O presente artigo visa através da insatisfação e do descrédito atribuído ao atual sistema capitalista desenvolver teorias à cerca do fenômeno de difusão social do terrorismo, que torna personagens tão distantes e díspares, como um jovem criado no oriente.

INTRODUÇÃO:

Atentados a torres, a revistas ou a boates. Religião, política ou economia. Homens, mulheres ou crianças. Ricos ou pobres. Ocidentais ou orientais. A desconfiguração do terrorismo de seus moldes iniciais destruiu a possibilidade de ser construído um padrão de ataques, bem como de uma motivação específica, fazendo com que o combate a esse movimento se torne quase que impossível.

Ataques ao patrimônio público ou privado, próprio ou alheio, são hoje os maiores deflagradores de medo perante uma sociedade moderna, hoje a mão que movimenta e fomenta ataques perdeu a cor, o sexo, o formato e ganhou valor, até onde o capitalismo é um sistema garantidor e onde o capitalismo se tornou justificativa.

Quem são os terroristas, onde estão, como agem ou como aderem ao movimento, são questionamentos e indagações levantadas em inúmeros artigos e pesquisas científicas, o que toma corpo agora não se diferencia desses.

O presente artigo, entretanto, visa através da insatisfação e do descrédito atribuído ao atual sistema capitalista desenvolver teorias à cerca do fenômeno de difusão social do terrorismo, que torna personagens tão distantes e díspares, como um jovem criado no oriente e um no ocidente, a coadunarem em ideologias violentas ao ponto de unirem forças em atentados dos mais diversos tipos.

A CONSTRUÇÃO DO CAPITALISMO COMO FOMENTO À DEPRESSÃO

“Esgarçou sem piedade os variados laços feudais que uniam o ser humano a seu superior natural, sem deixar outro vínculo a ligar seres humanos que não o puro interesse, o insensível ‘pagamento em dinheiro’” (KARL.M-1872) O sistema capitalista, tão criticado na obra dos teóricos Karl Marx e Friedrich Engels foi dividido em fases temporais, que possuem em comum a exploração excessiva, tanto física quanto psicológica, dos que não são donos dos meios de produção, o proletariado.

A primeira fase é chamada de Comercial e sua configuração se dá em um cenário de transição do feudalismo para o capitalismo. Nela, estão presentes as trocas comerciais, normalmente entre comerciantes próximos, visto que o desenvolvimento do transporte e das relações entre regiões longínquas ainda era em muito precário, porém, ascendente.

As grandes embarcações começavam a aportar em regiões antes desconhecidas buscando mão de obra, mercado consumidor e matérias primas, tem início a busca desenfreada por metais preciosos (metalismo) e a busca por uma balança comercial favorável através de práticas nomeadas de mercantilismo.Nesse período, potências como Portugal, Inglaterra, Espanha e França adquiriram um contingente exorbitante de riquezas na forma de metais explorando suas colônias. Aqui, surge um dos principais termos atrelados ao Sistema Capitalista, a Exploração. A fase seguinte,industrial, é advinda da Revolução Industrial e é nela que o explorar ganhou seu apogeu, sem negociações, sem direitos, uma exploração exposta e orgulhosa em que uns deixaram sua característica de humanos, tornaram-se máquinas, e outros de humanidade, tornaram-se monstros, assim, uns foram sujeitados a regimes repressivos de trabalho enquanto outros lucravam e tentavam explorar para lucrar o quanto fosse possível.

O proletário, agora máquina, torna-se apenas um instrumento de riqueza, um exército de produção que necessita apenas trabalhar, sem direitos e com muitos deveres. Destaca-se que mulheres e crianças eram os alvos mais comuns da exploração devido sua posição subalterna na sociedade, marginalizados, e, como tal, sujeitados a salários ainda menores que os pagos aos homens, em meio a jornadas de trabalho que variavam entre 14 e 16 horas, péssimas condições de trabalho, inúmeros acidentes e doenças decorrentes dos maus tratos trabalhistas.

