RESUMO

Os profissionais de saúde - como auxiliares de enfermagem, técnicos de enfermagem, enfermeiros, médicos, anestesistas e instrumentadores - estão expostos a patógenos de transmissão sanguínea provocada por acidentes de trabalho com materiais perfurocortantes, mas que muitas vezes podem ser prevenidos com adoção de recursos de biossegurança.

Aqueles que atuam nessa categoria e que manipulam perfurocortantes apresentam um risco maior de acidente. Além da possibilidade de adquirir infecções transmitidas pelo sangue, o trabalhador sofre com a ocorrência deste tipo de acidente um grave impacto emocional devido às conseqüências pessoais, familiares e sociais do adoecimento por uma doença infecciosa como a AIDS.

A notificação do acidente é grande relevância para o gerenciamento dos acidentes o que assegura ao empregado e empregador o acompanhamento da avaliação médica, tratamento adequado e seguro.  As condutas tomadas, em caso de acidentes com material perfurocortante, são inúmeras e visam evitar a disseminação de doenças contaminantes no ambiente de trabalho. As circunstâncias que levam ao acidente dependem parcialmente de como foi realizado o procedimento e conduta no paciente, seguido de uma atenção na realização do descarte de material contaminado.

A elaboração do presente artigo permitiu compreender melhor a importância dos registros de acidentes ocupacionais, bem com a análise de seus indicadores para que medidas preventivas possam ser implantadas e melhoradas. Todo trabalho com equipe multidisciplinar assegura que os conhecimentos práticos e gerenciais sejam amplos e que a capacidade de solução dos problemas seja elevada, reforçando a idéia de que a investigação traga benefícios para todos.

Palavras-chaves: Perfurocortante; Acidente do Trabalho; Risco Biológico

ABSTRACT

Keywords: Needlestick; Work Accident; Biological risk


1. INTRODUÇÃO

Os profissionais de saúde - como auxiliares de enfermagem, técnicos de enfermagem, enfermeiros, médicos, anestesistas e instrumentadores - estão expostos a patógenos de transmissão sanguínea provocada por acidente de trabalho com materiais perfurocortante, mas que muitas vezes podem ser prevenidos com adoção de recursos de biossegurança. Toda vez que uma agulha ou dispositivo perfurocortante é exposto ocorre também o risco de acidentes. Pesquisas mostram que 38% dos acidentes percutâneos ocorrem durante o uso e 42% ocorrem depois do uso e antes do descarte (MARZIALE, 2002).

Biossegurança é um conjunto procedimentos, ações, técnicas, metodologias, equipamentos e dispositivos capazes de eliminar ou minimizar riscos inerentes as atividades de pesquisa, produção, ensino, desenvolvimento tecnológico e prestação de serviços, que compromete a saúde do homem, dos animais, do meio ambiente ou a qualidade dos trabalhos desenvolvidos (UNESP, 2014).

O art. 19 da Lei 8213/91 define que acidente do trabalho é o que ocorre pelo exercício do trabalho a serviço da empresa provocando lesão corporal ou perturbação funcional que cause a morte ou a perda ou redução, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho (BRASIL, 1991).

Conforme portaria 3274/78 – Norma Regulamentadora NR - 32, define que risco Biológico é a probabilidade da exposição ocupacional a agentes biológicos, para fins de aplicação desta Norma Regulamentadora, entende-se por serviços de saúde qualquer edificação destinada à prestação de assistência à saúde da população, e todas as ações de promoção, recuperação, assistência, pesquisa e ensino de saúde em qualquer nível de complexidade (SIMÃO, 2013).

Os agentes biológicos estão presentes nos estabelecimentos de serviços de saúde em geral, cemitérios, matadouros, laboratórios de análises e pesquisas, indústrias, bem como a farmacêutica e alimentícia, empresas de coleta de resíduo infectante, estações de tratamento de esgotos, incineradores e unidades de tratamentos de materiais biológicos (MS, 2010). Os diferentes microorganismos vivos, como bactérias, fungos, parasitas, vírus, vermes, materiais infectocontagiosos, causam contaminações de doenças, infecções cutâneas e internas (MARCELO, 2013).

