Tem sido um lugar – comum nos escritos e debates acerca da relação entre Religião e Ciência a indicação do Cristianismo e, especificamente, da Igreja Católica, como elementos de atraso, repúdio e repressão ao livre desenvolvimento científico, semeando as crendices e ignorâncias. A Ciência é apresentada como única via de conhecimento válido desde o Século XIX com o advento do Positivismo Comteano, que chega ao extremo da pretensão de erigir uma "Religião Positivista" dotada inclusive de um "Catecismo Positivista". [01]

No Prefácio dessa inusitada e tresloucada obra encontra-se a seguinte abertura que certamente reflete muito bem o pensamento que concebe Ciência e Religião como contrapostos:

"Em nome do passado e do futuro, os servidores teóricos e os servidores práticos da humanidade vêm tomar dignamente a direção dos negócios terrestres, para construir, enfim, a verdadeira providência, moral, intelectual e material; excluindo irrevogavelmente da supremacia política todos os diversos escravos de Deus, católicos, protestantes ou deístas, como sendo, ao mesmo tempo, atrasados e perturbadores". [02]

Entender por que uma linha de pensamento que repudia totalmente a Religião e a culpa por todo atraso e ignorância mundana, necessita erigir uma religião própria dotada de um "catecismo", é mesmo um grande "mistério" a ser desvendado e compreendido . [03] Uma contradição como esta seria cômica, se não fosse tragicamente insana!

Dessa raiz comum onde grassam a desinformação e a contradição, cresce a árvore com os frutos dos novos ateus dedicados a um contínuo denegrir da Religião e dos religiosos. Tal como seu mentor original, têm como ponto de apoio a ignorância teológica e histórica e o desinteresse em informar-se (o que não seria assim tão difícil). Também, partindo de um ponto de desinformação somente se poderia chegar a destinos equivocados, tais como a "fé" (elemento claramente religioso) em Teorias Científicas, históricas e sociológicas (que não deveriam ser construídas sobre esse fundamento). A intolerância para com o pensamento alheio que se revela tanto pelo vocabulário ofensivo e desrespeitoso, quanto pelo desinteresse em obter conhecimento sobre aquilo de que se fala ou se escreve, entra em contradição com toda a crítica "indignada" a certas condutas autoritárias porventura perpetradas por líderes religiosos em contextos histórico – sociológicos que deveriam ser levados em conta em qualquer discussão séria, respeitosa e inclusive com alguma pretensão "científica".

A Igreja ou as Religiões em geral são comumente apontadas pelos novos ateus como as responsáveis pelos maiores massacres da humanidade, violências e arbitrariedades danosas à liberdade de pensamento e de expressão. [04] O ateísmo é apresentado como a panacéia para todos esses males políticos, novamente numa "fé" cega e absurda que não leva em consideração eventos históricos inegáveis como as bases supostamente científicas do nazismo que, aliás, apregoava especialmente a perseguição e massacre a um grupo religioso. Deixam-se de lado as atrocidades praticadas contra a vida e a liberdade humanas por ditaduras laicas em todo o mundo e no curso da história geral, como se a Revolução Francesa e a Revolução Comunista não tivessem vitimado inúmeras pessoas, inobstante suas características amplamente antirreligiosas e atéias.

Um dos arautos mais festejados do novo ateísmo e suas incoerências é Richard Dawkins que efetivamente apresenta o fim da Religião como a cura para todos os males da humanidade, desde a violência até a remoção de todos os óbices para o livre desenvolvimento, especialmente na área científica. [05] O autor promove uma versão requentada do antigo e superado argumento do "bom selvagem" encontrável em Rousseau [06] e cuja primeira menção, segundo consta, encontra-se em obra do escritor John Dryden datada de 1672. [07] Só que agora o "bom selvagem" é substituído pelo "bom ateu civilizado" exatamente em oposição ao mau, inculto e selvagem homem religioso, capaz das maiores atrocidades devido ao simples fato de crer em Deus ou ser dotado de alguma convicção espiritual. Os ateus, por seu turno, seriam "pessoas maravilhosas", incapazes da prática de qualquer conduta autoritária, imoral ou má.

