O jeitinho brasileiro comparado com a corrupção.

Quando falamos de corrupção a primeira coisa que vêm a nossa cabeça é o tema político, mas hoje eu quero falar de corrupção de uma forma diferente. Vamos falar da fila que você fura no mercado quando o senhorzinho está desatento, ou quando está naquele dia quente, você brigou com a mulher, seu trabalho foi estressante, o trânsito na sua faixa está enorme, mas a do lado está vazia, então porque não ir por ela e lá na frente cortar todos os carros pra chegar logo, não é mesmo?

Infelizmente a corrupção tem se tornado cada vez mais presente no nosso dia a dia, tanto no meio público quanto em nossas vidas privadas, a utilização para obter diversos tipos de vantagens como isenção de impostos, documentos falsos, filmes que ainda estão no cinema por um preço melhor e até itens que sai mais barato comprar em outros países “incentivam” com que a corrupção aumente e dissemine entre nosso país.

O senso comum está acostumado a ligar a corrupção diretamente a política de nosso país que é sem dúvidas no mínimo vergonhosa, porém quando se trata de corrupção a matéria é muito mais ampla, pois qualquer ação ou omissão que resulte em ato ilícito e que gere uma vantagem indevida é corrupção. O teórico político C. J. Friedrich, entende que a corrupção é um padrão de comportamento que se desvia da norma predominante ou que se acredita predominar em determinado contexto, é um comportamento deformado, associado a uma motivação particular, a do ganho privado à custa do público.

O ministro do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso, falou que a corrupção não deve ser politizada, já que ela existe em qualquer atitude que descumpra a regra. Concordo com a fala do excelentíssimo ministro, e através dessa frase quero chamar atenção a talvez o ponto mais importante deste artigo. A corrupção é qualquer ato que seja feito com a intenção de obter vantagem própria, desde que esse ato ponha acima do interesse público, o seu interesse particular. É quando você sabe que aquilo não é certo, mas faz mesmo assim porque não vai dar em nada, ou quando você sabe que isso pode prejudicar alguém, mas você precisa do atendimento mais rápido, ou pagar o menor preço, ou seja lá o que for, você não sabe que é corrupção, mas sabe que é errado no momento que faz.

Não é difícil encontrar pessoas que achem que “dar um jeitinho” é normal, temos como exemplo o filme que não chegou nos cinemas brasileiros ainda, mas já possuem algumas cópias piratas, e então já que você está muito ansioso para assistir você compra, afinal, “todo mundo faz, não vai dar em nada” ou pior, já se tornou tão natural esse ato que você nem lembra mais que essa atitude é ilegal, o que você não sabe é que a pirataria por exemplo gera um prejuízo bilionário a economia brasileira.

Quando você acha normal furar a fila, colar na prova, andar no acostamento, ter atitudes culturalmente consideradas normais porque todo mundo faz, mas que você sabe que não é correto, você está sendo tão corrupto quanto o político que usou o dinheiro público pra comprar uma mansão na beira do mar. Acha isso um absurdo? Deixa eu te explicar melhor, a corrupção consiste em agir da forma que puder, ou seja no limite de seus poderes para adquirir qualquer vantagem em relação a outrem passando por cima do bem público, esse termo “público” se refere a qualquer pessoa ou grupo de pessoas que possam ser lesados direta ou indiretamente com o ato ilícito. Ou seja, você está agindo nos limites de seus poderes, o que você pode fazer ali naquele momento é furar a fila, é comprar o filme pirata, da mesma forma que o político está agindo de acordo com seus poderes.

Não estou fazendo nenhuma defesa aos políticos, muito pelo contrário acho horrível o que estão fazendo com a política brasileira, apenas estou falando que o desvio de dinheiro do poder público, nada mais é do que o uso de seus poderes, claramente de forma incorreta.

Ao falar em poder, podemos citar Lord Acton ao falar "O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente, de modo que os grandes homens são quase sempre homens maus.” Eu concordo plenamente com sua fala, mas acredito fortemente que o poder não corrompe, ele intensifica quem a pessoa já era. Um marido que não é fiel à esposa, não será com a sociedade. Quem hoje dá 10 reais pro guarda para não ser multado na blitz, também dará subornos maiores quando chegar ao poder. O passado tem muito a dizer sobre o futuro!

