O presente artigo tem por escopo buscar entendimento panorâmico acerca da ascensão do extremismo político na era das redes sociais, bem assim entender minimamente o que isso representaria para o futuro do Direito.

 

 

 

 

INTRODUÇÃO

 

Através do presente artigo pretende-se buscar entendimento acerca do (re)surgimento do fenômeno do extremismo político, que, como um espectro para muitos, vem crescendo em diversos países democráticos, e recebendo cada vez mais apoio de expressiva parcela da população, seja em protestos ou mesmo nas urnas, em defesa de posições radicais, num ambiente em que se tem aplaudido com veemência discursos de ódio, segregação racial e sociocultural, xenofobia, atos de intolerância religiosa e contra a liberdade sexual.

O trabalho se destina a compreender os motivos que tem levado milhares de pessoas a apoiar posições políticas mais aguerridas e polarizadas, concepções estas que vêm se refletindo nos resultados eleitorais de diversos países.

Cabe advertir, no entanto, que o estudo não tem a pretensão de exaurir o tema em voga, visando apenas levantar possíveis causas a permitir uma reflexão introdutória do evento, de forma mais neutra possível, isto é, sem partidarismo.

Com efeito, é possível observar, através do noticiário, que movimentos de extrema direita vêm crescendo significativamente na Europa, tal como vem ocorrendo na Hungria, Grécia, França, Dinamarca, Holanda, Espanha. O radicalismo político também está em alta nos Estados Unidos. No Brasil, tem-se assistido a ampliação de apoio popular a políticos defensores de posições de embate.

Esse extremismo em ascensão encontraria assentimento ante o fraco desempenho da economia das nações, num cenário de crise econômica, avanço da insegurança pública e desemprego em níveis alarmantes? Estaria a humanidade em crise? Se sim, que tipo de crise se encontraria mergulhada e qual a sua dimensão?

Num ambiente maximizado por sentimentos ideologizados, deflagra-se um clima hostil entre partidários que apoiam uma agenda de propostas belicosas versus os críticos radicais a tais posicionamentos. Essa esfera resta por conduzir o debate aos píncaros do desentendimento, ensejando uma colisão entre convicções que, igual à água e óleo, não se misturam.

Essa curiosa ambiência engendra uma abrupta divisão, unindo as pessoas em lados opostos sob a fórmula do “nós contra eles”.

Nesse diapasão, toda essa gama de emoções e altercações apaixonadas resultará na produção do Direito, que, por consectário lógico, espelhará o programa do grupo político que ascenderá ao poder.

Para mais além, tem-se percebido o uso das redes sociais como importante ferramenta nas disputas eleitorais, bem como na organização de protestos mundo a fora.

O ciberespaço tem sido utilizado eficazmente para a divulgação de plataformas ideológico-partidárias, muitas das quais caracterizadas por uma lógica de contenda, num ambiente em que se busca granjear simpatizantes replicadores de visões políticas extremadas.

Nessa conjuntura, as mídias sociais têm exercido papel de destaque na formação de opinião política das pessoas, restando, de alguma forma, por influenciar no resultado das urnas.

Em resumo, este trabalho tem por escopo buscar entendimento panorâmico acerca da ascensão do extremismo político na era das redes sociais, bem assim entender minimamente o que isso representaria para o futuro do Direito.   

 

 

1. DOS FATORES RESPONSÁVEIS PELO (RE)SURGIMENTO DE EXTREMISMOS POLÍTICOS NO SÉCULO XXI: A HISTÓRIA COMO INSTRUMENTO PARA A COMPREENSÃO DO FENÔMENO

                                            

Haveria alguma relação histórica entre crise econômica e ascensão de movimentos políticos extremistas, nacionalistas e/ou conservadores? Se sim, seria essa conexão o motivo exclusivo à deflagração desse extremismo político ou existiriam outros fatores concorrentes?

O que se sabe a respeito é que não existem respostas prontas e acabadas para essas indagações. No entanto, certamente a história pode, em alguma medida, ajudar a assimilar esse fenômeno.

Para que se possa compreender minimamente o surgimento de extremismos políticos no século atual, parece fundamental que se recorra, ainda que de forma superficial, a alguns eventos históricos ocorridos durante o século XX.

