Uma pesquisa, escrita por Robert Epstein, sugere que o buscador Google tem o poder de manipular as eleições em todo o mundo – alterando o ranking de busca para favorecer determinado candidato nas disputas eleitorais.

O texto de Epstein, publicado no News Opinion[1] [2], denominado  “How Google Could End Democracy chamou a atenção. A pesquisa, desenvolvido conjuntamente com Ronald Robertson, mostrou que, com seu monopólio virtual de busca, o Google tem o poder de inverter os resultados das próximas eleições facilmente e sem ninguém saber. Com o tempo, eles poderiam mudar a face dos parlamentos e congressos em todo o mundo para atender as suas necessidades.

Não há nenhuma análise estatística que tem demonstrado que esta ferramenta, ou seja o Google,  pode favorecer determinados candidatos, alterando ranking de busca. Então,  não há acusação formal  de nada.  Mas, afirma Epstein, que se  fosse Larry Page, CEO do Google, teria uma equipe de especialistas  para  estudar e manipular as eleições em todo o mundo. Não fazê-lo seria contraprodutivo para a busca de lucro.

Epstein lista algumas atividades ultrajantes pelas quais a empresa foi multada nos últimos anos, como hackear software da Apple para rastrear milhões de usuários do Safari;  obter dados de redes Wi-Fi não protegidas em 30 países com seus veículos Street View;  propaganda ilegal de  drogas canadenses para cidadãos norte-americanos, por meio de seu serviço AdWords - é difícil imaginar que os executivos da Google não tomaram pelo menos um pouquinho de interesse nas eleições.

A fórmula, para Epstein, é muito simples: encontrar uma disputa acirrada; identificar o candidato que melhor se adapte às suas necessidades, e contribuir para sua campanha. Em seguida, identificar os eleitores indecisos e repetidamente enviar a eles rankings de busca customizadas que tornem o candidato favorecido uma escolha melhor do que os outros.

Há um  enorme banco de dados de conteúdo, e-mails e históricos de busca. Com o tempo, isso vai derrubar as preferências de voto de muitas pessoas.

Se um candidato não sabe como direcionar o sistema de busca, ele vai ser “ajudado” pela contribuição.

Os reguladores – o sentido foi de enunciar aqueles que elaboram as normas jurídicas de regulamentação -  não terão nenhuma maneira de detectar esta manipulação, tenho em vista ter sido dirigida a um pequeno número de pessoas que receberam rankings personalizados, como muitos de nós nos dias de hoje.

Como exemplo, é citado a corrida eleitoral Obama-Romney, em 2012, na qual, em seus dias finais, teve como alvo os gastos de campanha e cujo destino da eleição estava nas mãos de uns poucos milhares de pessoas em municípios facilmente identificados. Nas próximas eleições, ninguém está em melhor posição para identificá-las e, ao que parece, para manipulá-las do que o Google

Seus primeiros experimentos, uma pesquisa sobre “Search Engine Manipulation Effect” (SEME – Efeito de Manipulação de Motor de Busca), descritos no ano passado na reunião anual da Association for Psychological Science, em Washington, DC, foram baseados em amostras.

Por meio de anúncios de jornal, foi recrutada uma amostra diversificada dos eleitores da área de San Diego, que em muitos aspectos se assemelhava ao eleitor americano: em idade, renda, escolaridade, e assim por diante.

As pessoas foram aleatoriamente designadas para grupos em que a pesquisa de rankings favorecia ou Julia Gillard ou Tony Abbott. Estes candidatos concorriam as eleições de primeiro-ministro de 2010 na  Austrália:  estava garantido, assim, que os participantes eram "indecisos", uma vez que não estavam familiarizados com os candidatos.

Os participantes leram breves descrições sobre cada um deles e, em seguida, os classificaram de várias maneiras e indicaram em qual deles iriam votar. Em seguida, foram dados até 15 minutos para utilizarem um motor de pesquisa personalizado - denominado kadoodle – para que fizessem pesquisas sobre os candidatos.

Eles tiveram acesso a cinco páginas de resultados de pesquisa reais, vinculadas a páginas da Web reais, onde poderiam navegar livremente, como fariam no Google.

