Ao ouvir as notícias sobre a operação Lava Jato, muitos comentam que a corrupção no Brasil é uma coisa normal. Será esse o caso?

O borbulhar da Operação Lava Jato, diante da corrupção na Petrobrás, trouxe um grande, geral e quase irrestrito chafurdar na cultura política e cataclismo na identidade brasilis. Cada dia ouço mais pessoas falarem, espernearem sua indignação com a prática dos atos corruptos. A própria CPI instalada – se adernar muito em cima das empreiteiras – pode parar o país. Não há grande obra no Brasil em que as empresas dos sete pecados do capital não tenham seus selos estampados.

 A crônica, do barbeiro ao Jornal da Globo é a seguinte: “Os corruptos dizem que a corrupção no Brasil é uma coisa normal; sem a caixinha não se destrava nada na longa burocracia. Como pode isso, corrupção normal?”. A minha indignação é com a falsa indignação dos astutos, pesarosos ou ignorantes da política brasileira. Quem não sabe que a corrupção é o motor do país? Esteve dormindo todos esses anos? Acordou e descobriu que não há anjos em política? Soube ontem/hoje que o Estado foi feito por elites de rapina e que o Poder Político sempre serviu a essas elites?

 É batido, mas não há como não se lembrar do Analfabeto Político do dramaturgo Bertold Brecht: “O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, não participa dos acontecimentos políticos [...] O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política”. Quando vamos à farmácia e o vendedor pergunta: com ou sem nota? O que ele estará sugerindo? Se o empresário paga uma propina ao fiscal da prefeitura, para fechar os olhos diante da falta de algum item de segurança, este indivíduo faz o quê? Se outros empresários, bem graúdos, enviam dinheiro para paraísos fiscais, será algo “normal”? Executivos que “compram facilidades” são vítimas da má sorte? Juízes que vendem sentenças fortalecem o Estado de Direito? Se você forçar a barra, para agilizar um interesse seu, só porque conheço beltrano ou fulano, será uma prática normalíssima da vida pública? Quem faz gato na energia elétrica ou na água tem apreço pela comunidade? E o outro que superfatura a nota fiscal no posto ou no restaurante, para a empresa pagar a mais do que ele consumiu, estará promovendo divisão de lucros? E a grande e a pequena imprensa, vivendo à custa do erário, promoverão divisão de rendas?
 Outro dia, um reitor de importante universidade privada – indignado – fala-me da falta de escrúpulos do Poder Público. Quando terminou de pular e se sentou de novo, disse-lhe que seu patrimônio, pelo menos metade dele, é garantido pelas bolsas FIES (Fundo de Financiamento Estudantil) do Governo Federal. Isto é, sem essas bolsas, pagas com dinheiro público, mais da metade de seus alunos já teria ido embora e ele seria bem menos rico. É claro que não gostou, mas entendeu. Não ficamos amigos e nem inimigos. Porque temos de tudo nas elites, menos burrice – e sempre se aprecia um argumento lógico e simples.

 Portanto, não me espanta a corrupção na Petrobrás, ainda mais porque quem passou pela história do Brasil no ensino médio (e não ficava jogando truco) sabe que a bomba de prospecção começou no Governo de Juscelino Kubitschek, aprofundou-se deveras na ditadura militar, ganhou fôlego no período FHC e triunfou nos últimos anos. Aliás, com FHC, estivemos na iminência de perder o maior patrimônio nacional. Queriam privatizá-la; forçaram uma crise rentável. Para vender suas ações no exterior, seria rebatizada. Petrobrax! Com este nome fantasia da era de Obelix – um herói gaulês – seria mais palatável ao capital internacional. Seguiria o caminho da CSN, Embraer, Vale do Rio Doce e tantas outras. Assim como se deu com as rodovias pedagiadas em São Paulo, em regime de comodato. Falava-se da “privataria”. 

Então, quem deve estar indignado?



Informações sobre o texto

Como citar este texto (NBR 6023:2002 ABNT)

MARTINEZ, Vinício. Indignado com você mesmo (sic)?. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 20, n. 4296, 6 abr. 2015. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/34235>. Acesso em: 18 fev. 2018.

Comentários

5

  • 0

    Meiri Luci Vieira Fernandes

    Dr. Martinez, penso que a resposta à sua pergunta é que quem deve estar ndignado é aquele que não corrompe e nem se deixa corromper. São poucos, mas existem e resistem. São pobres de posses, mas ricos em dignidade. A história mostra que a corrupção grassa o mundo todo e ocorre em todas as classes sociais, seja fazendo valer a "lei de Gerson", seja lavando dinheiro sujo em 'offshores' pelo mundo afora.
    Dr. Marcos Carneiro, penso que a solução é simples, conquanto não possa ser imediata; a solução é o EXEMPLO de viver sem corromper e sem aceitar ser corrompido. E não será a escola, ou a prisão, que debelará este mal; o bom exemplo é atitude que começa no berço e frutifica ao longo da vida - demora, mas funciona.
    Dr. Sylvio, não me leve a mal, mas o senhor desviou-se da questão proposta e foi tão ácido que desnudou um aguçado analfabetismo político. O senhor lê, não entende o que lê e dispara ofensas inadequadas e nada exemplares. Contenha-se, por favor, queremos aprender com os artigos e comentários.

  • 0

    Sylvio Toledo Teixeira

    infelizmente um petista safado !!! que está indignado com a corrupção é o chefe de todos , "O MOLUSCO". FAlar para petista sobre corrupção é falácia, pois eles dizem que nunca houve . SÃO DOAÇÕES!!! esse que se mdiz mestre deveria ir morar em CUBA OU VENEZUELA !!! SAFADO

Livraria