CESSÃO DE DIREITOS À SUCESSÃO E REGISTRO DE IMÓVEIS

Engana-se quem afirma que apenas a partilha devidamente especializada, legitima a disponibilidade dos sucessores. Acaso tal afirmação fosse absolutamente verdadeira a cessão dos direitos hereditários ou de meação restaria inviabilizada. Entretanto, um herdeiro, usando da faculdade que lhe é garantida pelo disposto no artigo 1793 do Código Civil, pode realizar por meio de escritura pública a cessão de seus direitos à herança, antes mesmo da realização da partilha.

Tal cessão de direitos haverá de ser levada em consideração no inventário e partilha, resultando na substituição daquele herdeiro cedente pela pessoa do cessionário.

A cessão de direitos sempre será considerada como negócio jurídico intervivos, pois inegavelmente trata-se de uma transmissão de direitos sobre os bens que constituem a herança (que podem ser móveis ou imóveis); sobre tal negócio jurídico haverá a incidência do ITBI, na forma da Lei Municipal onde se localizem os bens, objeto da cessão realizada.

Engano maior ainda cometerá aquele que imaginar ser necessária a realização de ato de registro da cessão de direitos hereditários, eventualmente ocorrida e que resulte em transmissão de direitos sobre bem imóvel. Ainda que a cessão de direitos resulte, ao final, em adjudicação de propriedade de um imóvel, com a apresentação do título em cartório, ao oficial de registro caberá simplesmente registrar a transmissão da propriedade do espólio ao adjudicatário, não se cogitando, nessa situação, em quebra de continuidade registrária ou em partilha per saltum.

A cessão de direitos à sucessão aberta, em hipótese alguma será objeto de registro junto ao Oficial de Registro de Imóveis da circunscrição onde se localiza o imóvel, simplesmente porque a Lei dos Registros Públicos, em seu rol taxativo de direitos inscritíveis no fólio real, não prevê a possibilidade ou a necessidade de se realizar tal espécie de registro.

A ausência da menção a esta possibilidade deve-se ao fato de que é abominável a realização de atos inócuos e desnecessários.

Tal desnecessidade decorre do caráter singular emprestado pela lei à herança e que torna o seu registro uma formalidade apenas publicitária e não constitutiva do próprio direito. O  art. 1784 do CC dispõe que a herança se transmite imediatamente ao herdeiro no momento em que ocorre o falecimento do autor da herança. Trata-se da conhecida figura jurídica denominada saisine.

Ora, toda publicidade necessária à cessão dos direitos à sucessão aberta estará garantida pela intervenção do Estado, que necessariamente, nesta situação, ocorrerá de duas maneiras distintas: através da atuação do tabelião, que lavra a escritura pública de cessão de direitos e do juiz de direito, que homologa a partilha considerando o negócio jurídico realizado.  No caso do inventário se fazer na forma da Lei 11441/07, a intervenção do juiz de direito será substituída por nova intervenção notarial, realizada com a participação de advogado legalmente habilitado, que consistirá em uma escritura pública de inventário e partilha.


DUAS HERANÇAS, DOIS INVENTÁRIOS, UMA SÓ PARTILHA

Havendo duas heranças conexas e pendentes de partilha, dois serão os processos de inventário. Evidentemente, haverá necessidade de inventariar os bens que cada falecido deixou ao morrer e aguardar a aceitação da herança por quem de direito, para somente então cogitar na realização da partilha. Instrumento jurídico necessário para dar fim ao estado de indivisão em que se encontrava, desde o óbito, a propriedade dos bens deixados.

Conforme acima mencionado, está definido na lei que até a realização da partilha a herança permanecerá administrada sob as mesmas regras do condomínio civil. Após a aceitação da herança (um direito potestativo do herdeiro) os bens deixados pelo autor da herança permanecerão em estado de indivisão e sob as regras do condomínio até a realização da partilha, conforme disposto no acima referido parágrafo único do art. 1791 do CC.

Mas, da necessidade de ocorrer partilha em inventários conexos (dois inventários distintos, mas conexos) não decorre ser obrigatória a realização de duas partilhas.

Oportuno mencionar que, se obrigatória fosse a realização de duas partilhas nos casos de inventários conjuntos (que efetivamente são de ocorrência bastante comum), seria preciso identificar o fundamento legal de tal obrigação, com clareza inquestionável, pois, afinal, ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer algo senão em virtude de lei.