Os profissionais de saúde que manipulam perfurocortante apresentam um risco maior de acidente, além da possibilidade de adquirir infecções transmitidas pelo sangue, o trabalhador sofre com a ocorrência deste tipo de acidente um grave impacto emocional devido às conseqüências pessoais, familiares e sociais do adoecimento por uma doença infecciosa como a AIDS (REPAT, 2014).

Fatores de riscos potenciais com ocorrências de acidentes materiais perfurocortantes usados nas atividades de assistência à saúde que estão associados à transmissão ocupacional com diferentes patógenos, como o vírus da hepatite B (HBV), o vírus da hepatite C (HCV) e o vírus da AIDS (HIV). São os patógenos mais normalmente transmitidos durante as atividades de assistência ao paciente. Os fatores de risco para aquisição do HCV após exposição ocupacional dependem do grau de contato com o sangue ou com instrumentos cortantes e da prevalência de anti-HCV entre os pacientes (RAPPARINI, 2010), podendo variar de 1 a 10% (MARZIALE, 2012).

O CDC - Center for Disease Control and prevention e os hospitais americanos desenvolvem planos pós-exposição ocupacional a sangue e fluidos corpóreos que envolvem notificação, avaliação e tratamento do trabalhador, a fim de planejar estratégias, elaborar estimativos e avaliar as condutas a serem adotadas para redução dos acidentes (MARZIALE, 2003).

A notificação do acidente é grande relevância para o gerenciamento dos acidentes o que assegura ao empregado e empregador o acompanhamento da avaliação médica, tratamento adequado e seguro. As condutas tomadas, em caso de acidentes com material perfurocortante são inúmeras e visam evitar a disseminação de doenças contaminantes no ambiente de trabalho.

O mais importante são as medidas de prevenção que devem ser adotadas sempre que houver contato com sangue e outros fluidos biológicos. Além do sistema de notificação que nos dias atuais é falho e não permite uma avaliação real do problema (MACHADO, 2011).

A portaria n.º 1.748, de 30 de agosto de 2011 – estabelece que o empregador deva elaborar e implementar o plano de prevenção de riscos de acidentes com materiais perfurocortante, conforme as diretrizes estabelecidas no Anexo III desta Norma Regulamentadora (MTE, 2011).

Na maioria dos eventos adversos é previsível e prevenível e, ao contrário de constituir obra do acaso, como sugere a palavra “acidente”, são fenômenos socialmente determinados, relacionados a fatores de risco presentes nos sistemas de produção. O conhecimento derivado da sua análise amplia as possibilidades de prevenção. Em situações de incidência elevada de acidentes do trabalho geralmente os problemas são identificados com relativa facilidade (MTE, 2010).

Os riscos biológicos encontrados nos ambientes hospitalares são invisíveis não são quantitativos e sim qualitativos de acordo com a NR-15 da portaria 3214/78, podendo estar em qualquer lugar no ambiente hospitalar. O profissional precisa estar atento com o manuseio do perfurocontante, pois o risco de contaminação pode ser prejudicial à saúde (BRASIL, 1978).

Uma análise bem elaborada revela uma serie de fatores que possam ser identificados em ocorrência de um evento adverso, que é qualquer ocorrência de natureza indesejável relacionada direta ou indiretamente ao trabalho, incluindo, o acidente de trabalho que é uma ocorrência geralmente não planejada que resulta em dano à saúde ou integridade física dos trabalhadores, o incidente é uma ocorrência que sem ter resultado em danos à saúde ou integridade física de pessoas tem potencial para causar tais agravos. Tal circunstância indesejada é uma condição, ou um conjunto de condições, com potencial de gerar acidentes ou incidentes (MTE, 2010).


2. OBJETIVO GERAL

- Analisar detalhes diante das ocorrências de acidentes de trabalho com material perfurocortante de um hospital de rede privada de São Paulo entre Janeiro de 2013 a setembro de 2014.

2.1 Objetivos especifico

- Identificar as principais causas dos acidentes ocorridos com material perfurocortante, profissionais envolvidos neste período.

- Determinar as principais ações reparadoras;

- Sugerir providencia.