No grupo Gillard, os resultados pró-Gillard eram mais elevados; enquanto que no grupo Abbott, os resultados mais elevados eram os pró-Abbott; e em um grupo de controle, os resultados foram mistos. Todos os participantes tiveram livre acesso a exatamente o mesmo material, apenas sendo diferentes os  rankings de busca.

Os resultados, de acordo com a pesquisa sobre comportamento do consumidor, foram claras e consistentes: 15%  ou mais dos participantes dos grupos trocaram suas preferências e votos para o “candidato-alvo”, e alguns participantes detectaram que os rankings foram tendenciosos.

Em outros experimentos, descobriu-se que seria possível, misturando um pouco as informações, mascarar a manipulação - tão bem que nem um único participante poderia detectar o preconceito.

Rankings de busca têm esse efeito poderoso em votos, pela mesma razão pela qual têm influência sobre o comportamento do consumidor: quanto maior o ranking, tanto mais as pessoas acreditam e confiam no conteúdo. Por engano, supõem que algum gênio imparcial e onisciente avaliou cuidadosamente cada página da Web e colocou os melhores resultados em primeiro lugar -  e isso não é verdade.

A pesquisa sobre o SEME foi recentemente republicada, com uma amostra de linha de 2.100 eleitores em todo os EUA. Uma descoberta nova e muito prática indica que alguns grupos demográficos nos EUA são especialmente vulneráveis a esta manipulação, especialmente os divorciados, os republicanos e pessoas de Ohio.

Nos estudos anteriores, todos os envolvidos estavam numa eleição real na Índia. Conforme o autor foram deliberadamente manipuladas as preferências de voto de mais de 2.000 eleitores reais na maior eleição democrática na história do mundo, empurrando facilmente as preferências dos eleitores indecisos em mais de 12% por cento em qualquer direção escolhida - o dobro em alguns grupos demográficos.

No estudo da Índia, a mudança produzida nas preferências de voto era grande o suficiente para virar praticamente qualquer eleição, com uma margem de vitória projetada em 2,9%. No mundo todo, mais de 25% por cento das eleições nacionais são vencidas por margens menores de 3% por cento.

Mesmo sem manipulação deliberada por executivos do Google, há outra possibilidade que não tenha precedentes. E se, sem intervenção humana, o algoritmo do buscador Google impulsionasse um candidato em posições elevadas da busca? Em outras palavras, e se o favoritismo acontecesse "organicamente"? Isso é exatamente o que foi alegado pelo Google para explicar os rankings de busca consistentemente altos de Barack Obama, nos meses que antecederam as eleições presidenciais de 2008 e 2012.

Vamos imaginar assim:  um algoritmo tem impulsionado rankings de busca de um candidato em uma corrida com 100 milhões de eleitores. Mesmo que apenas 6% deles sejam eleitores indecisos, com acesso à Internet (a porcentagem real na maioria dos países desenvolvidos seria maior), a pesquisa sugere que, ao longo do tempo, rankings de busca tendenciosas levariam cerca de um milhão de votos para o candidato. Nos próximos anos, à medida que mais e mais pessoas obtivessem informações relacionadas com a eleição, por meio da Internet, o algoritmo imparcial terá um impacto ainda maior.

Em 2006, os pesquisadores do National Bureau of Economic Research descobriram que toda vez que a Fox News entrava no mercado de televisão a cabo, os candidatos republicanos ganharam votos. A Fox consistentemente alterava as preferências de voto de 3 e 8% de seus espectadores, os pesquisadores concluíram. Mais do que suficiente para ter tido um impacto "decisivo" sobre as eleições. Pesquisas posteriores descobriram que, ao longo do tempo, como os mercados tornaram-se mais cheio de redes concorrentes, o efeito "Fox News" foi mitigado.

Então, imagine se a Fox News fosse a única rede de televisão do país. Sem competição, seria possível manipular as preferências de voto de milhões de eleitores indecisos em uma base contínua.

Sempre que uma das principais fontes de influência é parcial, sem a possibilidade de serem consultados outros pontos de vistas, o impacto dessa influência é esmagadora. Este é o caso típico em ditaduras, razão pela qual as eleições nesses países são farsas.

