-se, apertando-se, fundindo-se. As mãos, unindo os nervos, faziam das duas criaturas uma só (...). Os olhos continuaram a dizer coisas infinitas, as palavras de boca é que nem tentavam sair, tornavam ao coração caladas como vinham... . (...) Era ocasião de pegá-la, puxá-la e beijála... Idéia só! idéia sem braços! Os meus ficaram caídos e mortos." Mais tarde, Bentinho roga que Capitu faça-lhe duas promessas, a primeira que apenas se confesse com ele, para que lhe dê a penitência e a absolvição, a segunda que ele seja o padre que a case ao que ela responde e, cuja reação, Machado descreve: "- Que me case? Disse ela um tanto comovida.". Por essas duas passagens, nota-se o sentimento de impotência de Bentinho em ocupar o lócus destinado aos "machos" da espécie humana, não a toma nos braços quando poderia fazê-lo e, mesmo sem ter chegado ao Seminário, já a casa, hipoteticamente, com um outro, integralizando a sua lacuna. No Seminário, Bento conhece Escobar que se torna o seu melhor amigo e, na opinião de sua prima Justina, pensa em convidar a linda e doce D. Glória a segundas núpcias. Frustrado em seu intento, casa-se com a amiga-irmã de Capitu, Sancha, tendo uma filha a qual chamam de Capitolina, em homenagem à primeira.

Bentinho, por sua vez, casa-se com Capitolina e dela tem, tardiamente, e finalmente, um filho que considera, com o tempo, a reedição do amigo Escobar. Este "que adorava um bom mar em hora bravia" morre afogado nos mares do Flamengo devido à sua imprudência e intrepidez. Lembrando que, no dia anterior à morte do amigo, Bento experimenta um invencível e afogueado desejo sexual por sua mulher, Sancha. Estando Escobar "estudando geologia nos campos-santos", dia após dia, Bentinho constata a forte semelhança entre o seu filho Ezequiel, cujo nome é o primeiro prenome de Escobar, e o finado que se faz cada vez mais vivo aos seus olhos. Sempre que vê o filho, acredita ver Escobar sair da tumba e, se não se assegura de que há vida após a morte, bastante seguro está da infidelidade de Capitu. Essa que é nas palavras do agregado e farsante José dias "uma cigana oblíqua e dissimulada"... Intuição, projeção ou desejo ressentido? Saliente-se que, no decorrer de toda a obra, nenhuma outra voz se alevanta constatando a semelhança entre ambos. Apenas Bento ouve a sua própria voz desejando, ardentemente, a morte de Capitu. Em meio à crise, Bento parte com Capitolina e Ezequiel para a Suíça, lá deixando-os. Não mais visita Capitolina e nem responde às suas saudosas e amorosas cartas, até que esta se impossibilita de vê-lo, para sempre, pois que na Suíça jaz, nas suas gélidas e quase proféticas palavras: "morta e enterrada".

Ezequiel vem ao Brasil visitar o pai, que, ao encontrá-lo sente rever o amigo defunto Escobar, desejando que o filho morra de lepra. Ezequiel não é sucumbido pela lepra, mas onze meses após a visita, viaja, também, e sem retorno, para o além-mundos, vítima de uma febre tifóide. Bentinho, já agora, casmurro, ensimesmado, vive sozinho, estabelecendo relações superficiais, sem conseguir esquecer "a primeira amada de seu coração", não celebrando pactos com quem quer mais que seja. Ao fim, deseja à mulher e ao amigo que "A terra lhes seja leve!".

Emana das últimas falas de nosso Casmurro, um certo regozijo sarcástico. De suas palavras jorra o gozo de quem alcançou o fim inarredável desde sempre perseguido: "Vivi o melhor que pude". Tendo sido traído ou não, Bentinho firmou silenciosos pactos com as pessoas que quis e como quis, essas, no entender das vozes do inconsciente, cumpriram fielmente os seus papéis, as suas partes do contrato, enganando-o e, desta feita, deixando de ser a sua mulher, Capitolina, sendo o homem que ele não conseguira ser, Escobar. Ambos ainda fizeram-lhe o favor de, precocemente, morrerem, sem que ele movesse, para tanto, sequer um fio de uma palha.

Bento, mesmo tendo, aparentemente, não satisfeito o desideratum de D. Glória, ao fim e ao cabo executou à perfeição o pacto feito com a mãe. Essa foi, tal como o queria, e quiçá, ele também, a sua eterna mulher. Ao menos, a única digna desse nome. Para enganar a si mesmo quanto ao seu desejo funesto, na tumba da mãe fez questão, contra legem, que não lhe constasse o nome, apenas a designação assexuada: "Uma Santa".

"Bento Casmurro" amanheceu os seus sóis outonais na cópia, por ele construída, da casa na qual vivera a sua infância e adolescência, antes de casar-se com Capitu. De volta estava, então, ao aconchego do útero materno. Pois bem, a obra "Dom Casmurro" não é, nem apenas, uma tragédia do adultério, não importa se realizado ou não, mas, possivelmente, desejado pelo protagonista, nem apenas, uma tragédia do ciúme, e sim, ambas, aglutinadas na construção de uma tragédia maior: a tragédia do desejo edipiano e seus pactos inconscientes.

extrema ratio nessa interpretação, caro leitor? Mesmo que dela discordes, muito bem sabes que a regra hermenêutica-contratual preconiza que a obscuridade e a ambigüidade não podem desvestir os contratos de sentido sob pena de nulidade.

Capitu, capitulou? No abismo do indelével segredo feminino (e masculino), jogam-se pedras que nunca tocam o chão. Cabe a cada um de nós desvendar em si, e para si, o enigma irrevelado do con(tractum), do trato em conjunto. Quanto à hermenêutica da vida, essa, certamente, capitula e resta a Hermes redescobrir o princípio de prazer ao alçar seu vôo azul por sobre o humano insondável.


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Como citar este texto (NBR 6023:2002 ABNT)

CAMPOS, Andrea Almeida. Capitu capitulou? Uma tentativa hermenêutica-contratual da (in)fidelidade na obra "Dom Casmurro", de Machado de Assis. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 14, n. 2334, 21 nov. 2009. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/13891>. Acesso em: 17 fev. 2018.

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