É nesse panorama de desgraça humana em busca de lucro que surgem críticas ao sistema, como o filme Tempos Modernos com Charles Chaplin, este, conhecido por seu desgosto com o modelo de linha de produção em que o homem passa a ser só mais uma máquina em uma esteira de produtos, sem vida, sem participação nos lucros, o homem é apenas um objeto da esteira, especialista em uma função, específico, dependente. Chaplin em discurso explicitamente crítico ao fordismo profere: “Não sois máquinas! Homens é que sois! “, entretanto, ele estava errado. No capitalismo industrial o ser humano é uma máquina, um objeto, uma vítima da ganância de sua própria espécie, explorado por seu próprio povo. Aqui, tem-se início as críticas mais conhecidas à esse sistema através de termos como Mais Valia, Exercito de Reserva e, para alguns, a heterossexualidade compulsória, todos ligados entre si e coadunando com a lei capitalista de exploração.

Mais Valia é um dos termos mais importantes na obra de Marx e Engels, ele, de modo simples, é o valor agregado pelo trabalho do proletariado para além do valor real da mercadoria, é desse valor excedente que o burguês retira seu lucro. O trabalhador recebe um salário fixo pelo seu trabalho, imutável, mesmo que este produza mais que o esperado, a ele, entretanto, não é permitido produzir menos que o estipulado sob pena de demissão. É aqui que surgem dois tipos de Mais Valia, a absoluta e a relativa:

mais-valia absoluta ocorreria em função do aumento do ritmo de trabalho, da vigilância sobre o processo de produção ou mesmo da ameaça da perda do trabalho caso determinada meta não fosse alcançada, ainda que em detrimento da saúde e do bem-estar do trabalhador. O empregador exige maior empenho na produção sem oferecer nenhum tipo de compensação em troca e recolhe o aumento da produção de excedentes em forma de lucro.

Já a mais-valia relativa estaria ligada ao processo de avanço científico e do progresso tecnológico. Uma vez que não consegue mais aumentar a produção por meio da maior exigência de seus empregados, o capitalista lança mão de melhorias tecnológicas para acelerar o processo de produção e aumentar a quantidade de mercadoria produzida. Esse processo acontece sem que, no entanto, seja oferecida qualquer bonificação ao trabalhador. Este passa ser aos poucos substituído pelo maquinário tecnológico, de modo que a quantidade de trabalho social é diminuída e a mão de obra humana é trocada por uma mão de obra mecânica.(RODRIGUES, Lucas de Oliveira)

A imposição da heterossexualidade através do modelo econômico se comunica com o conceito de exército de reserva pela necessidade de altos índices de natalidade para a reposição dos trabalhadores e, para que exista um contingente de pessoas desejosos das vagas de emprego, gerando, desse modo, o que Rodrigues define como a Mais Valia Relativa, o medo imputado no trabalhador de ser substituído. Sendo assim, a heterossexualidade passou a ser louvada enquanto qualquer transgressão a esse binômio homem-mulher considerado ilegítimo, repreendido socialmente.

A heterossexualidade, portanto, é o modelo social adotado pelo sistema capitalista como forma de produção de um contingente excessivo de trabalhadores, a massa ociosa que irá servir como substituto para os que já estão sendo explorados. Para o proletariado, a imposição da reprodução funcionava como um modo de subsistência, inspirados pela procura por jovens no mercado de trabalho, o burguês preferia contratar crianças e adolescentes por pagar menos pelo mesmo número de horas trabalhadas, o proletariado acaba por ter filhos para que estes ajudem na manutenção do orçamento doméstico e como tal, ajudam na manutenção do modelo de exploração.

            Em meio a esse panorama de submissão do trabalhador ao patrão, começaram a surgir alguns movimentos visando distribuição equitativa dos lucros bem como a destruição do modelo econômico então vigente e sua substituição por um em que a estrutura social não fosse dividida de acordo com a estrutura financeira. Foi graças a essa inquietude que grupamentos de trabalhadores, alguns organizados em sindicatos, conseguiram direitos e garantias, como férias, redução da carga horária, indenizações em caso de acidentes de trabalho e tantos outros defendidos e tipificados nos Códigos de Leis Trabalhistas.  Assim, assistimos o surgimento da atual fase do capitalismo, o Financeiro, em que a especulação financeira e a bolsa de valores ditam as nuances da economia mundial. É nessa fase que graças ao advento da globalização as economias estão ligadas e interagem de forma efetiva, uma crise que antes era restrita à um país, hoje toma proporções globais. Graças ao capitalismo financeiro, o modo de exploração também perdeu sua limitação territorial, tornando recorrente empresas instalarem suas linhas de produção e montagem em países economicamente e socialmente miseráveis para se aproveitarem da escassa legislação de direitos trabalhistas, bem como do contingente exorbitante de trabalhadores desesperados por um vínculo empregatício que o garanta condições de vida minimamente humanas.