Segundo entende este autor e conforme acima mencionado é insuficiente para a tirada de tal conclusão a simples interpretação literal e gramatical do artigo 1043 do CPC, onde a palavra partilha está grafada no plural simplesmente como exemplo de possibilidade de sua ocorrência (plural).

A existência de um plural gramatical na redação do artigo, de modo algum legitima a conclusão de que haverá obrigatoriedade de partilhas plurais em todas as situações singulares que se apresentem ao intérprete do direito na aplicação prática da vontade das partes interessadas.

O fato é que se mostra possível (além de ser mais econômico e racional) a ocorrência de dois (ou mais) inventários conjuntos e uma única partilha: Falecido o primeiro autor da herança, se um de seus herdeiros, após ter aceitado sua herança (tendo os bens do monte permanecido em estado de indivisão, segundo as regras do condomínio), vier a falecer antes da realização da partilha, nova herança surge e mais complexa ficará a partilha a ser realizada entre os herdeiros sobreviventes e os sucessores deste herdeiro falecido, mas uma única partilha poderá resolver o estado de indivisão em que se encontravam os bens das duas heranças.

Nada de ilegal ou irregular haverá nessa situação se o instrumento que definir a partilha dos bens inventariados não ignorar a existência das duas sucessões (2 heranças a serem inventariadas), se forem recolhidos os impostos devidos pelas duas transmissões e se forem  preservados os direitos de todos os interessados.

O disposto no inicialmente citado art. 1043 do CPC estará sendo atendido quando, no inventário conjunto, for noticiada a existência das duas heranças, realizados os dois processos de inventariar os bens deixados pelos autores das heranças, recolhidos os impostos devidos pelas duas transmissões ocorridas, tomadas todas as  providências exigidas para a realização do procedimento e, ao final, ajustada uma única partilha.

De fato, está parcialmente correta a argumentação reproduzida acima, no sentido de que não poderá ocorrer a fusão de processos, mas tão somente uma junção, por conexão, resultando no agrupamento de dois seres que se unem sem perder a individualidade.

Não se pode transformar dois inventários em um só mas, por outro lado, perfeitamente possível (e mesmo desejável, pois representa simplificação de procedimento) que ocorra uma única partilha para finalizar o estado de indivisão que prevalecia até então.

Será apenas com a partilha (única) que aquele todo unitário representado por duas heranças conectadas entre si por algum fato específico, ao final deixará seu estado de indivisão e resultará na transmissão de propriedade individual aos sucessores do primeiro e do segundo autor da herança.

Em tal situação não existirá partilha per saltun, situação que efetivamente não é aceita pela jurisprudência. 

A partilha será única, se este for o interesse dos sucessores (algo perfeitamente regular, segundo a lei civil) e o registro imobiliário deverá reproduzir a situação final, que é exatamente a ajustada pelos interessados e que consta literamente no Formal de Partilha ou Escritura Pública de Inventário e Partilha que lhe for apresentada e que deverá reproduzir a transmissão da herança conforme o ajuste realizado.

No caso específico da propriedade adquirida pelo direito de sucessão, o que obrigatoriamente se deve registrar é o título de entrega da herança e não propriamente a herança (cf. Lei 6015/73, art. 167, inc. I, alínea 25, adiante reproduzido e comentado). A função de tal registro será apenas dar a publicidade necessária do fato de que, conforme o título apresentado, em virtude do óbito daquele que consta ser o proprietário no registro imobiliário (o primeiro autor da herança) e do segundo autor da herança (que não tem seu nome inscrito como proprietário no registro), o imóvel foi transmitido para os herdeiros ali qualificados. 


EXEMPLIFICANDO

É certo que uma visão teórica sobre o tema analisado mostra-se mais eficaz na obtenção de uma resposta inequívoca e segura. A teoria servirá sempre para todos os casos práticos que venham a surgir, ainda que neles existam algumas particularidades, mas como o problema surgiu a partir de casos práticos (dúvidas registrarias originadas na Comarca de Caraguatatuba e da Capital do Estado), pode-se mostrar de interesse a formulação de um caso prático hipotético que vai facilitar o entendimento da situação e, quiçá, contribua para ajudar no convencimento de quem não tem incentivo algum para ser convencido.

