Neste artigo comento a erosão do anti-comunismo como fundamento estruturante da política brasileira, inclusive em razão da criação e fortalecimento do BRICS e a redução do papel dos EUA na economia do nosso país.

Entediado, pego um livro ao acaso na estante e o abro.  

“A erosão da ideologia da guerra fria é uma questão séria. Essa ideologia serviu bem como técnica pra mobilizar a população americana a apoiar a política nacional. Os programas internos de persuasão governamental e as pesquisas militares (que envolveram quase dois terços dos cientistas e engenheiros do país, além de grande parte da força de trabalho) têm sido,  indubitavelmente, o fator preponderante na preservação da ‘saúde econômica’. Eram tolerados pelo contribuinte, em parte porque seus líderes conseguiram apavorá-lo – com um custo social temível. O espectro do comunismo também satisfez a necessidade de mobilizar o povo americano para dar apoio a objetivos internacionais de longa data; mais especificamente, para ‘abrir as portas de todos os países mais fracos, permitindo a invasão da empresa e do capital americano’, segundo as palavras do secretário de Estado de Woodrow Wilson, durante declaração sobre política oficial daquela administração, em 1914.” (Problemas do conhecimento e da Liberdade, Noam Chomsky, Record, Rio de Janeiro-São Paulo, 2008, p. 119/120)

O anti-comunismo foi um fator estruturante da política brasileira durante a fase final da República Velha e voltou a ser utilizado como instrumento de coesão social e coerção estatal em duas oportunidades: durante o Estado Novo e após o golpe de estado de 1964. As seguidas derrotas eleitorais do PSDB levaram os líderes daquele partido a, na falta de um programa nacional capaz de cativar a população brasileira, a reabilitar o anti-comunismo através do estímulo ao anti-petismo. As alegações de Aécio Neves de que Dilma Rousseff atenta contra as instituições e é golpista se inscrevem neste registro ideológico.

A guerra fria também foi utilizada para construir o imaginário político da população brasileira. Isto ocorreu especialmente antes, durante e depois do golpe de 1964. Impossível esquecer o temor despertado pela viagem de João Goulart à China comunista em 1961. Aécio Neves parece ter tentado reacender este medo/pavor durante a recente viagem de Dilma Rousseff à Rússia para a cúpula do BRICS. Os tempos, contudo, são outros. Os russos já são capitalistas há décadas e o comunismo chinês não assusta mais ninguém. Além disto, os capitalistas brasileiros que Aécio gostaria de representar dependem muito das relações comerciais com a China.

A ineficácia da oposição decorre de sua incapacidade de encontrar um discurso político adequado ao momento. O moralismo esbarra no fato de que os tucanos são tão ou mais corruptos que os petistas, com um agravante: FHC escondeu a corrupção do PSDB debaixo do tapete, coisa que Lula e Dilma não fizeram em relação ao PT. O espaço para o anti-comunismo em sua versão atual não é capaz de se transformar num elemento estruturante da política brasileira. No máximo o anti-petismo (versão atual do anti-comunismo) conseguirá estruturar grupos terroristas que se transformarão num problema criminal fortalecendo e legitimando o governo e o petismo.

O futebol, esporte de massas que durante a Ditadura Militar também foi explorado como elemento estruturante da política brasileira, também está em crise. E sua crise não é apenas esportiva, econômica e ética, mas política. É fato: o futebol não é mais capaz de estruturar a política brasileira como gostariam os cartolas e os políticos ligados ao mesmo. O interesse da população pela seleção brasileira ainda é grande, mas a vitória ou derrota da mesma numa Copa do Mundo não é mais capaz de gerar dividendos políticos para a situação ou para a oposição. Aécio Neves bem que tentou capitalizar o fracasso da canarinho em 2014, mas Dilma Rousseff conseguiu se reeleger com significativa maioria dos votos para desespero dos dirigentes da CBF ligados ao PSDB.

A erosão da ideologia da guerra fria, identificada por Chomsky no caso dos EUA, também ocorreu no Brasil. Mas isto se deu de maneira um pouco diferente. Nosso país deixou de ser um satélite dos EUA e não se tornou um satélite da Rússia ou da China. O protagonismo internacional suave do Brasil, construído lentamente a partir do governo Lula, pode ser a chave para entender a nova realidade interna do país.

O espaço para a adesão total à liderança norte-americana (como deseja o PSDB) não existe e isto explica a ineficácia do discurso anti-petista como se estivéssemos na guerra fria. Há setores importantes da economia nacional que lucram com as novas relações internacionais e que desejam que o nosso país siga na direção do fortalecimento do BRICS. A legitimidade popular do PT é um trunfo importante, pois confere legitimidade maior àqueles que lucram com o fato do Brasil ter saído da órbita de influência dos EUA. A eficácia (ideológica, política e econômica) do PSDB pode ter sido, portanto, comprometida em razão das novas relações internacionais.

Os tucanos ficaram presos entre dois campos de força irresistíveis. Se atacarem os BRICS perdem legitimidade diante das elites representadas pelo PT. Ao tentar fazer o país retornar à órbita dos EUA  - projeto capitaneado por José Serra ao tentar modificar as regras de exploração do Pré-Sal - utilizando um discurso anti-comunista mofado o PSDB perdeu a eleição. O prestígio pessoal Dilma Rousseff e de Lula, aliados ao bom desempenho da economia brasileira, garantiram a vitória do PT.

O aumento do desemprego nos últimos meses e o ódio intenso que a imprensa devota aos petistas não é suficiente para garantir a posse do derrotado. Um novo golpe de Estado foi energicamente rejeitado pelos comandantes militares. O Parlamentarismo não é uma opção viável, pois a péssima qualidade política e ética desta legislatura já ficou evidente. Além disto, a população aprovou o Presidencialismo em 1993. O Impedimento de Dilma Rousseff não tem fundamento político e se for tentado acarretará um desgaste ainda maior da Câmara dos Deputados e da oposição.  Em entrevista a RT durante a Cúpula do BRICS, nossa presidenta rejeitou que estejam ocorrendo interferências dos EUA na política brasileirahttp://actualidad.rt.com/sp/lideres . Como dizem os espanhóis: Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay.

O petróleo estava no centro da disputa política que levou Getúlio Vargas ao suicídio. O petróleo está no centro da disputa política construída pela oposição com ajuda da imprensa neste momento. A presidente Dilma Rousseff poderia amenizar pressão sobre seu governo e reduzir meu tédio se fizesse realizar um Plebiscito. Quando os brasileiros puderem decidir diretamente qual será o destino do Pré-Sal a crise política deixará de existir. 



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