Juízes de direito, promotores de justiça e defensores públicos titulares das varas especializadas da infância e da juventude não podem subrogar-se nas atividades privativas de assistentes sociais, psicólogos, pedagogos e outras que exigem formação especializada.

Preconiza o §4º, do Art. 186, do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o seguinte:

“Art. 186. (...) §4º Na audiência em continuação, ouvidas as testemunhas arroladas na representação e na defesa prévia, cumpridas as diligências e juntado o relatório da equipe interprofissional, será dada a palavra ao representante do Ministério Público e ao defensor, sucessivamente, pelo tempo de vinte minutos para cada um, prorrogável por mais dez, a critério da autoridade judiciária, que em seguida proferirá decisão”.

Da leitura do dispositivo retro, não há nenhuma dúvida: o relatório da equipe interprofissional deverá ser juntado aos autos da ação socioeducativa.

Noutras palavras, deixar de juntar o relatório da equipe interprofissional no processo é, em primeira e última análise, negar vigência ao disposto no §4º, do Art. 186, do ECA.

E a razão de ser do dispositivo é por demais óbvia e evidente: Juízes de Direito, Promotores de Justiça e Defensores Públicos titulares das Varas Especializadas da Infância e da Juventude não podem, jamais, subrogar-se nas atividades privativas de Assistentes Sociais, Psicólogos, Pedagogos e outras que exigem formação superior especializada.

Muito menos a oitiva de policiais militares ou civis e da vítima, em audiência, constitui início do relatório da equipe interprofissional de que trata §4º, do Art. 186, do ECA. Nem de longe.

A instrução da ação socioeducativa não se satisfaz apenas com a apuração da autoria e da materialidade do ato infracional. A ação socioeducativa não se confunde com a ação penal de maiores imputáveis que tramita na Vara Criminal comum.

De acordo com o ECA, a instrução da ação socioeducativa somente encerrar-se-á após esgotado o estudo completo sobre o meio social e familiar do menor, as suas circunstâncias de vida e as condições em que se deu a prática da infração, o que só acontece através do apontado relatório da equipe interprofissional.

É o relatório da equipe interprofissional que dirá qual medida socioeducativa deverá ser aplicada ao adolescente, dentre aquelas elencadas no Art. 112, do ECA.

Não raras vezes, tamanha é a desgraça ou infortúnio na vida do menor, dependência química ou outra desventura, que o relatório da equipe interprofissional poderá recomendar, categoricamente, a não aplicação de quaisquer das medidas socioeducativas de punição, mas, sim, o deferimento de medidas específicas de proteção ao adolescente.

A aplicação de medida socioeducativa que contraria o disposto no relatório da equipe interprofissional, ou mesmo ignora a sua ausência, está fadada ao insucesso. Por isso mesmo, todo o processo socioeducativo que a fundamenta é nulo de pleno direito, por contrariedade ao disposto na legislação específica de proteção e defesa da infância e da juventude.

Legem habemus. Olvidar a confecção do relatório da equipe interprofissional traduz-se no plano da hermenêutica em inaceitável derrogação do §4º, do Art. 186, do ECA.

Escreve Maria Josefina Becker (“Estatuto da Criança e do Adolescente Comentado”, sob a coordenação de Munir Cury, Antônio Fernando do Amaral e Silva e Emílio García Mendez, Malheiros Editores, pág. 451):

“As Regras Mínimas das Nações Unidas para a Administração da Justiça de Menores (Regras de Beijing) referem-se à necessidade de que seja ‘efetuada uma investigação completa sobre o meio social e as circunstâncias de vida do menor e as condições em que se deu a prática da infração’, antes da decisão, para facilitar a decisão justa da autoridade judiciária (regra 16.1, cujo comentário prevê a existência de serviços sociais que preparem relatórios especializados)”.

A autora em referência complementa a sua observação:

“Nos casos de apuração de ato infracional, cabe à equipe técnica emitir parecer a respeito da medida sócio-educativa (v. art. 112) mais adequada para a recuperação do adolescente, levando em conta, além do ato praticado, as condições de personalidade e as circunstâncias familiares, sociais e culturais” (Ob. cit., p. 452).

Diz Tânia da Silva Pereira, em “O Melhor Interesse da Criança” (“O Melhor Interesse da Criança: um debate Interdisciplinar”, Editora Renovar, págs. 4/5):

“As Convenções contêm regras de procedimentos flexíveis e adaptáveis às mais diversas realidades, delineando políticas legislativas a serem adotadas pelos Estados-Partes. Estes têm a obrigação de, não só respeitar os direitos reconhecidos nas convenções, mas também garantir o livre e pleno exercício dos mesmos. Conseqüentemente, os Governos têm tanto deveres positivos como negativos”.

Por último, acrescento a doutrina de Edson Passetti (“Violentados, Crianças e Adolescentes e Justiça”, 2ª Edição, Editora Imaginária, pág. 110):

“Os técnicos das entidades assistenciais ou de órgãos do próprio governo municipal e estadual, da FEBEM e do Poder Judiciário, denominados no ECA por ‘equipe interprofissional’, possuem identidades de propósitos com as solicitações dos promotores e as decisões dos juízes, constituindo, assim, a tríade punitiva do ECA”.

Consagrando a literalidade do disposto no §4º, do Art. 186, do ECA, trago julgado do vanguardista Egrégio Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul:

“LAUDO DA EQUIPE INTERPROFISSIONAL. AUSÊNCIA. ANULAÇÃO DO PROCESSO.

A ausência de relatório da equipe interprofissional, para a recomendação da medida sócio-educativa mais adequada para a recuperação dos adolescentes, leva a anulação do processo com a cassação da sentença, ainda mais considerando que o ato infracional praticado ocorreu em sede de Juizado Regional da Infância e da Juventude. Processo anulado. Sentença cassada. (SEGREDO DE JUSTIÇA) (Apelação Cível Nº 70010363455, Oitava Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Antônio Carlos Stangler Pereira, Julgado em 30/12/2004)”.

A proteção integral à criança e ao adolescente exige respeito e atenção por parte do Poder Público. A este cabe cumprir bem e fielmente sua missão constitucional e legal de atendimento inicial aos adolescentes apreendidos para apuração de ato infracional. A confecção do relatório interprofissional desses menores talvez seja sua maior incumbência na fase judicial cognitiva. Tanto que a ausência deste estudo especializado fulminará, sempre, com nulidade, a ação socioeducativa.


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Como citar este texto (NBR 6023:2002 ABNT)

AMARAL, Carlos Eduardo Rios do. ECA: ausência de relatório da equipe interprofissional leva à nulidade do processo. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 21, n. 4604, 8 fev. 2016. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/38908>. Acesso em: 20 maio 2018.

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