3 A FIGURA DO(A) CONSTELADOR(A) NO DIREITO SISTÊMICO

Conforme o propagador da Constelação Familiar no Direito brasileiro, Sami Storch, cita em seu artigo publicado a respeito das suas primeiras experiências com a Constelação no judiciário, é importante destacar também, o papel do(a) constelador(a) para aplicação desta técnica valiosa de conhecimento.

O(a) constelador(a)/facilitador(a), é um(a) indivíduo(a) capacitado(a) através de cursos na respectiva área tema, sendo que o facilitador judicial trabalha com foco neste âmbito, buscando, como cita Bert Hellinger no livro “Constelações Familiares: O Reconhecimento das Ordens do Amor”, “averiguar se no sistema familiar ampliado existe alguém que esteja emaranhado nos destinos de membros anteriores dessa família”, onde, “trazendo-se à luz os emaranhamentos, a pessoa consegue se libertar mais facilmente deles" (HÖVEL, 2007, pg. 11).

Assim o constelador nada mais é que um terceiro facilitador provido de técnicas e recursos mentais e emotivos, capaz de conduzir as partes para o próprio deslinde da questão. Uma espécie de “mago das palavras”, que a cada ponto de uma sessão vai tornando as peças soltas em um grande quebra-cabeça montado, fazendo com que tudo faça sentido e que, realmente, a partir desta experiência, o paciente possa ter uma vida melhor.

Consignando Olinda Guedes, autora do site “Consteladores Sistêmicos”, em seu texto “Para Ser Um Constelador”, esta aponta que as “ferramentas básicas que apoiam o terapeuta em seu trabalho cotidiano de servir à vida e a tudo que olha para ela” são: “profissão, carreira, relacionamentos afetivos, saúde, perdas, ganhos etc.” (GUEDES, 2011). Assim, citando a referida obra, “ser um constelador é ser um tecido de múltiplos fios, uma trama de muitas texturas”. Ou seja, para ser um constelador não basta ser um aplicador de técnicas, é preciso, também, saber conduzi-las.

Referenciando ainda Olinda Guedes, em seu artigo online “Para Ser Um Constelador”, esta expõe diversos pontos de embate no cotidiano real de um(a) constelador(a):

A partir da informação, o constelador pode compreender as diversas realidades, de onde vêm os emaranhamentos, lealdades, sentimentos adotados, as leis do amor, as forças que atuam nas diversas dinâmicas. Para tocar e chegar até o coração do cliente, ou até o "espírito", onde tudo se move e existe, onde é possível alguma transformação e cura, é preciso atuar a partir do sensorial, do profundo estado meditativo e de presença. Desapegar-se de si, do cliente e até mesmo da questão/problema que o cliente apresenta e manter-se num campo do "nós", onde tantos sistemas atuam, fornecem informações, se movem e mostram a solução e a pequena experiência que dispara o novo, há tanto esperado.

Um segundo aspecto que considero relevante é dedicar-se ao estudo isolado das diversas abordagens usadas originalmente no desenvolvimento das Constelações Sistêmicas. Essas abordagens dão ao constelador mais flexibilidade para uma atuação eficaz junto ao cliente.

Todos nós, em nossa jornada de terapeutas e consteladores, observamos que importam, sim, as ferramentas, mas importam muito mais as habilidades da meditação, de permanecer centrado, em paz e em silêncio, porém atentos e prontos. É uma longa jornada, pois o terapeuta sistêmico necessita aprimorar-se constantemente para ter a compreensão e a visão necessárias para as intervenções fundamentais que apoiam cada cliente em sua busca de felicidade e soluções.

Abrir mão da cultura do resultado com pouca dedicação, ter a consciência de que a lei da compensação atua em todos os campos, inclusive no campo da solução, faz com que o terapeuta e cliente construam resultados de sucesso. É uma relação de parceria, confiança e amor conduzida pelo profundo movimento do espírito, focando na vida boa e feliz que todos merecemos, buscada muitas vezes, há tantas gerações.

Finalmente, talvez seja possível que um desafio não superado por um antepassado distante seja agora vencido por este cliente. Então ele poderá olhar para aquele seu antepassado, olhar para seu sistema e dizer: "conseguimos!" E isso não tem preço, não tem explicação, não tem palavras. Porque o que é certo é simples, e o simples nem sempre é fácil e simplório. Exige desprendimento, humildade, graça e coragem. Quem segue esse caminho, sempre chega.