O objetivo do exemplo imaginado a seguir é simplesmente demonstrar como será possível, perfeitamente legal e correto realizar-se inventários conjuntos e uma única partilha ser apresentada ao registro imobiliário, sem nenhuma ofensa às leis e aos princípios que regem o Registro de Imóveis em nosso país.

Imagine-se a existência de um casal AA e BB, com os filhos CAB e DAB e que possua em seu patrimônio os imóveis 1, 2 e 3. Ocorrendo o falecimento de AA a viúva BB e os herdeiros, maiores e capazes, decidem postergar a realização do inventário e nada partilhar neste momento.

Conforme a lei determina, pela desídia destes interessados lhes será aplicada a penalidade de multa a incidir sobre o imposto de transmissão devido, além de que todos os bens permanecerão indisponíveis e em estado de condomínio, o que, igualmente, é uma forma de punição pela falta de realização de inventário. Entretanto, além destas penalidades, nenhuma outra forma de sanção haverá de sofrer o meeiro e os herdeiros que não realizaram o inventário do falecido no prazo citado pela lei processual.

Continuando com o exemplo imaginado. Algum tempo depois do falecimento de AA ocorre o óbito da viúva BB. Os herdeiros CAB e DAB, finalmente decidem pela realização dos inventários e partilha dos bens deixados por seus pais, o que se faz por meio de escritura pública de inventário e partilha convencionando-se que, nos pagamentos das heranças, caberá a totalidade do imóvel 1 para o herdeiro CAB, a totalidade do imóvel 2 para o herdeiro DAB e ainda que o imóvel 3 será atribuído em comum para ambos, em proporções idealmente iguais.

A escritura feita, se mencionar clara e inequivocamente a existência de 2 autores da herança e a existência de duas sucessões, bem como o pagamento de dois impostos, cada qual com base na data do respectivo óbito, e formalizar uma única partilha, convencionada apenas na data da outorga da própria escritura, estará perfeitamente regular segundo os dispositivos da lei de regência.

No exemplo acima a viúva meeira e os herdeiros ao não realizarem tempestivamente o inventário e partilha permaneceram em estado de condomínio indiviso desde a data da ocorrência do primeiro óbito até a data da outorga daquela escritura, que somente ocorreu após o falecimento daquela que, em um primeiro momento, tornou-se viúva meeira na sucessão dos bens deixados por seu falecido marido.

De acordo com o exemplo imaginado, portanto, a propriedade do imóvel “2”, conforme ajustado na escritura de inventario e partilha, transferiu-se diretamente do espólio de AA e BB  para o herdeiro DAB. Tal transferência de propriedade, por expressa determinação do art. 1784 do CC, será considerada como se houvesse acontecido em dois momentos distintos, ou seja, metade ideal na data do óbito de AA e metade ideal  na data do óbito de BB.

Incorreto seria, portanto, considerar, que o outro herdeiro, CAB, tivesse sido, em qualquer momento, proprietário de uma fração ideal no mesmo imóvel 2. Igualmente incorreto seria considerar que esse herdeiro DAB, tornou-se, em qualquer momento, proprietário de alguma fração ideal na propriedade do imóvel 1, imóvel este que, de fato,  transferiu-se diretamente do monte partilhado para o herdeiro CAB.

Ainda no exemplo imaginado. Somente com relação ao imóvel 3 é que se poderia conceber a realização de duas partilhas, onde o espólio da viúva meeira receberia a meação em um dado momento (considerado, retroativamente, como se houvesse ocorrido na data do óbito de seu marido, pois a escritura foi lavrada depois de seu próprio falecimento) e, posteriormente, haveria de transferir tal meação para ambos os herdeiros.

Mas tal concepção não corresponderia à realidade dos fatos.

O estado de indivisão da propriedade dos 3 imóveis entre os três titulares de direitos sobre eles (a viúva e seus dois filhos), inquestionavelmente prevaleceu até o momento da realização da partilha  (cf. art. 1791 do Código Civil, acima reproduzido) e esta somente ocorreu após a morte da própria meeira. Qualquer outra conclusão sobre a propriedade de tais bens seria enganosa e inverídica e somente serviria para, desnecessariamente duplicar a realização de atos de registro junto ao oficial de registro imobiliário.

