A simbiose de conhecimentos pode gerar inovações que melhorem nossa vida, seja na descoberta de novas tecnologias, curas para doenças ou em medidas efetivas de combate à seca que vem castigando o Brasil nos últimos anos

Passados pouco mais de 9 meses do cessar-fogo que colocou fim à nova escalada no conflito entre Israel e o Hamas na Faixa de Gaza e que resultou na morte de mais de 65 soldados e 4 civis do lado Israelense e mais de 1400 pessoas entre membros do Hamas e civis do lado palestino, ficou a sensação que um sentimento anti-israelense vem tomando força no Brasil, sobretudo devido a uma  cobertura distorcida, simplista e sensacionalista do conflito por parte de alguns meios de comunicação, que enfatizam o papel de vítima do Hamas que estaria, heroicamente, defendendo a população palestina de um massacre realizado inescrupulosamente pelos vilões israelenses. Essa visão distorcida do conflito ganhou contornos oficiais quando a presidente Dilma declarou “desproporcional” o ataque de Israel à Faixa de Gaza, convocando para consulta o embaixador do Brasil em Tel Aviv à epoca, Henrique Sardinha Pinto, a fim de expor seu descontentamento.

aftermath disso foi a notória declaração do porta-voz do ministério israelense das relações exteriores, Yigal Palmor, afirmando que a atitude mostrava porque o Brasil era ao mesmo tempo um "gigante econômico" e um "anão diplomático e que: “quando é 7 a 1 é que é desproporcional”, em referência à goleada imposta ao Brasil pela Alemanha nas semifinais da Copa do Mundo. 

Passadas algumas semanas da declaração, o então recém-eleito presidente de Israel, Reuven Rivlin, pediu desculpas à presidente Dilma Rousseff pelas expressões usadas pelo porta-voz, explicando que elas não correspondem aos sentimentos da população de Israel em relação ao Brasil. Na ocasião, algumas fontes, como o Jornal Haaretz, apontaram razões comerciais, em particular, pressões da indústria aeronáutica Israelense como a razão do pedido de desculpas.

De fato, o arrefecimento das relações diplomáticas entre o Brasil e Israel não pode ser considerado um “ponto fora da curva” na recente relação entre os dois países, sendo notório o alinhamento brasileiro, sobretudo durante a administração petista, com ditaduras que comungam sentimentos antiamericanos e, por extensão, anti-israelenses, em particular o Irã e seus aliados latino-americanos, Venezuela, Bolívia e Cuba. 

Não obstante, parece que este malfadado alinhamento diplomático, felizmente, não constitui obstáculo para o florescimento das relações comerciais entre Israel e Brasil, Neste contexto, o BNDES e o seu órgão equivalente israelense, o Escritório do Cientista-Chefe (OCS), ligado ao Ministério do Comércio e Indústria de Israel,  trabalham em conjunto desde 2010, quando do lançamento do Primeiro Edital de Chamada para Apresentação de Propostas de Cooperação Tecnológica, para o financiamento conjunto de projetos envolvendo empresas brasileiras e israelenses, que, em parceria, desenvolvam novos produtos, processos ou serviços de aplicação industrial direcionados à comercialização no mercado doméstico e/ou global, nos setores de Tecnologia da Informação e Comunicação, Saúde, Defesa e Energia Renovável.

Em março de 2014 foi aberto o Segundo Edital para a Apresentação de Propostas, nos moldes do seu antecessor com 5 projetos aprovados das seguintes empresas:

• Flight Technologies (Brasil) e NextVision (Israel);

• Acrux Aerospace Technnologies (Brasil) e Optibase Technologies (Israel);

 • Maynards Indústria Tática (Brasil) e MYWALL Ballistic Testing & Engineering (Israel);

 • AEL Sistema (Brasil) e Elbit Systems (Israel); e  

• AEL Sistemas (Brasil) e Elbit Systems (Israel)

O perfil das empresas acima mencionadas fortalece a ideia do grande potencial de cooperação entre as empresas dos dois países no setor aeronáutico. Esta, porém não é a única área de sinergia de interesses entre os dos países.

A simbiose de conhecimentos pode gerar inovações que melhorem nossa vida, seja na descoberta de novas tecnologias, curas para doenças ou em medidas efetivas de combate à seca que vem castigando o Brasil nos últimos anos. No caso do combate à seca em particular, verifica-se que grandes empresas Israelenses de tecnologia de irrigação e agricultura vêm, há algum tempo, investindo no Brasil e inclusive estendendo seu eixo de atuação à região Nordeste, como demonstra a abertura de nova unidade da empresa Netafim em Pernambuco, no ano passado, e a inauguração da primeira unidade da empresa Tama, este ano, em Feira de Santana.

Neste ano foi lançado o Terceiro Edital para a Apresentação de Propostas cujo prazo vai até 18 de outubro de 2015. É mais uma oportunidade para as empresas israelenses e brasileiras cooperarem na troca de conhecimentos e experiências em projetos inovadores financiados por recursos públicos e que contribuirão para o estreitamente comercial e diplomático e modernização dos dois países.


Autor

  • Eduardo Ludmer

    Dual qualified lawyer in Brazil and Israel with extensive experience and expertise in handling local and cross-border legal matters primarily practicing in the areas of intellectual property, corporate and business law and international arbitration.

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Informações sobre o texto

Como citar este texto (NBR 6023:2002 ABNT)

LUDMER, Eduardo. Brasil e Israel: parceria de gigantes. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 20, n. 4307, 17 abr. 2015. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/36831>. Acesso em: 23 fev. 2018.

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