3. METODOLOGIA

Trata-se de um estudo analítico descritivo, realizado em um hospital de rede privada, localizado na cidade de São Paulo, no Estado de São Paulo no Brasil.

Os envolvidos do estudo foram 19 empregados do hospital em questão que sofreram acidentes com materiais perfurocortante, no período de janeiro de 2013 a setembro 2014, sendo entre eles 08 auxiliares de enfermagem, 09 técnicos de enfermagem, 02 auxiliares de limpeza e 01 enfermeiro. Sendo 15 profissionais do sexo feminino e 04 do sexo masculino, com faixa etária entre 23 a 54 anos de idade.

Todos os acidentados foram analisados caso a caso, individualmente. Após a coleta de dados por meio de entrevista, contendo informações como: local do acidente, descrição da situação geradora do acidente, agente causador, parte do corpo atingido, medidas de prevenção utilizada durante os procedimentos, quando ocorreu o acidente.

O instrumento de coleta de dados foi um relatório de investigação e análise de acidente, que é utilizado em ocorrências de acidente de trabalho.  A pesquisa ocorreu, por intermédio de técnica utilizada na investigação e análise de acidente do trabalho em questão na ocorrência de acidente especifico com material perfuro cortante.

O acidentado segue um fluxo padrão em caso de acidente de trabalho no local de acidente, a notificação do acidente de trabalho é efetuada primeiramente ao enfermeiro (a) de cada setor, a qual preenche formulário de notificação padronizado, solicitando a autorização de coleta de sangue do paciente fonte, o qual assina em duas vias o termo de consentimento.

Após ter o consentimento, a enfermeira chama o laboratório para fazer a coleta de sangue para exames padrões da fonte como teste rápido para HIV (PACK), Anti HIV (Elisa), Anti HCV, HBsAg, Anti HBc e Anti HBs. O resultado deverá sair antes de duas horas para que se o acidentado exposta à sorologia positiva HIV entre com a profilaxia seja o mais rápido possível no próprio hospital em seguida é encaminhado para o centro de referência mais próximo onde é acompanhado por um período de seis meses.

Caso o paciente fonte se negue a autorizar a fazer a coleta dos exames, que é um direito dele, então ele assina um termo de recusa, o acidentado vai dar continuidade ao procedimento com o formulário preenchido como fonte desconhecida, o médico  avalia o acidente e realiza a primeira conduta em seguida encaminha para o SESMT – Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho para realização de investigação e análise de acidente do trabalho.

O Setor de Segurança do Trabalho realiza a investigação e análise do acidente de trabalho ocorrido, para saber as causas e os fatores da ocorrência do acidente. Todas as análises avaliadas passam pelas mãos dos cipeiros, chefias e os responsáveis pelo preenchimento da análise de acidente de trabalho que assinam o relatório da investigação, conforme protocolo pré estabelecido.


4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os dados foram analisados e buscando uma síntese das ocorrências encontrada com os acidentes de trabalho com material perfurocortante. Participaram das investigações e análise do acidente, o Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho - SESMT e a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes - CIPA, em virtude de conhecimento técnico e de suas atribuições legais, conforme NR - 05 do Ministério do trabalho e Emprego da portaria 3214/78.

Foram analisados os 19 casos acidentes de trabalho com material perfurocortante e observou-se que na maioria das vezes o acidente ocorre após o uso e antes do descarte do material perfuro cortante, com determinadas variações e circunstâncias envolvendo os acidentes em cada um desses momentos.

Embora os perfurocortantes possam causar acidentes em qualquer área de atuação no serviço de saúde, os dados mostram que a maioria dos acidentes ocorreram em unidades de internação e pronto socorro, seguidos das unidades de terapia intensiva pediátrica e adulta, hemodinâmica e no centro cirúrgico conforme tabela 1.

Tabela 1 - Número e local de ocorrência dos acidentes com perfurocortante de acordo com as circunstâncias da ocorrência nos anos de 2013 e 2014 de janeiro a setembro.

Locais de ocorrências

Período de 2013

Período de 2014.

