A barganha da presidenta consolida, mais uma vez, que a DÉCADA DE AÇÃO PELA SEGURANÇA NO TRÂNSITO fica só no imaginário.

Em meio ao inferno astral, em que a presidenta da República Dilma Rousseff vive, o "jeitinho" brasileiro corrobora para o descaso à vida de milhões de brasileiro, nas vias públicas. Diante das greves dos caminhoneiros, em todo o país, a presidente irá sancionar a Lei dos Caminhoneiros. Indo de encontro à Política Nacional de Trânsito e a DÉCADA DE AÇÃO PELA SEGURANÇA NO TRÂNSITO – 2011-2020 [Resolução ONU nº 2, de 2009],1 a presidenta garante aos caminhoneiros o perdão das multas por excesso de peso expedidas nos últimos dois anos. A boa notícia é a ampliação de pontos de parada para descanso e repouso.

Acidentes de trânsito envolvendo caminhoneiros têm vários motivos: excesso de velocidade e de carga transportada; precariedade nos equipamentos obrigatórios; péssimas condições das vias terrestres; uso de “arrebite”; excesso de jornada, para conseguir certa qualidade de vida. O transporte de riquezas nacionais nas vias públicas, por caminhões, é uma jornada milagrosa diante dos obstáculos a integridade física dos caminhoneiros. Sem qualquer humanização, os donos das mercadorias querem que elas sejam entregues o mais rápido possível diante da histeria coletiva do consumismo no Brasil. Pela luta ferrenha diária que se tem no Brasil, para ter um mínimo do mínimo de dignidade [qualidade] na vida, os caminhoneiros se sujeitam aos ditames do capitalismo desumano e da falta de solidariedade dos consumidores aos problemas enfrentados dos caminhoneiros.  O excesso de carga é uma das causas de acidentes gravíssimos nas vias brasileiras:

“O que causa essa diferença é uma cascata de causas e efeitos. O acidente mais comum é o tombamento, quando o veículo está trafegando em alta velocidade e se depara com uma curva sem sinalização adequada.

O tombamento é o tipo mais comum de acidente com caminhão e corresponde a 47% do total de ocorrências. O excesso de peso, uma irregularidade cometida por muitos caminhoneiros, deixa o veículo de carga, que foi desenhado para transportar um determinado volume, instável. Sem equilíbrio, o caminhão apresenta um risco maior de tombamento nas curvas”.2

Como qualquer proletariado, que se digladia ferozmente diante de minguadas políticas sociais [Estado social], os caminhoneiros se comportam como suicidas nas vias públicas, enquanto seus algozes, os consumidores, nada reclamam quanto às precárias condições de trabalho dos caminhoneiros [vias públicas, explorações laborais]. O Brasil peca pela sua falta de união [solidariedade]. Na vida agitada cotidiana, construída pela Arquitetura da Discriminação,3 é cada qual por si, sem a concepções teórica de unicidade. Ou seja:

“Cada um por si, e Deus por todos”!

Morte é morte, independe de etnia, sexualidade, religião. Todos irão ter este fim. Todavia, o sentimento egoístico não morre [inexiste], a não ser que o ser humano deixa de existir literalmente, e causa contínua torpeza na vida de qualquer ser humano. Cada ser humano existe pelo simples motivo de estar vivendo em grupo. É através da vivência grupal, o ser humano se aperfeiçoa, sobrevive por mais tempo – quando sem guerras, sem darwinismo social, dogmas religiosos. O descaso à vida, em toda a sua expressão, é agoniante existir da humanidade. As mortes nas vias públicas, no Brasil, preocupam indivíduos que estão além das necessidades fisiológicas do animal humano, da necessidade de laborar para sobreviver. Quando o número de acidente aumenta, sem que haja mobilização social, desde uma pequena cidade, até as grandes metrópoles, algo de muito sério paira no psiquismo humano. E é o caso do Brasil. UQanto maior a desigualdade social em certos países, mais ainda o ser humano se aproxima da brutalidade, da premissa de que existir visa, somente, os meios necessários à existência. Ou seja, nada mais importa para a vida humana, apenas o agoniante cotidiano da sobrevivência.

Se o ser humano, diante da escassez, ou falta, do Estado social, nada tem além de sua força física para conseguir sobreviver. Sem opções à mobilidade social, o pensamento se restringe ao sobreviver com que tem ao seu alcance. Em cada ser humano existe uma zona de conforto da qual mantém o ser humano sob controle social. O rompimento deste controle [inconsciente coletivo] pode trazer consequências desastrosas ao grupo social e ao próprio indivíduo. Nos sorrisos diários dos proletariados, e dos párias, à esperança de um dia melhor, mas um limitador, compensador, das emoções aflitivas. Na repressão interior aos sentimentos agonizantes - diante do descaso social, e do próprio Estado -, os indivíduos vivem o cotidiano mais condicionados pela necessidade fisiológica do que pela introspeção aos próprios sonhos e ideais de vida. Porém, nenhuma energia psíquica fica represada, reprimida no âmago humano. Numa eclosão interna, o ser humano adoece ou comete crime. Sim, políticas públicas devem visar a saúde psíquica dos administrados.

A mobilidade urbana, no Brasil, não depende, somente, dos administradores públicos, mas de todos os cidadãos, de norte a sul, de leste a oeste. O comportamento humano, intrapessoal e interpessoal, deve ser uníssono na vida digna de todos os cidadãos4. Sem a essência da universalização, não há direitos humanos, não há civilidade, não há paz.

Referências:

1 - DÉCADA DE AÇÃO PELA SEGURANÇA NO TRANSITO – 2011-2020

Resolução ONU nº 2, de 2009. PROPOSTA PARA O BRASIL PARA REDUÇÃO DE ACIDENTES E SEGURANÇA VIÁRIA. Disponível em: <http://www.denatran.gov.br/download/decada/Proposta%20ANTP-CEDATT-Instituto%20de%20Engenharia%20SP.pdf>.

2 - Acidentes rodoviários no Brasil causam bilhões de reais em prejuízo. 12/09/2006 – ABCR. Disponível em:< http://www.revistacobertura.com.br/lermais_materias.php?cd_materias=43624&friurl=:--Acidentes-rodoviarios-no-Brasil-causam-bilhoes-de-reais-em-prejuizo--:>.

3 - HENRIQUE, Sérgio Henrique S. Pereira. Diploma, etnia, morfologia e sexualidade: a arquitetura da discriminação e os direitos humanos. Jus Navigandi, Teresina, ano 20, n. , 24 fev. 2015. Disponível em: <http://jus.com.br/artigos/36660>. Diploma, etnia, morfologia e sexualidade: a arquitetura da discriminação e os direitos humanos.

4 - Dutch campaigners explain why the Netherlands is now so cycle-friendly. Disponível em: <http://lcc.org.uk/pages/holland-in-the-1970s>.


Autor


Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelo autor. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi.

Comentários

0

Livraria