Ó máquina, orai por nós… #DepartamentoAsQuintas

Muito se fala que a máquina substituirá o homem, em especial o advogado, quando falamos em processo eletrônico.

Muitos pensam que a tecnologia veio para destruir a humanidade.

Sempre ressalto que este receio pode ser interessante como reflexão, mas infundado quando, pensamos que cabe somente ao ser humano a inteligência, posto que a máquina faz somente a parte mecânica, repetitiva e burra dos fatos.

Uma poesia de Cassiano Ricardo demonstra com maestria esta realidade:

Por que o raciocínio,
os músculos, os ossos?
A automação, ócio dourado.
O cérebro eletrônico, o músculo
mecânico
mais fáceis que um sorriso.

Por que o coração?
O de metal não tornará o homem
mais cordial,
dando-lhe um ritmo extra-
corporal?

Por que levantar o braço
para colher o fruto?
A máquina o fará por nós.
Por que labutar no campo, na cidade?
A máquina o fará por nós.
Por que pensar, imaginar?
A máquina o fará por nós.
Por que fazer um poema?
A máquina o fará por nós.
Por que subir a escada de Jacó?
A máquina o fará por nós.

Ó máquina, orai por nós.

Cassiano Ricardo
(1895-1974)

E particularmente penso que devemos nos opor a isto, pois precisamos construir uma humanidade cada vez melhor.

Quando percebemos os feitos antigos, ficamos surpresos de como eles eram inteligentes sem terem computadores, smartphones, tablets. Ficamos apaixonados por obras imensas feitas com detalhes realísticos fantásticos, sem cálculos de computadores. Ficamos embasbacados com pontes construídas na época do império e até hoje existentes e funcionais, suportando pesos que eram inimagináveis na época.

E, hoje, construções desabam logo após de feitas. Hoje, tabuada é um desuso. Hoje, conhecimento é chato.

Para alguns, tudo está no google.

Para alguns, até o pensar está no google.

Assim como vejo muitos advogados acharem que tudo que precisam é ter noções de direito e o google. Ávidos por modelos, por peças prontas, ideias prontas.

Onde mataram a nossa criatividade?

Onde mataram o nosso raciocínio e pensamento?

Não sei.

Só sei que o que vejo assusta por um lado e faz refletir por outro.

E tenho  medo de que a única alternativa que possamos ter será dizer: Ó máquina, orai por nós…

Façamos da tecnologia a escrava que ela é. Que ela sirva para o nosso bem, com criatividade, inovação.

Que a gestão seja o caminho e a tecnologia o facilitador.

Que possamos fazer do nosso raciocínio e pensamento a advocacia, e do processo eletrônico e da tecnologia ferramentas de uso e gestão.

E, assim, exaltar o que temos de melhor, a nossa essência, instinto, sentimento e razão em prol do nosso bem maior que é o cliente. Não é mesmo?


Autor


Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelo autor. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi.

Comentários

0

Livraria