Esse e outros protagonistas do novo ateísmo ativista e fundamentalista esquecem-se (propositadamente ou não) que idealismos do homem, da natureza e do mundo que pretenderam construir utópicos paraísos terrenos foram e podem continuar sendo causas de violências contra a vida, a dignidade e a liberdade humanas. Ademais, podem também ser a origem de ingentes atrasos no desenvolvimento científico.

Um bom exemplo de como uma doutrina que nada tem de religiosa constituiu um atraso considerável para a ciência é o caso ocorrido na metade dos anos 30 na União Soviética quando um charlatão de nome Trofim Lysenko conseguiu obter o aval de Stalin para a defesa de suas teorias genéticas desprovidas de qualquer base científica ao ponto de ensejar uma verdadeira repressão ao estudo e pesquisa voltados para a genética clássica ou qualquer teoria que desmentisse ou conflitasse com as idéias absurdas de Lysenko. [08]

Freeman Dyson, físico agraciado com o Templeton Prize e indicado ao Prêmio Nobel devido ao seu trabalho na área da eletrodinâmica quântica, fez um discurso de agradecimento na cerimônia de recebimento do primeiro prêmio mencionado, manifestando-se de forma equilibrada, criticando o lado negativo das religiões, mas reconhecendo suas realizações positivas. Da mesma forma, posicionou-se quanto ao aspecto negativo do ateísmo, consignando que "dois indivíduos que mais protagonizaram desgraças no século XX, Adolf Hitler e Joseph Stalin, eram ateus confessos". [09]

O fundamentalismo ateísta de Dawkins e outros adeptos defende a existência desde sempre e atualmente de uma verdadeira guerra ou oposição sistemática entre Ciência e Religião, devendo ao final dessa suposta batalha de morte, restar em pé apenas uma das combatentes. Essa é sem dúvida "uma interpretação confusa que se apoia na leitura histórica obsoleta e já abandonada da relação entre ciência e religião. No passado, por volta da segunda metade do século XIX, podia-se acreditar que ciência e religião estavam permanentemente em guerra. No entanto, de acordo com a recente alegação de um dos principais historiadores da ciência dos Estados Unidos, esse entendimento é visto, hoje, como um estereótipo histórico totalmente antiquado, e desacreditado pela academia". [10] Ora, se assim é, impossível não formular a pergunta: onde está o caráter científico do fundamentalismo ateísta de Dawkins e outros?

O que se verifica na verdade é que não somente a Religião como também muitas outras visões de mundo podem gerar o fanatismo e o fundamentalismo. Ao contrário do que Dawkins e companhia apregoam fanatismo e fundamentalismo não são apanágios exclusivos da Religião. Em seu estudo sobre o fanatismo, Jaime Pinsky e Carla Bassanezi Pinsky deixam bem claro que o fenômeno não é redutível jamais a uma só face. Eles delimitam seu campo de estudo em quatro vertentes básicas (religiosa, política, racista e esportiva), mas sem pretender esgotar o assunto e suas repercussões possíveis. [11] Certamente poderiam incluir, se quisessem, o fanatismo ateu.

Ora, o fanático é aquele extremista, exaltado e acrítico defensor de uma causa, o qual não aceita discussões ou questionamentos racionais. [12] E os fundamentalistas ateus explicam a violência e os atentados contra a liberdade humana como derivados da Religião de forma tão acrítica que não parecem perceber que uma das faces da liberdade é exatamente a religiosa! E mais, não enxergam ou não querem enxergar que atos de violência podem resultar de motivações variadas e que mesmo quando envolvem a Religião normalmente estão envoltos também em questões políticas. Para Dawkins, por exemplo, parece "líquido e certo" que um "bom ateu" jamais "jogará aviões contra arranha – céus ou cometerá qualquer outro ato ultrajante de violência ou opressão". Essa é uma afirmação totalmente inverídica como prova a história tanto recente como antiga, além do que também se deve levar em conta que a maioria esmagadora das pessoas que professam crenças religiosas não agem de forma violenta ou autoritária. Assim como nem todos os ateus são clones de Hitler ou Stalin, também nem todos os que professam alguma fé religiosa são terroristas e assassinos. [13]

