Humor é saudável válvula de escape, formador de consciência, mas isso não dá passe livre à sistemática injúria, só porque travestida de anedota.

O momento é de solidariedade sem risos. Aos franceses e aos cartunistas, que sofrem a dor do massacre contra a revista Charlie Hebdo pela Al Qaeda. Mas isso não deve impedir reflexões necessárias.

Essa irrupção do ódio assassino, outra vez se reivindicando defesa do Islã, demonstra o grau de trevas que reveste grande parcela da prática islâmica em regimes de obscuridade. Após a morte de Maomé, sua herança vergou-se em duas direções. Para os sunitas, o Profeta não deixou sucessores e a revelação islâmica se encerrou com sua morte. Basta ao fiel seguir-lhe as “Sunas”, ensinamentos observáveis em paralelo ao Alcorão. Já os xiítas reivindicaram Ali, genro e primo de Maomé, como herdeiro. Isso deu guerras e golpes de estado entre as correntes, multiplicadas em seitas e subgrupos.

O conceito da “Jihad” é defendido por líderes islâmicos como luta interior pelo auto-domínio e aperfeiçoamento na fé. Mas mesmo esses líderes, dadas as menções do Alcorão a atos de violência, não conseguem excluir a ideia da Jihad como guerra física contra “infiéis” que, a rigor, são os não muçulmanos. Grupos islamitas vão à beligerância porque a dissensão interna alimenta o radicalismo fundado em interpretações literais de trechos do Corão, como a nona surata: "Matai os idólatras onde quer que os encontreis, capturai-os e cercai-os e usai de emboscadas contra eles". Atentados a igrejas cristãs ocorrem em vários países do Islã e aumentam as notícias de condenação de cristãos à morte. Por tudo isso, o historiador Paul Johnson concluiu: “Paz não é uma palavra que possa se encaixar facilmente nessa forma de pensamento”.

Sim, também em nome do cristianismo atrocidades ocorreram. Mas creio que o cristianismo arejou-se com a Reforma Protestante, pilar do pensamento democrático, que fez de qualquer fiel um intérprete com acesso à divindade. Para Deus, o faxineiro da congregação não é menos que o douto e o poderoso. Isso foi revolucionário, permitindo a queda do absolutismo. No islamismo, entretanto, sem reforma similar, governos autoritários ainda predominam. Em países com IDH baixo, fiéis muitas vezes sequer têm possibilidades de lerem diretamente o seu livro sagrado. Portanto, tarefa hercúlea está dada aos líderes muçulmanos pacifistas.

Por outro lado - sem julgar conteúdos da revista francesa que desconheço, e muito menos justificar o terror injustificável - em tempos de maus modos, bullying e desprezo pelo outro em todos os convívios, não se pode adiar a primordial reflexão sobre os limites éticos da liberdade de expressão. Humor é saudável válvula de escape, formador de consciência, mas isso não dá passe livre à sistemática injúria, só porque travestida de anedota. A Constituição não dá direitos absolutos nem ao bobo da corte.

Hoje, como forma de alcançar audiência, muitos usam a piada afrontosa, o mau gosto, o sensacionalismo barato, o pânico na TV. Mas não é verdade que se possa dizer qualquer coisa a qualquer plateia, todo o tempo. Dar os limites não é tarefa simples. Mas vá aqui um exemplo: até os mais liberais reprovaram o poeta Chacal quando, horas depois da queda das Torres Gêmeas, adentrou uma reunião com o péssimo chiste “Osama nas alturas!”. Ao substituir a palavra Hosana na expressão bíblica, afrontou a um só tempo a dor da tragédia, a crença cristã e fez louvação do assassino. Ora, se dor e fé são coisas sagradas, piada mau posta pode ser vilipêndio. E uma piada não pode tudo.


NOTA IMPORTANTE - Terminei esta crônica na madrugada. Por conta disso, não pude conhecer melhor a revista Charlie Hebdo. Só depois o fiz. E ouso dizer. Caso tivesse visto antes alguns de seus conteúdos, teria dado a esta o título "Eu não sou Charlie", na contramão do movimento de solidariedade à revista atacada. Uma coisa é a solidariedade aos que sofreram tamanha tragédia de crueldade covarde. Outra coisa é fazer como aqueles que, na morte, tudo absolvem do antes errático vivente, e tecem elogios fúnebres imerecidos.