Decerto, a primeira guerra mundial (1914-1918) se revelou como uma experiência traumática para a civilização[1], que vivenciava, desde o final do século XIX, um período de austeridade na economia e avanços em diversos campos do saber.

O fim da primeira guerra deixaria marcas indeléveis, e não teria colocado ponto final nas insatisfações existentes entre as nações do velho continente. O sentimento reprimido de frustração e revanchismo dos derrotados na primeira guerra, especialmente ante as condições impostas pelo tratado de Versalhes, emergiria poucas décadas depois, retornando violentamente à superfície. Tudo isso conduziria a humanidade à inevitável segunda guerra mundial (1939-1945).

O momento histórico que precedeu à segunda guerra mundial sugere que uma situação de acentuada crise socioeconômica, somada à existência de fragilidade no sistema de representação política, teria contribuído para o surgimento de movimentos políticos radicais nesse período.

Nas décadas de 1920 e 1930, assistiu-se na Alemanha ao surgimento e avanço do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, o Partido Nazista[2], fundado e liderado por Adolf Hitler, e que se apresentava à população germânica como alternativa frente à grave crise econômica que assolava o país[3].

Ademais, a grande depressão econômica de 1929 teria atingido profundamente a estabilidade da frágil economia Alemã - além de toda a Europa - já abalada pela hiperinflação[4] e pelo desemprego em massa.

Nesse ambiente completamente marcado pelo caos econômico, crise de representação política, ineficácia das instituições públicas e agitações sociais, o discurso radical elevaria o tom do extremismo político na Alemanha nas décadas em comento, fatores que acertadamente teriam contribuído para o fortalecimento do Partido Nazista.

Na Itália[5], a crise econômica foi igualmente explorada pelo Partido Fascista, liderada por Benito Mussolini, que se utilizava de um discurso antiliberal e anticomunista.

Na Espanha e Portugal[6], do início do século XX, idênticos fatores contribuíram para a ascensão de movimentos autoritários, que teriam recebido expressivo apoio das massas populares.

No Brasil, em 1937, assistiu-se a instauração do Estado Novo, pelo então presidente Getúlio Vargas, marcando o início de um período autoritário no país, que perduraria até meados do ano de 1945. Os motivos deflagradores da instauração desse regime encontrariam origem na repressão a movimentos de esquerda, isto é, a ameaça comunista, num país marcado por forte crise econômica e tumulto social.

Na América Latina, da segunda metade do século XX, os movimentos autoritários e militares encontrariam terreno fértil na tomada do poder político, surgidos não apenas diante de um cenário de distúrbios sociais e elevada crise econômica, mas, principalmente, estimulados por fatores externos, de natureza geopolítica, influenciadas por meio das disputas regionalizadas entre Estados Unidos e a extinta União Soviética (URSS), durante o período da guerra fria.

Até aqui a história sugere, no mínimo, a existência de um vínculo entre distúrbio de ordem socioeconômica e ascensão de movimentos extremistas, nacionalistas e conservadores.

Para KARL SCHURSTER[7] a crise econômica não seria fator decisivo para o (re)surgimento dos regimes extremistas, mas coexistiriam com outros elementos, tais como, a existência de fragilidade no sistema de representação política de um país:

"O que nos interessou aqui foi pensar quais as condições sociais e políticas dentro dos espaços contemporâneos que permitem e muitas vezes legitimam o cultivo do ódio e sua propagação em forma de política e manifestações da sociedade. Nosso intuito foi perceber que em momentos de grandes crises socioeconômicas os extremos de uma sociedade prevalecem na luta por autonomia e representação. Nesse sentido, constituiria um erro, per si, pensar que crises econômicas são produtoras por excelência da ressurgência da extrema-direita. Necessitamos entender que nesses momentos de exceção a sociedade se polariza criando novos guetos que não lutam mais por um motivo condutor nacional, mas, pela legitimação de suas próprias causas e interesses particularizados".       

 

Em diversos episódios de eclosão de extremismos políticos ocorridos durante o século XX, é possível identificar a participação das forças armadas, que se valiam do uso da violência, visando à pacificação das instabilidades político-sociais[8].