Mas para ateus fundamentalistas como Dawkins uma das principais bases de suas argumentações desconexas, anacrônicas e irreais é a negativa do "lado mais sombrio do ateísmo". Defende-se com isso "uma fé fervorosa e inquestionável na bondade universal do ateísmo", recusando qualquer exame crítico desse dogma. É preciso admitir que realmente há "muita coisa errada na religião contemporânea e muito a ser corrigido, mas o mesmo se aplica ao ateísmo, que precisa se sujeitar a um autoexame, a um julgamento moral e intelectual". A realidade "é que os seres humanos são capazes tanto de violência quanto de excelência moral – e que ambos podem ser provocados por visões de mundo, religiosas ou não". Fato é que criar um "bode expiatório" ateu ou religioso para os males do mundo jamais será uma boa solução. Na verdade isso certamente já é em si um perigoso fomentador da repressão e violência contra certas pessoas e grupos. [14]

Como bem expõe Chesterton [15] a desorientação e inconsistência dos argumentos antirreligiosos são causadoras de verdadeiros antagonismos internos na própria crítica levada a termo. O autor apresenta como exemplo a crítica ao Cristianismo quanto à sua natureza tímida e pouco viril, que deixaria as pessoas apáticas diante de uma agressão e incapazes de reagir, atuando como um típico rebanho de ovelhas (por todos, Nietzsche, 1844 - 1900). Incoerentemente também se critica o Cristianismo não por sua apatia bélica, mas por sua agressividade que seria a matriz para todas as guerras da humanidade e por uma verdadeira inundação de sangue no mundo (vejam-se por todos os já mencionados neste texto, Harris e Dawkins).

Vistas a contento as incongruências, anacronismos, equívocos, inconsistências e falta de cientificidade das críticas à Religião como grande quando não única ensejadora de posturas autoritárias e cruéis, bem como anticientíficas, pode-se passar para a análise de como é possível superar essa repetição insistente de tolices por meio de um estudo da real contribuição da Igreja Católica e do Cristianismo em geral para o desenvolvimento da Ciência no mundo ocidental.

Infelizmente o diagnóstico jocoso formulado por Carvalho quanto à imbecilização coletiva é por várias vezes comprovado, sendo o tema ora em discussão um dos exemplos mais destacados. Nas palavras irônicas do autor:

"O imbecil coletivo não é, de fato, a mera soma de um certo número de imbecis individuais. É, ao contrário, uma coletividade de pessoas de inteligência normal ou mesmo superior que se reúnem movidas pelo desejo comum de imbecilizar-se umas às outras". [16]

Muitas ideias são propagadas e passam a configurar certezas "científicas", "históricas" e "políticas" não por seu real valor e coerência, mas pela força da repetição de um testemunho unânime de uma suposta intelligentzia que passa a ser o requisito de validade para tudo e sem o qual pode-se dizer que algo nem sequer existe. [17] É por esse recurso fraudulento que se concentra "obsessivamente a discussão em certas correntes de ideias, para bloquear ao público o acesso a outras" como um "método elegante de censura prévia, que dá ao mais tirânico dirigismo mental as aparências de uma discussão democrática". [18] Já não se almeja a verdade onde grassa uma retórica vazia que visa criar um convencimento psíquico por meio de uma espécie de chantagem que afasta o debate argumentativo e o inibe com a ameaça do isolamento intelectual. Dessa forma "as ideias conquistam adeptos por contágio afetivo; e, uma vez dominantes, já não precisam sequer ostentar a pretensão de veracidade. Possuem argumento melhor: a força do número que espalha nas almas dos recalcitrantes o temor do isolamento, vagamente identificado com a miséria e a loucura". [19]

É de clareza solar que a repetição acrítica e leviana da tese de que a Igreja Católica teria sido a responsável pelo obscurecimento da Ciência ao longo da história da humanidade constitui uma dessas "imbecilizações" que vêm ao correr do tempo conquistando adeptos à força da insistência repetitiva e da criação de certo modismo que corrompe o intelecto pelo medo de contrariar e ser considerado um elemento estranho à intelligentzia estabelecida.