Um bom terapeuta sistêmico precisa mergulhar na alma humana, caminhar por trilhas já conhecidas, se permitir aprender, ser um pesquisador, ser um curioso e apaixonado pela vida, por pessoas e suas experiências. Deve estar a serviço da vida, percebendo como as ordens do amor atuam em perfeita sintonia, mesmo quando aparentemente "está tudo errado". Saber olhar para essas dinâmicas permite ao cliente a lucidez que vem através do conhecimento e o que antes era um "problema" torna-se um caminho e uma luz, uma luz que é revelada através da inclusão, da compensação e da ordem. (GUEDES, 2011, Artigo online “Para ser um constelador”).

3.1 A CONCILIAÇÃO E MEDIAÇÃO EM CONJUNTO AO DIREITO SISTÊMICO

Respaldados legalmente pela Resolução 125/2010 e, também, pela Lei  13.140/2015, estas disponibilizam o papel fundamental dos mediadores e conciliadores que, possivelmente, se tornarão consteladores na esfera judicial brasileira.

Conforme, artigo 2º da Lei da Mediação (13.140/15), são expostos os princípios que regem a função deste solucionador de conflitos:

Art. 2o A mediação será orientada pelos seguintes princípios: I - imparcialidade do mediador; II - isonomia entre as partes; III - oralidade; IV - informalidade; V - autonomia da vontade das partes; VI - busca do consenso; VII - confidencialidade; VIII – boa-fé.                                                                                                               (Lei 13.140/2015 – “Lei da Mediação”).

Como é possível observar, os preceitos básicos para atuação de um mediador se une aos dos consteladores, em uma espécie lógica e próxima, no que tange estes estarem em contato direto ao sentimento do paciente em questão. A mediação é como “uma terapia constelar”, obviamente, com menos técnicas “espirituais e sentimentais” aplicadas, porém, vale dizer, que se equipara sim e tem, também, grandioso resultado quando bem direcionado.

É válido dizer, também, a grande diferença do conciliador e do mediador. O conciliador em si, não atua na “área emocional” da lide e, no caso concreto, pode propor “caminhos” para o deslinde rápido da questão, o que pode significar qualidade ou não dos métodos utilizados nos acordos entabulados. Ou seja, o conciliador propõe às partes o deslinde final da questão, fazendo transparecer tudo mais óbvio à tais indivíduos.

Já a mediação consiste em um terceiro facilitador, que nunca propõe às partes, mas sim, fazem com que estas entendam o contexto em que estão inseridas na lide, utilizando de técnicas do início ao fim da sessão, sendo uma destas técnicas a do rapport, que nada mais é do que questionar à parte se “deseja uma água, se o clima está agradável, se está confortável o assento”, entre outras, para que esta se sinta “a vontade” à se “abrir” e assim se conectar por gestos e palavras com o mediador e as demais pessoas ali envolvidas, ou até mesmo, quando o mediador utiliza também a técnica da inversão de papéis que incita a parte a se colocar no lugar da outra, a tentar sentir aquilo que esta sente em relação ao feito e claro, fazer com que este indivíduo reflita no processo em si, se vale a pena ou não continuar com a lide em questão. Quando bem aplicada, há grande probabilidade de resolução do problema em uma única audiência.

O Manual da Mediação Judicial, disponibilizado pelo Conselho Nacional de Justiça, esclarece ainda mais as funções destes dois personagens que agem na tentativa da resolução do conflito, o conciliador e o mediador, como a seguir:

A mediação pode ser definida como uma negociação facilitada ou catalisada por um terceiro. Alguns autores preferem definições mais completas sugerindo que a mediação um processo autocompositivo segundo o qual as partes em disputa são auxiliadas por uma terceira parte neutra ao conflito ou por um painel de pessoas sem interesse na causa, para se chegar a uma composição. Trata‑se de um método de resolução de disputas no qual se desenvolve um processo composto por vários atos procedimentais pelos quais o(s) terceiro(s) imparcial(is) facilita(m) a negociação entre as pessoas em conflito, habilitando‑as a melhor compreender suas posições e a encontrar soluções que se compatibilizam aos seus interesses e necessidades.

