A próxima vez que te encontres em uma situação difícil, imagina-te o que farias se não tiveras medo: «PSICOPATIZA-TE!»

“Lo que no sabes, no puede hacerte daño. En tu cerebro, sencillamente no existe”.  KEVIN DUTTON

Kevin Dutton é psicólogo, investigador e membro honorário do Calleva Research Center for Evolution and Human Sciences, Magdalen College, University of Oxford[1].  É autor de um livro sobre psicopatas titulado “The Wisdom of Psychopaths: What saints, spies and serial killers can teach us about success”.  A tese de Dutton é que ser um psicopata, alguém que carece de empatia, compaixão e autoconsciência que bloqueiam a gente ordinária, não é tão mau como parece[2].

Os psicopatas não têm medo, são encantadores, capazes de centrar-se ou focalizar-se de forma extraordinária no que lhes interessa, são frios e dispõem de uma capacidade de tomar decisões em situações de alta pressão onde os demais se derrubam. De fato, uma característica na que brilham os psicopatas é a capacidade para tolerar o stress. Quanto mais complicada a situação, mais frios se mantêm os psicopatas. Também são muito bons percebendo as expressões faciais, reconhecendo as emoções e lendo a mente das pessoas, o que é logicamente uma vantagem enorme se queres manipular a alguém. Têm uma habilidade maior do normal para dizer se alguém está mentindo ou é emocionalmente vulnerável.

A psicopatia para Dutton é um «espectro», não uma questão de tudo ou nada, e traços psicopáticos são muito comuns em advogados, santos, soldados de forças especiais, empresários de êxito e cirurgiões. Os psicopatas são carismáticos, alegres e divertidos para estar com eles. Em sua companhia sentimos que «tudo é possível». E uma coisa muito importante: Dutton nunca encontrou um psicopata que lamentara ser psicopata.

Segundo Dutton, ao falar de psicopatas pensamos automaticamente em assassinos, mas a maioria dos psicopatas utiliza a violência de um modo instrumental, como um meio para conseguir um fim. Não estão abarrotados de maldade. Curiosamente, é o contrário: têm demasiado de algo «bom». Quer dizer, para Dutton, a psicopatia pode ser boa, ao menos com moderação. A psicopatia é como a luz do sol. Se te expões demasiado a ela, podes apressurar teu próprio fim de uma maneira grotesca e carcinógena. Mas a exposição regulada a uns níveis controlados e ótimos pode ter um impacto significativo e positivo no bem estar e a qualidade de vida.

Dutton etiqueta um conjunto de sete princípios fundamentais da psicopatia que, repartidos com bom critério e aplicados com o devido cuidado e atenção, podem ajudar-nos a conseguir exatamente o que queremos; podem ajudar-nos a «responder», mais que «reagir», aos desafios da vida moderna; podem transformar nossa atitude de vítima na de vencedor, mas sem converter-nos em vilões: i) impassibilidade; ii) encanto; iii) concentração; iv) fortaleza mental; v) intrepidez; vi) atenção plena; vii) ação. Também diz que todos nos beneficiaríamos de cultivar nossos traços «psicopáticos» latentes. Assim que, a próxima vez que te encontres em uma situação difícil, imagina-te o que farias se não tiveras medo: «PSICOPATIZA-TE!»

Para terminar, uma curiosidade: em um de seus artigos Dutton recolhe o extrato de uma entrevista que fez a um psicopata. A entrevista tem lugar na cárcere e em um momento dado o psicopata lhe dá a entender que se uma mulher não quisera ter relações com ele, ele as conseguiria de outra maneira. Dutton recolhe as coisas para ir-se e lhe diz que aprendeu que eles dois estão desenhados de maneira diferente e que por isso o psicopata está dentro da prisão e Dutton fora. A resposta do psicopata dá muito no que pensar:

“Não deixes que te engane teu cérebro, Kev, com todos esses exames que não te deixam ver a realidade. Só há uma diferença entre tu e eu: Eu quero algo e vou atrás, tu queres e não vais atrás”.

