Que as lições dos grandes romanos possam inspirar os brasileiros medíocres que disputam a presidência.

Hoje fiquei sabendo que Aécio Neves está processando o Twitter para obter as informações de dezenas de twitteiros que supostamente o ofenderam. Em razão disto, me senti obrigado a abordar o assunto. Meditando sobre o tema, percebi que a melhor maneira de fazer isto seria recorrendo aos grandes exemplos do passado.

Após a morte de Julio César, Cícero resolveu sair de Roma por causa do terror desencadeado por Marco Antonio e Dolabela. Em Leucópetra, perto de Régio, ele foi informado da Oração de seu adversário no Senado inspirada nos princípios da justiça e resolveu voltar a Roma. Ao chegar na cidade não foi à reunião do Senado em que Marco Antonio deveria falar novamente. Irritado com a ausência de Cícero, Marco Antonio disse aos senadores que talvez fosse com oficiais demolir a casa do adversário. Em outra reunião do Senado e na ausência de Marco Antonio, Cícero proferiu sua famosa Oração Filípica I, da qual destaco o seguinte fragmento:

"Não posso persuadir-me a suspeitar que te cativou o dinheiro. Diga cada qual o que quiser, não tenho necessidade de o crer; nunca em ti conheci coisa indecorosa nem abatida, posto que os domésticos às vezes costumam censurá-las; mas estou inteirado da tua constância, e prouvera a Deus que pudesses evitar a suspeita, assim como evitas a culpa.

Mas muito mas receio que, ignorando o verdadeiro caminho da honra, tenhas por mais glorioso poderes tu só mais do que todos, e quereres antes ser temido de teus patrícios do que amado. Se assim o entendes, muito te desvias do caminho da glória. A glória consiste em ser cidadão amado, ser benemérito da República, e louvado, respeitado e querido; mas ser temido e malquisto é coisa aborrecível, detestável, fraca e caduca. Até na fábula vemos que aquele que dizia: 'Aborreçam, contanto que temam', lhe serviu isto de ruína." (ORAÇÕES, Marco Túlio Cícero, Biblioteca Clássica, volume XLIII, 2a. edição, Atena Editora, São Paulo, 1957, p. 121-122)

A ação ajuizada por Aécio Neves contra o Twitter para conseguir informações de dezenas de twitteiros me fez recorrer à autoridade deste fragmento. É evidente que o candidato tucano quer intimidar seus adversários, quer eles sejam internautas que compartilham conteúdos que ele julga ofensivo, quer sejam empresas virtuais que possibilitem o compartilhamento de informações "on line".

Não entrarei aqui no mérito do processo ajuizado por Aécio Neves, nem tampouco questionarei a técnica do seu defensor. Ao Poder Judiciário cabe decidir o destino da ação. O que me interessa é o efeito catastrófico que uma atitude como esta pode ter sobre o próprio candidato e, caso ele seja eleito, sobre o meu país. Numa República ninguém deve querer se impor pela força, pois somente a Lei deve imperar sobre todos. E a nossa Lei Maior, como todos sabemos, garante mais a liberdade de expressão do que o desejo de censura manifestado por aqueles que se dizem ofendidos, mas que desejam calar opiniões dissonantes da sua.

Quem é eleito para um cargo público num Estado de Direito não pode imaginar que permanecerá nele se for odiado pelo povo que o elegeu. Não é pela força que se governa um país democrático e sim pela criação de consensos, coisa que somente é possível se fazer quando os governados não tem razões para odiar ou para temer o governante. 

É claro que um tirano pode chegar ao poder pela astúcia e o conservar através da intimação cercando-se de soldados. Um ditador pode até rasgar uma Constituição e se perpetuar na presidência sendo odiado e temido por décadas. Isto, porém, não dará a ele nem um bom lugar na História (a qual certamente também será escrita pelas vítimas e por seus descendentes), nem segurança a ele e aos seus familiares (pois há o risco do tirano ou de seu ente querido ficar vulnerável entre aqueles que maltratou e que tem coragem para se vingar). 

Aécio Neves agiu como um bom discípulo de Maquiavel. Em seu livro "O Príncipe", o diplomata florentino diz que aos governantes convém mais serem temidos do que amados. Melhor seria que ele se inspirasse em Marco Túlio Cícero, que sabia ser melhor ser amado e respeitado do que temido e odiado. O exemplo de Fernando Collor sendo impedido de ficar na presidência em razão de intenso ódio popular ainda é bem vivo na memória dos brasileiros. Deveria ser também na consciência de Aécio Neves e de qualquer candidato a presidente do Brasil. Por isto, tomo a liberdade de pedir a Aécio Neves um gesto de civilidade, de grandeza e de generosidade tipicamente romana: desista da ação contra o Twitter candidato, nada será mais útil ao país e à sua candidatura do que evitar o erro cometido por Marco Antonio.



Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelo autor. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi.

Comentários

0

Livraria