Atrelado ao conceito de Capitalismo Financeiro, segundo Antônio de Pádua Pacheco (1994), estamos em um período de Neoliberalismo:

O capitalismo financeiro vive agora o que os especialistas chamam de neoliberalismo cujaideia central é a noção de que todo e qualquer indivíduo tem a possibilidade de ascensão social, ou seja, qualquer pessoa indistintamente pode enriquecer desde que trabalhe, pois, o “trabalho dignifica o homem” e o trabalho em demasia enriquece-o.

Há a ideia de que, cada um fazendo a sua parte, a nação enriquecerá, como um bolo que está crescendo e, depois, será dividido entre todos.

A verdade é que o mercado de trabalho não comporta vários miliardários ao mesmo tempo.

Provavelmente, as pessoas que desconhecem tal situação continuem trabalhando, ou para se dignificarem ou para se enriquecerem ou, então, o que é desagradável, apenas para se manterem vivas. (PACHECO, Antônio de Pádua. 1994)

Pacheco consegue através dos seus estudos desenvolver indícios sobre uma das principais consequências do atual modelo capitalista adotado, a depressão. Por não mais conseguir explorar o trabalhador até o desgaste físico anterior o burguês adota medidas drásticas porém não tão explicitas como anteriormente: no trabalhador é imputado o sentimento de ganância, que este poderá ascender a condição de patrão, burguês, caso trabalhe muito e reclame pouco; caso se sujeite a determinadas privações advindas do ônus da existência como ser trabalhador,poderá em algum futuro próximo tornar-se aquele que explora e não mais o explorado.

O dono do meio de produção, portanto, usa do trabalhador contra ele mesmo, faz com que uns traiam os outros sob promessas de ascensão mais veloz, desarticula os sindicatos e destrói a credibilidade destefrente o proletariado, desestrutura um movimento de luta constante e antiga que resulta na desestruturação psicológica do trabalhador ao ponto de lhe ocasionar o mal do século atual, a depressão. No Brasil, em 2014, o Jornal O Estado de São Paulo divulgou uma pesquisa com base nos dados do sistema de mortalidade Datasus, atestando um crescimento de 705% de mortes relacionadas à depressão nos últimos 16 anos. Esses dados, servem como exemplificação para as consequências do sentimento de impotência e incapacidade advindo do modelo neoliberal adotado, que segundo Pacheco:

Entretanto, as pessoas que conhecem a situação, estão trabalhando duro e não conseguem a tão sonhada ascensão social, por causa de motivo supracitado, começam a crer que a causa de tal frustração é a incompetência, a falta de capacidade, porque, talvez, esteja fazendo algo errado e daí entra em estado de depressão psicológica.

Esta situação, repetindo-se muitas vezes, leva indivíduos e mais indivíduos ou ao suicídio ou à mendicância, pois acreditam que a causa de tal frustração sejam eles mesmos. (PACHECO, Antônio de Pádua. 1994)

A depressão é, portanto, advinda do modelo econômico e social vigente, bem como é uma das causas da adesão de novos indivíduos ao que chamamos de Terrorismo global, em que não existem mais barreiras territoriais nem ideológicas, apenas um aglomerado heterogêneo de seres conclamando por um mesmo “deus”, o Terror.

A DESCONSTRUÇÃO DO TERRORISMO E SUA RENOVAÇÃO NO ÂMBITO GLOBAL

Não existe uma definição absoluta do que é terrorismo, Laqueur (1999) considera que este se baseia no emprego sistemático da violência ou ameaça de usa-la por grupos menores que o Estado com o objetivo de instaurar o terror na sociedade, visando desabilitar e/ou destruir o governo e, assim, realizar uma mudança política; Hoffman (2002:43) por sua vez, considera que terrorismo é a exploração do medo através da violência ou ameaça de violência, na busca por uma mudança política instaurada pela organização terrorista, que é considerada um agente racional.

