4 A PRÁTICA DA CONSTELAÇÃO FAMILIAR

Uma das maneiras em que o Direito Sistêmico é aplicado se relaciona à facilitação do diálogo entre as partes, sendo a sessão conduzida, sempre, por meio de um(a) constelador(a)/facilitador(a).

É vero que se perfaz grande dúvida no procedimento da sessão, como ela se consigna, como inicia e se finda, qual o passo a passo do método em si.

O constelador Marc Baco, em seu livro “As facetas das Constelações Familiares” explica sucintamente o procedimento global. Este cita que há quatro partes para que a sessão ocorra.

A primeira parte se dirige à uma conversa prévia, onde é esclarecido o tema e colocadas as questões sobre os antecedentes da pessoa que quer fazer uma constelação, o cliente, no caso. Geralmente antes, esta pessoa recebe um questionário preparatório, de uma forma em que se tenha tempo suficiente para investigar sobre as relações e acontecimentos familiares da pessoa. Esse passo é extremamente importante, ao ponto que é pertinente contactar os familiares “detentores do conhecimento” sobre a história familiar, para se preencher o questionário adequadamente.

Essa conversa prévia serve para o(a) facilitador(a) da referida sessão, recolher todos os dados relevantes, porém, existem facilitadores que dizem não necessitar de nenhuma informação, pois tudo que é importante se revela durante a constelação.

Logo em seguida, há a seleção dos representantes, que acontece quando o tema está bem claro. As pessoas relevantes para cada constelado são colocadas para cada caso, por exemplo, o pai, a mãe, o irmão e a irmã. Assim se faz também com conceitos abstratos, como coisas (algum objeto, ou lugar), anseios (liberdade, lembranças, vontades) ou sintomas (escassez de dinheiro, dívidas), entre outros aspectos, são representados ou colocados por pessoas.

Se o facilitador for a pessoa que colocar o tema, esta tem que confiar totalmente nos sentimentos próprios durante a escolha, tendo em vista que tem que escolher um representante para si próprio, porque, pelo menos no início, este fará papel apenas de observador.

Geralmente, o cliente se posiciona atrás do representante, colocando suas mãos sobre os ombros destes durante certo tempo, pensando, neste espaço, na referida pessoa e conduzindo lentamente o representante para um lugar que pareça adequado ao momento, corriqueiramente em um círculo de cadeiras.

Se é um representante, então assume esse papel. A melhor maneira de ser este, é “descurar e negligenciar a racionalização e não tomar em consideração se os teus pensamento ou sentimentos, representados no papel, são socialmente desejáveis ou não” (BACO, 2016).

O referido autor revela que os representantes podem em qualquer momento recusar ou entregar o seu papel a outra pessoa, se este cargo se tornar um fardo.

4.1 A CONSTELAÇÃO FAMILIAR PROPRIAMENTE DITA

Quando se inicia a Constelação, o cliente coloca todos os representantes na sala, onde são, primeiro, questionados em suas posições iniciais, antes de se movimentarem livremente ou serem recolocados pelo facilitador.

O mais interessante, é que, apesar de se tratar de pessoas que não se conhecem, estas são capazes de representar muito bem a pessoa em causa, tanto que é de se confundir a autenticidade e as características destas, com as pessoas que vivenciam. Claro que, algumas se fazem muito semelhantes, outras menos, porque é assim que é a Constelação. Não é nada cientificamente explicado, porém o método realmente funciona.

No decorrer da sessão pode suceder tudo e muito mais. Durante a interação são proferidas palavras-chave ou realizados determinados agrupamentos em que os representantes seguem seus movimentos de forma impulsiva.

Pode acontecer também, do cliente, assumir o papel de seu representante num determinado ponto da constelação para passar da função de observador para a função da pessoa que vive, sente e age, o que aprofunda a experiência da Constelação em si.

Após determinado tempo, chega-se a uma imagem final, findando a sessão. A partir desse ponto, o trabalho pode ser prosseguido noutro dia, caso não tenha chegado a uma solução real ou se tiverem aberto novas áreas que se possam trabalhar.

Ao fim, há a conversa final, o quarto e último ponto, que se refere quando todas as pessoas se sentam em seus lugares e inicia-se um novo debate; geralmente curto, onde o constelador resume o observado e o contextualiza. No entanto, as práticas variam bastante. Alguns facilitadores utilizam menos palavras e preceituam que a vivência deve atuar neste momento, não devendo aquilo “vivido” ser desvalorizado. Outros auxiliam na interpretação da vivência e até fazem propostas sobre como agir posteriormente.

Sendo assim, os quatro pontos apresentados não são absolutos, mas sim uma guia geral para ser utilizada pelos facilitadores, que são, na verdade, os propagadores da técnica. Por isso, a forma como as constelações familiares são realizadas diverge de facilitador para facilitador.

4.2 AS REGRAS DA SESSÃO CONSTELAR

Como se vê, nas constelações se verifica um comportamento autêntico das pessoas que são apresentadas pelos representantes, podendo assim ocorrer algumas ações inconvenientes.

Sendo assim, conforme consigna BACO (2016), “por respeito à autenticidade, por outro lado para evitar atitudes agressivas, existem regras gerais nas constelações”.

 A primeira dessas consiste na não utilização de violência, ou seja, os movimentos são articulados sem emprego de força, por exemplo, uma bofetada é expressa sem toque, é somente insinuada ou expressa verbalmente, sem qualquer ação real.

 A segunda se perfaz no ato de amarrar ou promover comportamentos sexuais, sendo que são insinuados ou verbalizados movimentos sem tocar. O autor cita que “nas constelações em silêncio é somente feita uma insinuação, enquanto nas gerais são, com frequência, seguidos ambos os procedimentos”.