“Estás assustado Kev, tens medo. Tens medo de tudo, vejo em teus olhos. Medo das consequências. Medo de que te descubram. Medo do que pensarão. Medo do que te farão  quando venham chamar à tua porta. Tens medo de mim”.

“Mira-te. Tens razão, tu estás fora e eu estou aqui dentro. Mas, quem é livre, Kev? Livre de verdade, quero dizer. Tu ou eu? Pensa nisso esta noite. Donde estão os barrotes de verdade Kev? Aí fora? (assinala a janela). Ou aqui dentro? (e se toca a cabeça).”


Notas

[1] http://kevindutton.co.uk/

[2]Este breve artigo está inspirado e ligeiramente modificado do original publicado em: http://evolucionyneurociencias.blogspot.com.es/


Autor

  • Atahualpa Fernandez

    Membro do Ministério Público da União/MPU/MPT/Brasil (Fiscal/Public Prosecutor); Doutor (Ph.D.) Filosofía Jurídica, Moral y Política/ Universidad de Barcelona/España; Postdoctorado (Postdoctoral research) Teoría Social, Ética y Economia/ Universitat Pompeu Fabra/Barcelona/España; Mestre (LL.M.) Ciências Jurídico-civilísticas/Universidade de Coimbra/Portugal; Postdoctorado (Postdoctoral research)/Center for Evolutionary Psychology da University of California/Santa Barbara/USA; Postdoctorado (Postdoctoral research)/ Faculty of Law/CAU- Christian-Albrechts-Universität zu Kiel/Schleswig-Holstein/Deutschland; Postdoctorado (Postdoctoral research) Neurociencia Cognitiva/ Universitat de les Illes Balears-UIB/España; Especialista Direito Público/UFPa./Brasil; Profesor Colaborador Honorífico (Associate Professor) e Investigador da Universitat de les Illes Balears, Cognición y Evolución Humana / Laboratório de Sistemática Humana/ Evocog. Grupo de Cognición y Evolución humana/Unidad Asociada al IFISC (CSIC-UIB)/Instituto de Física Interdisciplinar y Sistemas Complejos/UIB/España; Independent Researcher.

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Como citar este texto (NBR 6023:2002 ABNT)

FERNANDEZ, Atahualpa. As vantagens de ser um psicopata: «psicopatiza-te!». Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 20, n. 4246, 15 fev. 2015. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/34603>. Acesso em: 18 ago. 2018.

Comentários

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    juliana

    iniciei um relacionamento com uma pessoa que apresenta características de sociopatia leve. Incrivelmente, achei que estava sofrendo de síndrome de Estocolmo depois de ter dado muito dinheiro para ele, mas a verdade, é que tenho uma confiança enorme nele. Acredito que estas características dele vão me trazer vantagens. Ele é ambicioso e excelente nos negócios. Graças ao transtorno de estresse pós-traumático que tive, algumas situações de nervosismo dele não me afetam emocionalmente. Sinceramente, sinto que o tratamento continuo desligou algumas áreas que controlam a emoção no meu cérebro. Vejo vantagens em obter a proteção e cuidado dele. Tenho consciência dos defeitos dele, mas e basicamente o texto mostra exatamente o que eu vejo de vantagem nele.

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    Cesar Augusto Costa Ribeiro

    A meu ver, não existem vantagens em ser (atuar como) um psicopata. A única vantagem que existe é termos contato com a parte psicótica (que todos temos) de nossa mente, a fim de ela não fique atuando de forma alheia à nossa consciência. No diálogo apresentado no texto, fico me perguntando se o psicopata preso não está se autodirigindo a resposta. O "Kev" a quem ele se dirige não seria ele mesmo? Não seria a instância repressora (Freud diria superego)? Poderíamos ler o primeiro parágrafo do diálogo assim: "Não deixarei que me engane o meu superego, porque os exames que ele faz não me deixam ver a minha realidade de satisfação dos desejos a todo custo (exclusividade da instância do id). Só há uma diferença entre as minhas instâncias psíquicas superegóica e do prazer (id): eu desejo e realizo, porque o meu id prevalece ao meu ego e ao meu superego. Será, então, que o psicopata tratado por Kevin Dutton é realmente livre como ele afirma ser? Não manter um diálogo entre as instâncias psíquicas (id, ego e superego) é aprisionar-se em uma delas e o psicopata-paciente está preso ao seu id, acreditando ser mais livre do que Kev (o representativo de seu superego).