Essa e outras tolices são alardeadas aos quatro cantos por indivíduos que, conforme o ditado popular "ouviram o galo cantar, mas não sabem onde" (sic). Hodiernamente autores do calibre de Étienne Gilson e Thomas E. Woods Júnior já demonstraram os contributos filosóficos e científicosque a instituição em destaque prestou à história da humanidade. [20]

Stanley Jaki tem disseminado a tese, amplamente comprovável por indicações históricas, de que, "longe de impedir o desenvolvimento da ciência, a doutrina cristã contribuiu para torná-la possível". Segundo o autor a concepção cristã e também judaica concebe Deus e sua criação como uma "entidade racional e ordenada". Na Religião judaico – cristã a natureza é descrita como criada por Deus mediante o estabelecimento de uma ordem imutável que possibilita ao homem prever os fatos naturais e descobrir suas leis regentes. Por isso não teria sido por mera coincidência que o surgimento da Ciência como campo de pesquisa e desafio intelectual teve seu surgimento em um ambiente católico. Certas ideias fundamentais do Cristianismo foram imprescindíveis para o surgimento do pensamento científico. De outra banda, culturas diversas estavam desprovidas dessa concepção teológico – filosófica de um mundo regido por leis racionais imutáveis e identificáveis. Essas outras culturas, marcadas pelo politeísmo, panteísmo, animismo e pela divinização da própria natureza e das coisas obstaculizavam o desenvolvimento da Ciência. Na obra "Science and Creation", Jaki estuda "sete grandes culturas" (árabe, babilônica, chinesa, egípcia, grega, hindu e maia) e demonstra que a Ciência em todas elas foi natimorta. A explicação para tal ocorrência estaria nas concepções de universo que dominavam essas culturas. Em todas havia a ausência de um Criador que teria dotado sua criação de "leis físicas consistentes". Muito ao reverso, em tais culturas o universo seria "como um gigantesco organismo, dominado por um panteão de divindades e destinado a passar pelos intermináveis ciclos do nascimento, da morte e do renascimento, o que tornava impossível o desenvolvimento da ciência". O animismo incrustado nessas culturas antigas, que confundia as coisas do mundo com a própria divindade, teve o efeito de entravar o desenvolvimento científico, vez que impedia a concepção da "ideia de leis naturais constantes". Ora, se as coisas são Deus e Deus é as coisas, torna-se inviável pensar em identificar leis naturais, já que um deus pode muito bem alterar tudo que quiser da forma que bem lhe aprouver. Esse não é um clima muito incentivador para a atividade científica que pretende descobrir leis, prever, explicar e até dominar fenômenos naturais. No nível do pensamento teológico animista "as coisas criadas tinham pensamento próprio e vontade própria, um ponto de vista que, na prática, excluía a possibilidade de se considerar que funcionassem de acordo com padrões regulares e previamente fixados". Com o advento do Cristianismo, atribuindo divindade somente a Cristo, a Deus e ao Espírito Santo, entidades diversas da natureza e do mundo material, lograva-se evitar qualquer espécie de panteísmo, abrindo espaço finalmente para uma visão do universo "como um domínio de ordem e previsibilidade". Mesmo no berço da intelectualidade humana da história antiga, na Grécia, ainda não se obteve um desenvolvimento de algo que se pudesse chamar de Ciência. Embora, segundo Jaki, tenham sido os gregos aqueles que mais se aproximaram disso, não chegaram a atingir esse grau de desenvolvimento. Isso porque também atribuíam propósitos conscientes à matéria e ao cosmo. Aristóteles, por exemplo, afirmava que os astros realizavam movimentos circulares porque gostavam desse tipo de movimentação. Para o progresso da Ciência, tal como a entendemos hoje, foi necessário, segundo Jaki, que os Escolásticos promovessem à "despersonalização da natureza" [21] na Idade Média Clássica. É fato que ao longo da história houve contributos de cientistas islâmicos, mas, segundo Jaki, tal se deu "apesar do Islamismo e não por causa dele". Efetivamente a autonomia de Alá que não se autolimitaria nem mesmo pelas leis naturais por ele estabelecidas, torna-se hostil à concepção que admite a "existência de leis físicas consistentes" a serem objeto de uma atividade tipicamente científica. Já o Catolicismo, ao estabelecer o conceito de "milagre", apesar de admitir uma excepcional intervenção sobrenatural daquele que é onipotente, só vem reforçar a existência de leis naturais invariáveis e determináveis, já que o "milagre" pressupõe exatamente isso, sendo apresentado como um fenômeno "invulgar". Aliás, somente é possível conceber um "milagre" num mundo naturalmente ordenado, onde se possa identificar aquilo que foge à ordem, que a altera de forma excepcional e inesperada. Do contrário, nada poderia ser tomado como "milagre", já que o mundo não seria regido por leis racionais pré – estabelecidas, mas seria mutável de acordo com os apetites de uma ou várias divindades presentes nas coisas ou na natureza. [22] De outra banda, a noção de "milagre" no sentido Bíblico é a de "uma intervenção graciosa, visível e intencional de Deus no mundo, com múltiplos propósitos", de forma que não constitui o Sagrado em si mesmo, mas consiste em "um sinal que aponta para ele". [23] O "milagre" como um sinal de Deus e não como Deus em si, deixa o campo aberto para o estudo científico dos fenômenos naturais regidos por leis racionais e constantes e até mesmo para o estudo e a investigação dos fatos aos quais se atribui correta ou incorretamente a qualidade de "milagre", tal como se vê nos processos canônicos da Igreja Católica para beatificação, santificação e reconhecimento de fatos milagrosos. Como se vê, há um imbricamento entre o conceito de milagre e o de Ciência. A concepção da ideia de "milagre" possibilita o surgimento da pesquisa científica e esta é o caminho utilizado para apurar se num caso concreto submetido à investigação houve ou não um verdadeiro milagre.