Não tenho coragem de reproduzir aqui as tais charges e me espanta que muitos jornais ocidentais o tenham feito. Mas ao menos preciso descrevê-las (e a descrição também não é agradável) em palavras. Vão aqui duas das mais graves, apenas para dar ideia do tom da revista que agora, quase que incondicionalmente se apoia, numa confusão da solidariedade emergencial. Prepare-se, se não as viu.

 Numa delas aparecem em pé, curvados um sobre o outro Deus Pai, Jesus Cristo, e um símbolo triangular para o Espírito Santo. E estão sodomizando-se mutuamente. É nojento e sacrílego. Em outra, aparece Maomé visto de costas, de quatro e nu, com uma estrela desenhada em lugar do ânus, sob a inscrição: "Nasce uma estrela". E por aí vai.

Nada justifica a covardia, o terror e o assassinato, mas é preciso que se diga: É nojento. É abuso de direito da liberdade de expressão. É injúria e vilipêndio. E só corrobora a parte final da minha crônica, onde, sem ter visto estas imagens já discursara contra abusos até menores que estes.


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Informações sobre o texto

Como citar este texto (NBR 6023:2002 ABNT)

ARAÚJO, Denilson Cardoso de. O terror e o riso. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 20, n. 4213, 13 jan. 2015. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/35456>. Acesso em: 19 fev. 2019.

Comentários

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    Marcio

    Me autoriso alguns comentarios à este artigo.

    No que diz respeito aos aspectos legais...

    Alguns anos atras, as comunidades muçulmanas francesas processaram Charlie Hebdo, por abuso de la liberdade de expressao, Quem ganhou foi o jornal.
    Para chegar à esta conclusao os tribunais nao se contentaram de uma analise superficial e consideraram também o contexto e o conteudo (digamos invisivel) da mensagem. Sugiro procurar o conteudo da sentença para completar e/ou corrigir a sua reflexao. Esta disponivel na internet e em alguns blogs de advogados franceses.
    Entao, segundo as leis francesas, nao houve abuso. Na França, uma sentença definitiva, transitada em julgado nao pode ser contestada, ou criticada - isto constitue um delito.
    Algo interessante que pode ser feito é comparar a legislaçao francesa com a legislaçao brasileira.
    Na mesma linha, um estudo de caso interessante, e mesmo da atualidade, é a comparaçao do caso Charlie Hebdo com o caso Dieudonné que nos ultimos dias disse : "Eu me sinto Charlie Colubaly". Ele sera julgado em um tribunal penal no proximo 4 de fevereiro. Em blogs e sites franceses, existem analises que explicam porque Dieudonné podera ser condenado por algo, em aparencia, menos chocante que os propositos de Charlie Hebdo.

    Saindo da area do direito (que por sinal nao é a minha area) a atitude atual da comunidade muçulmana francesa é de acalmar os animos e procurar manter uma solidariedade interna à sociedade francesa. Nao ha espaço para explicar isto aqui, assunto longo, mas estou aberto à discussao, se desejar.
    Cordialmente,

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    roberto gomes corrêa

    Manifestações de apoio aos chargistas, assinaturas em livros de condolências em muitos países, assinados por governantes, passeatas, etc.,etc.,etc..Para a mídia é um prato cheio e para governantes a oportunidade. Hoje mesmo leio que o presidente francês está enviando o porta aviões Charles de Goulle ao Iraque para ajudar a combater o Estado Islâmico. Nessas intervenções onde o trio, americanos, franceses e ingleses, massacram centenas de milhares de civis, crianças, mulheres e idosos, segundo eles são efeitos colaterais, porém "necessários" para atingir seus "objetivos", jamais vi um chargista fazer uma charge desses massacres. Há um velho ditado que diz-" Quem procura acha", e os chargistas mortos procuraram e acharam.

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