Agora que a prisão de Fabrício Queiroz está escancarando o envolvimento dos Bolsonaros com a contravenção antes da eleição presidencial de 2018, os militares, definitivamente, não apoiarão autogolpe nenhum.

Com a prisão do homem-bomba Fabrício Queiroz, o bolsonarismo faz água por todos os lados. 

Agora, muitos outros analistas vieram somar-se à conclusão a que cheguei já no dia (24/04), da ruptura do Sergio Moro com o presidente miliciano, assim expressa no artigo Moro deverá acrescentar hoje outra marca à coronha de sua arma:    

"...desde aquele domingo em que Bolsonaro afrontou as determinações sanitárias do seu próprio governo ao participar de uma manifestação ultradireitista, procedendo como um espalha-vírus alucinado, ele só tem feito cavar a sepultura do mandato que um destino insólito atirou-lhe no colo. 

São 40 dias cometendo erro após erro, dia após dia, a ponto de levantar suspeitas cada vez maiores de que lhe faltam condições mentais para o exercício do cargo. Os mais perspicazes já não tinham dúvida de que ele era um cadáver político insepulto, à espera do enterro

A imperdoável e asnática exoneração do ministro Mandetta foi algo assim como o penúltimo degrau do cadafalso. Faltava só a gota d'água, o episódio que causasse uma sensação generalizada de agora passou da conta, não dá mais!, tanto em termos políticos quanto jurídicos.

E Moro roubou o espetáculo, (...) empurrando Bolsonaro para o abismo".

A partir de então, passei a me referir ao Bolsonaro como um cadáver político à espera do rabecão institucional. Em 19/06, Reinaldo Azevedo buscou em Fernando Pessoa um rótulo semelhante, na coluna que foi seu ponto de chegada onde eu já estava havia oito semanas:

"O governo Bolsonaro acabou. A reforma da Previdência (é o) único marco que ficará destes dias, durem quanto durar... Isso à parte, sobra pregação golpista. E só.

Quanto tempo o mito ainda fica por aí? Não sei. Mas é um cadáver adiado que procria, para lembrar verso de Fernando Pessoa em caso bem mais nobre. E qualquer coisa que venha à luz, nessas circunstâncias, será necessariamente ruim.

Não temos mais um presidente, mas um refém do fundão do centrão".

De onde veio minha certeza imediata e absoluta de que, ao sair atirando, Moro ferira de morte o (des)governo Bolsonaro? 

De que, no Brasil pós-pandemia, imerso na pior depressão econômica de sua História, um estadista de verdade vai fazer tanta falta que será impossível a permanência de alguém tão despreparado e desequilibrado na presidência da República.

Restava, unicamente, a hipótese do autogolpe, que sempre habitou os sonhos de Bolsonaro. Mas, pela convivência forçada que tive com os militares quando prisioneiro político nos anos de chumbo, eu sabia que era praticamente impossível eles virarem a mesa para manter um oficial de baixa patente como presidente. 

[Ainda mais um capitão a quem haviam empurrado para o portão de saída por ter questionado publicamente decisões superiores e tramado atentados terroristas. Quando eles dão golpe no Brasil, é para entregar a faixa presidencial a um general.] 

Mais: eles se veem como integrantes de uma instituição permanente, sendo grande seu empenho em legarem uma imagem íntegra aos que virão depois.

Então, depois do trabalhão que tiveram para superar o opróbrio das torturas e execuções durante a ditadura de 1965/85, jamais lhes passaria pela cabeça assumir responsabilidades tão espinhosas quando os augúrios para o Brasil são nada menos do que péssimos: depois que a pior crise sanitária de nossa História finalmente dissipar-se, será a vez da pior depressão econômica de nossa História desabar com impacto total sobre nós. 

Quem quererá ter sua imagem associada a tais desgraceiras? Só imbecis. E os altos comandantes militares, apesar do estereótipo de bicho-papão que impregna os comentários de uma infinidade de internautas, não o são.

Enfim, são águas passadas. Agora que a prisão do faz-tudo do clã escancara o envolvimento dos Bolsonaros com o crime comum até a eleição de 2018, seu filme está definitivamente queimado com os altos comandantes militares, que podem relevar truculências, mas nunca, jamais, parcerias com a contravenção.

Os cadáveres que o delegado Sergio Fleury produzira como líder do Esquadrão da Morte de São Paulo, expostos pelo grande Hélio Bicudo, não fizeram com que eles retirassem a proteção que lhe concediam por haver, em seguida, passado a atuar na repressão política. Até uma lei criaram para evitar que fosse preso.

Mas, quando Bicudo provou que, naquele passado, Fleury não comandava o extermínio de criminosos para limpar as ruas, mas sim, a soldo de um grande traficante que o utilizava para eliminar a concorrência, os verde-olivas de imediato o deixaram entregue à própria sorte. Pouco tempo depois, ele se tornou um raríssimo exemplo de dono de barco que cai no mar e se afoga... 

Por último, Demétrio Magnoli veio hoje (20/06) ao encontro da minha posição (vide aqui), trazendo um acréscimo importante: se golpe de Estado bem sucedido é carta fora do baralho, tentativa malograda pode haver, sim. Com isto eu concordo.

Putsch integralista será bisado 82 anos depois?

Algo nessa linha pode provir, principalmente, das polícias estaduais, junto às quais os bolsonaristas desenvolvem intenso proselitismo. Mas elas servem para arruaças (como na greve dos PMs cearenses) e tiroteios contra bandidos, não para empreitadas complexas; e de amadores metidos a bestas, como os zumbis evangélicos que estão recebendo treinamentos militares pra lá de suspeitos.

Mas, no frigir dos ovos, prevalecerá a velha tese marxista de que, na democracia burguesa, o poder dominante é o econômico. Então, os grandes empresários e banqueiros saberão impedir que seus negócios sejam fortemente prejudicados por aventuras estapafúrdias.

O que vem por aí são anos de marcha lenta na economia e de penúria entre o povo, com permanente risco de explosões sociais. Então, os donos do PIB têm total clareza de que o Brasil precisará de um apaziguamento dos espíritos e da boa vontade das outras nações para atravessar, a duras penas, tal período dramático.

Não terá uma coisa nem outra sob Bolsonaro (daí ele estar com os dias contados), nem sob qualquer outro governo autoritário e truculento, ainda que menos descerebrado. 

Então, um putsch pode mesmo acontecer e causar muito estrago antes do fracasso anunciado. Temos de ficar atentos a tal possibilidade.


Autor

  • Celso Lungaretti

    Ingressei na luta contra a ditadura militar ainda secundarista, aos 17 anos. Passei um ano na clandestinidade, como dirigente estadual da VPR e VAR-Palmares. Preso, sofri uma lesão permanente que me prejudicaria tanto no convívio social quanto nos desempenhos profissionais. Mesmo assim, fiz longa carreira jornalística. Hoje sou escritor, articulista e blogueiro, atuando frequentemente na defesa dos direitos humanos.

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Informações sobre o texto

Observador atento da cena política brasileira há mais de meio século, além de haver sido, aos 18 anos, o primeiro e único comandante de Inteligência de uma organização que travava a luta armada, tento dar aos leigos no assunto um quadro realista das perspectivas atuais, para dissipar um pouco das paranoias e alarmismos que tantos pesadelos lhes causam

Como citar este texto (NBR 6023:2018 ABNT)

LUNGARETTI, Celso. Implosão do bolsonarismo elimina hipótese de golpe, mas ainda pode vir um putsch para causar muito estrago. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 25, n. 6204, 26 jun. 2020. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/83361. Acesso em: 20 out. 2020.

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