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    Infante Pqd

    "Perigosamente encantador"..."a um passo do mal"...tão brilhante quanto diabólica...nada como um bom estudo para nos trazer fascínio...que não caiamos nessa cilada...o mal, em nada se parece admirável nem merece culto...Lúcifer era um anjo...A melhor opção ainda continua sendo "ser escravo da lei"..."liberdade" só a verdadeira...fazer o mal injusto a quem quer que seja jamais poderá ser visto com "bons olhos"...todos os "belos traços" apontados pelo autor na verdade "não pertencem" aos psicopatas porque eles são a "expressão do mal". Na verdade eles "roubam do bem" tais características, como disse Cartola "as rosas não falam simplesmente exalam o perfume que roubam de ti..."Rosa só é valiosa quando lhes retiramos os "espinhos"..." por mais que "pareçam ser belos e cheirosos" esses "cravos do mal" em nada se assemelham ao que o homem do bem deve cultivar, sob pena de ao modela-lo tornar-se um deles... O que deve ser feito com o joio? As "coisas boas" devem ser copiadas dos "homens bons"...

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    Eliezer Sousa

    Certa vez ouvi uma estória, que, vira e mexe, me aflora à mente, sempre que alguém subestima minha inteligência ou de alguém próximo. Agora, com a resposta do psicopata à Kevin, novamente lembrei dela, creio que faz sentido. Ei-la, possivelmente com algumas palavras diferentes da estória original, mas com a mesma essência:

    Todo domingo, às margens de um campinho de vàrzea, onde sempre rolava um campeonato de futebol do bairro,um menino tímido e meio desengonçado servia de galhofa para os outros jovens que ali assistiam às partidas de futebol. O "bullying" consistia em oferecer à ele,gratuitamente, uma moeda de 1 real e outra de 25 centavos, ocasião em que, invariavelmente, ele escolhia a moeda de 25 centavos, fazendo rir todos os presentes.

    Sempre que aparecia alguém novo na área, a "matutice" do garoto lhe era contada e a coisa se repetia. O visitante oferecia as duas moedas para o garoto, que preferia ficar com a de menor valor.

    Um homem, vendedor de picolé, que à tudo assistia, domingo após domingo, compadecido do garoto, o chamou de lado e lhe disse o quanto ficava triste em vê-lo passar por tudo aquilo, e gostaria de saber se ele sabia ler e se conhecia dinheiro, tendo recebido a seguinte resposta:

    Sei ler muito bem, conheço dinheiro sim e rio por dentro ao ver o quão bobas são as pessoas, achando que o bobo sou eu.
    Imagine o senhor, se eu aceitasse a moeda de 1 real, ao invés da de 25 centavos...
    O senhor acha que alguém ainda me daria mais alguma moeda?

    Não sei se essa estória vai despertar em você alguma reflexão, mas em mim certamente despertou. Sempre me lembro dela em diversos momentos, como lembrei agora.

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    Vadislau Charczuk

    POIS É!... Gostaria que o Nobre Dr.FERNANDEZ, esplica-se a diferença entre os PSICOPATAS e os SÓCIOPATAS "inimputáveis de plantão" em todas as áreas e dimensões da ESTRUTURA DE PODER do "estado CARO, IMPROBO, CORRUPTO, ETC... comandado "BURROCRÀTICAMENTE" via "normas administraticas" CONTRADITÓRIAS e INCONSTITUCIONAIS?...

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