Assim, observa-se que os movimentos de extrema direita oriundos do século XX se consolidaram e se fortaleceram diante de um cenário marcado por fortes agitações políticas, somada a profundas crises socioeconômicas, ocasiões em que o apoio popular, bem como o préstimo de militares, se tornou crucial à ascensão e manutenção desses regimes autoritários.

Enfim, a expansão do extremismo político desses tempos demanda atenção da civilização e foco para adoção de medidas tendentes a evitar que tragédias históricas se repitam. A esse respeito, como já dizia um adágio popular: é preciso lembrar para não esquecer.

 

 

2. AS REDES SOCIAIS COMO VEÍCULO DE PROPAGAÇÃO DE PLATAFORMAS POLÍTICO-IDEOLÓGICAS: UM ELO ENTRE A POLARIZAÇÃO ARTIFICIAL DO DEBATE E A MANIPULAÇÃO DE INFORMAÇÕES

 

As mídias sociais têm sido demasiadamente exploradas nas disputas eleitorais - por exemplo, através do Facebook[9], WhatsApp e Twitter -, bem como na organização de protestos populares mundo a fora[10].

Sem sombra de dúvida, as redes sociais inauguraram um novo capítulo na história da humanidade, promovendo uma revolução em matéria de participação das pessoas em temas públicos e reforçando o interesse coletivo no consumo de informações a respeito, bem assim permitindo aos usuários exporem livremente suas opiniões.

Se por um lado as plataformas sociodigitais convidam e estimulam os indivíduos para o debate político, simultaneamente, esse mesmo ambiente se traduzirá em zona de rivalizações e incertezas, onde inevitavelmente irão circular inverdades (fake news) e atecnias das mais variadas.

Com a popularização dos smartphones, a organização de manifestações públicas ganhou maior dimensão, inclusive com a possibilidade de compartilhamento desses eventos em tempo real. 

Além de instrumento para organização de protestos, o ambiente tecnológico tem sido profundamente explorado nas campanhas eleitorais, para a divulgação de programas político-partidários.

Concomitantemente, o ciberespaço tem se traduzido em seara de disputas ideológicas e polarizações[11], atraindo, ademais, tendências de manipulações de informações[12].

Um estudo realizado pela Fundação Getúlio Vargas, por meio de sua Diretoria de Análise de Políticas Públicas (FGV/DAPP), busca demonstrar o crescimento de participação de “robôs maliciosos”, interferindo ilegitimamente no processo eleitoral ao disseminar informações tendentes a conferir vantagens a agentes políticos determinados, ensejando, destarte, risco à democracia[13].

Uma das conclusões a que chegou o estudo, com relação à participação de robôs nas eleições brasileiras dos últimos anos, foi a seguinte:

 

"A análise de interações de contas com tuítes produzidos automaticamente já denuncia e confirma o uso de robôs no debate político brasileiro. A partir da análise feita pela DAPP de metadados que denunciam a operação deles, podemos concluir que o conteúdo gerado automaticamente tem influenciado discussões no Twitter com objetivo de gerar vantagem para atores políticos".

 

Assim, verifica-se que “robôs maliciosos” tem sido utilizado indevidamente para fomentar debates artificializados e polarizados, atuando na divulgação de fake news.

Por falar em manipulação de informações através das redes sociais, vale destacar, a título exemplificativo, dois acontecimentos ocorridos no ano de 2018, que sugerem a utilização indevida, por “robôs maliciosos”, de dados de usuários de plataformas digitais, destinando-os à personalização de marketing político, tudo com o fito de influenciar tomada de decisões de eleitores em favor de atores determinados[14].

Primeiramente, nas eleições presidenciais americanas que conduziram Donald Trump à vitória nas urnas, a empresa de marketing político, Cambridge Analytica, segundo revelado pelo programador Andrew Wiley, teria utilizado dados de 87 milhões de usuários do Facebook[15] para a obtenção de vantagens ilegítimas na corrida eleitoral[16].  

No segundo caso, ocorrido no Brasil, ventilou-se que o Movimento Brasil Livre (MBL) estaria utilizando igualmente dados de usuários do Facebook para individualizar informações e redirecioná-las maliciosamente a perfis específicos[17].

