Christian Hartmann / Reuters Christian Hartmann / Reuters

Por que há uma diferença no tratamento dado pela imprensa brasileira a fatos que ocorrem em outros países e os que ocorrem aqui e que nos afetam diretamente?

A imprensa noticiou com ávido interesse a marcha contra o terrorismo em País. A irracionalidade dos jornalistas foi tão grande, que eles se esqueceram de dizer que os presidentes da Ucrânia e de Israel, que estavam presentes no evento, são acusados de terrorismo em razão de bombardearem civis com fósforo branco (produto incendiário cujo uso militar é vedado por convenções internacionais em vigor).

Hoje ocorreu uma marcha bem mais importante para os brasileiros. Refiro-me à manifestação de operários que correm o risco de perder o emprego no ABC http://economia.ig.com.br/2015-01-12/protesto-de-metalurgicos-interdita-parcialmente-a-rodovia-anchieta.html .  A imprensa, que lucra com os anúncios publicitários das fábricas que aterrorizam seus empregados com o desemprego, parece se interessar mais pelo terrorismo religioso “made in France” do que pelo seu congênere laico e empresarial “made in Brazil”.

Na imprensa, o mundo é apresentado sempre de ponta cabeça. O que é menos importante para os brasileiros (o terrorismo que ocorre na França) é apresentado com mais espaço, estardalhaço e ênfase do que aquilo que realmente nos interessa.  O tratamento dispensado pelo IG às duas marchas evidencia isto. A matéria sobre a marcha que ocorreu na França http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2015-01-11/marchas-ao-redor-do-mundo-homenageiam-vitimas-de-ataque-terrorista-em-paris.html tem mais de 60 linhas e é ilustrada com 7 fotos. Com os futuros desempregados brasileiros o IG gastou apenas 21 linhas e as ilustrou com 1 foto.

Se consultarmos o Google veremos como esta distorção é realmente colossal. A expressão “marcha contra o terrorismo na França” resulta em 1.260.000 resultados (existem 316.000 notícias sobre este assunto). Para a expressão "protesto de metalúrgicos no ABC, janeiro 2015" existem apenas 55.700 referências (são 7.900 notícias sobre o assunto). Qual das duas questões tem mais probabilidade de despertar o interesse dos brasileiros? Não seria difícil encontrar alguém durante o protesto no ABC consultando notícias no Smartphone sobre o atentado na França. Não creio porém que algum francês estivesse consultando notícias sobre o desemprego no Brasil durante a marcha contra o terrorismo em Paris.

A morte de 12 chargistas num país distante provoca intensa comoção nos jornalistas brasileiros. Os mesmos, porém, não ficam tão comovidos com o desemprego de milhares de brasileiros que em alguns meses podem estar do outro do lado da rua pedindo esmolas. Se alguns destes brasileiros morrerem de fome a culpa da tragédia será atribuída aos empresários (que pagam anúncios nos veículos de comunicação) ou ao governo que não ampliou o prazo do Seguro Desemprego?  

Humanismo e jornalismo parecem ser coisas absolutamente distintas. O tratamento distinto dispensado aos dois grupos de vítimas (chargistas franceses x operários brasileiros) indica que há uma espécie de hierarquia no imaginário jornalístico. O fundamento desta é o racismo? Como e porque a vida de um francês é melhor que a de um brasileiro? Não somos todos homens? Não gozamos todos dos mesmos direitos prescritos pela Declaração Universal dos Direitos do Homem?

O terror é repugnante e deve ser combatido na forma da Lei. Mas há outra espécie de terror bem mais insidioso, silencioso e letal que não desperta muito interesse jornalístico. Refiro-me ao terrorismo empresarial que faz as pessoas marchar porque tem medo de morrer de fome aqui e agora. Estes operários do ABC são nossos conterrâneos, são nossos vizinhos. Eles não merecem o mesmo respeito humano e a mesma atenção jornalística que os franceses?



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