Loucura genética. Ricos arrogantes que lançaram Coringa no abismo sinistro da autoestima violentada. Omissão do Poder Público no tratamento dos doentes mentais. Haveria combinação mais propícia para desencadear o apoderamento da psique por uma doença mental de base orgânica?

Ao longo dos séculos a indagação acerca dos limites entre razão e loucura tem ocupado o espírito humano, questão que atravessa o tempo e o conhecimento científico, renovando-se em cada crime hediondo e no dia-a-dia das ciências mentais. O recente filme “Coringa” traz à tona temas e interpretações incomuns ao universo das histórias em quadrinhos, mesmo quando transmutadas em filmes. Descortina o lado puramente humano e vulnerável de Arthur Fleck, o Coringa, mostrando a escalada sombria de sua psicose endógena e o papel condicionante do meio social e familiar nesse processo desagregador.

No decorrer da trama, nada de superpoderes ou efeitos especiais computadorizados. Nenhum Batman detetivesco ou um Comissário Gordon angustiado. Não vemos uma Batgirl sensual nem um Robin com chiliques de adolescência. Apenas o lado atormentado de “Feliz”, apelido colocado em Arthur pela sua debilitada mãe, permeia um foco narrativo repleto de humanidade, onde o ser humano vulnerável exsurge como produto direto da omissão estatal, da genética enlouquecida e da prepotência dos poderosos. Haveria, nesse contexto trágico, algum livre-arbítrio? Para além da discussão entre os limites entre sanidade e loucura, o filme traz outros temas subjacentes, destacando-se o papel do ambiente social e familiar, e até da realidade econômica como “gatilhos”, isto é, fatores que desencadeiam ou condicionam a doença mental. Arthur Fleck teria se tornado o Coringa se a vida que o moldou fosse outra? Se as feridas emocionais do frágil “Feliz” fossem tratadas, Gotham City seria palco de bizarros homicídios e duelos tenebrosos entre o Cavaleiro das Trevas e o Palhaço Assassino? Arthur “Feliz” Fleck nadou desesperadamente nas águas sombrias de sua psicose, vendo todas as embarcações da vida afastarem-se, sucessivamente, ante seu pedido de socorro mental. Forças vetoriais puxaram-no para as profundezas das águas escuras. E houve a explosão, com desagregação mental para todo lado.

Sim, existe uma explosão inconsciente, pois aqui não se trata de um espaço anatômico, mas de uma realidade energética, que pode lançar estilhados para além de Gotham City, vindo parar próximo a cada um de nós que vivemos num mundo atormentado pela violação da dignidade e exclusão dos oprimidos. Surge então o Palhaço Letal de Gotham. Loucura genética. Ricos arrogantes que o lançaram no abismo sinistro da autoestima violentada. Omissão do Poder Público no tratamento dos doentes mentais. Haveria combinação mais propícia para desencadear o apoderamento da psique por uma doença mental de base orgânica? Seria lícito exigir de um ser humano submetido a tais condições pessoais e sociais uma atitude que somente encontramos, e mesmo assim raramente, em almas místicas que percorrem a Terra sob o manto da humildade da Luz? O tema do livre-arbítrio permeia os corredores atormentados do Poder Judiciário, sobretudo o salão dos passos perdidos, os julgamentos penais.

O Estado seria corresponsável pela tragédia humana quando suas políticas públicas são ausentes ou ineficazes no trato da vulnerabilidade humana? Eis uma questão ética, filosófica, jurídica e prática que atravessará os séculos da culpa daqueles que violam as leis. Na Gotham pós Coringa, vemos alguns personagens obrigados a colocar as máscaras mentais no divã da vida. O lado obscuro de Bruce Wayne seria uma herança psíquica reprimida do pai arrogante? Sim, existe um inconsciente familiar, segundo Philipp Lerch. E convenhamos, são evidentes os sinais de psicopatologia no Homem-Morcego, através das suas ações violentas e sombrias, das torturas e métodos condenados pela moral no trato com delinquentes, fazendo estremecer o próprio Comissário Gordon. Fácil perceber um Sol negro nos voos letais do Cavaleiro das Trevas ao projetar seu espectro assustador nos becos imundos de uma cidade perdida. Batman e Coringa seriam os extremos que se tocam? O filme, entretanto, é uma obra-prima de direção e roteiro, sem contar a interpretação magnífica dos atores, especialmente Joaquin Phoenix, que conferiu ao Coringa sua revelação decisiva em humanidade e tragédia. Apenas peca ao tratar a adoção de forma preconceituosa, mentalidade excludente própria dos nacionalismos cruéis que geralmente afetam as grandes potências econômicas.

“Coringa” nos leva, ainda, a meditar no papel condicionante do meio-ambiente na recuperação ou destruição da pessoa. O sorriso compulsivo de Arthur Fleck seria um grito incontido por uma felicidade negada? A luta contra o próprio riso seria uma consequência tanática de um tirânico superego? Se a resposta for positiva, podemos compreender porque o sorriso infantil de uma criança torturada acabou se tornando uma risada diabólica, preenchendo as ruas lúgubres de uma cidade gótica com o terror de uma piada mortal.


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Como citar este texto (NBR 6023:2018 ABNT)

COSTA, José Americo Abreu. A psicopatologia da piada mortal. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 24, n. 5982, 17 nov. 2019. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/77501. Acesso em: 23 jan. 2020.

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