Os chamados ‘processos autocompositivos’ compreendem tanto os processos que se conduzem diretamente ao acordo, como é de forma preponderante a conciliação – que será apresentada a seguir –, quanto às soluções facilitadas ou estimuladas por um terceiro – geralmente mas nem sempre, denominado “mediador”. Em ambos os casos, existe a presença de um terceiro imparcial, e a introdução deste significa que os interessados renunciaram parte do controle sobre a condução da resolução da disputa. Além disso, em todos os processos autocompositivos:

A mediação e a conciliação são métodos não vinculantes e se caracterizam pela redução ou delegação do direcionamento e do controle do procedimento a um terceiro, mas pela manutenção do controle sobre o resultado pelas partes.

A conciliação pode ser definida como um processo autocompositivo breve no qual as partes ou os interessados são auxiliados por um terceiro, neutro ao conflito, ou por um painel de pessoas sem interesse na causa, para assisti‑las, por meio de técnicas adequadas, a chegar a uma solução ou a um acordo. Originalmente, estabeleciam‑se diversos pontos de distinção entre a mediação e a conciliação, sugerindo‑se que: i) a mediação visaria à ‘resolução do conflito’ enquanto a conciliação buscaria apenas o acordo; ii) a mediação visaria à restauração da relação social subjacente ao caso enquanto a conciliação buscaria o fim do litígio (...) (Manual da Mediação Judicial – CNJ – 2016 – Páginas 20/22).

Na Constelação Familiar, estas técnicas são ainda mais invasivas e é por isto que muitos a denominam para “a cura dos conflitos internos e externos, passados e presentes”. Ou seja, a sessão da constelação em si, procura realmente uma solução profunda dos emaranhamentos vitais.

Assim, o constelador possui o papel de buscar uma solução para o problema exposto. Este busca fazer com que aqueles que fazem parte daquela situação, visualize a questão em si, e reconheça as ordens que regem para resolução destas.

3.2 A BREVE ANÁLISE EMPÍRICA SOBRE A CONSTELAÇÃO

No livro “Constelações Familiares: O Reconhecimento das Ordens do Amor”, Hövel cita à Hellinger sua visão a respeito da sessão de constelação, e o psicoterapeuta expõe a verdadeira análise:

As constelações familiares têm algo a ver com um ritual. As soluções têm algo a ver com um ritual, não as constelações em si. -Até a ordem de todo o processo me parece um ritual. Há um grande círculo, a pessoa entra nesse círculo, o senhor faz perguntas sobre a família dela, ela coloca a constelação familiar e se senta. - O senhor interroga os representantes, os muda de lugar e, então, dependendo das circunstâncias, são formuladas, no fim, frases que libertam. Existe uma clara dramaturgia, uma sequência que sempre se repete. O conceito de ritual coloca esse trabalho num outro contexto. O trabalho com constelações familiares é um método. Eu só posso construir uma casa colocando uma pedra em cima da outra. E nem por isso se trata de um ritual. (...) O ritual tem um fundo religioso, as constelações familiares não. A solução talvez tenha algo a ver com um ritual. Mas o trabalho com constelações é apenas um método. (...) Existe uma profundeza para a qual tudo conflui. Ela fica fora do tempo. Eu vejo a vida como uma pirâmide. Lá em cima, bem na ponta, acontece aquilo que chamamos de progresso. Nas profundezas o futuro e o passado são idênticos. Ali só existe espaço, não existe tempo. Às vezes, existem situações nas quais se entra em contato com essa profundeza. Nesses momentos pode-se reconhecer, por exemplo, ordens, ordens ocultas, e consegue-se tocar a grandeza da alma. (HELLINGER; HÖVEL, 2007, Páginas 67/68).

Assim, como expõe Hellinger (HOVEL, 2007): “Sei que os representantes são muito mais importantes do que havia pensado no começo.  Estão vinculados com um campo mais amplo.  Há outra força que aqui assume a condução: é o movimento da alma,” este explica que, os consteladores exercem um papel fundamental, se não, o mais importante em uma sessão em que é aplicada a técnica da Constelação.

Para tornar melhor o esclarecimento a respeito da figura do constelador, será exposto, logo após, a prática da Constelação Familiar, que faz uso em seu âmbito, das abordagens psicoterapeutas demonstradas, desenvolvidas por Hellinger.



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