 Atualmente, o ponto forte nas questões envolvendo a influência das redes sociais no processo eleitoral diz respeito à utilização de mecanismos tais como os algoritmos[18] e o big data[19], instrumentos tecnológicos que têm contribuído para a amplificação de propagandas ideológicas e influindo, em alguma medida, na formação de opinião política dos usuários.

As redes sociais se revelam como sítio onde a liberdade de expressão é exercida muito amplamente, como regra, sem censura prévia.

Como conciliar liberdade de expressão com o direito à privacidade dos usuários, uma vez que as plataformas sociodigitais têm se revelado como instrumento de manipulação de informações, com potencial de convencer pessoas sobre fatos inverídicos ou fomentar uma opinião política? Por outro ângulo, como controlar as redes sociais em situações de ampla divulgação de opiniões antidemocráticas?

Diante de tais circunstâncias, vem surgindo o debate acerca da necessidade de controle de compartilhamento de notícias sobre política em períodos eleitorais, visando à salvaguarda da segurança no processo eleitoral e da própria democracia[20].

Deve-se destacar, a respeito, que o Supremo Tribunal Federal possui entendimento assente no sentido de que não existem valores absolutos na Constituição da República.

No caso de colisão entre normas constitucionais, o próprio ordenamento jurídico oferece como mecanismo de solução de conflitos normativos a chamada técnica da ponderação de interesses, caso os critérios tradicionais de resolução de conflito entre regras (técnica da subsunção) se revele insuficiente[21].

O mecanismo da ponderação consiste, pois, numa técnica de decisão jurídica incidente sobre os chamados casos difíceis, e que devem observar os princípios da razoabilidade e o da proporcionalidade quando da sua aplicação[22].

Por fim, ante a constatação de participação de “robôs maliciosos” nas eleições, há a necessidade de controle sobre os mesmos, buscando a proteção da democracia.

 

 

3. UMA BREVE REFLEXÃO SOBRE O FUTURO DO DIREITO DIANTE DA ASCENSÃO DO EXTREMISMO POLÍTICO

 

Sob um primeiro prisma, parece ousado e pode soar muito abrangente tentar vislumbrar o futuro do Direito ocidental. Mas fato é que o contexto atual revela elementos capazes de identificar o conteúdo do processo hodierno de produção jurídica, bem assim a sequência que certamente se dará daí em diante.

Como é de sabença, o Direito surge como instrumento destinado a regular as relações sociais, em especial, visando à pacificação de conflitos entre indivíduos[23]. O Direito é, pois, fruto de uma dada sociedade e reflexo de sua cultura[24].

Em ZYGMUNT BAUMAN, a humanidade estaria vivenciando a era da denominada modernidade líquida[25], significando dizer que os homo sapiens desses tempos estariam vivendo num mundo mergulhado em conceitos e institutos altamente fluídos, tudo suscetível a mudanças abruptas, numa velocidade surpreendente[26]

Neste sentido, o futuro do Direito estaria igualmente ligado a uma noção de fluidez, liquidez, isto é, sem qualquer garantia de permanência em longo prazo.

 O cenário econômico global, em baixo desempenho, somado ao recrudescimento de governos conservadores, tem conduzido à flexibilização de direitos sociais, alienações de empresas estatais para cobrir déficits públicos, adoção de medidas xenófobas, facilitação do acesso a armas pela população em geral, dentre outras medidas.

Com isso, constata-se que temas conservadores estão em alta na produção legislativa mundo a fora, tal como ocorre na Hungria, Grécia, França, Espanha, Holanda, Alemanha[27].

Para se ter uma noção prática, as eleições ocorridas no ano de 2014 para deputados da União Europeia e para o Parlamento Europeu revelaram uma tendência de crescimento do extremismo político, uma vez que os eleitos retomaram a concretização de uma agenda marcada por temas ligados ao conservadorismo, nacionalismo, com ênfase em temas sobre migração e questões trabalhistas[28].

Segundo o Relatório anual 2018 do Human Right Watch[29], estaria havendo na União Europeia a edição de legislação anti-imigração sob um viés extremista.

Nos Estados Unidos, o presidente eleito em 2016, Donald Trump, com a guarida de milhares de americanos, diariamente, vem exibindo manifestações de ódio e intolerância a outros povos, sustentando a necessidade de construção de muros a impedir o ingresso de imigrantes latinos, promovendo ameaças diretas a países e a lideranças mundiais[30]. Esses temas têm se traduzido em projetos de leis junto ao parlamento americano.