O Cristianismo manifestado no Catolicismo rompe com a identificação Deus/Natureza, posteriormente retomada por Espinosa no famoso adágio, "Deus sive natura" ("Deus ou Natureza). [24] Com esse rompimento destaca-se a transcendência divina, colocando o Criador para muito além da Sua criação, "da qual Se distingue em absoluto". Deus não se encontra então em um lugar fisicamente determinável e não anima os entes criados, como ocorre com as divindades naturalizadas do animismo. "É esse atributo que torna possível a emergência da ciência e o desenvolvimento da ideia de leis regulares da natureza, dado que priva a natureza material de atributos divinos". Não possuindo os entes do mundo criado vontade própria, viabiliza-se a concepção de sua conformação a "padrões regulares de comportamento". [25]

É claro que não se deve olvidar que a doutrina de Guilherme de Ockham acabou dando ênfase a uma "vontade absoluta de Deus" em um nível que em nada contribuiu para "o desenvolvimento da Ciência". [26] Ele levou a efeito uma distinção clara entre Deus com sua onipotência e a multiplicidade de indivíduos, dentre os quais não haveria nenhum liame ou laço além daquele que pode ser indicado como "o puro ato da vontade divina criadora, racionalmente indecifrável". Ockham concebe o mundo como um "conjunto de elementos individuais, sem nenhum laço verdadeiro entre si e não ordenáveis em termos de natureza ou essência". Tudo isso leva a consequências que são bastante impróprias à criação de um ambiente confortável para o desenvolvimento da Ciência: ao rejeitar o universal como objeto do estudo científico, optando pelo "primado do individual", praticamente afasta o intento tão caro à Ciência de identificar leis universais. Outra consequência é a de que qualquer sistema de causas necessárias e ordenadas é abolido, cedendo para a concepção de um "universo fragmentado em inúmeros indivíduos isolados, absolutamente contingentes porque dependentes da livre escolha divina". [27] Até mesmo no campo da Ética, Ockham propicia certo germe de relativismo, ensinando que "o valor moral dos atos humanos procede inteiramente da vontade soberana , irrestrita, de Deus". Este, com seu poder absoluto, "poderia ordenar o adultério ou o furto, e se o fizesse tais atos não só deixariam de ser pecaminosos, como também se tornariam obrigatórios". [28] Não obstante, esse tipo de convicção constitui uma exceção heterodoxa no bojo do pensamento cristão. Jaki chama a atenção para o escólio de São Tomás de Aquino que, de posse da orientação aristotélica da virtude da mediania, consegue estabelecer um "ponto de equilíbrio entre a liberdade que Deus tem de criar qualquer tipo de universo que Lhe aprouver e a Sua consistência na governação do universo que efetivamente criou". Assim era importante descobrir qual universo Deus efetivamente criou a fim de evitar concepções fantasiosas ou abstratas sobre a natureza desse mesmo universo. Portanto, tendo em vista a absoluta "liberdade criativa de Deus", o universo não "tinha de ser de maneira nenhuma", mas o foi conforme a vontade do Criador, tornando-se então objeto do estudo humano através da Ciência a descoberta da natureza desse universo efetivamente criado. Seu conhecimento é acessível ao homem porque ele foi moldado de forma "racional, previsível e inteligível". [29]

