Os negros ainda constituem um gládio de massacrados e violentados no país, de forma que o discurso polido, inclusivo, cordial e respeitoso, na prática, não tem trazido resultado estrutural e modificador de nossa cultura segregadora e discriminatória.

José Bonifácio de Andrada e Silva, no seu Projeto para o Brasil, organização de Mirian Dolhnikoff, São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 47, num escrito de 1823 (para a Assembleia Constituinte) indagava: “Por que os brasileiros somente continuarão a ser surdos aos gritos da razão e, direi mais, da honra e brio nacional?”. Conclamava o intelectual citado a que todos ouvissem sua fraca voz a favor da causa da justiça, e ainda da sã política, causa a mais nobre e santa, que pode animar corações generosos e humanos. Suas lúcidas ponderações continuam mais vivas que nunca, bastando atualizar a escravidão pela miséria, que é mais discriminatória frente ao jovem negro. Mais que diante do jovem branco.

De acordo com a Síntese de Indicadores Sociais 2012 – Uma análise das condições de vida da população brasileira, elaborada pelo IBGE e divulgada nesta quarta-feira, dia 28 de novembro, nos últimos dez anos (2001-2010), o percentual de negros (pretos ou pardos) que ingressaram no ensino superior aumentou de 10,2% para 35,8%.

Porém, mesmo após uma década e apesar desse crescimento, o abismo entre brancos e negros ainda é muito grande no país. Isso porque, já em 2001, 39,6% dos brancos ingressavam no ensino superior, um percentual maior do que aquele conquistado pelos negros dez anos depois (Folha.com).

Da mesma forma, o percentual de negros (pretos e pardos) que se encontravam na série certa para sua idade (ensino médio) em 2011, que foi de 45,3%, ainda é inferior ao que os brancos atingiram em 2001, 49,5%.

Assim, por mais que se diga que o racismo e o preconceito vem sendo superados no Brasil, a estratificação social que foi gerada em nossa sociedade ainda está sendo gradativamente superada. Os negros ainda constituem a parcela da sociedade mortável, torturável e prisionável.

Os dados do DEPEN (Departamento Penitenciário Nacional) apontaram que 75.920 presos brasileiros são pretos e 166.610 são pardos, o que dá um montante de 242.530 presos negros do país, representando 47% de todo o sistema prisional brasileiro (que totaliza 514.582 presos).

Já conforme os dados do Datasus (Ministério da Saúde), do total de 52.260 vítimas de homicídio no país em 2010, 4.071 eram pretos e 30.912 eram pardos, o que dá um montante de 34.983 negros mortos violentamente, representando 67% do total de assassinados no país.

Nesse diapasão, evidenciamos uma maior vulnerabilidade dos negros em relação à violência, à morte e à prisão. Ou seja, além obterem um acesso à educação muito inferior aos brancos, bem como um menor número de oportunidades (em parte por essa razão), os negros ainda constituem um gládio de massacrados e violentados no país, de forma que o discurso polido, inclusivo, cordial e respeitoso, na prática, não tem trazido resultado estrutural e modificador de nossa cultura segregadora e discriminatória. 


Autor

  • Luiz Flávio Gomes

    Doutor em Direito Penal pela Universidade Complutense de Madri – UCM e Mestre em Direito Penal pela Universidade de São Paulo – USP. Diretor-presidente do Instituto Avante Brasil. Jurista e Professor de Direito Penal e de Processo Penal em vários cursos de pós-graduação no Brasil e no exterior. Autor de vários livros jurídicos e de artigos publicados em periódicos nacionais e estrangeiros. Foi Promotor de Justiça (1980 a 1983), Juiz de Direito (1983 a 1998) e Advogado (1999 a 2001). Estou no www.luizflaviogomes.com

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Como citar este texto (NBR 6023:2002 ABNT)

GOMES, Luiz Flávio. Abismo entre brancos e negros ainda é muito grande no país. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 17, n. 3444, 5 dez. 2012. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/23171>. Acesso em: 23 set. 2018.

Comentários

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    Temístocles Telmo Ferreira Araújo

    Nobre professor, ao trazer: Os dados do DEPEN (Departamento Penitenciário Nacional) apontaram que 75.920 presos brasileiros são pretos e 166.610 são pardos, o que dá um montante de 242.530 presos negros do país, representando 47% de todo o sistema prisional brasileiro (que totaliza 514.582 presos).
    Não é no mínimo um dado tendencioso? pois vejo que alpém destes dados é importante, fazermos as seguintes comparações: Na população qual a quantidade de negros, pardos, brancos e outros, assim, poderemos trazer o grau de escolaridade, renda e teremos uma abordagem científica e não só o que é explorado. Só preto é bandido.

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    Usuário descadastrado

    Prezado Gomes,

    Afirmo, após conhecer outras culturas e conviver em outros países que: Não existe preconceito racial em nosso país. O que observo é o natural contraste entre raças.
    O pensamento dual, a rotulagem sim é que trará acirramento entre as raças.
    Pensar dual não é a nossa cultura, nosso modo de ser. Não será chamar um indivíduo da cor negra de Afrobrasileiro e garantir cotas fora do merecimento o que trará maior participação de individuos da raça negra em nossa sociedade. O que a raça negra sofre é decorrente da diáspora forçada dos ciclos escravistas que após seu encerramento lançou este grupo social em completa miséria. Acredito que caminhamos, lentamente, mas caminhamos em direção a igualdade de oportunidades para todos.
    Apenas para complementar, uma reflexão: morei por 5 anos em um país claramente racista. Sou miscigenado, pai portugues e mãe negra. Nesta cidade existem 4 mcdonalds, 1 para brancos, outro para judeus, outro para latinos e outro para negros. Era mal recebido e mal atendido em todos eles, por não ser branco, judeu, latino ou negro.
    abraço,

    Sergio Borges

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    Jota Júnior

    Os negros são preconceitiosos, não se conformam à cor da pele e se julgam inferiores; entendo que o texto não traz nada de proveitoso, eis que o governo está se afastou do princípio de que todos são iguas perante a lei privilegiou negros e discriminou os brancos em todos os sentidos, principalmente no ensino; sem ouvidar que escola pública presta somente para diplomar analfabetos. O que o respeitável mestre esqueceu é de que esta miséria em que vivemos é culpa dos governos e políticos que não respeitam o erário. Data venia, excelència...

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