No Brasil, o discurso polarizado, marcado por certo radicalismo, também vem encontrando facilmente adeptos, que, com o apoio massivo dos eleitores, alçou à Presidência da República, nas eleições de 2018, um candidato propagandista de ideologia “antiesquerda”[31], em favor de temas até então tidos como polêmicos, como por exemplo: liberação de armas de fogo aos cidadãos, matéria envolvendo o enfraquecimento da legislação sobre o meio ambiente[32], flexibilização de direitos trabalhistas.

Nessa linha, a título exemplificativo, o governo brasileiro vem editando Decretos destinados a facilitar a posse e o porte de armas de fogo pelos cidadãos [33].

No ano de 2017, o governo brasileiro, afirmando tratar-se de medida destinada à redução do desemprego no país e combater a crise econômica, aprovou a reforma trabalhista, alterando a Consolidação das Leis Trabalhista - CLT, através da Lei nº 13.467, de 13 de julho de 2017 [34], bem como a denominada lei disciplinando as terceirizações de serviços, por meio da Lei nº 13.429, de 31 de março de 2017 [35].

Ambas as supracitadas leis promoveram verdadeira flexibilização na legislação laborativa.

Atualmente, o governo federal, visando reduzir o rombo no orçamento público e melhorar o perfil da dívida pública brasileira, vem tentando, incansavelmente, obter aprovação da reforma da previdência junto ao Congresso Nacional, que tramita sob a forma de Proposta de Emenda à Constituição nº 6-A (PEC00619).

A proposta em questão torna mais rigoroso o acesso a aposentadoria e a benefícios previdenciários e assistências, inclusive, extingue alguns direitos sociais.

Cabe destacar, uma vez mais, que o presente artigo não busca tecer opinião sobre se tais reformas legislativas são ou não positivas para o país, mas apenas levantar os assuntos legislativos que tem espelhado a agenda de governos conservadores.

Para mais além, há um debate envolvendo uma possível derrocada do chamado “Estado do bem-estar social”, também conhecido por sua denominação em inglês Welfare State, uma vez que seu custo de manutenção supostamente não caberia mais no bolso do contribuinte.

 O Estado do Bem-estar se traduz num Estado assistencial que garante acesso do cidadão a direitos sociais básicos, tais como: educação, saúde, seguridade social, trabalho, renda, habitação.

Em BAUMAN[36], o Estado na era da modernidade líquida vai ficando cada vez mais enxuto, ao perseguir a concretização de um ideal de eficiência na prestação dos serviços públicos. Nesse processo de enxugue, abre-se espaço para a atuação da iniciativa privada, que, por sua vez, está mergulhada numa coisa chamada mercado livre, que é o mais líquido de todos.

Assim, identifica-se que com o avanço do extremismo e nacionalismo políticos, vinculado ao fortalecimento do neoliberalismo econômico, os temas conservadores estão em alta na produção legislativa em diversas democracias.

Isso posto, o futuro do Direito está ligado a uma noção de acentuada liquidez e conservadorismo em alta, restando por conduzir a flexibilização de direitos sociais e fundamentais (em especial, com a redução e/ou extinção de garantias trabalhistas, assistenciais, previdenciárias), bem como a privatização de empresas estatais para reduzir déficits públicos, edição de legislação anti-imigração, liberação de acesso a armas a cidadãos, e o enfraquecimento da legislação ambiental em prol do desenvolvimento econômico.

 

 

CONCLUSÃO

 

O presente trabalho constatou, como problemática essencial, que a civilização tem vivenciado um período de ascensão do extremismo, conservadorismo e nacionalismo políticos, cujo discurso vem sendo fortalecido por meio das redes sociais, bem assim que o fenômeno vem resultando na flexibilização de Direitos.

No primeiro capítulo, identificou-se, através da história da humanidade, que os movimentos de extrema direita oriundos do século XX se consolidaram e se fortaleceram diante de um cenário marcado por profundas crises socioeconômicas, somada a agitações políticas, ocasiões em que o apoio popular, bem como o préstimo de militares, se tornou crucial à ascensão e manutenção de regimes autoritários.