Apenas para facilitar a compreensão do que se afirma, considere-se uma alteração na sequência dos atos no próprio exemplo acima concebido.

Imagine-se que, diferentemente da primeira solução imaginada, após decorridos alguns anos do óbito de AA, a meeira BB e seus filhos CAB e DAB tenham se decidido pela realização do inventário e partilha e, sendo, maiores, capazes e acordes, convencionaram que a propriedade do imóvel 1 seria atribuída inteiramente ao herdeiro CAB, a propriedade do imóvel 2, inteiramente ao herdeiro DAB e o imóvel 3, atribuído à viúva meeira BB.

Pouco tempo depois de concluído tal inventário e partilha ocorre o óbito daquela viúva meeira BB, os filhos então realizam o inventário do único bem por ela deixado (a totalidade do imóvel 3, recebido naquele inventário realizado) e decidem pelo pagamento de 50% ideal do mesmo para cada um.

A solução final, neste segundo exemplo, é exatamente igual à imaginada no primeiro exemplo (propriedade exclusiva em dois imóveis distintos e propriedade comum em um terceiro), mas existe muita diferença entre uma situação e outra.

Neste segundo exemplo, efetivamente, ocorreram duas partilhas em dois inventários sucessivos (não conjuntos), diferentemente, naquele primeiro exemplo, houve apenas uma partilha em inventários conjuntos e tal partilha resultou em dar cabo a um mais longo período de indivisão dos bens existentes, pois a propriedade comum, em estado de indivisão, perdurou até a realização desta única partilha convencional. 


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Como citar este texto (NBR 6023:2018 ABNT)

CAMARGO, Marco Antônio de Oliveira. Da desnecessidade da duplicação de registros e partilhas em inventários conjuntos. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 20, n. 4249, 18 fev. 2015. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/36421. Acesso em: 1 dez. 2020.

Comentários

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    Jaqueline Melo

    Prezado Dr. Marco, tenho uma duvida.
    Por exemplo:
    O falecido deixou um unico imovel. A esposa meeira e os filhos herdeiros fizeram a cessão de direitos hereditários e receberam cada um o valor de sua cota respectiva.
    Apos algum tempo a esposa meeira veio a falecer e deixou apenas parte do dinheiro que recebeu com a cessao do imovel. Nao houve inventario do falecido e nem da esposa meeira.
    Nesse caso, mesmo os herdeiros discordando da divisao do dinheiro deixado pela meeira, tenho que fazer os dois inventarios, conforme o artigo 1.043 do CPC? Posso realizar apenas o do falecido?
    Abs.

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    Roberto da Silva Lorenzo

    Prezado Dr. Marco, obrigado pela pronta resposta. Concordo com o seu entendimento. Mas, levando por este princípio, de que é necessário um documento formal, indicando quem, afinal, são os herdeiros do falecido, acredito, então, que o registro deste documento é fundamental. Quer dizer que nem sempre os herdeiros receberão os bens (pode ficar com algum credor). É necessário o registro para dar publicidade de quem, afinal, são os herdeiros. Pode acontecer do primeiro falecido deixar dívidas e o segundo não e vice-versa.

    Penso que deve haver um paralelismo: se há a necessidade de partilha na escritura, há necessidade de um registro para cada partilha.

    Agora, se a partilha fosse única, concordo com um só registro, mas a taxa da escritura também devia ser de um só ato.

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    Roberto da Silva Lorenzo

    Prezado autor. A minha dúvida é quanto a essa hipótese: "mesmo porque é possível e relativamente comum que na primeira sucessão não exista partilha alguma, mas apenas e tão somente, separação ideal do direito de meação, própria do viúvo sobrevivente, da totalidade da herança que permanece idealmente igual, em condomínio, na propriedade dos sucessores do falecido, filhos comuns do meeiro e do autor da herança (exatamente como ilustrado no hipotético exemplo concebido e citado anteriormente)"

    Se não há partilha alguma, qual negócio jurídico pratica o tabelião nesse caso para justificar duas cobranças de emolumentos na escritura?

    Não seria mais simples e célere simplesmente averbar na matrícula o óbito do de cujus e transmitir automaticamente a herança aos herdeiros pelo princípio da saisine? Pagaria só uma averbação.