O presente artigo pretende, não de forma exaustiva, apresentar, através de revisão bibliográfica, dados que demonstram como a religião cristã fomenta a construção ou a não da mitigação do machismo no Brasil.

INTRODUÇÃO

Falar sobre machismo e fé ainda é um tabu para vários segmentos sociais. No entanto, como provocadora do senso crítico, as Universidades não podem dar-se ao luxo de abster-se de discutir tal tema sob o pretexto de se respeitar a liberdade religiosa de cada um. Debater criticamente erros e acertos de quaisquer recortes sociais e culturais não é desrespeitar a fé do indivíduo, mas não permitir que a violência contra qualquer pessoa seja aceita sob a égide das regras religiosas.

Isto posto, pretende o presente artigo objetivar, não de forma exaustiva, através de revisão bibliográfica, dados que demonstram como a religião cristã fomenta a construção ou a não da mitigação do machismo no Brasil. Busca-se como objetivo geral trazer à discussão o papel das religiões na emancipação das minorias e, especificamente, a função deontológica das Universidades na reflexão do que pode ser trazido à cátedra sobre o assunto ora exposto, viabilizando meios de se discutir, dentro dos parâmetros constitucionais da laicidade do Estado, como o ensino pode romper paradigmas para que o machismo não vitimize mais mulheres, sobretudo no Brasil. 

DESENVOLVIMENTO

“Toda malícia é leve, comparada com a malícia de uma mulher; que a sorte dos pecadores caia sobre ela!“ Eclesiásticos 25 -26.

Afirmar que a Bíblia é machista, sob o ponto de vista cientifíco-filosófico, seria uma falácia, caso não se recorresse às próprias passagens bíblicas que corroborem tal ideia. E o presente trabalho pretende opor-se ao senso comum, trazendo, à luz da historicidade, razões para se questionar se Deus realmente tratou em seus textos inspirados, homens e mulheres com isonomia e equidade.

Destarte, Moreira Junior (2015), apresenta o Gênesis bíblico como intenção primeira do cristianismo e de outras religiões que usam a Bíblia como manual moral de fé e prática em desqualificar a mulher, colocando-a ora em situação de coadjuvante, ora sendo protagonista em atrapalhar os planos de Deus;. Vejamos: no relato bíblico de Gênesis, a mulher surge em decorrência da carência masculina, e não como um ser indispensável aos desígnios divinos, papel esse atribuído ao homem, que fora criado para sujeitar a terra, dominá-la e denominar os demais seres vivos. À mulher, coube o papel de auxiliadora, figurante no Jardim do Éden. Diz a Bíblia, in verbis:

"Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda". [...] Então o Senhor Deus fez o homem cair em profundo sono e, enquanto este dormia, tirou-lhe uma das costelas, fechando o lugar com carne. Com a costela que havia tirado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher e a trouxe a ele. Disse então o homem: "Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque do homem foi tirada". (BÍBLIA, 2000, Gênesis 2:18, 21-23).

No texto citado acima, nota-se que a mulher recebeu uma denominação a partir da existência do homem. Como que por um parto, Deus anestesiou-o e retirou uma de suas costelas, dando início ao surgimento da mulher. Ora, tal cirurgia divina denota que para o Deus cristão a mulher é um pedaço de carne que só veio a existir pela carência do homem. Todavia, como o homem ainda não havia comido do fruto do conhecimento do bem e do mal, como se verá a seguir, ele não sabia o que era carência. Portanto, a mulher surgiu para suprir um capricho de Deus, e não do homem, posto ser a carência um atributo superveniente à queda. Há que se notar também que Deus levou a mulher até o homem, como uma encomenda, uma mercadoria, já que ela não tinha vontade própria, fora criada apenas para ser do homem.

Ainda no relato de Gênesis, Adão ficara responsável por cultivar o Jardim e usufruir todos os seus benefícios, com apenas uma restrição: não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal. Tal mandamento fora transmitido ao casal, e então surge a oportunidade outra vez de o relato bíblico ser machista: a serpente, mais astuta de todos os animais do Jardim, interpela Eva que, sozinha, é incapaz de exercer discernimento ao notar que nenhum outro animal falava, então seria estranho ouvir conselhos de uma cobra. A serpente então, como uma fábula, oferece o fruto à Eva, que, apesar de relutar, cede à pressão e acaba comendo, oferecendo o fruto também ao homem.

Segundo relato das Escrituras, em Gênesis 3: 6 a 7:
"E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela. Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais."

Interessante inferir do texto acima que a mulher cedeu à tentação pelo paladar e visão, sem qualquer senso crítico de um ser que fora criado pelos atributos divinos, como a onisciência e onipresença. Ou seja, ela já estava predestinada a frustrar os planos daquele que sabia de tudo: Deus. A mulher não só comeu como fez com que seu marido desobedecesse, levando a ele também o fruto. O relato bíblico segue, em Gênesis 3: 12 a 13, colocando sobre a mulher a responsabilidade maior pela queda, posto que o homem se eximiu de sua parcela, dizendo que fora sua esposa que o fez comer do fruto proibido:

Então disse Adão: A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi. E disse o Senhor Deus à mulher: Por que fizeste isto? E disse a mulher: A serpente me enganou, e eu comi.

Em total estado de inocência, a mulher fora ludibriada pela serpente, e o homem, enganado pela esposa, mas quem conhecia os animais, pela responsabilidade e por ter surgido primeiro que a mulher, deveria estar cuidando do jardim, mas em vez disso, ele diz que só comeu do fruto porque fora seduzido pela “mulher que me destes“. A covardia do homem recai sobre a falta de protagonismo da “auxiliadora“, e Deus, sem qualquer empatia, já que não designou Eva para sujeitar os animais, atribui a ela a culpa, penalizando-a com as dores de parto. (Gênesis 3: 16). 

