Suponho que os Desembargadores paulistas são espertos o suficiente para não querer consumir água de reuso. Qual será o valor do Bolsa Água que os Juízes paulistas exigirão a partir de 2015?

O governador Geraldo Alckmin anunciou nos telejornais com pompa e circunstância (e sem ser contrariado pelos jornalistas) que pretende tratar esgoto para abastecer São Paulo. Em breve, portanto, ele entregará nas casas dos Desembargadores paulistas água das privadas dos presídios do Estado. Os vetustos Desembargadores irão sentir, com justiça, o gosto produzido pelos milhares de paulistas que eles mesmos encarceraram?

Não concordo com a política de encarceramento do TJSP, tampouco votei em Alckmim. Mesmo assim estarei entre os beneficiários da nova política hídrica tucana. Presumo, portanto, que uma parte de minhas descargas voltará para inevitavelmente às minhas torneiras. Isto não me fará defecar ou urinar menos. O mais provável é que eu passe a defecar e a urinar mais em razão de infecções que pegarei com ajuda da Sabesp. Infecções a que os Desembargadores do TJSP provavelmente também estarão sujeitos. Mas ao contrário de mim, que sou apenas um advogado, eles tem recursos inomináveis para se distinguir dos meros mortais.

A falta de gestão tucana igualou todos os paulistas? Duvido muito. Em breve a elite branca de São Paulo começará a encher suas piscinas com água mineral Lindóia. O abastecimento do Palácio dos Bandeirantes, da Assembléia Legislativa e do TJSP seguirá sendo feito pela Sabesp depois que o esgoto virar água potável? Duvido muito.

Há bem pouco tempo os Juízes exigiram o pagamento de uma Bolsa Educação de 7,5 mil para cada filho. Conseguiram um Auxílio Moradia de míseros 3,4 mil reais por mês (ao custo total de 300 milhões por ano). Rosa Weber obrigou o Congresso a votar o aumento dos salários dos Ministros do STF apesar de não haver previsão orçamentária para o aumento da despesa. Suponho que os Desembargadores paulistas são espertos o suficiente para não querer consumir água de reuso. Qual será o valor do Bolsa Água que os Juízes paulistas exigirão a partir de 2015? Esta meus caros é a verdadeira pergunta que deveria estar sendo feita neste momento. 

Entre os argumentos para a concessão do Bolsa Água, os Desembargadores e Juízes paulistas provavelmente alegarão que o povo tem o Bolsa Família. A diferença entre os dois benefícios não será objeto de questionamento. Também não importará muito aos Desembargadores e Juízes paulistas o fato de que os beneficiários do Bolsa Família começarão a perder mais filhos em razão deles tomarem água de esgoto entregue nos bairros pobres pela Sabesp. No limite os jornalistas que são contra o Bolsa Família passarão a defender este benefício para que os Juízes possam receber o Bolsa Água. 

Numa sociedade em que a distinção sempre se deu pelo consumo, consumir água realmente potável criará um abismo entre os saudáveis e os doentes. Uns - como os Desembargadores e Juízes paulistas - receberão benefícios estatais para comprar qualidade de vida; outros serão condenados à morte por contaminação. Quantos milhões de reais de seu lucro a Sabesp destinará aos acionistas que não consumirão esgoto tratado? Quantos mortos por infecção serão creditados ao governador ou colocados na conta da diretoria da empresa?



Informações sobre o texto

Como citar este texto (NBR 6023:2018 ABNT)

RIBEIRO, Fábio de Oliveira. Bolsa Água: um novo benefício para os membros do Judiciário paulista. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 19, n. 4156, 17 nov. 2014. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/33618. Acesso em: 21 jan. 2022.

Comentários

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    Maura Apparecida Flaitt Sanches

    É lamentável ser o governador paulista um MÉDICO e usar esse recurso como solução. Não encontrou outro meio?

    Muito bom esse artigo . Quem tem dinheiro e poder consumirá água de reuso.

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    André Luiz Bezerra

    Dilma Rousseff gastou mais de 180 milhões dos fundos do BNDS em aqueduto na Argentina, porque não investe em aquedutos aqui no Brasil trazendo água do amazonas para São Paulo ? Pois já foram feitos estudos nessa área e disseram ser viável mas pra isso vai ter que mexer com algumas questões jurídicas é claro !

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    Guilherme Cavichioli Braun

    Colega, entendo a sua indignação com o desvio de finalidade do dinheiro público. Mas por outro lado, não creio que a ideia do governo de São Paulo esteja tão fora da perspectiva. Em países desenvolvidos, a reutilização de esgoto é altamente comum. Aliás, jogar a sujeira no rio, para que o próximo município beba a sujeira é que está errado. Na Inglaterra, por exemplo, a sujeira é jogada no lado de cima do rio, e é coletada abaixo, justamente porque assim, a cidade se preocupará em evitar o desperdício. Israel, reaproveitou o esgoto para utilizar como adubo e irrigação para o plantio. O Japão também trabalha de maneira semelhante. E em vários estados dos E.U.A. também funciona assim. Logo, se o tratamento da água se der de forma correta, não há porque ofender tal política, que é muito mais inteligente do que a atualmente aplicada no Brasil, nos demais países da América do Sul e em outros tantos países subdesenvolvidos. E por fim, o problema da água não se resume ao partidarismo político, pois é mundial. Mais vale questionar e discutir os benefícios indevidos pagos pelo poder público do que perder tempo ofendendo esse ou aquele partido.

    Veja a matéria: http://super.abril.com.br/ciencia/era-falta-d-agua-441456.shtml

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