 A terceira regra se dá pelo respeito por parte do constelado. Mesmo podendo ser uma informação relevante para a constelação, o constelado pode faltar com o respeito em face do facilitador. Assim, depende de como este lida com a situação.

 A quarta regra evidencia as exteriorizações comportamentais involuntárias (necessidades fisiológicas). Estas devem ser somente insinuadas ou verbalizadas. Todavia, estas ações podem acontecer tão rapidamente que são impossíveis de se evitar, cabendo ao facilitador e demais, respeitarem e prosseguirem a sessão, se esporádico. Caso reiterado, cabe uma advertência ao cliente, ou, vendo gravidade, acionar socorro médico.

 A quinta regra é exposta ao fato de abandonar a constelação sem consultar o facilitador da constelação, onde o mais importante é que o representante tenha saído do papel representado. Não se trata assim de manter alguém sob a sua tutela, mas de confirmar que está a agir sozinho.

 A sexta e penúltima regra é menosprezar o sucedido por parte dos demais participantes, onde a dignidade de cada participante deve ser sempre resguardada.

Por última, mas não menos importante, a sétima regra se refere a contar os conteúdos das sessões à outras pessoas, sendo que a Constelação possui sigilo. Tudo que se sucede deve ficar entre os indivíduos envolvidos. De forma anônima pode certamente falar sobre as experiências próprias. Em todos os casos, a confiança tem de ser restrita e a identidade dos participantes protegidas.

Dessa forma, essas regras são as mais importantes e essenciais aplicadas em uma sessão constelar. Importante ressaltar que existem variadas, compelidas a cada local que aplica a sessão, sendo esta no judiciário ou não. Cabe assim, os facilitadores esclarecerem às partes antes de cada solenidade.

4.3 O ESCLARECIMENTO DA ÁRVORE GENEALÓGICA E OS LAÇOS FAMILIARES

Importante ressaltar ao constelado é que, antes do início da sessão de constelação, é essencial que este contenha informação sobre os antecedentes familiares. Trata-se, assim, da árvore genealógica e das relações familiares que este possa ter vivido ou não.

Assim, o constelado tem que questionar aqueles membros da família que possuem informação sobre as relações familiares e tirar notas, registrando anedotas, tiques e outras peculiaridades de cada ente. Isso pode ser muito útil para o facilitador.

Outrossim, é importante questionar sobre as crianças que faleceram, natos mortos e abortos, grandes amores dos pais dos constelados ou antecessores, que não se concretizaram, sendo extremamente relevante. Se há um fato na família, muito chocante ou que marcou esta, com certeza é válido consignar. Além disso, são importantes também as doenças, deficiências e acidentes, podendo estes ser reincidentes.

4.4 A INTERRUPÇÃO DE UMA CONSTELAÇÃO

Insta salientar que pode acontecer do facilitador interromper a constelação, sendo que há uma variedade de motivos para uma interrupção (antecipada). Inicialmente, pode o facilitador, se não verificar qualquer movimento por parte dos representantes ou mostrarem-se estes indiferentes, sustar a sessão.

Se a constelação também não circular energia, pode-se o constelador interrompê-la, onde, também, se os representantes atingirem sentimentos extremamente fortes ou até mesmo devastadores, a fim de evitar demais prejuízos, a constelação é interrompida (se a pessoas possuir um trauma).

Pode-se interromper a constelação também se a pessoa que constela não está interessada e/ou está indiferente em relação ao que acontece na constelação, isto é, em face do facilitador/representante.

Quando as regras do jogo são violadas, como supramencionadas anteriormente, utilizar-se de violência o constelado, deve a sessão ser interrompida.

Consigna-se também que a solenidade se interrompe quando o facilitador emite sua opinião, e o cliente não consegue continuar mais e necessita de mais uma constelação, pelo menos, para resolver a situação realmente, sendo necessária a interrupção para prosseguimento saudável do feito.

Vale dizer que o facilitador nunca interromperá a constelação de forma impensada. Este sempre terá que priorizar o bem e os interesses do constelado, assim como o bem do grupo em si.

Baco (2016) cita que “verificou-se, com frequência, que após a interrupção de uma constelação surgiram progressos em casa do cliente, que depois conduziram a grandes avanços numa nova constelação”. Ou seja, nunca perder a esperança é essencial ao processo.

4.5 A APARÊNCIA DO FACILITADOR

Nesta etapa, Baco (2016) aconselha que o facilitador deve vestir roupas confortáveis à apresentação. Por vezes este pode representar um papel em que tem de deitar no chão, assim pode evitar qualquer transtorno.

Para o autor, é importante que o constelador se vista de maneira proporcional ao trabalho, tendo em vista que a linguagem corporal é extremamente importante. Em sua obra, este também cita que: “(...) Às visitantes femininas (...)” é aconselhável “que não se maquilhem ou que se maquilhem muito pouco”, de preferência que estas não usem maquiagem que não seja a prova d’água, pois ao abraçar ou, ao chorar, podem manchar as vestimentas dos clientes e companheiros de sessão.

Em algumas salas que ocorrem o método, vale consignar que foram incrementados tapetes para que os clientes possam se sentir mais a vontade com a solenidade em si, neste caso, estes não usam sapatos, para que possam se aproximar de um ambiente mais “caseiro” e confortável possível, por isso importante levar sempre meias grossas ou dois pares de meias, pois, como cita o autor, “caridade também é essencial”.

Destarte, observa-se que a Constelação possui uma série de procedimentos que a torna eficaz quando aplicada. Conseguinte, será analisado em posterior capítulo os resultados de seu uso e sua real eficácia no judiciário brasileiro.



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