Podemos dizer que uma grande parcela da sociedade comete as chamadas pequenas corrupções por achar que não está prejudicando ninguém, mas ao olhar com um pouco mais de cautela, podemos observar que ao trazer produtos de outros países para o nosso com a intenção de pagar menos impostos você está prejudicando mesmo que indiretamente a economia do nosso país, ao furar a fila você prejudica indiretamente todas as outras pessoas que estão exatamente na mesma situação que você, atrasados, com filho em casa, cheios de coisas para fazer, mas você se sente na vantagem de passar na frente de todos, pois coloca o seu interesse privado acima do público. As pessoas tendem a se preocupar muito com os grandes escândalos, as grandes corrupções, e acabam deixando essas questões rotineiras sem dar muita atenção.

Fernando Filgueiras afirmou “Não é que as pessoas não percebam que são erradas. O que elas fazem é justificar esse erro por conta de alguma coisa que diga respeito aos seus interesses e necessidades mais imediatas. A questão que envolve o problema da corrupção é essa ambivalência dos valores”, afirma, “Facilmente identificamos a corrupção praticada por políticos, burocratas, empresários, lobistas. Mas quando diz respeito à ordem do cotidiano, essa ambivalência surge porque sempre que identificamos a corrupção no outro. Se observarmos o cotidiano, essa ambivalência sempre se faz presente, porque tentamos justificar nossos atos. Essa fronteira é sempre muito tênue. Todos somos contra a corrupção. Até os corruptos o são. O problema é quando você olha a sua ação individual”, complementa ele.

A ideia desse artigo é mostrar que começa com você, a corrupção política é um prolongamento da corrupção no dia a dia, os políticos são um reflexo da sociedade que eles representam, e se você pensa, “Ahhhh, mas eu fiz isso uma vez só, e foi porque um amigo super especial pediu” você está agindo exatamente como nossos odiados políticos, é assim que eles agem, arrumando desculpas e explicações.

A diferença entre nós e as pessoas que colocamos para nos governar é a de que nós não temos o seu poder, se tivéssemos lá quem não garante que aquele troco que recebemos errado no mercado e colocamos no bolso nos sentindo sortudo não vire desvio de verba pública? Ou que o troquinho que você deu ao garçom pra ser servido melhor, afinal, estava um caos o bar naquele dia, e você tinha que impressionar aquela garota, não vire um suborno a alguém influente?

Esse é o “jeitinho brasileiro”, torço fortemente para que consigamos mudar o nosso país, mas não acho que isso seja possível enquanto não retirarmos de nossas cabeças e principalmente de nossa CULTURA esse jeitinho de ser, não estou dizendo que qualquer pessoa que atinja o poder será um governante ruim, quero dizer que somos criados assim, vemos nossos pais, amigos, conhecidos agirem assim desde quando nascemos, e da mesma forma, nossos filhos que substituirão a nossa geração também serão criados e irão vivenciar a mesma situação, isso é tão natural que para você conseguir entender que não é correto exige um grande esforço de compreensão e uma mente aberta, ou você continuará achando que tudo isso é normal.

E aqui volto a citar o ministro do STF Luís Roberto Barroso, quando fala “a corrupção se disseminou no Brasil em níveis espantosos, endêmicos”, “não foram falhas pontuais, individuais, pequenas fraquezas humanas. Foi um fenômeno sistêmico, estrutural, generalizado. Tornou-se para muitos o modo natural de se fazer negócios e política, e para outros um meio de vida. Esta é a dura e triste realidade”.

Estamos muito preocupados em fazer com que a corrupção institucional acabe, mas deveríamos olhar primeiro para o câncer disso tudo, que é a corrupção moral, essa é só você que pode mudar, é o que tá dentro de você, mude sua forma de agir no seu cotidiano, e então mude a forma como você cria seus filhos, ao ver alguém fazendo errado, faça o seu papel comunique-o, as vezes ele precisa desse mesmo toque.

É assim, olhando para os nossos erros e evitando que casos assim aconteçam que mudaremos o futuro do nosso país, para acabar com a corrupção moral precisamos de educação, estimular uma mudança de hábitos nas atitudes mais simples da vida, não importa o tamanho da corrupção que está cometendo, é corrupção, reconhecer esse fato já é um grande passo, é assim que você poderá mudar o nosso país, mudando primeiramente o que está dentro de você.

Sara Figueiredo Rocha

Autora do Fonte Jurídica - @fontejuridica

Brasília – DF, 2017.

 


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