Pode-se então afirmar que "foi justamente esse sentido da racionalidade e da previsibilidade do mundo físico que proporcionou aos cientistas do começo da era moderna a confiança filosófica que lhes permitiu proceder aos referidos estudos científicos". [30] De acordo com Haffner, somente nesse contexto de matriz conceitual, ensejado pela doutrina católico – cristã, poderia a Ciência viabilizar-se e promover o seu "desenvolvimento sustentado". [31]

Goldstein apresenta o pensamento de Abelardo de Bath que enfatiza que a humanidade do homem consiste em sua apreciação racional do universo criado por Deus para que assim pudesse ser apreciado. [32] Também menciona outro filósofo da Igreja Católica, Guilherme de Conches, o qual compartilhava da mesma opinião, defendendo que de "forma geral, a estrutura da natureza que Deus criou permite explicar os fenômenos que observamos sem recorrer a explicações sobrenaturais". [33]

Por derradeiro é preciso salientar que o ambiente propício para o desenvolvimento científico ocasionado pela emergência do pensamento católico – cristão, mediante o rompimento da identidade Deus/Natureza, não deve implicar em uma relação desrespeitosa do homem para com o mundo natural. Conforme bem enfatiza a Campanha da Fraternidade do ano de 2011, intitulada "A criação geme em dores de parto" (Rm 8,22), a Natureza persevera na vida como criação divina, o que somente pode levar à conclusão de que o Deus cristão é um "Deus da Vida". A Ciência, com seus aparatos e recursos deve servir para a ereção de uma "ética de cuidado" e não de exploração e dominação egoísta e desrespeitosa para com a criação, as criaturas e a própria vida neste planeta. Neste sentido Ciência e Religião podem unir-se no nobre desiderato de conhecer as leis naturais, desvendando seu funcionamento e interagindo com a obra criativa de Deus, preservando a vida e conquistando um conhecimento, ainda que limitado, da racionalidade divina que concomitantemente se oculta e se mostra na Natureza. [34]

Certamente um paradigma a ser seguido, não somente no campo do respeito pela Natureza como criação divina, mas também no exemplo de humildade e fraternidade insólito, é o de São Francisco de Assis, que soube levar o amor às criaturas e à humanidade por intermédio da fé às mais elevadas alturas. [35] É com essa noção de amor e respeito que devem Ciência e Religião unir-se, desvendando, no limite das capacidades humanas, os mistérios do mundo natural.


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Como citar este texto (NBR 6023:2002 ABNT)

CABETTE, Eduardo Luiz Santos. Natureza, ciência e religião católica. Desvelando equívocos de lugares-comuns criados pelo preconceito e desinformação. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 16, n. 2861, 2 maio 2011. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/19019>. Acesso em: 19 ago. 2018.

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