O autor ainda preconiza que tal “punição“ de sentir grandemente as dores de parto não poderiam cair apenas sobre a mulher, pois ela não procriaria sozinha. E ao homem, restou retirar o sustento do suor do seu rosto, numa clara distinção machista de papeis definidos no Ocidente.
Indo para o Novo Testamento, mais uma vez uma mulher aparece como protagonista de alvo de sujeição às leis religiosas e morais dos homens, quando uma adúltera é pega em flagrante e levada ao tribunal improvisado de Jesus, conforme texto a seguir:

 "Os mestres da lei e os fariseus trouxeram-lhe uma mulher surpreendida em adultério. Fizeram-na ficar em pé diante de todos e disseram a Jesus: "Mestre, esta mulher foi surpreendida em ato de adultério." Na Lei, Moisés nos ordena apedrejar tais mulheres. E o senhor, que diz? “Eles estavam usando essa pergunta como armadilha, a fim de terem uma base para acusá-lo." Mas Jesus inclinou-se e começou a escrever no chão com o dedo. Visto que continuavam a interrogá-lo, ele se levantou e lhes disse: “Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar pedra".

Do texto, extrai-se que para os religiosos terem razão em sua demanda, foi preciso citar passagens do Antigo Testamento, porque Jesus era judeu, e deveria julgar conforme os ritos judaicos. E qual lei mosaica era essa? A de apedrejar mulheres adúlteras. Estranho notar que em momento algum o adúltero fora levado a julgamento, evidenciando mais uma vez o machismo travestido de moralidade na religião cristã.

 Esse apedrejamento chancelado pela Bíblia persegue a mulher até os dias atuais, pois, quando não são violentadas em seus próprios lares, segundo pesquisa levantada por Vilhena (2011), em seu livro “Uma igreja sem voz“, onde mostra que 40% das mulheres que sofrem violência doméstica são evangélicas, ou são violentadas por uma sociedade que não aceita a mulher se desvencilhando de situações de vulnerabilidade. Ser espancada pelo próprio marido num lar cristão mostra uma mulher sem voz, até porque há relatos bíblicos como a carta que Paulo escreveu ao jovem pastor Timóteo, (I Timóteo 2: 11 a 15) sobre como ordenar um culto:

" A mulher aprenda em silêncio, com toda a sujeição. Não permito, porém, que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão. Salvar-se-á, porém, dando à luz filhos, se permanecer com modéstia na fé, no amor e na santificação."

Falar, como visto acima, mesmo que seja em legítima defesa, não é um prerrogativa feminina dada por Deus, sob a pena de Paulo. Os números da pesquisa só corroboram o fato de que a mulher que ,de certa forma, vive debaixo do cetro cristão outorgado a Deus ao homem, é vítima do apedrejamento silencioso que ocorre em 40% dos lares. 

CONCLUSÃO

Como pode ser visto, a religião, quando foge do seu propósito precípuo que é levar esperança e consolo às vidas que sofrem de algum modo violência ou abandono, torna-se instrumento de dominação e opressão, passando ao homem, em sentido estrito, procuração para criar leis com embasamento bíblico a fim de manterem seu status de dominador e o “cabeça da mulher“. A pesquisa apresentada traz um dado alarmante, que é a dupla violência da mulher, que é oprimida e deve permanecer em silêncio, pois o seu grito incomoda o clero.

Cabe, portanto, conforme persecução teleológica do presente artigo, provocar as Universidades, como formadoras de agentes reflexivos, trazer à cátedra a discussão sobre gênero, incluindo disciplinas que fomentem debates sobre os direitos de minorias e vulneráveis. Tal atitude isoladamente não basta, mas é um avanço, pois não se abstendo de uma fé saudável, é papel das Universidades, fundamentalmente nos cursos de Humanas, encontrar soluções para os desajustes sociais. 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Nova Versão Internacional. São Paulo: Bíblica Brasil, 2000.
DINUCCI JÚNIOR, C. A. M. "HOMEM E MULHER OS CRIOU”: A igualdade intergêneros do “Jardim do Éden” ao pensamento feminista, Revista Transformar, 7ª Edição, p. 136-145, 2015.
VILHENA, V. C. Uma igreja sem voz. Editora Fonte Editorial, 178 p., 2011.


Autores


Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelos autores. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi.

Comentários

2

  • 0

    Gabriela Pina

    Um dos melhores artigos que li sobre este assunto. Crítico e perspicaz em suas colocações e questionamentos. Obrigada.

  • 0

    Adilson F. Costa

    Olá,

    É com muito respeito que gostaria de discordar dos argumentos citados neste artigo. Pois o cristianismo valoriza muito a mulher, pois segue os ensinos de Jesus Cristo e não da Torá, contida no Pentatêuco do Velho Testamento e utilizada como fonte de referência.

    Busquem informações no Novo Testamento, que perceberão como Cristo valorizou a mulher. Ele deu voz a ela e rompeu com os costumes da época.

    Deixo abaixo um link abaixo para um dentre inúmeros artigos que mostram como o cristianismo valoriza a mulher, para que assim os autores possam analisar e fundamentar seus estudos.

    https://metodistaitaberaba.com.br/jesus-e-o-papel-dos-cristaos-na-valorizacao-da-mulher/

    Certo de que o amor e bom senso vencerão, que a benção do Senhor esteja sobre vocês e suas famílias.