Em sua tarefa maniqueísta, a mídia traz versões completamente opostas sobre os mesmos fatos. O impeachment do ex-presidente paraguaio Fernando Lugo constitui um bom exemplo.

Foi certa ou errada a sua destituição? Uma das técnicas mais utilizadas na atualidade, nos meios de comunicação, consiste na narrativa dicotômica (maniqueísta) da realidade, antagonizada entre os bons e os maus ou entre o bem e o mal (é cada vez mais recorrente a comparação entre mocinhos e “bandidos”, gente do bem e gente do mal, cidadão honesto e “bandido”, nós e os outros, cidadãos e inimigos). Lugo, onde se encaixa?

Houve um período histórico em que a chamada “grande mídia” manifestava certo pudor ou receio em dramatizar nos seus espaços o tráfico, o diabólico, o chocante, o sanguinário (em síntese: o mal). Era raro ver (nas grandes mídias) a utilização de palavras duras (plenas de sensações) como “bandido”, “bandidagem” etc. Nada mais disso mais retrata a realidade atual.

A mídia, na execução da tarefa de apresentar o bem e o mal (para o público ouvinte ou público leitor), vem encontrando dificuldades, em razão do seguinte:

(1) excesso de informações, “o que esvazia as possibilidades de formalizações entre os enigmas do bem e do mal” (Freitas: 2005, p. 113);

(2) a crise de valores que vivemos na era pós-moderna, dentre outras razões, é também responsável pelas incongruências comunicacionais que despontam diariamente. Os conflitos valorativos são bastante evidentes (a respeito do que é o bem e o mal). Sobre quase nada mais existe consenso absoluto nas nossas sociedades (pós-modernas) pluralistas e laicas (exemplos: O aborto é certo ou errado? A eutanásia é certa ou errada?);

(3) em nome do bem, o ser humano já praticou muito mal (“etnocídios e genocídios perpetrados pelos colonialismos e imperialismos econômicos e políticos ocorridos no ocidente, Inquisição na Europa da Idade Média e as missões jesuítas na América do Sul, grandes Guerras, 11 de setembro etc. – mata-se pelo bem com uma facilidade incrível – Freitas: 2005, p. 115).

Nesse contexto de conturbada convivência de crenças e convicções díspares (antagônicas), muita gente imagina que a mídia deva cumprir o papel da “verdade”, ou seja, ela buscaria definir e difundir para a opinião pública o que é coisa de Deus e o que é coisa do Diabo (na linguagem de Maffesoli). Mas há em seu seio muitos paradoxos críticos e ideológicos.

Daí a quarta razão que perturba a tarefa maniqueísta da mídia: são as versões completamente opostas sobre os mesmos fatos. O impeachment do ex-presidente paraguaio Fernando Lugo constitui um bom exemplo.

Para a Carta Capital (de 04.07.12, p. 38), teria havido um golpe de estado (“Pode-se chamar o ocorrido com Lugo de ‘golpe branco’, ‘golpe parlamentar’ ou qualquer outra expressão. Mas se trata, inequivocamente, de um inconstitucional golpe de Estado”).

Para a Veja (de 04.07.12, p. 75), “qualificar [a destituição] de golpe de estado e afirmar que a situação institucional do Paraguai atualmente não condiz com os padrões democráticos dos vizinhos, contudo, é um descalabro”.

Em síntese, a destituição de Lugo foi “coisa de Deus” ou “coisa do Diabo”? Foi algo certo ou foi algo errado?


Autor

  • Luiz Flávio Gomes

    Doutor em Direito Penal pela Universidade Complutense de Madri – UCM e Mestre em Direito Penal pela Universidade de São Paulo – USP. Diretor-presidente do Instituto Avante Brasil. Jurista e Professor de Direito Penal e de Processo Penal em vários cursos de pós-graduação no Brasil e no exterior. Autor de vários livros jurídicos e de artigos publicados em periódicos nacionais e estrangeiros. Foi Promotor de Justiça (1980 a 1983), Juiz de Direito (1983 a 1998) e Advogado (1999 a 2001). Estou no www.luizflaviogomes.com

    Textos publicados pelo autor

    Fale com o autor

    Site(s):

Informações sobre o texto

Como citar este texto (NBR 6023:2002 ABNT)

GOMES, Luiz Flávio. Lugo destituído no Paraguai: coisa de Deus ou coisa do Diabo?. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 17, n. 3293, 7 jul. 2012. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/22182>. Acesso em: 25 jun. 2018.

Comentários

3

  • 0

    Marcelo Gatteli

    Quem tem orientação ideológica de direita costuma ver como acertada a destituição de Lugo, quem tem orientação ideológica de esquerda, enxerga tudo como um golpe de estado. Tentando ser imparcial, a rapidez do processo e os argumentos muito vagos, simplistas, para o impeachment, sem a existência de um fato concreto, realmente reprovável, faz-me parecer que o que houve foi um golpe de estado branco. Mas é claro que os veículos com orientação de direita, "conservadores", vão achar tudo muito correto. Da mesma forma, alguns grupos de esquerda podem achar corretos vários atentados à liberdade cometidos por líderes de esquerda em outros países. Falta isenção, imparcialidade, em muitas opiniões vistas nos meios de comunição. No caso de Lugo, na minha opinião, houve um golpe de estado "branco", repito. As eleições presidenciais estão próximas no Paraguai, e esse deveria ser o meio de retirar Lugo do poder, pela via democrática, se isso fosse vontade da maioria.

  • 0

    Dalton Kazuo Watanabe

    Idependente do Lugo ser bispo da igreja católica e com filhos reconhecidos. Destituir um presidente por mais errado como Sarney e Collor que foi deposto é necessário seguir o rito da defesa (teatro e seus atos). A mídia pode eleger ou derrubar presidente, governadores, prefeitos, senadores, ou vereadores basta a vontade e conveniencia do poder economico.

  • 0

    Heitor Bonfim

    Parece que no Paraguai, o óbvio merece mas rapidez na ação. Diferente do que ocorre no Brasil, onde a agilidade depende do autor do crime.

Livraria