Ainda segundo Hoffman, terrorismo é um teatro, em que o palco antes era restrito a determinados países e territórios, enquanto que agora, o palco do terror é o mundo inteiro. Mesmo não existindo um consenso na definição, é consenso que este termo se relaciona com outros dois: Violência e Terror. Acredita-se que esses dois, são os princípios basilares da ideologia do terrorismo.Terror é uma palavra latina, em sentido bíblico remete ao temor do homem diante de sua impotência perante um Poder superior ameaçador (Deus). Sebastian Scheerer em seu artigo intitulado Terror considera que “terror não é apenas medo, ele também produz medo” assim como que “O teatro do terror é um espetáculo especial de pavor, seu cenário é o mundo real e suas mortes não são simuladas”. Sendo assim, o terrorismo usa o terror como forma de tentar conquistar poder e esse terror se configura, normalmente, através de atos violentos ou pela ameaça de realizar esses atos. Violência, por sua vez, é qualquer ato que gere sofrimento a outrem, ela também poderá se configurar a través do uso abusivo ou injusto do poder. Existem alguns tipos de violência, sendo os mais comuns a doméstica ou familiar, a contra a mulher e minorias e a estrutural ou sistêmica, esta última, é a que o próprio sistema capitalista realiza para com seus seguidores, é a violência que se relaciona com a atuação de classes, grupos ou nações política ou economicamente dominantes na busca por manter a sociedade de privilégios advinda do modelo capitalista.

O terrorismo é dividido em duas fases, a primeira tinha como alvo principal os centros de poder e como atentado principal poderia ser destacado o 11 de Setembro. Nessa fase o principal objetivo era demonstrar a fraqueza do poder central do Estado e, como tal, a vulnerabilidade desse Estado com vistas a desacreditar ele frente a população que o legitima. A segunda, por sua vez, tem como alvo as bordas do poder, ou seja, não será mais atingido as duas torres principais de uma das cidades mais desenvolvidas do pais, mas sim a população em locais corriqueiros: parques, praças, cinemas ou boates.

O alvo passou a ser todo e qualquer humano em todo e qualquer lugar, fazendo com que o terror se torne constante. Uma das características principais da atual conjuntura do terrorismo é que ele é “praticado por fantasmas”, não se sabe ao certo quem são seus agentes, eles são variados e mutáveis, não se sabe ao certo quem são seus alvos, eles são todos e ao mesmo tempo ninguém, não se sabe ao certo seu modo de agir, eles podem explodir ou simplesmente metralhar e é isso que torna o Terrorismo um dos inimigos mais perigosos da atual conjuntura global, ele não é capturável, não é delimitado e não é combatível. O terrorismo configura-se desse modo por não ser possível determinar sua abrangência, ele está em todos os locais; por não ser possível detê-lo, ele é um teatro fantasma e por não ser possível combater, por ser fantasma, não se sabe o que combater. Essas três características são decorrentes do fenômeno de difusão da ideologia terrorista, que faz com que indivíduos em locais distantes e vivendo realidades divergentes se unam por um sentimento violento e ocasionem atentados visando a defesa de uma mesma ideologia. É a difusão social do terror que torna o movimento terrorista fluido.

O que leva um jovem nascido e criado nos Estados Unidos da América a invadir uma boate gay em Orlando e atirar contra o público, matando mais de 50 pessoas, em um dos maiores atentados a tiros da história dos Estados Unidos e sob alegativa de envolvimento com o grupo terrorista Estado Islâmico? Sua origem afegã serviu de justificativa para parcela dos que fizeram esse questionamento, entretanto, ela não é suficiente. Existe um fluxo migratório de europeus, maioria franceses, que veem na adesão ao Estado Islâmico um objetivo para sua vida, eles, normalmente, não tem nenhuma ascendência oriental, fato este que contrapõe a teoria da vinculação por laços sanguíneos. Esses europeus buscam na ideologia terrorista o sentimento de pertencimento a tanto perdido pelas configurações sociais adotadas pelo Capitalismo.

 A DEPRESSÃO CAPITALISTA COMO FUNDAMENTO DA IDEOLOGIA DO TERROR.

            Nos moldes do atual sistema econômico o ser humano deve ser constantemente vendável, nesse sentido Berman relacionando-se com a teoria de Marx discorre:

Para Marx, o ator crucial não é trabalhar numa fábrica, com as próprias mãos, ou ser pobre. Tudo isso pode mudar com as ofertas e demandas flutuantes na tecnologia e na política. A realidade fundamental é a necessidade de vender o próprio trabalho para poder sobreviver, de modelar a própria personalidade com o intuito de fazer-se vendável, olha no espelho e dizer: ‘Pois bem, o que eu tenho que posso vender?’- tudo isso acompanhado do pavor e da ansiedade de, amanhã, não encontrarmos ninguém que queira comprar o que temos ou o que somos, ainda que hoje estejamos bem; do medo de que o mercado em mutação nos declare (como já declarou tantos) sem valor nenhum; de nos vermos física e metafisicamente excluídos. (MARSHALL, Berman. 2012)

