Histórico da homeopatia no Brasil e posicionamento sobre a prática.

Outro dia, percorria o mundo televisivo e uma reportagem a respeito dos naturalistas chamou-me atenção.  Ela retratava grupos contrários e favoráveis ao uso da homeopatia. Isso aconteceu em Porto Alegre. Chegaram a se confrontar. Para acentuar ainda mais o movimento, alguns tomaram grandes doses homeopáticas, inclusive oferecendo a crianças, com o objetivo de mostrar a ineficácia do método.

O mundo homeopático pode ser visto hoje de maneira tão natural, que nem as pessoas ou a imprensa têm o costume de debater a respeito do assunto.

 O Manual de Referência para Docentes e Discentes da Associação Paulista de Homeopatia, edição de 1995, aponta que a primeira adesão do Estado Brasileiro à homeopatia se deu com D. Pedro II, através do discípulo de Hahnemann (criador do método), Benoit-Jules Mure, que aqui chegou em 1840. Mure consegue apoio do governo brasileiro e vai para o interior de Santa Catarina onde funda um falanstério, o qual, no entanto, não se desenvolve. Volta então Benoit Mure para o Rio de Janeiro, onde inicia o ensino, a prática e a propagação da homeopatia. Seu primeiro discípulo no Brasil foi o médico português João Vicente Martins que levou a homeopatia para o norte e nordeste.

Ela rapidamente se propagou no Brasil e no final do século passado, numa contradição exacerbada, foi abraçada pelo movimento positivista brasileiro. Disto resulta um grande apoio oficial do governo republicano a Homeopatia, reconhecendo o seu ensino e a sua prática, criando enfermarias no Hospital Central do Exército e no Hospital da Marinha, no começo deste século.

A Homeopatia no Brasil mantém seu crescimento até o final da década de 60 do século XX, quando começa lentamente o seu declínio. Este estado de coisas tem tal evolução que nos anos setenta praticamente já não existia a homeopatia no Brasil, e nessa época sobrevivem somente uns poucos abnegados, principalmente nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Mas foi no final desta década, quando em todo o mundo e em diversos setores surgem os movimentos de contestação, quando a homeopatia é beneficiada, retornando num ritmo crescente em termos de prestígio, notoriedade e demanda, tanto pacientes como dos colegas médicos interessados. A partir daí até nossos dias, quando já não existe mais conotação de modismo e sim de uma realidade, o reconhecimento de um velho-novo campo do conhecimento médico se fez necessário.

A Homeopatia é especialidade médica reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina desde 1980 através da Resolução CFM nº 1.000/80. A Farmacopéia Homeopática Brasileira foi oficializada pelo Governo Federal através do Decreto nº 78.841 de 25/11/76 e, portanto, o medicamento homeopático tem amparo legal, podendo ser prescrito e utilizado como qualquer outro medicamento.

Segundo o portal do Ministério da Saúde, o investimento federal em consultas homeopáticas também foi incrementado: cresceu em 383%. Em 2000, sendo que o Ministério da Saúde aplicou R$ 611.367,00 no custeio de consultas. Em 2008, investiu R$ 2.953.480,00. Além disso, só em 2008, foram realizados 25.751 procedimentos de moxabustão (procedimento que consiste no aquecimento dos pontos de acupuntura), com verba de R$ 84.649,00. Já o investimento em acupuntura teve incremento de 1.420%. Em 2000, foram gastos R$ 278.794,00 enquanto, em 2008, o recurso aplicado foi de R$ 3.960.120,00.

A revista The Lancet, uma das mais prestigiosas publicações da área médica, resolveu declarar guerra contra a homeopatia a primeira é um artigo que joga um novo banho de água fria nos adeptos da terapia. De acordo com o estudo, os efeitos clínicos do método são compatíveis com os do placebo.

Mathias Egger, da Universidade de Berna, na Suíça, e colegas compararam 110 experimentos do uso de remédios homeopáticos com controle por placebo com outros 110 em que foram aplicados tratamentos pela medicina convencional, para doenças e situações semelhantes, de infecções respiratórias a anestesias em cirurgias.

A revista faz um alerta incisivo. “São as atitudes dos pacientes e dos profissionais de saúde que aumentam o perigo da escolha de terapias alternativas, criando uma ameaça maior para o tratamento convencional – e ao bem-estar dos pacientes –, mais do que os argumentos artificiais dos supostos benefícios de diluições absurdas. Agora, os médicos precisam ser corajosos e honestos com seus pacientes a respeito da ausência de benefícios da homeopatia.”

Mesmo diante de tantos relatos, que conferem a ineficácia do método homeopático, a crença de boa parte da população na cura de suas doenças é motivada, principalmente, pelo reconhecimento e investimento que o Estado Brasileiro confere à homeopatia. Isso nos remete para um espaço não tão longínquo assim, onde nas comunidades indígenas, o pajé era tão respeitado quanto o cacique.


Fontes:

Site oficial do Ministério da saúde

CREMESP - Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo www.cremesp.org.br/

Associação Paulista de Homeopatia - www.aph.org.br

Revista Científica The Lancet - www.thelancet.com

PINTO. Marco Antônio. Homeopatia e o Estado Pajé Brasileiro. Divinópolis 2014.


Autor

  • Marco Antônio Pinto

    Marco Antônio Pinto<br> <br> Poeta, Escritor e Professor. Filho de José Pinto Filho e Maria Aparecida da Costa Pinto. Nasceu na antiga fazenda dos seus avós maternos, em Corguinhos de Iguatama MG, em 15 de maio de 1960, é casado com Helena Paulinelli Pinto da Cunha e pai de Breno e Carlo Paulinelli Pinto.Trabalha no Tribunal de Justiça de Minas Gerais. <br> Formou-se em História pela FAFI/Formiga MG<br> Presidente do Diretório Acadêmico da Faculdade de Filosofia e Letras de Formiga em 1991. <br> Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito do Oeste de Minas - Fadom. <br> Pós-graduado em História do Brasil pela UEMG.<br> Pós-graduado em Direito Público pela Associação Nacional dos Magistrados Estaduais. (Anamages). <br> Lecionou História e Geografia na rede estadual, municipal e no Colégio Frei Orlando.<br> Exerceu o cargo de diretor escolar. <br> Foi presidente do Colegiado de Diretores da rede municipal de ensino de Divinópolis. <br> Foi Diretor do Sintram, Sindicato dos Trabalhadores Municipais de Divinópolis e Região Centro Oeste MG, <br> É membro efetivo da Academia Divinopolitana de Letras.<br> Escreve contos, poemas e memoriais desde a idade de 14 anos. <br> Entre suas principais obras, podemos destacar:<br>Vídeos:<br> Nossa Diversidade I: Mata da Estiva.<br> Nossa Diversidade II: Lagoa da Inhumas<br> Nossa Diversidade III: Concal SA<br> Nossa Diversidade IV:Fazenda Seio de Abraão<br> Nossa Diversidade V: Rio São Francisco<br> Tardes<br> Um Dia Nessa Vida<br>(Todos postados no You Tube<br><br>Textos:<br> Memorial de Corguinhos Blog<br> Apreciações Acerca do Processo Administrativo no Estado Democrático de Direito. <br> Ciência Penal e Direito Penal - Acervo da Biblioteca da FADOM.<br>* Ainda o Amanhecer - Poemas<br><br>

    Textos publicados pelo autor

    Fale com o autor


Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelo autor. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi.

Comentários

0

Livraria