Está na hora dos aposentados, tal qual fez e continua fazendo a juventude, se unirem e, pacificamente, partirem para a rua, reivindicando ao Congresso Nacional seus direitos.

Em razão do Governo Federal distribuir diversas benesses, algumas de cunho eminentemente eleitoreiro, com o intuito de angariar a confiança do povo, nas eleições, ele está, há dez anos, cometendo tremenda injustiça aos servidores públicos aposentados que, após anos de trabalho,  continuam tendo descontada dos seus proventos, de modo legal porém, injustamente, a contribuição previdenciária.

Quando mais precisa, que é na velhice, o aposentado tem de voltar a trabalhar, de alguma maneira, para minorar o prejuízo que sofre com o referido desconto, no percentual de 11%, ou permanecer trabalhando, até aos setenta anos de idade, para receber o compensatório abono de permanência.

Antes do seu inusitado falecimento, o  ex-Presidente Juscelino Kubischek revelou  o seu receio com o “monstro acordar”, referindo-se  ao grito do povo, por melhorias.

O Brasil, qualquer que tenha sido o partido político que emplacou um Presidente da República, não buscou construir um País justo, eis que os eleitos  apenas prometeram melhorias, que nunca se concretizaram, notadamente  quanto às reformas política e tributária.

Não é possível conviver com uma ganância tributária, em que se trabalha quatro meses por ano para engordar as contas do Fisco Federal, isso só apenas quanto ao Imposto de Renda, sem se falar dos demais impostos diretos e indiretos que pagamos.

Certa vez, o Ministro do STF, Marco Aurélio, peitou o Governo propondo-lhe que ficasse com todo o seu salário (hoje subsídio), reservando-lhe, apenas, o correspondente a 27,5% (a alíquota máxima do imposto de renda), desde que lhe garantisse saúde, segurança, moradia, educação aos filhos e outras necessidades essenciais. O Governo não topou nem o atual também toparia.

Dada a omissão do Congresso Nacional, que não desencalha vários projetos de Lei que lá estão em “banho Maria”, como é o caso da PEC 555/2006, a juventude foi e continua indo às ruas reivindicando melhorias para a Sociedade, o que provocou o Parlamento colocar em votação alguns  importantes  projetos.            

O atual Brasil não respeita os trabalhadores que por ele lutaram e deram seu sangue, suor e lágrima, e que hoje são os aposentados.

Não basta o Estatuto do Idoso. É preciso cumpri-lo para reduzir a desigualdade com o aposentado.

Como todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, o povo está nas ruas pedindo apenas o cumprimento da Constituição, ou seja, clamando por uma sociedade comverdadeira cidadania, dignidade da pessoa humana, valores sociais do trabalho, da livre iniciativa, uma sociedade livre, justa e solidária, garantia do desenvolvimento nacional, erradicação  da pobreza e a marginalização e redução das desigualdades sociais e regionais, promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação, entre outras.

Foi aqui no Ceará, alguns anos atrás, no início da década de 2000, quando ainda Juiz na 4ª. Vara Federal, que acolhemos o que talvez tenha sido o primeiro Mandado de Segurança impetrado no Brasil, para determinar, como determinei, a não se descontar a contribuição previdenciária sobre os aposentos daquele impetrante, considerando inconstitucional “incidenter tantum” a Lei Federal que a instituíra,  afirmando naquela oportunidade que “quem comeu a carne que roa os ossos”, expressão que usei na sentença, para demonstrar que o Governo usufruiu do trabalho do impetrante, durante toda sua a juventude, e  quando o mesmo está velho, cansado e até doente, cobra-lhe a contribuição para a previdência.

Todavia, o Governo Federal da época, vendo que a mera Lei Ordinária não se sustentava perante o Judiciário que sempre assegura o direito adquirido dos cidadãos, resolveu aprovar a Emenda Constitucional nº 41, de 2003, art. 4º, que até hoje tem vigência e aplicação, instituindo a cobraça da referida contribuição.

Está na hora dos aposentados, tal qual fez e continua fazendo a juventude, se unirem e, pacificamente, partirem para a rua, reivindicando ao Congresso Nacional que aprove, sem mais delongas, a PEC 555/2006, que tem por escopo extinguir a malsinada/injusta/desumana/perversa contribuição previdenciária dos servidores públicos aposentados, notadamente para aqueles que sempre participaram do regime estatutário/contributivo, e que ali dorme sono intenso aguardando, desde 2012, uma tal audiência pública.

É que, somente uma nova Emenda Constitucional será capaz de tornar sem efeito a Emenda anterior, que instituiu tal contribuição.

Com a palavra àqueles que querem lutar em prol dos aposentados, eis que foram eles que deram seu sangue, suor e lágrima para o engrandecimento do Brasil.       


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Como citar este texto (NBR 6023:2002 ABNT)

MACHADO, Agapito. O grito dos aposentados. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 18, n. 3766, 23 out. 2013. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/25576>. Acesso em: 20 jul. 2017.

Comentários

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    Walter da Silva Fabrício

    Excelente matéria, retrata a realidade em que o aposentado é tratado, o que merece apreciação e manifestação imediata, pôs o jovem de hoje será o aposentado de amanhã e lutar por direito futuro retrata a preocupação de viver uma velhice menos dolorosa.

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    Mauricio Alves

    Comungo, como me solidarizo, com Vossa Excelência.
    Já fui soldado, aprendi a defender a Pátria, mas hoje nem nós podemos nos defender...
    Infelizmente, lembro-me a existência de um ministro do supremo (minúsculo mesmo), pernicioso, sobretudo aos Servidores Públicos, que julgou constitucional tais aberrações em comento. Embora esteja aposentado (será que está abrangido pela medida, ou alguém lhe dá esse ressarcimento?), continua seu desserviço prestado, como no caso do Mensalão, na intermediação da suavização, quiçá a inocência da AP 477, do Comissário Zé Dirceu.
    A violência contra nós, Servidores Públicos aposentados, não para por aí.
    Há o "entendimento" propalado, inclusive por "cientistas" de que a Previdência está quebrada. Grande mentira!
    Estudos feitos pelos Sindicatos da Receita e da Previdência, indicam o contrário - há SALDO e superavitário. Assim constatei no SIAFI, quando FHC nos chamou de "vagabundos".
    Essa calamitosa e indecorosa cobrança da Previdência, tem explicação com: a criação da DRU (Desvinculação das Receitas da União). Ocorre, mais uma esperteza desses comissários, PilanTras, que ousaram fundir dois mastodontes: a Receita Federal com a Receita Previdenciária. Nada tem em comum! A primeira visa custear o Estado, enquanto a segunda é destinada a prover especificamente à sociedade, em suas básicas necessidades previdenciárias e de saúde.... Essa seria a função da previdência social! Contudo, é retirado 20% desses orçamentos para a farra governamental, de modo a gastar como bem aprouver. Se era grande ficou maior, e adentrando às contribuições, sobretudo dos Trabalhadores, meu caro Juiz. Nem precisamos dizer da expatriação desses valores para Cuba, Bolívia, Venezuela e outros países corruptos africanos...
    Esse assunto não cabe em um único volume...
    Difícil é mudar, mas não impossível.
    Para tanto, urge o Ceará apresentar um novo Humberto Castello Branco.
    Parabéns pela coragem e postura.

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    Neuza

    Preciso ler o livro, após comentarei. Que Deus te proteja hoje e sempre, por todos os dias de tua vida. Obrigado.
    Paz .
    Neuza da Mota Freitas
    OAB/RJ 62.606.

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