Nascer, crescer e trabalhar até morrer, a nova prospecção de vida dos jovens com o advento do capitalismo se faz tão pouco atrativa que muitos deles preferem aderir a grupos terroristas como forma de tentar “salvar” sua alma da ameaça do estilo de vida Ocidental. Ser desejável ao mercado, vender seu trabalho, passar a vida inteira trabalhando em uma expectativa de enriquecimento que nunca chega é angustiante para a vida de uma juventude que parou de sonhar alto e vê como objetivo atingir a estabilidade financeira e posteriormente trabalhar até não ser mais capaz.

O capitalismo retirou o glamour anterior que a vida possuía.Descrentes de uma possível ascensão social e econômica muitos desses jovens passam a acreditar que essa estagnação social é fruto de uma incompetência própria, fato este gerador de uma baixa autoestima e, consequentemente, uma depressão. Aqueles que não aderem ao modelo “trabalhe até morrer” são marginalizados e excluídos, tornam-se abjetos e não vislumbram uma função social para si, são “vidas não passíveis de luto” (BUTLER.2009).

Enquanto o capitalismo os exclui, os grupos terroristas, em destaque o Estado Islâmico, os acolhem, dão sentido a suas vidas e uma função, os apresentam uma “nova fé”, um motivo para viver e uma ideologia pela qual lutar. O terrorismo, toma a posição paterna na vida dos indivíduos excluídos. Desse modo, humanos de todas idades, crenças e classes sociais acabam por coadunarem em práticas violentas, acreditando que ali são parte de um movimento que os representa, que os legitima e que será capaz de proporcionar a tão desejada felicidade, seja em vida, ou não.

 A adesão também ocorre por parte de indivíduos em estado de miserabilidade e sem prospecção de melhoras econômicas e sociais, que aglutinam-se ao movimento terrorista visando o “salário” e as vantagens oferecidas pelos grupos. O Estado Islâmico a exemplo, paga cerca de 500 a 600 dólares para seus adeptos, dinheiro este proveniente do comercio, doações, impostos (habitantes das áreas conquistadas devem pagar ao EI) e petróleo (o EI domina locais de extração e mantem relações comerciais desse produto). As vantagens oferecidas por esses movimentos variam desde um tratamento equitativo entre os membros, a garantia de não exploração trabalhista e não discriminação por caráter econômico até a recepção nos pós morte pelo profeta, um local de descanso eterno na companhia de diversas virgens e a garantia de ser considerado herói dentro daquela comunidade.

O explorado, depressivo e miserável, torna-se um herói, respeitado e louvado dentro de uma comunidade, pertencente a um grupo e legitimado por ele, lhe é garantido o sustento, manutenção e um tratamento honroso aos seus familiares por ser um “guerreiro do movimento”. A escolha é simples no imaginário de um jovem socialmente depressivo e economicamente excluído.

Aos 33 anos, Benchellali percebe muito bem o que vai na cabeça dos que hoje decidem fazer o mesmo. “Quando não há trabalho, quando não temos um lugar na sociedade, tornamo-nos mais vulneráveis”. 

A mensagem que transmite a quem o ouve é esta: ‘se seguires os jihadistas, não vais ajudar o próximo, nem servir uma boa causa, vais juntar-te a criminosos, num caminho que te levará seguramente à prisão ou à morte (JORNALÍSSIMO. 2015)

Mourad Benchellali é um jovem francês que se juntou ao movimento terrorista, no caso dele ao Estado Islâmico, entretanto se arrependeu e após 4 anos tentando retornar à França, conseguiu retomar sua vida e hoje é ativista contra a influência jihadista no pais.

Eles e elas são de todas as regiões de França, vivem tanto em meios favorecidos como desfavorecidos, na aldeia como na cidade. Em comum, parecem ter apenas o facto de se deixarem seduzir por uma campanha de propaganda muito bem montada e que se serve das redes sociais e do YouTube para falar aos jovens ocidentais. (...)Convencem os mais novos de que vivem num mundo corrupto, rodeados de pessoas que lhes mentem constantemente, levando-os a desconfiar de tudo e de todos, fazendo-os sentir "especiais". 