No momento, o motor de busca Google é uma fonte de influência sem oposição, além de ser altamente crível, opaco em sua metodologia, maciço em seu escopo, rapidamente aumentando seu alcance e além do escrutínio ou controle de reguladores e de candidatos. Outras fontes de influência, durante as eleições, não são capazes de competir com o referido buscador.

Tendo já completado cinco experimentos com mais de 4.000 participantes em dois países, Epstein  pode  dizer, com certeza, que a pesquisa sobre o SEME não é mais uma questão de especulação. É real e está afetando milhões de eleitores indecisos.

Dados do próprio Google - literalmente, os escores que atribuem aos políticos no meio de campanhas - apresentaram diferenças dramáticas na atividade de pesquisa associadas a cada um dos candidatos, o que, de acordo com materiais de relações públicas da própria empresa, ajuda a aumentar os rankings dos candidatos de alta pontuação.

E Narendra Modi, o vencedor na recente eleição na Índia, teve seus Google Scores pelo menos 25% mais elevados do que os de seus adversários, por pelo menos 60 dias seguidos antes do fechamento das urnas, em maio de 2014 - isso em um país em que é ilegal sondagens serem publicadas até depois do fechamento das urnas. A publicação de sondagens é proibida para evitar um efeito de movimento de inclinação de uma eleição, de forma a não poder ser combatida pelos candidatos adversários.

As proteções existem para evitar rankings de busca tendenciosas e de que tenha um impacto tão grande, mesmo nos países em desenvolvimento. De acordo com estimativas do próprio Google, 240 milhões de pessoas na Índia tinham acesso à Internet durante as últimas eleições, e esse número deve crescer para mais de 600 milhões, em 2019.

Os resultados de pesquisa dos rankings mais elevados não podem ser anulados por qualquer pessoa, e um modelo matemático que desenvolvido por Epstein mostra como o seu impacto pode até servir de base para produzir um apoio a uma esmagadora vitória eleitoral  

Mesmo que os executivos do Google sejam tão inocentes como cordeiros, nós realmente queremos que nossos líderes sejam selecionados por um programa de computador? Isso elevaria o absurdo de teatro político para um novo nível, se não uma nova dimensão cosmológica.

A intenção desta pesquisa é o de salvar a democracia, realmente. Enquanto uma empresa não regulamentada tem o monopólio da pesquisa, ela tem o poder de afetar diretamente  a democracia.

Epstein, recentemente,  foi indagado por um colega: “e se o Google realmente não é mal? E se os executivos da empresa são totalmente inconscientes da influência que seu algoritmo tem sobre os eleitores e nunca sequer pensaram em usar rankings de busca para manipular as eleições? E se você está mostrando-lhes o caminho?”. Isso o teria deixado sem fala.

Diante dessa possibilidade, surge mais uma razão para que os legisladores se movam rapidamente, enquanto há tempo.

Para proteger a sociedade de uma deliberada, ou ainda pior, uma acidental manipulação eleitoral em grande escala, as buscas relacionadas com eleições precisam ser reguladas, monitoradas e submetidas a regras equivalentes, segundo Epstein.

Um perspectiva que deixamos de notar ao utilizar o “Dr. Google”: o vemos como uma poderosa ferramenta,  um ser sábio, o qual nos dá meios para descobrir caminhos ... resta-nos perguntar se nós não estamos sendo conduzidos pelos caminhos apontados.

Democracia é ainda um sentido que necessita de sentidos...


[1] News Opinion. How Google could end Democracy. Por Robert Epstein. Disponível em < http://www.usnews.com/opinion/articles/2014/06/09/how-googles-search-rankings-could-manipulate-elections-and-end-democracy?page=2 >. Acesso em 11 de jun de 2014.

[2] O texto não está transcrito em sua forma integral. Os principais pontos abordados pelo autor encontram-se enunciados no ensaio. Para leitura integral < http://www.usnews.com/opinion/articles/2014/06/09/how-googles-search-rankings-could-manipulate-elections-and-end-democracy?page=2 > .


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Como citar este texto (NBR 6023:2002 ABNT)

GOUVÊA, Carina Barbosa. Poderia o buscador Google alterar o resultado de uma eleição? . Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 19, n. 4001, 15 jun. 2014. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/29445>. Acesso em: 17 ago. 2018.

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