Centro Cirúrgico

1

1

Clinica Médica Cirúrgica

7

2

Hemodinâmica

1

Pronto Socorro

1

4

Unidade de terapia intensiva adulto

1

Unidade de terapia intensiva pediátrica

1

Total

10

9

Fonte: Hospital de rede privada no estado de São Paulo/Brasil.

Vários são os tipos de ocorrências com perfurocortante, os mais destacados foram os de procedimentos inadequados envolvendo mais de um profissional, seguido de descarte nos dois períodos, paciente agitado e coleta de resíduo no período de 2014, conforme tabela 2.

Tabela 2 – Número de ocorrência por tipo de acidente no ano de 2013e 2014 de janeiro a setembro.

Tipo de ocorrência

2013

2014

Queda de bandeja

1

Agulha no lençol

1

1

Reencape

1

Descarte

2

2

Procedimento inadequado

4

2

Paciente agitado

1

2

Coleta de resíduo

Fonte: Hospital de rede privada no estado de São Paulo/Brasil.

Nas ocorrências de acidente do trabalho, envolvendo material perfurocortante com maior impacto foram os profissionais, auxiliares de enfermagem seguidos por técnicos de enfermagem e enfermeiros no ano de 2013, já no período de 2014, houve uma mudança de perfil de acidentado, com a maior incidência de técnicos de enfermagem, seguidos de auxiliares de enfermagem, logo após vem os auxiliares de limpeza, conforme tabela 3. Embora os profissionais os auxiliares de enfermagem e técnicos estão de frente o tempo todo no atendimento ao paciente e os enfermeiros estão um pouco mais voltados no preenchimento de documentos e em atendimentos mais complexo. O acidente com os profissionais da limpeza ocorreu devido o material perfurocortante ter sido descartado em um saco de resíduo infectante, na análise da ocorrência, havia sido mudado o fluxo do descarte e os profissionais ainda estavam em treinamento com o novo modelo apresentado.

Tabela 3 - Número de ocorrência de acidente de trabalho, com material perfurocortante, por profissionais envolvidos em 2013 e 2014 de janeiro a setembro.

FUNÇÃO

2013

2014

Auxiliar de enfermagem

5

3

Técnico de Enfermagem

4

5

Auxiliar de limpeza

2

Enfermeiro

1

Fonte: Hospital de rede privada no estado de São Paulo/Brasil

Embora o equipamento de proteção individual – EPI (como luvas de procedimento) protege a pele do contato com sangue e outros materiais biológicos, representando assim uma barreira às exposições, a luva não vai evitar o acidente com o material perfurocortante, mas parte da contaminação fica na luva.

É fundamental que o profissional da área da saúde faça o uso dos equipamentos de proteção individual – EPI, e que faça isso maneira habitual, compete ao gestor da área certificar-se de que realmente esse profissional está protegido.


Autores

  • Clóvis Paes Marques

    Clóvis Paes Marques

    FISIOTERAPEUTA, MESTRE EM BIOÉTICA PELO CENTRO UNIVERSITÁRIO SÃO CAMILO, ESPECIALISTA EM APARELHO LOCOMOTOR PELA UNIFESP - UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO, ESPECIALISTA EM PSICODRAMA SÓCIO EDUCACIONAL PELA PUC-SP - PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO, DOCENTE DE GRADUAÇÃO E PÓS GRADUAÇÃO DA UNG – UNIVERSIDADE GUARULHOS.

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  • Romilda Fernandes Teixeira

    Técnica de Segurança do Trabalho, Formada pela Instituição SENAC – Serviço Nacional de Aprendizagem Nacional, Graduada em Licenciatura e Bacharel em Ciências Biológicas pela UNG – Universidade Guarulhos, Especialista em Engenharia de Ciências Ambientais pela UNINOVE - Universidade Nove de Julho, Graduada no Curso de Engenharia Ambiental pela UNG – Universidade Guarulhos, pós-graduando de Engenharia de Segurança do Trabalho pela UNG – Universidade Guarulhos. romil19@hotmail.com.br.

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Este artigo é solicitação para conclusão de curso de Pós Graduação de Engenharia de Segurança do Trabalho da Universidade Guarulhos - UNG

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