Aproveitam o facto dos jovens se encontrarem num período em que questionam a vida e a própria identidade, para os convencerem de que são "seres superiores". O que sentem, dizem-lhes, é um "apelo divino" para ajudarem a criar um mundo melhor. (JORNALÍSSIMO. 2015)

A matéria jornalística faz alusão apenas ao movimento jihadista ligado ao Estado Islâmico, entretanto, a maior parcela dos movimentos terroristas também faz uso da internet e, mais especificamente, das redes sociais como modo de recrutar, tendo como alvo preferencial, aquele jovem insatisfeito e excluído pela conjuntura econômica e social do pais ao qual é atrelado. A esse jovem é dado a esperança, a fé e a promessa de reconhecimento e honrarias por seus atos, muitos deles se agregam ao movimento buscando um sentimento de utilidade e pertencimento a algo maior. Alguns jovens realmente acreditam que são heróis, e para uns, eles são, entretanto, para outros, são algozes.

As redes sociais mais usadas para a difusão são o Twitter e o Facebook, são as mais populares no mundo como um todo, segundo o The brookingsInstitut setembro e dezembro de 2014 cerca de 46 mil contas no twitter foram usadas como forma de recrutamento e propagação do extremismo islâmico. O que essas redes tem em comum é que permitem a comunicação quase que instantânea entre as partes, além de permitirem a conexão entre indivíduos de divergentes partes do globo terrestre.

Sendo assim, as redes sociais, que antes eram usadas como forma de comunicação informal entre pessoas, hoje é uma forma de difusão de doutrinas radicais e extremistas possibilitando que diferentes indivíduos corroborem com atos terroristas, sendo parcela destes, motivados pela insatisfação com sua vida e seu “status” social advindo do modelo capitalista adotado.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Profetizar que a modificação do sistema econômico, para o Socialismo por exemplo, é a solução para a difusão social da ideologia do terror seria para além de profecia, seria uma utopia. Não é possível garantir que esta mudança gere uma diminuição no fluxo de adesões ao terrorismo, mesmo que seja possível traçar um quadro comparativo entre as consequências na vida dos indivíduos pelo sistema econômico adotado e seu grau de satisfação e de ideário de pertencimento para posteriormente comparar estes com as declarações dos que se juntam ao movimento. Isso seria matéria para um outro artigo.

O presente, considera o capitalismo como um dos fomentadores, devido suas falhas em absorver todo o contingente populacional que produz, aqui relembre a heterossexualidade compulsória e o exército de reserva, e em demonstrar uma prospecção de vida aos seus adeptos que consiga combater o sentimento de abandono e depressão que assola toda essa sociedade do capital. No atual cenário político, não há como modificar o sistema sem gerar perdas ainda mais abruptas à população, portanto, cabe aos países como um todo aderirem à campanhas permanentes, como ocorre na França, em que é realizado uma verdadeira contra propaganda a ideologia terrorista. Essas campanhas são divulgadas nas redes sociais em geral.

REFERÊNCIAS

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BUTLER, Judith. Quadros de guerra: quando a vida é possível de luto? Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2015. 288p

CARRANCA, Adriana. Por que jovens europeus têm ingressado em grupos terroristas? Disponível em: http://internacional.estadao.com.br/blogs/adriana-carranca/por-que-jovens-europeus-tem-ingressado-em-grupos-terroristas/. Acesso em: 09 de Jul de 16

DW, Made for minds. Terroristas islâmicos usam internet para difundir idéias e recrutar pessoal. Disponível em: http://www.dw.com/pt/terroristas-isl%C3%A2micos-usam-internet-para-difundir-ideias-e-recrutar-pessoal/a-6191782. Acesso em: 07 de Jul de 26

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MARX, Karl. Manifesto do Partido comunista. São Paulo: Editora Penguin Classics/Companhia das Letras, 2012. 109p

POLITIZE! Como Funciona o financiamento do terrorismo? Disponível em: http://www.politize.com.br/noticias/como-funciona-o-financiamento-do-terrorismo/. Acesso em: 01 de Jul de 16  

WAINBERG, Jacques. Terrorismo, fundamentalismo islâmico e o imaginário social brasileiro: a difusão das idéias e seus efeitos. Disponível em http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=69830990009. Acesso em: 01 de Jul de 16  

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 ZANIN. Luiz. Depressão e capitalismo: entrevista com Maria Rita Kehl. Disponível em: http://cultura.estadao.com.br/blogs/luiz-zanin/depressao-e-capitalismo-entrevista-com-m/. Acesso em: 25 de Ago de 16  


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