Doravante, averiguou-se que não apenas crises de ordem econômica conduzem ao recrudescimento de radicalismos políticos, mas que, além do caos econômico, existirão outros fatores contributivos, tal como a existência de fragilidade no sistema de representação política de um país.

No segundo capítulo, chegou-se a conclusão de que o ciberespaço, além de instrumento para organização de protestos, tem sido profundamente explorado nas campanhas eleitorais, especialmente, para a divulgação de programas político-partidários.

Tem sido identificado, ademais, o uso indevido de “robôs maliciosos” nas eleições, interferindo ilegitimamente no processo eleitoral, ao disseminar informações tendentes a conferir vantagens a agentes políticos determinados, ensejando riscos à democracia.

Com isso, as mídias sociais têm se traduzido como seara de disputas ideológicas e polarizações, atraindo, destarte, tendências de manipulação de informações, influenciando, em alguma medida, no resultado das urnas.

O terceiro capítulo versa sobre a tendência de que o futuro do Direito seja no sentido de flexibilizações e extinções de direitos sociais e fundamentais, privatizações para cobrir déficit públicos, edição de legislações mais rigorosas como investida para o controle do avanço da insegurança pública, enfraquecimento das leis ambientais.

Portanto, o presente artigo, sem a pretensão de esgotar o tema, teve por objetivo analisar, de forma panorâmica, a ascensão do extremismo político na era das redes sociais, bem assim entender minimamente como esse cenário tem influenciado a produção legislativa.

 

 

REFERÊNCIAS

 

ABREU, Jonas Modesto; MELO, Danielle Pereira; SILVA, Larissa Alvarenga. Redes sociais e comportamento político violento: uma síntese das ameaças aos direitos humanos no Brasil. Disponível em: <https://doi.org/10.14295/juris.v27i2.7103>. Acesso em: 20 mai. 2019.

 

ARENDT, Hannah. Liberdade para ser livre. Rio de Janeiro: Ed. Bazar do Tempo, 2018.

 

BARROSO, Luís Roberto. Curso de Direito Constitucional Contemporâneo: os conceitos fundamentais e a construção do novo modelo. São Paulo: Saraiva, 2009.

 

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Tradução de Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

 

_________________. Tempos Líquidos. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.

 

BBC. Como o Facebook pode ter ajudado Trump a ganhar a eleição. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/geral-37961917>. Acesso em: 30 mai. 2019.

 

____. Is Europe lurching to the far right? Disponível em: <https://www.bbc.com/news/world-europe-36150807>. Acesso em: 20 mai. 2019.

 

BOBBIO, Norberto. Direita e Esquerda: Razões e Significados de uma Distinção Política. São Paulo: Ed. Unesp, 2011. 

 

BRASIL. Decreto nº 9.785, de 7 de maio de 2019. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.826.htm>. Acesso em: 20 maio. 2019.

 

BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. <http://www.tse.jus.br/imprensa/noticias-tse/2018/Janeiro/conselho-consultivo-reune-se-no-tse-na-segunda-15-para-discutir-fake-news-e-eleicoes>. Acesso em: 30 mai. 2019.

                                          

CAMPINOS, Jorge, A Ditadura Militar, 1926-1933, Lisboa, Dom Quixote, 1975.

 

CRUZ, Leilane; REIS, Ruth. Dualidade ferramenta-meio: big data, fake news e a política do tratamento da informação nas redes sociais. Disponível em: <portalintercom.org.br/anais/sudeste2018/resumos/R63-1098-1.pdf>. Acesso em: 30 mai. 2019.

 

DIAS, Diana Leonardo; DOULA, Sheila Maria; CARDOSO, Poliana Oliveira. Participação política nas redes sociais: um estudo com jovens universitários. disponível em: <https://periodicos.ufsm.br/sociaisehumanas/article/viewFile/24940/pdf>. Acesso em: 20 mai. 2019.

 

FARAH, Paulo Daniel. Crise econômica gerou ascensão nazista. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq26109822.htm>. Acesso em: 04 mai. 2019.

 

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo; Ed. Companhia das Letras; 2017. 

 

Fundação Getúlio Vargas (FGV). Robôs, redes sociais e política no Brasil: estudo sobre interferências ilegítimas no debate público na web, riscos à democracia e processo eleitoral de 2018 / Coordenação Marco Aurélio Ruediger. – Rio de Janeiro: FGV, DAPP, 2017. Disponível em: <dapp.fgv.br/wp-content/uploads/2017/08/Robos-redes-sociais-politica-fgv-dapp.pdf>. Acesso em: 30 mai. 2019.

 

GAY, Peter. Freud: uma vida para o nosso tempo – A biografia definitiva. São Paulo: Ed. Companhia das letras, 2015.

 

________. A Cultura de Weimar. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.

 

G1.  15 pontos para entender os rumos da desastrosa política ambiental no governo Bolsonaro. Disponível em: <https://g1.globo.com/natureza/blog/andre-trigueiro/post/2019/06/03/15-pontos-para-entender-os-rumos-da-desastrosa-politica-ambiental-no-governo-bolsonaro.ghtml>. Acesso em: 28 jun. 2019.

 

HOBSBAWN, Eric. A Era dos Extremos – O Breve Século XX (1914-1991). São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

 

Human Rights Watch. Relatório Mundial 2018: União Europeia. Disponível em: <https://www.hrw.org/sites/default/files/eu_port.pdf>. Acesso em: 25 mai. 2019.

 

Le Monde Diplomatique. Entre trolls, robôs e ativadores: as eleições na internet. Disponível em: http://diplomatique.org.br/entre-trolls-robos-e-ativadores-as-eleicoes-na-internet/. Acesso em 05 de maio de 2019.

 

LEVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Ed. 34, 1999.

 

MALINI, Fábio; ANTOUN, Henrique. O devir mundo do ocupar. In: A internet e a rua: ciberativismo e mobilização nas redes sociais. Porto Alegre: Ed. Sulina, 2013. (Coleção Cibercultura).

 

MOORE, Barrington. As origens sociais da ditadura e da democracia. São Paulo: Martins Fontes, 1983.

 

O GLOBO. Para cientista político, participação das Forças Armadas no governo é positiva: “É bom que os militares façam frente a extremistas” - Disponível em: <https://oglobo.globo.com/brasil/para-cientista-politico-participacao-das-forcas-armadas-no-governo-positiva-bom-que-os-militares-facam-frente-extremistas-23642695?utm_source=aplicativoGloboMais&utm_medium=aplicativo&utm_campaign=compartilhar>. Acesso em: 05 mai. 2019.

 

PAZZINATO, Alceu L. e SENISE, Maria Helena. História Moderna e Contemporânea. São Paulo: Ed. Ática, 1995.

 

REALE, Miguel. Lições Preliminares de Direito. São Paulo: Ed. Saraiva, 1998.

 

SARMENTO, Daniel. A ponderação de Interesses na Constituição Federal. 1. ed. Rio de Janeiro: Lumen Júris, 2002.

 

SCHURSTER, Karl. Extremismo, Nacionalismo e Conservadorismo político: um estudo sobre o tempo presente na Europa. Disponível em: <https://seer.ufs.br/index.php/tempo/article/download/4285/355>. Acesso em: 20 mai. 2019.

 

Tecnologia - iG. Manipulação nas redes sociais para fins políticos atinge 48 países. Disponível em: <https://tecnologia.ig.com.br/2018-07-31/manipulacao-nas-redes-sociais.html>. Acesso em: 30 mai. 2019.

 

The Washington Post. The party of Trump goes fully far-right. Disponível em: <https://www.washingtonpost.com/world/2018/11/08/party-trump-goes-fully-far-right/?noredirect=on&utm_term=.ae809f2df9a3>. Acesso em: 20 mai. 2019.

 

Wikipedia. Hiperinflação na República de Weimar. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Hiperinfla%C3%A7%C3%A3o_na_Rep%C3%BAblica_de_Weimar>. Acesso em: 20 mai. 2019.

 

 

 


Autor


Informações sobre o texto

Este texto foi publicado diretamente pelo autor. Sua divulgação não depende de prévia aprovação pelo conselho editorial do site. Quando selecionados, os textos são divulgados na Revista Jus Navigandi.

Comentários

0